• No results found

Já em 1987, Rouanet - em seu livro As razões do iluminismo - considerou que havia a consciência de que a economia e a sociedade estariam sendo regidas por novas diretrizes quase computadorizadas, que entram em nosso espaço pessoal de forma direta – “substitui o livro pelo micro” (Rouanet, 1999, p.230). Estaríamos viven- do uma era de Pós-Modernidade, e aqui vale esclarecer o conceito de Modernidade.

Segundo Rouanet, a Modernidade passou a englobar a racionalização das vi- sões do mundo, questões éticas e morais, o aumento do saber propiciando as prog- noses, beneiciando o desenvolvimento da produção do trabalho. Novas relações de trabalho se estabelecem então, gerando o aumento do movimento capitalista, valori- zando a individualidade como forma de progresso material.

Como se sabe, para Weber modernidade é o produto do processo de racionalização que ocorreu no Ocidente, desde o inal do século XVIII, e que implicou a modernização da sociedade e a modernização da cultura. (Rouanet, 1999 p.231).

A chamada Pós-Modernidade seria aquela percebida pela mudança das ativi- dades e características do cotidiano, diferentes daquilo percebido na Modernidade. A máquina foi substituída pela informação, a fábrica pelo shopping center, o contato pessoa-pessoa por encontros pelo vídeo. A atenção com o desenho da forma passou a estar em todos os objetos, para que icassem mais atraentes. A sociedade passou a ser mais transparente, de visibilidade imediata, pluralista, quase excluindo a interio- ridade e as diferenças individuais, pondera Rouanet12.

Vale considerar aqui que a máquina - antes de ter sido substituída pela infor- matização - continuou sua transformação, sendo cada vez mais supervisionada pelo proissional, através da informática.

As diferenças entre a sociedade industrial, típica da Modernidade, e a pós-in- dustrial, ou da Pós-Modernidade, é clara: a primeira se baseou na produção de bens físicos, energia e organização hierarquizada das empresas, com força de trabalho semi ou desqualiicada.

A segunda, baseia-se na produção de serviços. O que move esta nova socie- dade é a informação, não mais a energia. A igura central que movimenta esta socie-

dade pós-moderna é o proissional, não mais o trabalhador13. Mais qualiicado e com

formação especíica, o proissional passou a ter como prioridade, estar exatamente encaixado no posto de trabalho, integralmente focado em suas tarefas, para fornecer os serviços exigidos de maneira eicaz e com qualidade.

Também na política, a Pós-Modernidade apresenta diferenças em relação ao período anterior. Enquanto na Modernidade era o Estado a igura central, responsável pela produção do bem estar social e gerador de condições para a produção, vê-se no momento Pós-Moderno a importância da sociedade civil, que visa a conquista de objetivos de grupos ou segmentos desta sociedade. O “poder central” não existe mais; há sim o poder pulverizado, espalhado por toda esta sociedade. 14

Percebe-se uma atitude pluralista, na combinação de vanguardas e de elemen- tos de períodos anteriores em que lexibilidade, permissividade e ausência de limites aparecem como a tônica deste tempo.

A cidade torna-se multifuncional; formada por elementos heterogêneos, com destaque para as novas áreas de uso terciário (comércio, lazer, cultura, serviços) e os espaços empresariais, corporativos.

Especiicamente para os escritórios, os projetos continuaram a ser criados den- tro de edifícios concebidos de forma tradicional, por trás das consagradas peles de vidro, mas também começaram a ocupar antigas residências recicladas ou velhos galpões reciclados, localizados em zonas da cidade funcionalmente transformadas. Exemplo importante desta situação pode ser a região do antigo porto da cidade de Buenos Aires, na Argentina: o atual bairro Puerto Madero.

Figura 18: vista geral os galpões reciclados. Fonte: http://www.buenosaireshabitat.com/pics/ page/page_145_1_aee924.jpg

13 - In idem pág.235. 14 - In idem pág.237.

