6. RESULTS & DISCUSSIONS
6.8 Fuelwood Requirements For Domestic Consumption
A história oral é um recurso moderno usado para elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à vida social de pessoas. Ela é sempre uma história do tempo presente e também conhecida como história viva. Como história dos contemporâneos, a história oral tem de responder a um sentido de utilidade prática e imediata. Isso não quer dizer que ela se esgote no momento da apreensão e da eventual análise das entrevistas. Mantém um compromisso de registro permanente que se projeta para o futuro sugerindo que outros possam vir a usá-la.
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Na epígrafe, Bom Meihy aponta a metodologia como um recurso moderno, mas no sentido em que compreendemos na atualidade, principalmente no que se consubstanciou durante o pós-guerra, principalmente depois da II Guerra mundial, quando os participantes do grande massacre passaram a relatar seus depoimentos: soldados contavam seus dias nas trincheiras, judeus falavam da miserável situação a que foram levados, e eles e outros encontraram psicólogos, historiadores, antropólogos, sociólogos, ávidos por compreenderem, através daquelas narrativas, prováveis respostas para o terrível acontecimento, para a selvageria que ainda fazia parte da vida humana em pleno Século XX. Acontece que os primórdios da história estão assentados na oralidade, pois nem o pai da História, Heródoto, na Antiguidade, esteve isento das narrativas dos viajantes para fazer as suas, que se transformaram em História. E o historiador mais conservador não poderá negar tal fato, mesmo aquele que defende que não há história entre povos ágrafos. Afinal, quando não existia a palavra escrita, era através da oralidade que as tradições, os conhecimentos e a vida dos povos eram passados de geração para geração.
Ainda na epígrafe, quando Bom Meihy se reporta à história do tempo presente e à história viva reforça o que foi explicado anteriormente ao me referir às várias vertentes de se fazer história na atualidade. Quando se reporta a sua utilidade prática e imediata, levando-se em consideração que ela não se esgota ali na interpretação das narrativas, pois permanecem como registro para possíveis estudos futuros, fortalece a minha compreensão de processo, de dinâmica e de que esta tese só tem sentido quando retornar aos professores que responderam aos questionários e fizeram parte das entrevistas. Que nessa continuidade de diálogo, novos diálogos se efetivarão. Dessa forma, entro no aspecto social da História, a respeito do qual Paul Thompson (1998, p. 20) assim se expressa:
Toda história depende, basicamente, de sua finalidade social. [...] Por vezes, a finalidade social da história é obscura. Há acadêmicos que continuam fazendo pesquisa factual sobre problemas remotos, evitando qualquer envolvimento com interpretações mais amplas ou com questões contemporâneas, insistindo apenas na busca do conhecimento pelo conhecimento.
Antes, etnógrafos, antropólogos e historiadores estavam apenas munidos de bico de penas e blocos de anotações. Acontece que os recursos passaram pelo desenvolvimento tecnológico proporcionado pelo longo processo da Revolução Industrial. Esse
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aperfeiçoamento haveria de abrir novos caminhos facilitadores para a pesquisa, como diz Bom Meihy (1996, p.14):
A obrigatoriedade da participação da eletrônica na história oral determina uma alteração nos antigos procedimentos de captação de depoimentos antes feitos na base de anotações ou memorização. Essa é, aliás, uma das marcas da história oral como um procedimento novo.
Atualmente, um notebook que grava o diálogo entre entrevistador e entrevistado e que serve como um meio de anotações, facilita o trabalho do pesquisador. A Ciência não precisa se isentar do avanço técnico, como acontece quando historiadores fazem suas pesquisas em documentos microfilmados, como tem ocorrido em grande frequência, como foi o caso da disponibilidade, por meio da internet, dos manuscritos do Mar Morto, antes espalhados pelo mundo, em que o pesquisador, fosse historiador, teólogo ou antropólogo, fazia inúmeras viagens para ter acesso. Agora estão abertos ao público. Isso se dá, também, num simples brinquedo de computador, que recria em 3D o Panteão ou o Coliseu romano. O uso de recursos tecnológicos de ponta possibilita ir muito além, mas sempre dependerão de perspicácia do pesquisador para entender como manejar os recursos e como interpretar as informações recebidas pelos narradores.
