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6. Diskusjon

6.4 Praktiske implikasjoner

O corpo assume grande importância na sociedade contemporânea. Essa centralidade do corpo tem grande repercussão na vida das pessoas, principalmente na vida dos sujeitos jovens para quem o corpo é o espaço de identificações, representações e também de experimentação. O corpo tornou-se um tema de primeira ordem, objeto de cuidados, atenções, investimentos cotidianos, sob a forma de beleza, saúde, sedução, contestações e modificações. Para Silva (2011), essa enorme preocupação com o corpo proporciona a produção de novas identidades, em que a interioridade do sujeito é deslocada para a superfície do corpo, tendo como referência o olhar do outro.

O corpo, que à época das narrativas legitimadoras ocupava o polo negativo da dicotomia classificatória, agora se libera e se inventa em discussões, em produções que reconfiguram os estatutos de real e irreal, privado e público, natureza e cultura. A discussão leva a pensar os limites do corpo e suas possibilidades de significar. Ele assume, lado a lado com as mais variadas instâncias pessoais, interpessoais e coletivas, seu papel na produção da subjetividade (VILLAÇA, 2010, p. 65).

No contexto social contemporâneo, o corpo é o principal lugar de identidade. A centralidade que o corpo ocupa hoje na cultura e na vida das pessoas produz novos modos de vida, pautados em padrões de beleza que têm como referência o corpo jovem, magro, esbelto, sem marcas. Sempre existiram padrões estéticos e de beleza, cada época valoriza determinados aspectos ligados ao corpo, sua forma, estética ou imagem, suas formas de uso. Na Grécia Antiga, por exemplo, o corpo forte e exercitado era exibido e valorizado. Contudo, isso era um atributo do corpo masculino. Hoje, no entanto, com o aumento dos recursos disponíveis, intensificaram-se as exigências e imposições de adequação a determinados padrões.

Há uma verdadeira obsessão por uma estética da beleza. É quase impossível encontrar uma mulher que não deseje perder alguns quilos, aumentar alguns centímetros ou que não deseje ter cabelos lisos. Televisão, internet, revistas, nos apresentam todos os dias sugestões de beleza, dietas, cosméticos e uma infinidade de empreendimentos para deixar o corpo de acordo com o padrão de beleza socialmente apregoado, que tem sempre alguém famoso como modelo, como ideal de corpo. São verdadeiros imperativos de beleza impostos pelo mercado e propagados pela mídia.

Para as jovens interlocutoras desta pesquisa, o corpo também assume um lugar central. É a partir dele que as jovens vivenciam suas experiências de sociabilidade, de experimentações da sexualidade e inscrevem suas marcas de diferenciação. É “o lócus da construção de identidades” (LOURO, 2000, p. 71). É no/através do corpo que elas (re)constroem suas identidades e apresentam os seus estilos de vida, tendo o funk como principal definidor. Nesse contexto específico, o ideal de corpo e de beleza das jovens funkeiras não está de acordo com um padrão de beleza eurocêntrico, de mulher magra e esguia.

Nem sempre ser magra foi o padrão. Segundo Goldenberg (2010), esse modelo de beleza de mulheres brancas, loiras e magras ganhou muito mais força no Brasil nas duas últimas décadas, tendo como referência mulheres como a apresentadora Xuxa e a top model Gisele Bündchen.

Esse padrão é fruto do processo de colonização, das estratégias para manter a supremacia do colonizador sobre o colonizado, via cultura, religião, linguagem. Nesse contexto, entra o padrão de beleza, de corpo ideal, corpo a ser desejado. É predominante em nossa cultura, que historicamente o estabeleceu como referência de beleza, negando ou desprivilegiando outros padrões a partir da construção de hierarquias baseadas nas origens e características étnico/raciais. A nossa cultura, apesar de mestiça, se constitui por padrões europeus, do branco — negando-se a cor, os traços, os cabelos típicos dos povos africanos e indígenas. Nega-se a cultura em geral e, com ela, em certa medida, o corpo.

Para as jovens funkeiras, “mulher tem que ter o que balançar”, ou seja, seios e bumbum grandes e pernas grossas, já que “ninguém quer ver osso balançando”. “Porque se for... porque se ela for muito magra, tipo né... aí o pessoal fica julgando: Nam... o que ela tá balançando aí? Tá balançando os ossos, que num sei o quê... a caveira. O pessoal fica falando assim” (Karol, 16 anos). O ideal de corpo das funkeirasé o de “mulher gostosa”, que chama atenção pela exuberância do corpo.

