• No results found

6. RESULTS & DISCUSSIONS

6.1 Household Energy Types and Usage

6.1.1 Preference Of Use Of Energy Types By Rural Men & Women

Exponho, neste item, o processo de construção da rede que fez emergir a tese, partindo da primeira concepção mais tosca, até uma que seja bem mais acabada. Nenhuma delas pode tomar o lugar da realidade, mas podem ajudar a aproximar o objeto de estudo e a fazer um desenho da tese – uma espécie de fio de Ariadne.

Os desenhos, espécies de mapas conceituais, foram apresentados passo a passo para aludir algo mais claro, próximo da forma como concebo as relações entre diversos temas que são importantes para tese, que fazem diálogo entre si. As pontes entre as diversas partes e a troca que elas fazem representam o dinamismo; o fato das formas, até a última figura, permanecerem um tetraedro, consiste numa maneira tosca de esquematizar, no intuito de se tornar mais objetivo. Estaria mais próximo da realidade se as linhas de retroações, ao final, tomassem a forma de curvas e ao invés de um tetraedro desse a ideia de uma esfera pontilhada, como se fossem pixels ou uma espécie de imagem hologramática. Mas, não me importuna alguma ideia, metáfora ou concepção de inacabado, dessa maneira mais me aproximarei da vida como ela é.

A tese consiste em mais algumas páginas para enriquecer a produção acadêmica referente ao ensino de História na educação do/no campo.25 E ouso querer ir além de propostas firmadas até o presente momento. Meu pensamento da tese repousa sobre o tripé da educação do campo, dos movimentos sociais e da educação popular. Podemos imaginar um sólido geométrico, um tetraedro (Figura 02), em cujo vértice, no ápice, encontra-se o ensino de História, e os demais vértices da base repousam no tripé citado. Todos os vértices dialogam entre si. Na realidade, os elos entre as partes são sobremaneira importantes.

25 Os homens e mulheres do campo são protagonistas de sua própria história, como tal, devo pensar numa educação que leve em consideração sua cultura. Quando falo do/no, levo em consideração que a educação nasce das suas reais necessidades e não como se pensou a educação rural, vinda em pacotes do estado, querendo equalizar o que por sociocultural já se faz plural. Nesse sentido, educação do campo vai de encontro ao termo

97

FIGURA 2: Tetraedro

Fonte: Elaborada pelo autor para ilustrar a relação dos temas da tese.

Cada um dos vértices separados já seria um tema específico para estudo. Uns mais, outros menos, objeto de muitas pesquisas. No entanto, a singularidade da tese reside no amplo diálogo travado entre os diversos polos. A estabilidade do sólido geométrico, num primeiro olhar, pode transmitir uma condição alheia à realidade dos fenômenos estudados, pois as pirâmides são consideradas os sólidos mais estáveis. Mas, desde o início, tive em mente que o mapa conceitual apresentado é a construção de uma espécie de metáfora que se aproxima da realidade contemplada, portanto, não é a realidade em si, mas uma representação dela. E as arestas que unem os vértices são elos dialógicos, caracterizados pela recursividade, um dos princípios da complexidade apresentados por Edgar Morin (1995a, p.108):

O segundo princípio é o da recursão organizacional. Para significação desse termo, lembro o processo do remoinho. Cada momento é simultaneamente produzido e produtor. Um processo recursivo é um processo em que os produtores e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores daquilo que os produziu. Encontra-se o exemplo do indivíduo, da espécie e da reprodução. Nós, indivíduos, somos os produtos de um processo de reprodução que é anterior a nós. Mas uma vez que somos produzidos, tornamo-nos os produtores do processo que vai continuar. [...] Somos simultaneamente produzidos e produtores. A ideia recursiva é portanto uma ideia em ruptura com a ideia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de estrutura/superestrutura, uma vez que tudo que é produzido volta sobre o que produziu num ciclo ele mesmo auto-constitutivo, auto organizador e autoprodutor.

98

Com essa fundamentação da recursividade, as arestas do tetraedro se diluem e dão leveza e mais fluidez ao diálogo entre as partes, quebrando com a proposição anterior, no entanto, ultrapassando-a (Figura 03).