Por intermédio da história oral, os silenciados, os movimentos de minorias culturais, movimentos sociais, no caso em estudo, os professores das escolas, afastadas dos grandes centros, ganham voz e emergem como sujeitos ativos no processo de ensino-aprendizagem. Segundo Bom Meihy (1996, p.15),
História oral é um conjunto de procedimentos que se iniciam com a elaboração de um projeto e continuam com a definição de um grupo de pessoas (ou colônia) a serem entrevistados, com o planejamento da condução das gravações, com a transcrição, com a conferência do depoimento, com a autorização para o uso, arquivamento e, sempre que possível, com a publicação dos resultados que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas.
Vejo, aí, um procedimento circular que, partindo de um projeto premeditado, chega aos agentes e retorna a eles dialogicamente. Esse caminho de pesquisa se preocupa com a humanização do processo de pesquisa, das percepções que levamos das entrevistas, pois essas pessoas têm sido submetidas, geralmente pelas instituições oficiais ditas superiores ou vistas pelo ângulo macro, como acontece com a própria relação dicotômica entre campo e cidade, em que o campo se transforma em rural, submetido aos interesses urbanos. A história
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tradicional tem um veio elitista e costuma valorizar o processo de industrialização, solapando as questões campesinas. Esse é um ranço dos descasos do neocolonialismo e do imperialismo, justificados pelo positivismo que limitou a Ciência a ela própria.
Os entrevistados são pessoas que vivem ou estão ligadas às atividades da localidade campesina. Homens e mulheres que, nos primeiros contatos, desconheciam qualquer proposta diferencialista de Educação do Campo. Mas, como disse uma professora, numa roda de diálogo: “a gente se vira nos 30!” Isso demonstra que havia percalços na atividade diária do Magistério, mas que os professores conseguiam, junto com os alunos e outros membros da escola, superar. Ela falava com voz altiva, acreditando que a equipe de professores daria conta dos problemas, mesmo com a existência de tantos reveses. Por sinal, atitudes como essa renovam o meu espírito de dar minha contribuição social de professor à instituição e às localidades às quais pertenço.
Bom Meihy (1996) aponta três modalidades de história oral: história oral de vida, história oral temática e tradição oral. Posso afirmar que se tratou de uma pesquisa qualitativa, mas não desconsidero os aspectos quantitativos que têm sua importância, mas, nas interpretações, terminam por predominar os aspectos qualitativos. Quanto à abordagem metodológica que me inspirou, foi a história oral temática, posto que, no ensino de História, concentraram-se minhas expectativas. No entanto, mais uma vez, retomo o adjetivo híbrido26, por não descartar as duas outras possibilidades. A história oral pura trabalha apenas com os depoimentos. Seja apenas uma ou várias narrativas, a história oral pode tanto revelar a entrevista ou análise, desde que apenas sejam considerados os depoimentos como fontes. (BOM MEIHY, 1996, p.20).
Então, posso afirmar que a história oral a que me proponho é a história oral temática híbrida, pois, mesmo tendo como eixo o ensino de História, ela não descarta a história de vida, muito menos a tradição. Por três motivos, ela se consubstancia em ser híbrida: (1) dialoga com a história local, com a micro-história, a história do tempo presente e a história do cotidiano; (2) faz-se uso de outras fontes que não apenas as narrativas orais dos entrevistados; e (3) não descarta a história de vida nem as tradições, pois, desde a apresentação do meu memorial, descrevo minha história de vida e não deixo de lado aspectos da tradição e, da mesma maneira, permaneço na entrevista com os colaboradores.
