A Federação do Comércio de São Paulo nos anos 1980 tinha um conselho técnico de turismo [102] e em algum momento eu fui o
representante do Sesc nesse conselho que reunia agentes de viagens, empresas transportadoras, inclusive de aviação, diretores dos aeroportos, toda essa gente; e eu representava o Sesc lá, interpretava a filosofia do Sesc, porque em algum momento o pessoal achava que o Sesc ia fazer concorrência com o pessoal de agência e a gente tentava mostrar pra eles que o que a gente estava formando na verdade era público, que nós estávamos trabalhando com um segmento da população que eles não tinham oferta. Como também no tempo da Embratur, foi muito difícil a gente discutir com a Embratur o que era turismo social, porque fazia parte do escopo da Embratur, mas na
100 Segundo Müller et al: “Também nesse período aparece uma preocupação de sistematizar os
conhecimentos sobre a atividade turística no país e a necessidade de qualificar a mão-de-obra. Foram organizados os primeiros Congressos e cursos superiores na área. O Brasil foi o primeiro país a criar cursos de nível superior” (2011: 699).
101 Em bibliografias especializadas de turismo há uma diferenciação entre operadoras
turísticas, agências de viagens & agências de viagens e turismo. Não querendo realizar uma
discussão conceitual a este respeito, pouco proveitosa para a tese, simplificarei ao utilizar os termos “agencias de turismo”, “agências privadas” e “agências comerciais”, denotando todas as três opções expostas anteriormente: empresas privadas que trabalham como intermediárias entre seus clientes e determinados prestadores de serviços turísticos.
102 Neste conselho técnico da federação de São Paulo, Dionino tentou mostrar o que era o
turismo social, composto, na opinião dele, por um público diferente do nomeado turismo comercial.
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realidade eles sempre criavam mais barreiras pra gente do que ajudavam.
Dionino Colaneri, opinando sobre a falta de entendimento acerca do turismo social tanto do trade como da Embratur, o que ocasionou problemas para a administração regional paulista do Sesc.
Luiz Pina e Sílvia Hirao descrevem que o turismo emissivo tomou tamanha proporção que chegou a um ponto em que as unidades do Sesc competiram com as agências de turismo privadas, o que iria de encontro a sua própria natureza. O depoimento da ex-gerente Rosa Aurora, da unidade do Sesc-Ramos do regional do Rio, provoca reflexões quanto às ações envolvendo o turismo da instituição, que, para ela, não representava a comunidade local, se referindo especificamente às pessoas da região da Leopoldina, na cidade do Rio de Janeiro103: “Era um turismo comercial, com parceiros, com um valor não acessível a essas pessoas e nem ao próprio comerciário [...] na verdade, o trabalho do Sesc não é competir com as empresas de turismo” (Cheibub, 2009: 63).104
Ainda que a unidade centralizadora das operações turísticas do Sesc-SP ocasionalmente tomasse cuidado com a destinação, com a época105, com o
103 Região que se organiza em 17 bairros (e favelas): Bonsucesso, Brás de Pina, Cordovil, Del
Castilho, Engenho da Rainha, Higienópolis, Inhaúma, Jardim América, Manguinhos, Maria da Graça, Olaria, Parada de Lucas, Ramos, Tomás Coelho, Vigário Geral, Complexo do Alemão e Maré.
104 Depoimento retirado das entrevistas que realizei na pesquisa de mestrado, detalhada no
rodapé 2 da Introdução da tese, na página 19.
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público106, objetivando não concorrer diretamente com as agências privadas, não caracterizando desse modo um turismo estritamente comercial, a atuação da entidade gerou tensões no mercado turístico junto ao órgão regulamentador da atividade na época.
O material textual do Sesc-Memórias deixa claro que a instituição tentou ser competitiva na área turística, procurando na sua carteira de clientes expandir a demanda para empresas, não necessariamente oriundas do setor de comércio e serviços (figura 8)107. No intuito de organizar e ampliar suas atividades, o departamento regional de São Paulo realizava cadastro de equipamentos turísticos e, como uma operadora turística, efetivava, em contrato, bloqueios em hotéis, estâncias e outros estabelecimentos (anexo 36).
106 Pessoas que a priori, de acordo com alguns entrevistados, não eram clientes das agências
e das operadoras.
107Anexos 30 e 31:três modelos de mala direta, de 1997 e 1998. Anexo 32:mala direta (pelo
correio) de 2006. Anexos 33 e 34: Documento de ação do turismo social de 1998 (itens: operacional e vendas & matrícula). Anexo 35:propaganda de 1996 do Sesc-Paraíso reforçando a facilitação de parcelamento, prática habitual do mercado para atrair clientes.
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Figura 8: Sesc-Roosevelt – mala direta destinada às empresas.
Fonte: Arquivos do Sesc-Memórias. Material gráfico e textual – Sesc-Roosevelt. 1980-1991. Cx. 28.
Nas figuras 9 e 10, nos itens circulados, pode-se notar que o Sesc-SP se utilizava das mesmas práticas empregadas pelas agências de turismo privadas, relacionadas à divulgação e estratégia de vendas.
