O caminho metodológico que percorri durante esta pesquisa foi repensado ao longo da minha inserção no campo, à medida que me aproximava dos sujeitos e estabelecia uma relação mais próxima com estes.
Para a realização deste trabalho, utilizarei a abordagem da pesquisa qualitativa por entender que essa é a mais adequada para atender aos meus objetivos e por estar de acordo com o modo como compreendo os sujeitos. A utilização da pesquisa qualitativa permite a aproximação com os sujeitos, os diálogos, a escuta de suas falas, dos seus anseios e permite que os pesquisandos sejam sujeitos ativos durante o processo de investigação. É um instrumento que nos possibilita compreender os sujeitos da pesquisa como indivíduos que têm modos de ser diversos e singularidades e que, portanto, precisam ser considerados nas suas
diversidades e nos seus contextos, não podendo ser enquadrados em números e categorias rígidas de análises.
A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 1994, p. 21-22).
A escolha de um caminho metodológico para a investigação não acontece aleatoriamente. É o objeto de pesquisa que indica quais são os melhores percursos a serem trilhados. A inserção do/a pesquisador/a no campo e a forma como este/a se relaciona com os seus interlocutores são determinantes para nos mostrar as possibilidades para a caminhada. Sales (2005, p. 76) enfatiza que “a identificação social do/a pesquisador/a, assim como a interação que este/a estabelece com o grupo investigado são fatores importantes na aceitação do pesquisador e na coleta de informações”.
Percebi, durante a pesquisa exploratória, que, para melhor compreender as questões a que estava me propondo com essa investigação, seria necessário uma inserção mais profunda no campo. Optei, então, por realizar, dentro da abordagem da pesquisa qualitativa, um trabalho de cunho etnográfico, no intuito de chegar o mais próximo possível do universo em que aquelas jovens estão inseridas para melhor compreender os seus modos de ser e agir.
Para compensar o pouco tempo de que dispunha para a realização de um estudo etnográfico, dada a sua necessidade de permanência por um tempo mais prolongado no campo, iniciei a pesquisa exploratória ainda enquanto cursava as disciplinas do mestrado, de modo que, quando parti para as técnicas mais específicas de construção dos dados, como o grupo de discussão e as entrevistas, já havia estabelecido uma relação com minhas interlocutoras.
Durante a pesquisa exploratória, realizei principalmente observações, que, por ser uma técnica que possibilita o contato direto e pessoal entre o pesquisador e o objeto de investigação, permitiram-me o acompanhamento das experiências das jovens, facilitando assim a apreensão dos significados que estas atribuem à sua realidade e às suas ações (LUDKE; ANDRÉ, 1986).
A etnografia é o método de pesquisa da área da antropologia — muito embora seja utilizada por pesquisadores de diversas áreas — e tem como objetivo conhecer a cultura
de um grupo específico. Requer do investigador uma postura atenta e comprometida para apreender os significados das práticas de um grupo.
Realizar um estudo investigativo envolve, além da ansiedade de querer estar no campo não só como pesquisadores imparciais e passivos, escolhas, renúncias, opções teóricas e metodológicas. Nessa ânsia de fazer da ação acadêmica bem mais do que um locus de fabricação de objetos de pesquisa, encontramo-nos com a etnografia. A luva e a mão no desafio da investigação. A escolha da etnografia dá-se por visualizar nesta vertente metodológica da investigação o rumo para as possibilidades de conhecimento do objeto de pesquisa (PEREIRA; LIMA, 2010, p. 4).
A história da etnografia foi escrita por pesquisadores viajantes que pesquisavam sociedades distantes, primitivas e exóticas. Malinowski, por ter sido o pioneiro na construção do método de trabalho de campo, ficou conhecido como o “pai da antropologia”. No seu livro clássico “Argonautas do Pacífico Ocidental”, o autor enfatiza a necessidade da permanência prolongada com o grupo estudado, afirmando que esse é um dos princípios fundamentais do trabalho etnográfico, condição necessária para o conhecimento profundo de uma cultura específica.