É outro padrão de beleza, que também está presente na mídia e principalmente no mundo funk. É importante ressaltar que esses padrões de beleza de “mulher fruta”, de “mulher gostosa”, têm uma marca de classe. Para ser dançarina de funk, é quase uma exigência ter um corpo malhado, com pernas grossas e “bunda” grande.

Indagada sobre como deve ser o corpo de uma funkeira, Katyn afirma: “ela tem que ter um corpo bem feito, que é justamente pra ninguém tá falando. Porque se é magra vai dizer: ‘olha aí, aquela magrinha ali, só o caco, mexendo os ossos’” (risos) (Katyn, 16 anos). Outra jovem também afirma a importância de ter um “corpão” para as funkeiras: “tem que ser turbinada. As pernona, a bundona, a cintura perfeita, pronto. Porque o funk é isso, tem que balançar as carnes” (Karol, 16 anos).

O corpo valorizado e desejado pelas jovens funkeiras está relacionado com o estilo musical que elas adotaram. No funk, o rebolado é o principal passo da dança, o que implica numa quase exigência de ter um “corpo turbinado”25, ou seja, é interessante, segundo as funkeiras, que se tenha o que “balançar”, o que mostrar quando sobem ao palco.

Durante as entrevistas e o grupo de discussão, as jovens sempre recorriam às funkeiras “popozudas” (Valesca Popozuda, Mulher Melancia) para citar como exemplo de mulher “bem feita”, o ideal para o corpo de uma funkeira, o corpo que elas gostariam de ter

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Corpo turbinado, segundo as jovens funkeiras, é um corpo com volume, ou seja, com pernas grossas e

igual. Indagadas durante as entrevistas se gostariam de mudar algo no corpo, todas afirmaram algo como aumentar o tamanho dos seios, do bumbum e das pernas.

O motivo principal dessa valorização do corpo “bem feito” é chamar a atenção, ser desejada, seja durante a dança ou em outros espaços e ocasiões. Como ressalta Thayssa, uma funkeira deve ter o corpo “bem definido, né? Deve ter as pernona, a bundona. Ser bem feita. [...] Porque é pra chamar mais atenção. Dos homens (risos). Das mulheres, de todo mundo” (Thayssa, 14 anos).

O corpo das jovens funkeiras é o corpo que se mostra, que se exibe e provoca principalmente através da dança, é o corpo que quer ser desejado. A sensualidade e o erotismo estão muito presentes no mundo funk, e as jovens incorporam o papel de mulher provocante e sensual, que usam os seus atributos corporais para fazer “os homens pira rem”.

Na verdade, a sensualidade e a sedução feminina não estão presentes de forma intensa apenas no funk. A mídia de modo geral dita um modo de ser feminino pautado nesses atributos. Como afirma Goellner (1999, p. 40),

A fotografia, o cinema e a televisão, por exemplo, criam e traduzem percepções estéticas que olham e exibem o corpo feminino a partir de outra aparência e sensualidade convertendo a imagem da mulher bela e sedutora em um ícone da sociedade de consumo, para a qual, além do corpo perfeito, para ser bela, é necessário ter qualidades capazes de seduzir e chamar para si o olhar do outro. Ser bela é ser também atraente e sensual.

Dizer que o corpo valorizado pelas funkeiras não está de acordo com os ditames da beleza de mulher magra não significa dizer que estas não estão preocupadas com o corpo, com a beleza e com a moda. Significa dizer que estas estão preocupadas com outro padrão de corpo e de beleza. Um padrão de corpo que é valorizado no universo em que elas estão inseridas, no universo da favela e do funk. São dois padrões diferentes, ambos presentes na mídia de forma impositiva, mas com adeptos bastante distintos.

Dentre os atributos corporais valorizados pelas jovens funkeiras, o bumbum é o que ganha maior destaque. Ter “bunda grande” é o quesito principal quando se trata de “corpo bem feito”. Todas as jovens desejam ter um bumbum maior. Percebi essa valorização também acompanhando as publicações, fotos e comentários em fotos do Facebook das jovens. Quase não se encontram, em suas páginas do facebook, fotos em que as nádegas não estejam destacadas. A maioria das fotos é de costas com o rosto virado para frente ou agachadas com as nádegas empinadas para trás.