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Figura 9: Divulgação e vendas – peças promocionais. Plano de turismo social de 1984 do Sesc-Roosevelt. Grifo meu.
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Figura 10: Estratégias de vendas. Plano de turismo social de 1984 do Sesc-Roosevelt. Grifo meu.
Fonte: Arquivos do Sesc-Memórias. Material gráfico e textual – Sesc-Roosevelt. 1984. Cx. 28. .
Em um documento intitulado “Excursões realizadas pelo Sesc-Roosevelt – 1984”, há uma solicitação de ampliação dos recursos ao programa de turismo, tendo como uma das justificativas: “[...] para ser competitivo ao nível do mercado”. Reforçando o que foi mostrado nas figuras anteriores, há mais
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fontes que indicam “capacitação para divulgação e vendas, especificamente abordagem a grupos, empresas, escolas, etc.” (figuras 11 e 12):
Figura 11: Projeto de intensificação da divulgação do turismo social do Sesc-Roosevelt, de 1988 (criado pelo gerente Evandro Cenevira – entrevistado da pesquisa).
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Figura 12: Circular do Sesc-Roosevelt - estratégia de vendas. Plano de turismo social do Sesc- Roosevelt de 1984.
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Consequentemente, durante as décadas de 1980 e 1990 as agências comerciais, contando com a ajuda da Embratur, tentaram limitar a ação do Sesc, ao afirmarem que este estava “roubando” a clientela daquelas, e sem a devida regulamentação108. A opinião dos profissionais que atuavam nesta época é divergente. Alguns, incluindo o atual diretor regional, acreditam que, pela facilidade de financiamento, apoio, alcance e pela natureza das experiências - bastante parecidas com o que o mercado oferecia - de maneira “injusta”, o Sesc competiu sim com as agências comerciais. José Barbosa, um dos gerentes da unidade especializada em turismo do regional paulista na ocasião, tenta aclarar a situação: “Você acha que não incomodava eles [se referindo as agências]? O dono da Nascimento Turismo, que era conselheiro do Sesc, hein, vou falar que eu quero ver, e nós tomamos uma, assim um cartão amarelo!”.
Outros entrevistados, como Evandro Cenevira e Nelson Lourenço, avaliam as agências como “mesquinhas” – na opinião deles, concretamente o Sesc nunca competiu, pois oferecia experiências relativamente diferentes (majoritariamente para outros lugares e apresentando roteiros distintos dos oferecidos pelo mercado turístico) e para um público também dessemelhante ao das agências (pessoas em sua maioria com um poder aquisitivo menor do que as que procuravam os serviços de uma empresa privada).
108 Existem vários documentos nos arquivos do Sesc-Memórias que esmiúçam e trazem
diversas conjecturas da questão (pareceres, cartas, atas de reuniões, dispositivos legais, etc.). Para os desígnios da pesquisa, não importa detalhar a contenda e todos os seus aspectos jurídicos. Relevante para as reflexões alvitradas é saber, nesta jornada, a justificativa e o intuito do(s) ato(s) realizado(s) pelas agências (via Embratur, ABAV e Sindetur) e o que isso ocasionou para o futuro do turismo no Sesc-SP.
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A disputa jurídica foi politicamente paradoxal, pois o Sesc, representante do setor de comércio de bens, serviços e turismo, tem como um de seus associados/beneficiados as mesmas agências e seus empregados. Grosso modo, o Sesc tem o desígnio de ser benéfico para os afiliados do setor109, sobretudo em relação à imagem dos empresários do comércio junto aos seus funcionários e à sociedade, e não trazer prejuízos financeiros por conta de concorrência com atividades de mesma natureza oferecidas pela instituição.
O Sesc-SP inicialmente solicitara o registro na Embratur como prestador de serviços de turismo social, em seguida como prestador de serviços turísticos, tentando resolver a questão a respeito da regulamentação, porém nunca conseguiu, diferentemente de outros regionais110. De acordo com os entrevistados Barbosa, Scaranci e Colaneri, a solução encontrada por outros poucos departamentos que tiveram o mesmo problema - como o do Sesc- Paraná - foi o de se cadastrar como agência de turismo na Embratur buscando dessa forma amenizar a situação111. Contudo a Embratur (por meio de diversas
109 Mais especificamente no setor turístico, dos coligados à Confederação Nacional do
Comércio (CNC), há a ABAV (Associação Brasileira de Agências de Viagens), a ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis) e a ABEOC (Associação Brasileira de Empresas de Eventos). Na dimensão estadual, as associações paulistas são conformadas pelo SINDETUR-SP (Sindicato das Empresas de Turismo do Estado de São Paulo), FHORESP (Federação de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado de São Paulo) e a ABEOC- SP, todas filiadas à Fecomércio-SP, e consequentemente à CNC.
110 Nos anexos 37 e 38 exponho uma das muitas cartas da assessoria jurídica do Sesc-SP
enviadas à Embratur, apresentando um “Resumo cronológico da legislação vigente que rege a matéria sobre turismo”, de 1998, detalhando as tentativas do regional em continuar com suas operações turísticas, buscando a legalização e a regulamentação que a Embratur solicitara (mostrando até um certo “desespero”, por terem tentado de diferentes maneiras, tendo as solicitações constantemente negadas pela Embratur).