Embora o primeiro objeto de estudo da pesquisa etnográfica tenha sido as sociedades primitivas, hoje ela é desenvolvida em qualquer sociedade, visando “a compreensão das diferentes culturas presentes em qualquer sociedade” (ROMANELLI, 1998, p. 4). Segundo Magnani (2002), a etnografia pode ser realizada em qualquer contexto desde que o pesquisador consiga tomar distância com relação a ele.
Ainda de acordo com Magnani (2002), uma especificidade da etnografia é o fato de que ela requer uma atitude de estranhamento por parte do pesquisador em relação ao objeto que se pretende estudar. O pesquisador possui uma cultura e um conjunto de esquemas conceituais que não serão descartados pelo fato de estar em contato com outra cultura e outras explicações, as chamadas “teorias nativas”.
Vivemos experiências restritas e particulares que tangenciam, podem eventualmente se cruzar e constantemente correm paralelas a outras tão plenas de significado quanto as nossas. A possibilidade de partilharmos patrimônios culturais com os membros da nossa sociedade não nos deve iludir a respeito das inúmeras descontinuidades e diferenças provindas de trajetórias, experiências e vivências específicas (VELHO, 1980, p. 16).
Mesmo em sociedades urbanas, onde os indivíduos convivem em um mesmo contexto cultural, “há distâncias culturais nítidas internas ao meio urbano em que vivemos,
permitindo ao ‘nativo’ fazer pesquisas antropológicas com grupos diferentes do seu, embora possam estar basicamente próximos” (VELHO, 1980, p. 16).
O grupo investigado não exigiu de mim um distanciamento no sentido de buscar uma atitude de estranhamento, uma vez que essa distância já estava posta entre mim e as minhas interlocutoras. As dançarinas de funk partilham de uma realidade bastante distante da minha. A cultura do lugar de moradia, as suas experiências, o modo como dão significado às suas práticas mostraram-se “estranhos” para mim desde o início. De acordo com Velho:
[...] Dispomos de um mapa que nos familiariza com os cenários e situações sociais de nosso cotidiano, dando nome, lugar e posição aos indivíduos. Isto, no entanto, não significa que conhecemos o ponto de vista e a visão de mundo dos diferentes atores em uma situação social nem as regras que estão por detrás dessas interações, dando continuidade ao sistema. Logo, sendo o pesquisador membro da sociedade, coloca-se, inevitavelmente, a questão de seu lugar e de suas possibilidades de relativizá-lo ou transcendê-lo e poder “pôr-se no lugar do outro” (VELHO, 1978, p. 6).
Ao apreender os significados dos arranjos do nativo e descrevê-lo de acordo com o seus conhecimentos teóricos, o pesquisador consegue construir um sistema de referências onde tem lugar o seu ponto de vista, o ponto de vista dos pesquisados, os erros de um sobre o outro, podendo assim construir uma experiência alargada (MAGNANI, 2002).
A etnografia busca compreender os significados atribuídos pelos próprios sujeitos ao seu contexto, à sua cultura. Assim, a pesquisa etnográfica utiliza-se de técnicas voltadas para a “descrição densa” do contexto estudado (GEERTZ, 1989). Para Geertz:
[...] praticar a etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Mas não são essas coisas, as técnicas e os processos determinados, que definem o empreendimento. O que o define é o tipo de esforço intelectual que ele representa:
um risco elaborado para uma “descrição densa” (GEERTZ, 1989, p. 4).
Uma descrição densa requer um longo período de observação. Diante da dificuldade da permanência prolongada no campo no contexto das sociedades urbanas contemporâneas, Magnani (2009) distingue prática etnográfica de experiência etnográfica. “Enquanto a prática é programada, contínua, a experiência é descontínua, imprevista” (MAGNANI, 2009, p. 136). Nesse sentido, este trabalho se propõe a uma experiência etnográfica sobre como jovens dançarinas de funk vivenciam suas experiências com o corpo, o gênero e a sexualidade.