Esse padrão que ressalta a “mulher com carne” está muito próximo da construção cultural da mulher negra erotizada. Está posta aqui a representação da mulata brasileira que samba e balança a “bunda”, com as mesmas características apresentadas pelas funkeiras, mas em outro contexto, outro ritmo.

Essa herança da construção social em torno da mulata, do samba, do carnaval como uma característica da mulher brasileira é reapropriada pelo funk. Este, assim como o carnaval e o samba, ressalta a “bunda”. Esse é um aspecto bastante explorado pelo mercado de turismo, que vende se utiliza do imaginário social do Brasil como o país das mulatas como um atrativo para os turistas.

Piscitelli (1996), em um estudo sobre o mercado do turismo sexual, percebe uma inter-relação entre cor e nacionalidade no repertório das representações acionadas quando o Brasil é pensado como destino turístico. A autora afirma que, nos textos apresentados pela mídia em torno do comércio do turismo, a cor e a “bunda” das morenas são ressaltados como um atributo para atrair os turistas. A cor está associada às concepções em torno da feminilidade da mulata brasileira como uma mulher quente e sensual.

Figura 3 – As jovens funkeiras em uma festa na praia

As nádegas femininas são bastante valorizadas na cultura brasileira, principalmente pelos homens. Em uma pesquisa iniciada em 1998, realizada com homens e mulheres das camadas médias urbanas do Rio de Janeiro, com o objetivo de analisar os discursos sobre novas formas de conjugalidade e sexualidade, a autora Mirian Goldenberg revela ter sido surpreendida com o destaque que o corpo apresentou durante a pesquisa. Indagados sobre o que mais os atraía em uma mulher, os homens responderam: “a bunda, o corpo e os seios” (GOLDENBERG, 2007, p. 36).

Se na cultura brasileira as nádegas femininas são valorizadas, no funk essa valorização é ainda mais intensificada, uma vez que é o instrumento principal de exaltação na realização dos passos de dança. Desse modo, para as jovens funkeiras, ter uma “bunda grande” é um atributo de grande valor, tanto no sentido da importância para a realização da dança em si quanto no sentido da sua capacidade de provocar e chamar a atenção masculina, fatores bastante entrelaçados quando se trata de funk.

O universo da dança, de um modo geral, é caracterizado por um tipo especial de sociabilidade, em que a sedução tem presença fortemente marcada (MASSENA, 2010). A sensualidade e a sedução são inerentes a qualquer estilo de dança, no entanto diferem bastante em alguns aspectos. A dança no funk relaciona-se com o imaginário sexual, em que o corpo é sua expressão mais concreta. Os movimentos realizados durante a dança são encenações de relações sexuais. A “bunda” é o elemento principal da dança, uma vez que o rebolado é o passo principal. A sedução no funk se dá de forma mais direta, os contatos físicos são intensos e provocativos.

A sensualidade e a sedução foram destacadas em alguns momentos da pesquisa pelas jovens funkeiras. “A mulher que dança funk, a maioria, às vezes dá umas olhada s sensual. É... imorais” (Thayssa, 14 anos). Afirmou ainda que “fazem os homens pira r porque ficam fazendo coisas sensuais. Aí os homens pira m (risos)”. A sedução é um traço marcante das relações sociais estabelecidas no funk, com o intuito de provocar e seduzir o outro, brincando com a temática sexual. A dança e o corpo são instrumentos de sedução.

A dança é composta por movimentos corporais sensuais, em que as jovens rebolam bastante o bumbum jogando-o para frente e para trás, rebolam em movimentos circulares, tremem freneticamente a bunda, ficam de pernas para o ar, ao mesmo tempo que rebolam e ficam de dupla uma agachada sobre a outra fazendo movimentos de vai-e-vem. Tudo isso executado ao som de uma música com conteúdo bastante erótico.

A forma como as jovens funkeiras dançam causa certo estranhamento para quem assiste aos ensaios e apresentações, pelo menos no espaço do CUCA. A intenção da dança é

mesmo chamar a atenção, “fresca r com os homens”, como uma delas afirmou. Assim, os atributos corporais, principalmente a bunda, bem como toda a sua sensualidade e malícia, são supervalorizados nas encenações da dança no funk.

