Os jornais procuraram enfrentar a questão das notícias falsas, com informações detalhadas que possam vir a confrontar os argumentos usados por aqueles que não acreditam que o homem foi à Lua. O tema é um dos mais desacreditado nas teorias conspiratórias. Neste aspecto, no Brasil, por exemplo, sonda- gens apontam que um em cada quatro brasileiros diz que pouso lunar é mentira, como descrito nesta categoria, nos dados dos quadros 5A e 5B.
Quadros 5A e 5B. Categoria: Fake news, teorias conspiratórias
Título Veículo / Fonte Coluna / Autor Data / hora Resumo
1. A ida à Lua não foi um embuste. Quatro teorias da conspiração, quatro explicações
Público (Versão Online) https://www.publico. pt/2019/07/19/ciencia/ noticia/sombras-falta- -estrelas-leva-pessoas- -pensar-chegada-lua- -embuste-1880555 Ciência / 50 Anos Apolo 11 / Claudia Carvalho Silva 19/07/2019;
20h33 “Do tremular da bandeira à ideia de que foi tudo gravado num estúdio, o PÚBLICO desmonta quatro dos argumentos usados por quem não acredita que o homem foi à Lua”. Dentre os argumentos citados estão o livro do oficial da Marinha Bill Kaysing, que ajudou a fabricar os motores do fo- guete Saturno V, usado nas missões Apo- lo. O livro é de 1976, “Nunca Fomos à Lua: A Fraude de 30 mil milhões de dólares da América” e ajudou a espalhar muitas das teorias da conspiração. Depois vieram ou- tras como: o tremular da bandeira; o escu- ro do céu; a irregularidade das sombras; o efeito Kubrick – que tem a ver com o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, realizado pelo norteamericano Stanley Kubrick.
Título Veículo / Fonte Coluna / Autor Data / hora Resumo 2. Em Terra plana, ovo de Colombo é quadrado Folha de S.Paulo (Versão Online) https://www1.folha.uol. com.br/colunas/josehen- riquemariante/2019/07/ em-terra-plana-o- vo-de-colombo-e- -quadrado.shtml Ciência / Homem na Lua, 50 / José Henrique Mariante. 15/07/2019;
2h. “Sete por cento dos brasileiros responde-ram ao Datafolha que a Terra é plana. Sig- nifica dizer que, na era do conhecimento ao alcance dos dedos, para uma parcela razoável da população a informação mais crível que aparece na tela do celular é a de que, em determinado ponto, a Terra simplesmente acaba. Sabe-se lá como”. Tem relação com misticismo e “a ignorân- cia, está longe de ser superado”. 3. O homem na Lua: como noticiar algo tão difícil de acreditar? Folha de S.Paulo (Versão Online) https://www1.folha. uol.com.br/colunas/ robertodias/2019/07/o- -homem-na-lua-como- -noticiar-algo-tao-dificil- -de-acreditar.shtml Ciência/ Homem na Lua, 50 / Roberto Dias 18/07/2019;
2h “Até o regime soviético, que perdia uma batalha da Guerra Fria, permitiu que o fato fosse noticiado. A chegada do ho- mem à Lua é algo tão extraordinário que até hoje um quarto dos brasileiros não consegue acreditar. O que dá ideia do desafio jornalístico”. Cita-se manchetes de jornais para o feito histórico.