A etnografia permite-nos o uso de diversas técnicas de coleta de dados — podemos combinar entrevistas, observações, diário de campo — e possibilita ainda a criação de novas técnicas a partir do que é apresentado pelo campo. “O método etnográfico não se confunde nem se reduz a uma técnica, pode usar ou servir-se de várias, conforme as circunstâncias de cada pesquisa; ele é antes um modo de acercamento e apreensão do que um conjunto de procedimentos” (MAGNANI, 2002, p. 17).
Munida por esse modo de acercamento e pela possibilidade de utilizar diversas técnicas de coleta e até mesmo de criar/recriar novas, embarquei nessa aventura na busca de apreender os significados que as jovens funkeira s atribuem às suas ações, sempre atenta às possibilidades apresentadas pelo campo.
Em um dia de observação no CUCA, falei para as jovens do meu desejo de ir ao bairro para conhecer o local onde elas moravam e conversar com as mães, uma vez que elas todas são menores de idade e precisariam de autorização para participar da pesquisa. Combinamos que, na tarde do sábado seguinte, elas viriam me esperar na avenida e nós iríamos às suas casas e depois iríamos comer salgados numa lanchonete do bairro. Uma delas enfatizou que seria muito perigoso eu ir sozinha ao bairro e, por isso, viriam me esperar para irmos juntas.
Ir ao bairro pela primeira vez foi um momento crucial para a pesquisa. Além de estabelecer uma relação de maior confiança com as jovens, pelo fato de ter ido conhecer o local onde elas moram e ter pedido a autorização das mães, esse momento foi importante também para que eu enxergasse aquele lugar de outra forma. Até então, a imagem que me era passada pela televisão, pelos dados sobre violência e pelas pessoas que sabiam que eu estava realizando uma pesquisa na Barra do Ceará era a de um lugar assombroso, permeado pelo medo. De fato, o índice de violência no bairro é bastante elevado — e isso está muito presente na fala das próprias jovens —, mas o bairro não se resume a isso. As pessoas sentam nas calçadas no final da tarde, todos se conhecem na rua e mantêm uma relação de proximidade com os vizinhos.
Estava tensa com o fato de me encontrar com as mães das jovens. Fiquei com receio de que elas estranhassem a palavra “sexualidade”, presente no termo de consentimento, ou que não autorizassem a participação das jovens na pesquisa. Eis o registro desse momento no diário de campo:
Liguei para Katyn pela manhã para confirmar a minha ida ao bairro. Elas viriam me pegar na parada de ônibus. Meu noivo ofereceu-se para ir comigo. Quando a Topic estava próxima ao bairro, liguei para uma das jovens que eu tinha o contato, e ela
não atendeu. Como eu sabia o nome da rua onde elas moravam, saí procurando e fui subindo a rua no intuito de perguntar se alguém as conhecia. Avistei logo as garotas descendo a rua para me encontrar. Katyn, Thayssa, Rafaela e Renatinha. Perguntei aonde a gente ia primeiro, e Katyn sugeriu que fôssemos à sua casa. Renatinha disse que, por conta da viagem da avó, sua casa estava muito cheia e era melhor não irmos lá hoje. Entramos na casa de Katyn, e logo sua mãe veio falar comigo. Apresentei- me e expliquei para ela o propósito da pesquisa, os objetivos, o anonimato etc. Perguntei se ela permitiria a participação de Katyn. Ela leu o termo e concordou. Thayssa foi chamar a sua mãe. Expliquei para ela a pesquisa, e ela pareceu um pouco desconfiada. Perguntou se eu iria levar as jovens para dançar em outro lugar, porque se fosse, ela não permitiria. Expliquei que só iria acompanhar as jovens nos espaços que elas já frequentam. Ela falou também que não apoia muito essa dança, mas deixa porque a filha gosta. Ela leu o termo e assinou. Rafaela chamou o pai dela, que é irmão da mãe de Katyn. Expliquei para ele a pesquisa. Ele se mostrou indiferente, leu o termo, assinou e foi embora. A casa de Katyn é bem pequena, mas é muito limpinha e organizada. A mãe dela faz trufas para vender. Comprei para mim e para as jovens e para a mãe de Thayssa. A mãe de Thayssa estava com um filme (“O Impossível”). Disse que ainda ia assistir. Eu comentei que um amigo meu tinha assistido e tinha gostado, eu ainda não havia assistido. Quando eu estava saindo com as jovens, ela foi junto até a calçada e me perguntou se eu gostaria de levar o filme para assistir e devolver depois. Eu agradeci e disse que outro dia ela me emprestaria. Achei curioso esse fato. Ainda mais porque, quando estávamos na casa de Katyn, enquanto as jovens comentavam que iríamos à casa de Valesca, a mãe de Thayssa disse que não quer que ela ande para o lado de lá, porque é
perigoso. Um pouco depois, ela falou: “mas se for com ela (comigo), pode ir”.