Neste projeto urbano - no início dos anos 1990 - restaurantes, bares, empresas, lofts, hotéis e apartamentos convivem num conjunto harmonioso dos blocos existen- tes - antigos galpões de armazenamento doporto da cidade - mantendo a amplitude com o espaçamento entre eles; foram criadas agradáveis praças com caminhos em frente dos antigos diques de ancoragem dos navios.

Figura 19: praça de acesso aos galpões reciclados. Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/9/9a/Puerto_Madero.jpg.

O arquiteto brasileiro Edo Rocha15 enfrentou o desaio de transformar uma parte

de um desses galpões nos escritórios do grupo Comercial Del Plata - um dos incor- poradores da recuperação de Puerto Madero. Planejou um andar e meio para acomo- dar 190 funcionários, antes dispersos em vários edifícios pela cidade. Com atenção ao isolamento acústico, iluminação adequada, piso elevado (8cm) para as instalações de energia, dados e voz, cores claras em móveis e divisórias baixas, proporcionou integração dos funcionários e departamentos, que antes pouco se conheciam.

15 - arquiteto brasileito, líder na Edo Rocha Arquiteturas. Recentemente foi vencedor do premio Prix dExcellence Award 2014, a mais importante competição mundial do setor imobiliário, na categoria Oices. (http://www.asbea.org.br/escritorios- arquitetura/noticias/edo-rocha-lanca-o-livro-arte-arquitetura-e-o-aco-319684-1.asp). Em 2007, em entrevista para a revista Obra 24h, comenta sobre a importância do projeto de interiores no ambiente de escritórios: “Basicamente é preciso ter consciência de que a arquitetura e arquitetura de interiores estão a serviço dos resultados e das necessidades da empresa e de seus usuários, e não apenas a serviço de uma obra arquitetônica. A qualidade estética e a qualidade arquitetônica são itens obrigatórios e devem estar presentes, simultaneamente, nos projetos corporativos. Vale lembrar que as empresas, durante seu ciclo de vida, gastam em torno de 2% com o custo do prédio, 6% com manutenção e 92% com as pessoas. Portanto, não é difícil calcular que, investimentos direcionados para as instalações (os tais 2%) podem inluenciar diretamente o fator humano (92%) e, se feitos de forma racional, reverterem-se em uma excepcional alavancagem na satisfação e na produtividade das pessoas. Ainal, a arquitetura deve ser uma atitude estética e criativa, que usa a tecnologia como ferramenta em benefício e função do homem.” (http://www.obra24horas.com.br/entrevistas/edo-rocha-32)

Figura 20: vista externa do galpão. Fonte: revista Oice Facility 43, jul 1987, pág.20

Figura 21: ocupação do andar reciclado. Fonte: revista Oice Facility 43, jul 1987, pág.21

Dentro da sociedade pós-moderna aparece o novo tipo de trabalhador ou me- lhor dizendo o proissional, que encaixa-se em uma destas duas categorias:

— o alto executivo que, prescindindo do local de origem, trabalha em aviões e terminais, fecha negócios no lobby de um hotel ou em um restaurante, veste roupas de estilo e grife semelhante – e idêntica origem asiática - além de realizar pela manhã os exercícios aeróbicos em qualquer parte do mundo.

— o empregado de menor hierarquia — nos centros administrativos de Tokio, Nova York ou Montevidéu – mora na sua maioria em áreas suburbanas, trabalha em escritórios equipados com módulos de an- teparos baixos agrupados em “ilhas”, depende de seu PC, responde com seu nome toda vez que atende ao telefone e sai para almoçar fast food condicionada em sacos de papel o que lhe permite comer ao ar livre num espaço público próximo.