FIGURA 3: Tetraedro com maior fluidez

Fonte: Elaborada pelo autor para ilustrar a relação dos temas da tese.

Expressa dessa maneira, a aparente estabilidade da figura 02, exposta anteriormente, é substituída pela dinâmica entre as partes. Cada parte troca com os demais elementos essenciais da sua constituição, devido ao sistema que compõem. O diálogo entre as partes é que permitirá o desenvolvimento de parte do texto da tese, o qual elucida as condições problemáticas da educação do campo, no contexto educacional brasileiro, e possibilita a compreensão do ensino de História para que possa suprir as necessidades da educação do campo. Porém a metáfora ainda não representa a forma adequada a minha proposta, pelo simples fato de apresentar as relações dos diversos vértices, da imagem tetraédrica, em um todo, fechadas, que dão uma noção que se limita à racionalidade, em um sistema fechado em si mesmo. Quanto à noção de sistema, para não se confundir com a visão redutora, instrumental, que marcou as teorias mais rudimentares e os tecnicismos em empresas, indústrias e escolas, que seria uma vertente pobre do conceito, percebo a necessidade de frisar, no sentido de explicitar, como o próprio Morin (1995c, p. 84) o faz em seu pensamento. El sentido, muy importante, de la palabra sistema merece que se profundice en él. De ahí, la necesidad de un pensamiento sistémico. Pero el pensamiento sistémico, como todo pensamiento, tiene dos vertientes: una vertiente pobre en la el sistema se concibe como conjunto funcional en el seno del cual las partes se complementan armoniosamente para las finalidades del todo; y una vertiente rica, en la que el

99

concepto de sistema lleva en su seno, no solamente las complementariedades, sino los antagonismos. Así, los sistemas solares y los sistemas sociales portan en su seno enormes perturbaciones que ellos regulan, y antagonismos furibundos que, en lugar de destruirlos, les hacen vivir. (grifos meus).

O segundo desenho limita os seus vértices às próprias relações. Corresponde apenas um modelo hipotético, ainda distante da realidade posta. E, como pretendemos fidedignidade em relação ao objeto tratado, as relações recursivas precisam ser estendidas às outras esferas do contexto social das quais emergem e difundem mudanças sociais (Figura 04). O ambiente sociocultural acolhe essa relação tetraédrica também trocando influências recursivamente.

FIGURA 4: Tetraedro aberto às relações socioculturais

Fonte: Elaborada pelo autor para ilustrar a relação dos temas da tese.

Exposto dessa forma, pode-se aproximar ainda mais do contexto em que se insere a tese, porquanto a realidade sociocultural não pode ser reduzida a soluções simplistas, meramente esquemáticas, em que corremos o risco de ser caricaturais, aspecto ao qual não me proponho e não seria capaz de representar a realidade das coisas. A relação tetraédrica é apenas uma metáfora, uma construção do pensamento, com o intuito de nos aproximarmos de uma realidade tão complexa em que se apresentam as questões educacionais, reduzidas a

100

proposições simplistas e redutoras. E como a educação do campo tem sido vítima de análises equivocadas, de observações que a inserem, de forma passiva, no mundo da vida, o pesquisador precisa tomar cuidado, ser cauteloso, por um lado, mas certeiro e incisivo de outro, nesse último caso, sem ferir ainda mais o objeto de estudo que passa pelo ensino de História na educação do campo.

Do apresentado até o presente momento, o estudo já começa a tomar corpo. No entanto, ainda está desfalcado, pois comete um erro que educadores costumam reproduzir continuamente ao esquecer a Educação Popular no contexto educacional brasileiro, a qual é uma lacuna na história da educação brasileira, na visão dos autores. Esquecem-se do seu papel transformador, das contribuições pedagógicas, discriminam suas atividades pelo fato de ser questionadora das verdades prontas que vêm de cima para baixo e, então, quando chega à questão da educação do campo, as ressalvas, o preconceito ainda se apresenta de forma mais exagerada. Tais posturas são frutos da tradição que divide em extratos sólidos uma educação de referência que deve ser imposta como modelo de verdade, vê o professor como mero transmissor de conteúdos, e o aluno, como um receptor, passivo e apático, no processo educativo. Assim, acrescentei um elemento essencial no centro do tetraedro (Figura 05), elemento que se comunicará com todos os outros vértices falados e da mesma maneira –

FIGURA 5: Tetraedro aberto às relações socioculturais com a educação no centro

101

recursivamente – a educação, mas não dentro de um prisma, como o saber universitário tradicional tem se proposto a fazer, circunscrito num patamar de superioridade, pelo contrário, que essa educação esteja aberta ao diálogo constante com outras esferas de saber periféricas, mas essenciais à vida.