26 O termo híbrido é usado pelo próprio Bom Meihy (1996, p20), segundo o qual “[...] O método tucididiano consistia em proceder a exames que combinavam testemunhos com outras fontes. Esse critério – que não descartava depoimentos –, pode ser considerado como inspirador de outro ramo da história oral conhecido por
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Em minha dissertação de Mestrado27, ao invés do termo híbrido, usei sincrético. Para minha inconformação, acredito que me aproximei, mas não dei conta do que desejava quanto ao uso do termo mais adequado, apesar de algumas pessoas, no senso-comum ou no domínio da Ciência, fazerem uso dos dois como se fossem sinônimos. Entro no mérito da questão pelo fato de usar o termo história oral temática híbrida e, também, porque, principalmente no capítulo 4, (Des)velando os diálogos: permanências e mudanças, empreguei o termo híbrido, inclusive, quando me referi a determinados arranjos socioculturais no município de Bananeiras, nos setores do Tabuleiro e do Caboclo e na própria E. M. E. F. Miguel Filgueira Filho.
O termo sincretismo tem uma carga histórica pejorativa, que trouxe as noções antropológicas de misturas homogêneas, como é o caso do que foi aferido ao fato de a cultura brasileira ser resultado do mix das três raças. Mesmo assim, teimei em usar o termo sincretismo, recorrendo à origem etimológica, impulsionado por Massimo Canevacci (1996). Acontece que ele cai, teoricamente falando, numa concepção antropológica extremamente relativista de que discordo. Além do mais, ele é um dos teóricos que faz equivalência entre os dois termos.
Tomado em sua origem, a lógica do sincretismo daria conta do meu interesse: os cretenses, povos desunidos, em época de guerra, que se uniam contra o inimigo comum e externo. Encontramos união e desunião convivendo uma ao lado da outra. A própria semelhança da dialógica e do hibridismo? No entanto, para além dele, vem a conotação histórica.
Pnina Werbner (2010, p.102) também chega às vias de usar as duas palavras como sinônimas, ou, pelo menos, dizer que assim o fazem:
Hibridismo cultural se tornou um tropo central dos estudos críticos da década de 90, celebrado como poderosamente transgressor e obstrutor da classe, da homogeneidade cultural nacional e das definições essencialistas de raça, cultura e dominação imperial, assim como um método para compreender as consequências da migração e diásporas. O hibridismo é utilizado para se referir a termos e categorias mistos ou a um choque de consciências, e engloba referências tais como sincretismo religioso, crioulização e políticas ciborgue ou relativas a diferenças em confronto [crossover], que invadiram áreas inteiras do discurso sociológico. Nos estudos sobre modernização, o termo assinala a mistura de culturas “locais” e “universais” na globalização. Com o
27“No Mestrado, em contato com o GRECOM, o fluxo de ideias que vinha da especialização desabrocharam, aparecendo Massimo Canevacci, com o qual compartilho algumas visões, não sem ressalvas. Enquanto todo mundo o cita pela obra A Cidade Polifônica (1993), comecei primeiro por Sincretismos – Uma Exploração das Hibridações culturais (1996). Fui alertado por seguir caminho inverso, mas persisti.” (SOUSA, 1999, p.17)
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surgimento ininterrupto de novas diásporas e a penetração de culturas globais em outras regiões, frequentemente são descobertos novos hibridismos, mas, possivelmente, com pouco rendimento em matéria de novas ideias teóricas. (termo sublinhado meu)
Werbner (2010) não apenas toca em assunto polêmico, ela entra no aspecto do que eu, considerando a diversidade cultural brasileira, discordo da conotação que ganhou, sobretudo, o sincretismo religioso, se levo em consideração as duas religiosidades – o candomblé e o catolicismo – na relação que é estabelecida entre as divindades de ambos os cultos. Atualmente é, no mínimo inaceitável, tal proposição pela semelhança, por exemplo, que Santa Bárbara corresponde a Yansã ou que o Deus católico, Javé, equivale ao Tupã indígena. As origens de cada uma das representações são distintas.
Néstor García Canclini (2003, p. xvii) faz uma discussão densa sobre o termo híbrido, que pode oferecer o caminho a se trilhar. Na introdução à edição de 2001, ele faz a afirmativa: “Vou ocupar-me de como os estudos sobre hibridação modificaram o modo de falar sobre identidade, cultura, diferença, desigualdade, multiculturalismo e sobre pares organizadores dos conflitos nas ciências sociais: tradição-modernidade, norte-sul, local-global.”