Fiquei curiosa sobre o que ela estava pensando sobre mim. Por que ela permitia que a filha fosse comigo? (Diário de campo, 09/06/13).
Saímos, então, rumo à casa de uma das integrantes do grupo que mora no Polo, há algumas quadras da casa das outras jovens. O Polo é uma das áreas dentro do bairro que é comandada por uma gangue. Tem esse nome porque possui no centro uma quadra de futebol de areia. A galera do Polo é rival da galera do São Tiago, área onde as demais jovens do grupo moram. Quem mora de um lado não pode atravessar para o lado rival. Mesmo com a autorização das mães, fiquei com medo de ir com as jovens para o outro lado.
Chegando a casa de Valesca, fomos recebidas por ela e por sua avó. A mãe de Valesca trabalha como empregada doméstica e vem, às vezes, visitar a filha. Ela chegou no momento em que estava explicando do que se tratava a visita. Expliquei para elas o objetivo da pesquisa e pedi que a mãe lesse o termo de consentimento. Assim como a mãe de Thayssa, a única preocupação da mãe e da avó de Valesca era se eu iria levá-las para dançar em outros locais, o que elas não permitiriam. A avó comentou que via a novela “Salve Jorge3” e não gostava de deixar a neta sair para locais distantes do bairro por receio de que esta pudesse ser aliciada para prostituição, assim como ocorre com as jovens da novela. Falei que não havia motivos para elas se preocuparem e expliquei que a pesquisa aconteceria apenas no bairro e
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Novela transmitida pela TV aberta Rede Globo na época. A novela abordava o tema do tráfico internacional de mulheres.
no CUCA. A mãe de Valesca perguntou se a filha tinha interesse em participar da pesquisa e assinou o termo após sua confirmação.
Saímos, então, para a lanchonete. Durante o percurso, as jovens me apresentavam o bairro, mostrando as áreas que vivem em conflitos e os lugares que elas costumam frequentar. Falaram-me sobre os namorados (os atuais e os passados) e me mostraram as tatuagens e os piercings que elas mesmas colocaram umas nas outras. As tatuagens são feitas no próprio bairro, por alguém sem nenhuma especialização nesse ramo, o que pode ser percebido olhando-se a própria tatuagem.
Considero essa ida ao bairro, assim como todas as outras, momentos muito importantes do trabalho de campo, tanto pela aproximação que foi construída com as jovens quanto pela apreensão de suas falas e ações no seu próprio contexto social. Foi nos encontros na lanchonete onde as conversas foram mais espontâneas e descontraídas.
Além das andanças pelo bairro e do acompanhamento dos ensaios e apresentações no CUCA Che Guevara, participei também das reuniões do projeto “Comunidade em Pauta” junto com o grupo. Decidi participar dessas reuniões como uma estratégia para que as jovens não faltassem e, desse modo, obtivessem o direito ao espaço para realizar os ensaios, o que contribuiria para que os nossos encontros continuassem a acontecer. Acompanhava pelo Facebook4, na página do projeto, o dia e o horário das reuniões e ligava para as jovens comunicando e convidando-as para um encontro antes ou depois das reuniões. Assim, elas iriam me encontrar e participaríamos da reunião, garantindo o espaço por um mês.