O mapa conceitual proposto procurou dar espaço para cada temática importante na execução da tese e apresentar a teia complexa da realidade. Tomando como base a afirmação anterior, explicito a relação dos movimentos sociais com a educação do campo. Astrogildo Fernandes da Silva Júnior (2009, p. 208) atenta para tal:

Pensar a educação em escolas no meio rural brasileiro é pensar em estratégias que ajudem a reafirmar identidades. Dessa perspectiva, é pertinente ressaltar o protagonismo do MST. De acordo com Lucini (2007), o MST é um dos movimentos sociais do campo que, na história do Brasil, se sobressai pelas suas ações e conquistas e, principalmente, pela sua organização. É um movimento que nasceu e se fortaleceu, de tal forma, que suas ações têm desafiado a suposta “ordem” social, econômica e cultural. Tem tido a capacidade de reinventar-se politicamente. A autora define o MST como grupo da sociedade civil que se organiza e assume a história no sentido de fazê-la acontecer. Conduz pela sua força social, os processos de transformação, não espera soluções do Estado, mas faz a história.

Silva Júnior (2009) continua reforçando a importância do MST para a educação rural e elenca exemplos concretos da sua luta que estarão em consonância com a melhoria daquela educação, endossando a importância dos movimentos sociais:

No caso da educação no meio rural, o MST contribuiu para grandes conquistas. Uma delas é o Parecer n. 36/2001, que propõe medidas de adequação à vida no campo. Outra conquista foi a instituição das Diretrizes Operacionais para Educação Básica nas Escolas do Campo, aprovada pelo Conselho Nacional de Educação – Resolução CNE/CEB, n. 1, de 3 de abril de 2002. O documento é fruto da ação do Grupo Permanente de Trabalho de Educação do Campo (GPTE), que consolidou reivindicações históricas das organizações e movimentos sociais que lutam por uma educação de qualidade para os diversos sujeitos, com identidades diversas, que vivem no campo [...]. Ressalte-se que, em fevereiro de 2004, o governo brasileiro criou, na estrutura do Ministério da Educação e Cultura (MEC), a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), que conta com a Coordenação Geral da Educação no Campo.

Apesar de não ser o centro da minha atenção, os movimentos sociais servem de forças, verdadeiras molas propulsoras, para que direitos garantidos constitucionalmente se

102

concretizem. Contribuem, ainda, para novas pedagogias e, seguramente, dão novas configurações institucionais ao próprio Estado. A educação do campo, em contrapartida, prima pela valorização dos movimentos sociais, que são contemplados de forma distorcida no ensino de História, visto que ocorreram não da maneira como geralmente são vistos no livro didático, como algo que aconteceu no passado, foi sufocado pela força da Coroa portuguesa ou, posteriormente, pelo Estado opressor brasileiro e ficou, com seu ideário, apartado do presente. Dessa forma, vemos os movimentos sociais transformando a educação do campo e, do outro polo, a educação contribuindo para a ação deles. Trata-se, portanto, do diálogo entre dois pontos do tetraedro. A história tradicional, defendendo os interesses das elites, sempre propagou a ideia errônea de que o povo brasileiro é cordial e pacífico e apaga, por muito tempo, a importância das lutas populares.

Quando à ação educativa, retorna aos movimentos como reacionária e perde o seu sentido de ser. A recursividade se torna negativa. É uma retroação que não ativa o processo de luta. O ensino cumpre o seu papel quando contribui para a criação de seres livres, altruístas, reflexivos, ativos. Esse é o retorno que a educação e o ensino de História fazem para que sejam cumpridos seus papéis sociais.

E qual o caminho que irei seguir para conduzir ao entendimento nesse problema de retroação? Traduzo isso na metodologia que não foi escolhida aleatoriamente.