Fonte: produção própria
Título Veículo / Fonte Coluna / Autor Data / hora Resumo
4. Um em cada quatro brasileiros diz que pouso lunar é mentira Folha de S.Paulo (Versão Online) https://www1.folha.uol. com.br/ciencia/2019/07/ um-em-cada-quatro- brasileiros-diz-que- pouso-lunar-e-mentira. shtml Ciência / 50 Anos Apolo 11 / Blog Mensageiro Sideral / Salvador Nogueira 16/07/2019;
2h “Descrença é maior entre pessoas que já eram nascidas em 1969, diz Datafolha”. Pesquisa realizada entre os dias 4 e 5 de julho, em 103 cidades brasileiras. “Entre os 2.086 participantes, 70% consideram que, sim, Neil Armstrong e Buzz caminharam na Lua em 20 de julho de 1969. Já outros 26% acham que não, e 4% declararam não saber. Entre os que cursaram apenas o ensino fundamental, 38% dizem que as viagens à Lua foram uma mentira e 8% dizem não saber. No grupo dos que têm até o ensino médio, os que acham que as missões não aconteceram caem para 21%, e os que não sabem, para 3%. Por fim, dentre os que têm ensino superior, apenas 14% consideram as missões uma fraude, e só 2% dizem não saber”. Fonte: produção própria
4.6. O ACONTECIMENTO DE 50 ANOS REEDITADO PELO PÚBICO E FOLHA DE S.PAULO
Como já descrito, os jornais Público e Folha de S.Paulo, dedicaram ampla cobertura aos fatos relativos ao acontecimento dos 50 anos do homem na Lua. Identificamos variadas formas de apresentação das notícias, depoimentos, opiniões, histórias, óbitos dos personagens, Ilustrações, infográficos, fotografias (via banco de dados da Nasa), áudios e vídeos, compôs a representação do acontecimento, por aproxi- madamente um mês. Para esta análise, a delimitação temporal foi de 9 dias, entre junho e julho de 2019.
Gráfico 2. O percentual de publicações das doze categorias de análise
Fonte: produção própria
Nesta análise, como especificado anteriormente, agrupou-se as informações em 12 categorias, envol- vendo 65 notícias, nos gêneros reportagem, matéria e coluna opinativa. Como podemos observar no gráfico 2, alguns temas tiveram mais publicações que a média de espaços dedicados a outros, sendo de 3 a 10 por cento.
Acima disso, por exemplo, a categoria “Fatos decorrentes, peculiaridades”, com 27 por cento das pu- blicações, demonstra que ao reeditar o acontecimento, os jornais perseguem o tom de impacto, con- sequente do fato e assim, procuraram trazer desdobramentos resultantes da missão do homem à Lua, nestes 50 anos. No subtema sobre particularidades, os episódios noticiados contribuem para evidenciar ainda mais o sentido de sensacional que o fato carrega, seja em ações dos personagens ou no resultado proveniente da missão espacial, como melhorias em tecnologia e produtos.
A partir deste entendimento, observamos que o Público, por exemplo, divulgou, dentre as particulari- dades, sobre o trabalho da operária portuguesa, Maria Isilda Ribeiro, que trabalhava na fábrica Annin, em Nova Jérsia e foi quem coseu a bandeira americana que o astronauta Neil Armstrong fixou no solo lunar. A Folha de S.Paulo, trouxe uma matéria que explica sobre o avanço da fotografia, Câmaras Hasselblad foram criadas para a missão. A concorrência da melhor fotografia analógica também fez parte da corrida espacial. Devido a missão, muitas câmaras, lentes e filmes foram desenvolvidos para
Para melhor visualização das categorias criadas, o gráfico 2 apresenta o percentual de notícias publica- das em cada categoria. Ao agrupá-las evidenciam-se aquelas temáticas que ganharam mais espaços nos jornais Público e Folha de S.Paulo. Período esse das publicações noticiosas, nas subcolunas “50 anos Apollo 11” e “Homem na lua, 50”, respectivamente, divulgadas nas editorias de Ciência.
Observa-se que as notícias sobre fake news e teorias conspiratórias surgem em quase todos os dias da edição. Assim, recebeu mais atenção que os fatores econômicos e os recursos despendidos na missão. É notável que a mídia tem ocupado-se deste tema, nos últimos tempos, até por conta do crescimento da problemática decorrente da propagação de notícias falsas. Além disso, podemos inferir que esse tipo de teorias encontra no fato do homem ter pisado na Lua um elemento de contestação e descrédito contundente, por parte daqueles que entendem ser o fato, uma conspiração americana.
Tais argumentos disseminam-se desde os tempos da Guerra Fria, quando da disputa entre russos e americanos pelo protagonismo da conquista da Lua. As notícias enfrentaram estas questões e mostram que os argumentos para descréditos continuam sendo os mesmos de 50 anos atrás, ou seja, já torna- ram-se crença entre os que propagam a teoria de que o homem não foi à Lua.