Isso mostra que o nosso percurso no campo não é linear e previsível. Muitas vezes, temos que ser um pouco malabaristas para conseguirmos contornar as reviravoltas que surgem durante a pesquisa.
Observei, durante as reuniões, que as jovens não participavam das discussões e reivindicações, o que os demais grupos faziam de forma bastante intensa. Sempre sentavam no fundo da sala e ficavam esperando o momento de confirmarem o horário e assinarem a frequência. Participavam apenas para garantir o espaço para ensaiar, não se apropriando daquele instrumento e daquele espaço.
Procurei, enquanto estava no campo, manter o olhar e o ouvir atentos para tudo o que acontecia no espaço observado, buscando captar tudo o que fosse possível das observações e das interações com as jovens. A importância do olhar e do ouvir é ressaltada por Oliveira (2006, p. 21) quando este afirma que esses dois elementos “se complementam e
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servem para o pesquisador como duas muletas [...] que lhe permitem caminhar, ainda que tropegamente, na estrada do conhecimento”. O olhar e o ouvir atentos são fundamentais para que se possa apreender os significados que um grupo atribui a determinados aspectos de sua vida.
Olhar e ouvir são os dois componentes cruciais da observação. Esta e o diário de campo são os companheiros inseparáveis do pesquisador do início ao fim da investigação. Norteada pela ideia de que na pesquisa qualitativa nada é trivial e tudo tem potencial para constituir uma pista que permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do objeto de estudo (BOGDAN; BIKLEN, 1994), realizei observação durante toda a minha permanência no campo.
A observação, por ser uma técnica de pesquisa que possibilita o contato direto e pessoal do pesquisador com o objeto de investigação, constitui-se em uma das técnicas mais vantajosas. Ela permite o acompanhamento das experiências pessoais e diárias dos sujeitos, facilitando assim a apreensão dos significados que os sujeitos atribuem à sua realidade e às suas ações (LUDKE; ANDRÉ, 1986). O observador não fica retirado do contexto das ações cotidianas da vida dos sujeitos durante a observação, mas se integra à situação por uma participação direta e pessoal (LAVILLE & DIONE, 1999).
Enquanto observava as jovens em suas atividades, estas também me observavam. No dia em que fui conhecer as mães, uma delas perguntou quanto ganhava para realizar esse trabalho. Muitas vezes, fui indagada pelas jovens sobre o lugar onde morava e sobre as minhas ações. Nunca faziam perguntas sobre a pesquisa. Acredito que elas nunca entenderam direito do que se tratava e qual o propósito daquelas atividades que realizamos juntas. As mães das jovens referiam-se a mim como a “menina do CUCA”. Estas também me chamavam assim quando iam comunicar às mães alguma atividade que íamos desenvolver. De certa forma, o CUCA, como instituição digna de confiança, dava-me crédito diante das mães.
Aos poucos, fui percebendo o modo como eu era identificada pelo grupo e também por suas mães. Percebi, em alguns momentos, que estava sendo aceita pelo grupo e que as jovens passavam a ter mais confiança em mim. Um momento em que percebi essa confiança foi quando elas vieram pedir minha colaboração para escolher as músicas que dançariam na apresentação. Também em um ensaio, uma delas saiu para comprar um lanche e trouxe um suco para mim. Ainda outra falou que iria fazer um “para”5 para mim. Essa aceitação não significa que tenha me tornado uma integrante do grupo, uma vez que o
5 Um “para” é uma pichação em forma de dedicatória para alguém. Escreve-se na parede a palavra “para” e o
pesquisador é sempre “alguém de fora”, um estranho diante do grupo investigado (VIANNA, 2007). No entanto, mesmo não sendo possível que o investigador se identifique inteiramente, é possível estabelecer relações de confiança e de proximidade com os sujeitos investigados.
Todas as observações, conversas, comentários, impressões, foram registrados no diário de campo. No início, escrevia tudo no diário. Ainda no campo, na parada de ônibus,