111 Em documento encontrado no Sesc-Memórias (anexo 39), nota-se que o Sesc-SP, diante
da negação do registro específico como agência de turismo social, afirma que há uma lei de 1986 que permite a exploração de serviços turísticos a empresas que não necessariamente são registradas na Embratur, desobrigando-a de registro, na opinião da assessoria jurídica da
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justificativas, embasadas por suas assessorias jurídicas) não permitiu o registro do Sesc-SP, a pedido das associações que possuem representação na CNC e na própria Embratur, quiçá pelo real potencial do turismo do regional paulista em prejudicar o mercado das agências turísticas com a concorrência.
Na opinião de Barbosa e Colaneri, a maioria das administrações regionais não teve problemas com as agências comerciais dos respectivos Estados em relação à suposta competição. Talvez por não apresentarem o mesmo volume de viagens e excursões que o Sesc de São Paulo, estes departamentos concretamente não incomodaram as agências. Não obstante, o Sesc do Rio Grande do Sul sempre fez excursões a baixo custo, até há mais tempo do que São Paulo, e nunca sofreu represálias ou recebeu ameaças do setor de turismo comercial gaúcho112.
Um dos tópicos do documento norteador da operacionalização da área de turismo social do departamento nacional é sintomático de todo o ocorrido: “Não se recomenda o uso de comunicação de massa (Rádio, TV, Jornal) face à interpretação de concorrência por parte das agências de turismo” (1991: 13). Pode-se conjecturar acerca da apreensão claramente exposta acima,
instituição (ficando apenas com a exigência de comprovação do cumprimento de normas e obrigações que regem o exercício de atividades turísticas). Nos fatos que se seguiram, cada vez que o Sesc-SP arrumava uma solução legal ao tentar resolver a situação, percebe-se que a legislação ia sendo mudada, com o intuito de embarreirar a atuação da entidade (anexo 40)
112 Na opinião de Dionino Colaneri e do entrevistado que preferiu não se identificar, o Sesc-RS
não teve problemas com as agências porque a questão do turismo social por lá é mais bem resolvida: boa parte do que é oferecido pela instituição é efetivamente priorizado para comerciários que não apresentam condições financeiras para buscar experiências e serviços turísticos em firmas privadas (além disso, de acordo com Colaneri, há uma situação jurídico- legal no Rio Grande do Sul que deixa claro o papel de cada um dos atores e instituições do setor turístico no Estado e do Sesc neste contexto).
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associada ao receio do retorno da querela jurídica: se houvesse um processo de seleção dos indivíduos ou famílias que tivessem prioridade no usufruto das ações oportunizadas pelo Sesc-SP - assim como acontecia em épocas remotas no regional (anexo 41) e acontece em diversos programas de órgãos e instituições europeias, onde a renda e a quantidade de pessoas na família são os critérios principais ao se priorizar o acesso ao turismo (Lima et al, 2011) - seria necessária esta solicitação e a preocupação de possível concorrência com as agências comerciais?
Além disso, a diretriz citada acima esclarece algo reiterado por quase todos os profissionais entrevistados: a pouca divulgação das atividades turísticas em geral oferecidas pela instituição nos últimos anos. Depois da tensão ocorrida, o medo foi a maior justificativa da não divulgação, o que parece permanecer até os dias atuais.
Diante das análises das fontes acessadas (orais e escritas), acredito que não era o objetivo do Sesc-SP prejudicar as agências privadas, assim como também acho que eles mesclavam, inclusive na época da unidade especializada, roteiros “diferenciados” com outros muito próximos ou similares aos das agências113. O problema foi a quantidade de atividades turísticas do departamento regional paulista, realmente trazendo concorrência para as
113 Nos questionários de satisfação dos turistas (anexos 42 e 43), uma reclamação recorrente é
a do “passeio corrido” ou “pouco tempo na cidade e muita viagem” - há exemplos de queixas com este teor tanto na época da unidade especializada quanto no período em que a Gepse assume. Esta característica claramente está presente em boa parte dos pacotes do mercado, com programações com horários rígidos e apertados, transportando, a lógica do cotidiano, que é pautada no mundo do trabalho, para o lazer – nomeada por Alves Júnior e Melo (2004) de
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agências. Para continuar sem mais entraves, o Sesc-SP poderia optar por dois caminhos: ou diminuía o volume e priorizava as atividades que não “incomodavam” o mercado ou então prosseguia com o programa, passando a, mais do que privilegiar, delimitar sua atuação somente para as pessoas que não poderiam realmente viajar, os mais pobres – os quais concretamente não tinham condições de serem clientes das agências.
Conforme será visto no próximo subcapítulo, o Sesc-SP escolheu o primeiro caminho, diminuindo consideravelmente a quantidade de atividades turísticas. Se hipoteticamente a instituição escolhesse o segundo, talvez tivesse que abrir mão de boa parte dos seus comerciários associados, pelo fato de apresentarem ocasionalmente condições de também viajarem por agências privadas.
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