Os dados do gráfico 2 mostram que a maioria das notícias agrupadas nas categorias que elencamos e que estão abaixo de dez por cento dos mais noticiados, tratam de eventos programados para acontecer no período comemorativo, envolvendo principalmente planetários e museus. Abordam também sobre as mulheres astronautas que já representam um importante papel nas missões espaciais. Governos agora querem incentivar ida à Lua por astronautas mulheres e já planejam missões para os próximos anos. A Nasa anuncia para 2024, o projeto chamado de Ártemis. Nesta área, o protagonismo feminino, por anos ofuscado, alcança espaço nesta área e na mídia, também na medida em que as pesquisadoras morrem, como é o caso da matemática, Katherine Johnson, uma mulher por trás do sucesso da Apollo 11, e que teve seus feitos amplamente noticiado após a morte.
A categoria que aborda sobre o fato histórico, foi narrado e descrito em onze peças, com reportagens que resgataram o acontecimento em detalhes e valeram-se de dados e fotos, disponibilizados pela Nasa. Neste conspecto é importante ainda observar que o critério noticioso das publicações peculiares sobre os 50 anos do homem à Lua permeou todo o conteúdo veiculado.
Outros recursos adotados pelos jornais para contar o fato, foram infográficos, ricos em detalhes e inte- rações. Especialmente para as edições online, aos podcasts, com sons e áudios resgatados dos arquivos da Nasa tiveram protagonismo nas produções. Três reportagens específicas narram a diversidade de filmes, séries e documentários sobre o fato da missão Apollo 11. Assim, constatamos que os jornais ao debruçaram-se sobre este tema, trouxeram uma variedade de formas e recursos midiáticos para contar e apresentar uma história sagaz sobre a façanha humana na Lua.
CONCLUSÕES
Ao considerar a proposta inicial deste artigo e tendo como objeto de estudo os 50 anos do homem à Lua, numa reedição do acontecimento pela mídia em 2019, identificamos os sentidos midiáticos desta reedição temática, pelos jornais Público e Folha de S.Paulo. A partir de um material empírico amplo, da delimitação do corpus que contemplou as colunas de Ciência dos dois jornais, na versão online, no
período de 13 de junho à 22 de julho, de 2019, conseguimos alcançar entendimentos que reforçam as noções das principais teorias descritas.
Do ponto de vista temático é notório que o tema Espaço Sideral é por si um fator de tematização a ser explorado pelos jornais. Trata-se de uma área bastante ampla que já não restringe-se as diretrizes da Física convencional. É evidente também que os jornais se atêm mais aos acontecimentos que resultam de pesquisas e missões espaciais. Deste modo, a missão Apollo 11possibilita desdobramentos noticiosos até os dias de hoje, como verificamos na análise.
Nossa pergunta norteadora quis alcançar entendimentos variados e sentidos variados, sobre aquilo que as publicações possibilitaram identificar. A primeira, como já destacado, deixa evidente que o tema alcança amplitude de possibilidades de assuntos. Em ambos os jornais conseguimos identificar pela variedade de subtemas a partir do tema principal. O gráfico 2 detalha a variedade de subtemas que o tema gerador possibilitou.
O segundo entendimento alcança uma discussão mais ampla em relação ao agendamento. Os jornais, em alguns assuntos aparentam ter combinado mutuamente a pauta da edição. No entanto, sabemos que nas engrenagens produtivas dos mídias orbitam continuamente as mesmas fontes, mesmas agên- cias e assessorias.
Evidentemente que, em se tratando de temas sobre o espaço, as agências espaciais contribuem com as publicações, nomeadamente, neste episódio do homem à Lua, está restrita à Nasa. Por tanto é compreensível que as fotografias, os vídeos e até mesmo a maioria das fontes, tenham na agência americana o maior volume de dados. Além disso, o fato comemorativo faz com que a agenda noti- ciosa seja retomada.
O terceiro entendimento encontra no fato do homem ter chegado à Lua, descrito pelos jornais, como um acontecimento astronômico do século XX, como assinalaram as publicações da reedição do fato. Um dos entendimentos a que nos propomos foi o de procurar abranger o significado que o aconteci- mento tem, em virtude do futuro das missões espaciais. Isso posto, foi fundamental abranger sobre os indicativos dos jornais, uma vez que o volume de notícias, sobre as missões futuras à Lua adquire, cada vez mais, importância noticiosa, como constatamos pelas notícias dos primeiros dias do ano de 2019, sobre a missão chinesa Chang’e 4, no lado oculto da Lua, dentre outras.