No entanto, a empresa na qual trabalham uns e outros, será guiada por sua gerência de marketing para levar o serviço lá onde o cliente se encontrar, oferecer aconchego e “domesticidade” nos espaços de atendimento ao público, personalizar o atendimento e a oferta, ofere- cer os produtos ao alcance das mãos e brindar serviço as 24 horas, trate-se tanto de uma cadeia de supermercados como de uma pode- rosa corporação inanceira. (Perdomo, 1999, p.10)

Nesse contexto, as empresas – e com elas os arquitetos – viram-se obrigados a conquistar sua permanência num mercado de constante mudança tecnológica e ope- racional, como também estar sempre em contato próximo de seu público, mostrando sua capacidade de suprir satisfatoriamente as mais diversas necessidades.

Figura 22: sistema aberto, Hewlett Packard, Bergamo, Italia, 1997. Fonte: revista Oice Facility 45, set 1987, pág.47

Assim, os escritórios empresariais passaram a ser locais de espaços integrados e lexíveis, com capacidade de adaptar-se à mudanças tecnológicas e sociais. Tomás Berlanga16 - designer argentino radicado no Brasil, especialista em mobiliário para

16 - Berlanga é considerado um revolucionário no planejamento de ambientes, em especial nos espaços de trabalho. Radicado no Brasil desde 1975, lidou por mais de 40 anos com temas vinculados ao mobiliário corporativo e soluções de gestão empresarial, com o objetivo de contribuir para que as pessoas trabalhem de forma mais eicaz, por meio de sistemas

espaços corporativos - inovador no planejamento de ambientes no Brasil, comentou em artigo da revista Projeto Design, do ano 2000: “Não é mais possível projetar um espaço sem conhecimento do que acontece na empresa e das novas tecnologias.” (Berlanga, 2000, s.n.p.)

Com o incremento da tecnologia das comunicações e a consequente globaliza- ção, a partir da década de 1980, os mercados tornaram-se mais competitivos.

Foi quando as empresas passaram por processos de reestruturação organiza- cional, novos conceitos de gestão empresarial e processos surgiram com a reenge- nharia.

No Brasil, no inal de 1980, começam a ser produzidos os primeiros microcom- putadores, apesar de existirem já fora do país, modelos com tecnologia mais avan- çada. Com o acesso mais fácil a estes equipamentos, os escritórios das empresas brasileiras passaram a ser lugares interligados eletronicamente, com cada vez maior facilidade. Locais abertos - seguindo padrões de composição de organização espa- cial conhecidos - onde se produz o contato visual entre os proissionais, sempre com a suiciente privacidade auditiva e conforto acústico, com mais espaços de reunião e atenção nas soluções de iluminação, possibilidade de presença do verde natural em ambientes abertos de convívio público. O espaço “informático”, não dimensionável em termos tradicionais, é aquele que então comanda o desenho arquitetônico, redu- zindo as dimensões mínimas necessárias e impondo modiicações importantes ao sistema de mobiliário.

No mundo inteiro, as empresas passam a buscar o desempenho, a qualidade da produtividade, a diminuição de custos e a racionalização dos espaços. Todas elas no entanto devendo considerar o desempenho destes espaços, sempre adequados às características antropológicas e funcionais de cada grupo de usuários.

de postos de trabalho personalizados. Ao lado de sua esposa Carla Ristoris, design de interiores especializada em ambientes de trabalho, liderou por 21 anos a empresa Design Group Planejamentos. O arquiteto também irmou parceria e desenhou móveis para grandes companhias do setor de mobiliário corporativo do país, tais como a girolex-forma, a c|o|d: Creative Original Design, a Artline e a L´atelier. Autodidata, Tomás iniciou sua carreira na indústria mobiliária e conheceu, na Europa, novos conceitos de planejamento espacial, ampliados, mais tarde, durante sua permanência no Canadá. (http://www. arqbacana.com.br/internal/news/read/1223/)

Figuras 23 e 24: espaço compartilhado para reuniões e comunicação entre colegas, com mesa para reuniões relâmpado, no escritório da Steel Case, São Paulo, 1998.