A autora Mirian Goldenberg (2010) argumenta, a partir das reflexões do sociólogo Pierre Bourdieu, que na cultura brasileira determinado modelo de corpo é um capital. O modelo de corpo que é valorizado na nossa cultura, o corpo magro, jovem, em boa forma e sexy, fruto de muitos empreendimentos e esforços e que distingue como superior quem o possui.

Acredito que, na cultura brasileira, determinado modelo de corpo é uma riqueza, talvez uma das mais desejadas pelos indivíduos das camadas médias urbanas e também das camadas mais pobres, que percebem seu corpo como um importante veículo de ascensão social. Nesse sentido, além de um capital físico, o corpo é, também, um capital simbólico, um capital econômico e um capital social (GOLDENBERG, 2010, p. 9).

A partir da argumentação de Goldenberg, ouso dizer que, para as jovens funkeiras, o corpo é um capital social, simbólico, podendo assumir também o papel de capital financeiro, já que é, para algumas, o instrumento de trabalho26. Assim como para muitos indivíduos na nossa sociedade, especialmente para as modelos, “o principal capital é o corpo magro, jovem e belo” (GOLDENBERG, 2010, p. 49), para as jovens funkeiras o capital é o corpo “bem feito”, “turbinado”, a “bunda grande”. O “corpão” é o atributo com o qual as jovens funkeiras realizam suas performances no funk, o “rebolado”, as encenações e a sensualidade se realizam no corpo. É também no corpo que se realizam os empreendimentos da provocação, da sedução e da conquista dos rapazes.

Nós se acha as superpoderosas. Cada uma tem um superpoder. [...] Cada mulher tem um poder, né? Assim, tipo, a Katyn, é o olho dela, o olho dela é atraente, é o poder. Aí quando ela pegar o homem... O da Thayssa é os peitos dela. É atraente (Karol, 16 anos).

O da Karol, o atraente dela é porque ela é loira. E baixinha. O jeito que ela se arruma (Renatinha, 16 anos).

E o da Renatinha é aqui, oh, o quadril dela é bonito, largo (Katyn, 16 anos).

Cada mulher tem uma coisa atraente, isso é superpoder (Karol, 16 anos).

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A funkeira Valesca Popozuda, seguindo o exemplo da ex-dançarina do grupo “É o Tchan”, Carla Perez, fez

um seguro para o seu bumbum, no valor de 5 milhões de reais. Em entrevista concedida ao programa “De Frente com Gabi”, a funkeira afirmou: “É meu instrumento de trabalho, né?”, ao justificar o motivo pelo qual havia feito o empreendimento.

A fala das jovens ressalta o poder do corpo, da sua exibição. A dança funk é importante para elas como era para os nobres no Renascimento, quando a dança volta a ser valorizada pelos nobres. Se para os nobres da Itália saber dançar era um dote porque permitia saber se movimentar com graça, com elegância, para as jovens saber dançar proporciona sedução e poder. Aqui não só a bunda aparece como um atributo de poder, mas também a sensualidade, o estilo, a dança, a capacidade de seduzir.

Entretanto, as questões relacionadas ao corpo das jovens funkeiras se dão em campo de contradições e conflitos. Se o corpo das jovens funkeiras em determinados tempos/espaços se apresenta como um “capital”, em outros — por ser o lócus onde se inscrevem as marcas, os estilos, os jeitos de ser — é responsável pelo processo de estigmatização ao qual as jovens estão sujeitas. “Um estigma é, então, um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo [...], em parte porque há importantes atributos que em quase toda a nossa sociedade levam ao descrédito” (GOFFMAN, 1988, p. 7).

Ao atravessarem as fronteiras do bairro onde moram, os estigmas que as jovens funkeiras carregam em seus corpos se manifestam aos olhos dos “outros”. A cor da pele, a vestimenta, o modo de falar, as tatuagens, os piercings, o local de moradia são alguns atributos que permitem que as jovens sofram preconceitos quando na relação com outros sujeitos fora da sua realidade.