Se o uso do termo sincrético traz a carga pejorativa, em alguns aspectos, o termo híbrido, não menos. O primeiro, etimologicamente, seria adequado; o segundo, em sua origem, leva às confabulações organicistas. Sobre este último caso, Canclini (2003, p. xix) escreve:
Há que começar discutindo se híbrido é uma boa ou má palavra. Não basta que seja muito usada para que a consideremos respeitável. Pelo contrário, seu profuso emprego favorece que lhe sejam atribuídos significados discordantes. Ao transferi-la da Biologia às análises socioculturais, ganhou campos de aplicação, mas perdeu univocidade. Daí que alguns prefiram continuar a falar de sincretismo em questões religiosas, de mestiçagem em história e antropologia, de fusão em música. Qual é a vantagem, para pesquisa científica, de recorrer a um termo carregado de equivocidade?
Nomes como os de Comte e Durkheim, na França; Herbert Spencer, no Reino Unido; Albert Shäffle, na Alemanha; Lester Frank Ward, nos EUA, foram criticados pelos usos que fizeram de termos provenientes das ciências naturais, como: “física social”, “espécies sociais”, “tecidos sociais”. A questão é que os fenômenos naturais seguem caminhos próprios, diferentes dos fenômenos sociais.28 Então, Canclini (2003, xix) define o termo híbrido,
28 Na minha tese, quando emprego algum termo que remeta às ciências naturais, não o faço com base nos princípios organicistas, mas como metáforas para se compreenderem os meus objetivos.
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consciente de que, em sua obra original foi insuficiente na questão: “entendo por hibridação processos sócio culturais nos quais culturas ou práticas discretas, que existem de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (grifo meu). Apenas trocaria o termo grifado por combinações que comportam práticas diversas, mas que convivem umas com as outras. A ideia nunca será de mistura homogênea, mesmo que, em alguns momentos, assim se apresente aos olhos do observador. Mas prevalecerá um mix heterogêneo que mais se aproxima de todo o discurso dialógico que apresentei anteriormente.
Concluída a discussão sobre hibridismo, posso afirmar que a característica dialógica do método me proporcionou a aproximação com os professores, e que a história oral foi o caminho que percorri na tese, o maior suporte metodológico. A dialógica que traspassa toda a tese exige do pesquisador o trato com a diversidade, com o outro, com o novo, quando o pesquisador se sente o próprio estrangeiro. Assim, exigia-se de mim, de forma imprescindível, a disponibilidade de ouvir, muito mais do que falar, de respeitar as ideias dos professores mesmo que fossem diferentes das minhas. Essa postura do ouvir toma tamanha importância que Alessandro Portelli (1997c) a considera como um dos procedimentos, entre outros, que estão relacionados à ética profissional daquele que trabalha com a História Oral:
O respeito pelo valor e pela importância de cada indivíduo é portanto, uma das primeiras lições de ética sobre a experiência com o trabalho de campo com a História Oral. [...] Nossa arte de ouvir, baseia-se na consciência de que praticamente todas as pessoas com quem conversamos enriquecem nossa experiência. Cada um dos meus entrevistados [...] representou uma surpresa e uma experiência de aprendizado. (1997c, p.17)
Quais são, então, as técnicas usadas para dar corpo à metodologia? (1) As conversas informais, essenciais para a criação dos vínculos, para que os professores ficassem mais a vontade; (2) as rodas de diálogo – que, primeiramente, aconteceram com os professores as E. M. E. F. Miguel Filgueira Filho e, posteriormente, com as demais instituições de ensino – que, muitas vezes, apresenta-se como faca de dois gumes, pois, através dela, coletamos muitos dados, mas, quando o grupo se coloca de uma vez, alguns ficam mais inibidos, outros esquecem sua linha de raciocínio e seguem a do amigo; (3) a aplicação de questionários e, principalmente, (4) as entrevistas.
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2.10 As conversas informais e os contatos cotidianos: muito mais que