Fonte: catálogo Steel Case, 1998

Citando alguns exemplos que apareceram pelo mundo, americanos e europeus apresentaram oposições interessantes, começando pela concepção do espaço, che- gando aos sistemas de mobiliário.

Em entrevista à revista Projeto Design de out 2000 - Berlanga alega que, no início dos anos 1990, os ingleses começaram a abordar o ambiente de trabalho a partir da Antropologia; começou a percepção da relação das pessoas com o espa- ço que utilizavam no trabalho. O holandês possuia uma maneira muito particular de comunicação e relação social então, seus espaços deveriam reletir estes costumes. Eram diferentes dos italianos, franceses e ingleses. Foi então reconhecido em toda a Europa o conceito diversiicado dos espaços interiores dos escritórios e consequen- temente seu mobiliário.

Por exemplo: os norte-americanos se preocuparam com a densidade dos tra- balhadores por m2 de área do escritório; houve a busca pela otimização dos espaços

nos EUA. Na Alemanha, havia uma relação de 17 a 21m3 por funcionário, este não

podendo estar a menos de sete metros de distância da luz natural de uma abertura para o exterior. A distância entre os proissionais também variava; os ingleses não se adaptaram em trabalhar lado a lado como os americanos, implicando novamente em diferenças dos sistemas de mobiliário.

A gestão empresarial - com seus modelos de organização e sistemas de recur- sos humanos - passa a ter importância relevante na decisão de projeto e na maneira dos arquitetos planejarem os espaços. Enquanto no norte da Europa houve cada vez mais a implantação da horizontalidade das decisões, na Italia permanecia a hierar- quia, a relação espacial de cima para baixo: a sala do gerente deve ser a maior. Os holandeses - mais comunitários como aqui no Brasil - gostam do relacionamento em conversas informais, numa pausa para o café, por exemplo.

A respeito do consagrado livro de Dufy “The new oice” (1997), ed. Conran Octopus - arquiteto inglês de destaque na questão do projeto de planejamento de es- paços empresariais - Tomás Berlanga comenta que “o proissional de planejamento e arquitetura pode utilizar modelos nítidos de gestão nas empresas.” 17 No livro, Dufy

aborda alguns modelos de gestão organizacional das empresas, que evidentemente estão ligados ao planejamento espacial: empresas com altos níveis de interação e autonomia e o oposto: nenhuma interação e autonomia dos postos de trabalho. Há ainda os níveis de baixa interação com alta autonomia: postos de trabalho que este- jam separados espacialmente e que por isso possuem autonomia nas decisões e o contrário, postos de trabalho com alta interação - ou seja - próximos e acessíveis uns dos outros, porém com baixa autonomia na tomada de decisões.

Figura 25: EMR Systems Communication, New York, Leven Betts Studio’s, 2000

Figura 26: modelo open plan para a Management Artists Organization, New York, 2000

Passou a ser lógico pensar que, muitas vezes, dois ou mais destes modelos estariam presentes em sua gestão corporativa para o sucesso de uma empresa. O arquiteto continuou a projetar para o cliente, mas muito mais atento aos novos mo- delos de gestão deste cliente.

O arquiteto Roberto Loeb - no artigo “O escritório e a cidade” 18, descreve o pro-

jeto dos espaços corporativos do inal do século XX, como tendo muita similaridade e complexidade com o planejamento de uma cidade, apesar da inalidade e escala tão diferentes. Questões de circulação, hierarquia, conforto ambiental, materiais constru- tivos, de acabamento, iluminação, cultura, conlitos e interesses: temas pertinentes aos dois tipos de projeto, desaio semelhante para o arquiteto.

Nenhum escritório contemporâneo pode ser planejado sem que se reconheçam suas dinâmicas e suas motivações internas. Planejar um escritório tem tudo a ver com planejar a cidade. (Arc Design, 1998, pág.37)