Segundo Le Breton (2012), a aparência corporal está relacionada com o modo como os atores se apresentam e se representam, incluindo a maneira como se vestem, como se penteiam, como ajeitam o rosto e como cuidam do corpo. Assim,

a ação da aparência coloca o ator sob o olhar apreciativo do outro e, principalmente, na tabela do preconceito que o fixa de antemão numa categoria social ou moral conforme o aspecto ou o detalhe da vestimenta, conforme também a forma do corpo ou do rosto. Os estereótipos se fixam com predileção sobre as aparências físicas e as transformam naturalmente em estigmas, em marcas fatais de imperfeição moral ou de pertencimento de raça (LE BRETON, 2012, p. 78).

É certo que não é possível identificar uma jovem como funkeira ou moradora da favela pelo simples fato de ela usar roupas curtas e coladas ou por ter o corpo marcado por tatuagens ou piercings, uma vez que é mais ou menos generalizado entre as jovens o uso de tais ornamentos. O que identifica as jovens funkeiras, assim como os/as jovens da favela, é um conjunto códigos e adornos que compõem um estilo e que possuem características específicas. As tatuagens, feitas no próprio bairro, são pouco elaboradas, podendo ser

facilmente identificadas. Embora usar roupas curtas e coladas não seja exclusividade das jovens da favela, a estética que compõe o estilo favela/funkeira possui singularidades que o diferenciam, ainda mais porque as roupas que compõem o visual das jovens funkeiras são compradas no próprio bairro. Além da vestimenta, o linguajar recheado de gírias é próprio da favela.

Como afirma Louro (2003, p. 2), se o corpo “fala”, “o faz através de uma série de códigos, de adornos, de cheiros, de comportamentos e de gestos que só podem ser ‘lidos’, ou seja, significados no contexto de uma dada cultura”. Assim, o corpo das funkeiras carrega atributos que, a depender do espaço e das relações que elas vivenciam, podem funcionar como um “capital” ou como estigma, que, além da relação com o funk, são perpassados por outras questões, como a classe social, a etnia, o lugar de moradia, as aparências físicas.

4.1.1 “Nem muito pirangueira, nem muita patricinha”: o estilo funkeira

O corpo é o local da identidade e da diferenciação. Ao produzirem o corpo, as jovens funkeiras utilizam-se de elementos de aproximação dos grupos com os quais se identificam e de diferenciação dos grupos dos quais se distanciam, num complexo jogo que leva à construção de suas identidades sociais.

Os grupos juvenis manifestam suas características culturais através da adoção de estilos marcadamente orientados pelo consumo de determinados estilos musicais e na composição de um visual com o uso de uma indumentária e de acessórios que conferem uma identidade de grupo a esses sujeitos (MORENO, 2011).

Decorre daí que o funk se configure também como o estilo de vida e de consumo para as jovens funkeiras. As roupas, os acessórios, os cabelos, a maquiagem, enfim, toda a produção do corpo realizada pelas jovens está relacionada de alguma forma com a estética funk. As jovens produzem os seus corpos tendo como referência o funk, valorizando, desse modo, a sensualidade e a exibição do corpo do mesmo modo que é valorizado na dança.

O modo de se vestirem, perfurarem, tatuarem, como se comportam, está relacionado com o grupo do qual fazem parte. O grupo é um espaço importante de constituição de si, de construção das identidades juvenis. Segundo Sales (2010), participar de um grupo é uma necessidade que faz parte do cotidiano dos/as jovens. Esse agrupamento exerce influência na aparência, nos gestos e no comportamento dos/as jovens. No grupo, os jovens “afetam seus pares e são afetados por eles. O grupo é também uma forma de compor novas relações ou de decompô-las” (SALES, 2010, p. 25).

À medida que possuem um estilo próprio, as funkeiras procuram se distanciar de outros estilos, como pode ser observado na fala de Karol: “gosto de me vestir mais assim, é, blusinha, shortinho mais ou menos curto [...] não gosto de me vestir nem muito pirangueira, nem muita patricinha, entendeu?” (Karol, 16 anos).

Segundo Karol, pirangueira é aquela mulher que anda de chinela Kenner, saia de veludo e blusão: “essa é uma mulher estilo pira ngueira”. Ou seja, a pirangueira anda mais despojada, não se preocupa muito em se arrumar. Já as funkeiras, segundo afirmaram as jovens, são mais preocupadas em andar bem arrumadas, usam chinelinha fechada ou