Para tanto, foi necessário acompanhar as notícias sistematicamente e por um período maior daquele da análise. Assim, identificamos que há, pela condução noticiosa, uma corrida espacial em curso, envol- vendo novamente a Lua. No entanto, esta nova era da corrida espacial não envolve somente governos e suas políticas ideológicas, mas o capital financeiro. Grande empresas e magnatas visionários estão a trabalhar intensamente para preparar as próximas missões lunares.
Ao compartimentarmos os dados em categorias fica visível que a temática publicada nos jornais con- verge para sentidos semelhantes, em ambos, os veículos noticiosos, como demonstrado nos quadros ilustrativos e no gráfico 2. O alinhamento editorial deste tema pode ser visualizado claramente, quando ao fatiarmos as publicações e depois agruparmos em categorias, alcançamos um entendimento mais amplo sobre os significados, dentre os quais, o de que o advento do homem à Lua possibilitou melho- rias e desenvolvimento em várias áreas da vida humana.
O outro argumento identificado nas produções jornalísticas é a de que ir à Lua é novamente necessário e novas descobertas e inovações tecnológicas podem advir do novo acontecimento. Essas ponderações descritas, possibilitam constatar que a análise conseguiu identificar e alcançar os sentidos aos quais se propôs. A partir desta suposição, adquirimos melhor percepção sobre a produção noticiosa, ao circun- dar os temas, sobre o Espaço Sideral, pela mídia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARDIN, L. Análise de conteúdo (L. de A. Rego & A. Pinheiro, Trads.). (2006). Lisboa: Edições 70. (Obra original publicada em 1977).
FOLHA DE S.P (versão online). (2019). Coluna Ciência: Homem na Lua, 50. Consultada a: junho/ julho, 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/homem-na-lua-50.
GOMIS, L. (2004). Os interessados produzem e fornecem os fatos. Estudos em Jornalismo e Mídia (Florianópolis), v. 1 nº.1.
HOHLFELDT, A. (1997). Agenda-Setting: Os estudos sobre a hipótese de agendamento. Porto Alegre: Revista Famecos, nº 7, edição semestral - novembro. pp. 42-51. MOTTA, L. G., & COSTA, G. B., & LIMA, J. A. (2004). Notícia e construção de
sentidos: análise da narrativa jornalística. Intercom, v. 27, n. 2, jul./dez. 2004.
Consultada a: 8. jan. 2020. Disponível em: http://www.portcom.intercom. org.br/revistas/index.php/revistaintercom/article/viewArticle/1067.
MCCOMBS, M. (2006). Estableciendo la agenda. El impacto de los médios en la
opinión pública y en el conocimiento. Barcelona: Ediciones Paidós.
MCCOMBS, M. (2004). A teoria da agenda: a mídia e a opinião pública. Petrópolis: Vozes. MCCOMBS, M.; SHAW, D. (1972). The agenda-setting function of mass media.
Public Opinion Quaterly, v. 36, n. 2, p. 176-182, Summer. POPPER, K. (1972). A Lógica da Pesquisa Científica. Trad. Mota O. e Hegenberg L. São Paulo: Cultrix.
PÚBLICO (versão online). (2019). Coluna Ciência: 50 Anos Apolo 11. Consultada a: junho/julho, 2019. Disponível em: https://www.publico.pt/ciencia/espaco.
RODRIGUES, A. D. (1993). O Acontecimento. In: Traquina, N. (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, pp. 27-33.
SANTOS, J. M. (2005). O Pensamento de Niklas Luhmann. Covilhã: Edição e Execução Gráfica, Serviços Gráficos da Universidade da Beira Interior.
SOUSA, J. P. (2005). Construindo uma teoria multifactorial da notícia como uma Teoria
do Jornalismo. Estudos em Jornalismo e Mídia, vol. II nº 1 - 1º Semestre.
SOUSA, J. P. (2002). Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos. SODRÉ, M. (2009). A narração do fato: notas para uma teoria
do acontecimento. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes.
TRAQUINA, N. (1995). O paradigma do agenda-setting: Redescoberta do poder do
jornalismo. Revista Comunicação e Linguagens. Lisboa: Cosmos, número 21 e 22.