3.2 The risks posed by implementation of Article 17
3.2.2 Individuals’ freedom of expression and information
Bolter e Grusin (1998) afirmam que novos meios de comunicação tendem historicamente a reprodu- zir e alargar características e princípios daqueles que os precederam, enquanto que os antigos buscam emular recursos novos, o que denominam de remediação (remediation). Fundado no estudo dos meios e suas configurações, o conceito leva ao entendimento de que as práticas profissionais se transformam a partir da apropriação das potencialidades e limitações das mídias e, consequentemente, tem-se também uma alteração no âmbito do consumo.
Percebe-se, a partir das etapas evolutivas do jornalismo digital, que há, na fase mais recente, um gran- de investimento em elementos como multimidialidade e interatividade (Palacios, 2002; Rost, 2014; Salaverría, 2014) para oferecer ao público produtos que gerem engajamento e fidelizem a relação entre audiência e veículos. Desde o seu surgimento no Brasil, em 1995, o jornalismo digital vem sendo estu- dado por diferentes autores e pelo menos cinco etapas evolutivas constituem o histórico desta prática (Mielniczuk, 2003; Barbosa et. al., 2013) – dentre as quais é pertinente destacar, nesta investigação, as duas mais recentes.
A quarta constitui-se pelas atividades e produtos estruturados em bases de dados, bem como pelo desenvolvimento de sistemas de gestão de conteúdos mais complexos; acesso expandido por conexões banda larga; proliferação de plataformas móveis; incorporação de sistemas que habilitam a participação efetiva do usuário na produção; sites dinâmicos e narrativas multimídia; uso do conceito de geolocali- zação de notícias; aplicação de novas técnicas para gerar visualizações diferenciadas para os conteúdos jornalísticos (Barbosa, 2013; Barbosa et. al., 2016).
A quinta etapa tem como marca o uso das mídias móveis como “agentes propulsores de um novo ci- clo de inovação, no qual a emergência dos chamados aplicativos jornalísticos autóctones para tablets são produtos paradigmáticos” (Barbosa et. al., 2013, 34). Além disso, revela um nível expressivo de replicação de conteúdos na distribuição multiplataforma, acarretando, muitas vezes, no surgimento de edições extras, com a finalidade de atrair o público por um período mais longo de tempo, o que impacta nas práticas profissionais.
Ou seja, a evolução da prática jornalística em rede vem se desenvolvendo dentro do contexto de con- vergência midiática (Jenkins, 2009), um processo que impacta não apenas produtores, mas também o público receptor. Assim, entende-se que, imersos nestas transformações, os veículos jornalísticos favo- recem a formação de uma nova literacia, compatível com os dispositivos digitais contemporâneos, cuja produção de conteúdo estrutura-se em multiplataforma. Portanto, é necessário considerar alterações significativas na esfera do consumo.
Jenkins (2009, 47) fala sobre narrativa transmidiática, que envolve consumidores que “devem assumir o papel de caçadores e coletores, perseguindo pedaços da história pelos diferentes canais”. Para o autor, a convergência é um movimento contínuo em que há um fluxo de conteúdos em diversos suportes midiáticos, a cooperação de mercados de mídia e um comportamento de migração da audiência que transita entre diferentes plataformas na busca de experiências.
A preocupação com a circulação multiplataforma, na visão de Bastos (2012), dá ênfase na forma e na eficácia da distribuição, bem como na tecnologia, deixando de lado a eficácia da informação, acarretan- do falta de diversidade noticiosa. Projetos Pro-Am (profissionais atuando em parceria com amadores)
e o emprego efetivo da interatividade, do hipertexto e da hipermídia para a criação de narrativas jorna- lísticas originais também são apontados por Barbosa (2009) como elementos essenciais do processo de convergência jornalística – contudo, nem sempre dão conta das necessidades ou desejos da audiência, nem a fideliza.
Percebe-se uma complexidade na relação entre empresa/veículo e público. Constitui-se e agencia-se um contrato de leitura, fundado na confiança entre ambos e responsável por sustentar o hábito de con- sumo (Véron, 1985). Tal noção, elaborada no contexto dos meios de comunicação tradicionais, pode ser aproximada das mídias digitais, considerando-se o cenário contemporâneo multifacetado, dadas as esferas envolvidas em intensivas modificações e articulações instáveis.
Enquanto as empresas aprendem a criar conteúdos multiplataforma e acelerar o fluxo dos mesmos pelos canais de distribuição, os consumidores utilizam as tecnologias para ter um controle mais completo sobre tal fluência e interagir uns com os outros. Assim, novas formas de literacia (Melão, 2010) desafiam os produtores de conteúdo e também o público, que precisa ampliar e adaptar suas habilidades de leitura, muitas vezes abandonando experiências no suporte em papel em detrimento daquelas que envolvem os suportes digitais – o que é recorrente com gerações mais jovens, conforme estuda-se neste estudo.
No Brasil, conforme o último censo, realizado em 2010, das 190,7 milhões de pessoas, 7,9% eram crianças entre 5 e 9 anos – ou seja, atualmente estão em idade para cursar o Ensino Médio. No Rio Grande do Sul, 6,8% ficavam nesta faixa etária, e em Santa Cruz do Sul, cidade onde a pesquisa foi sendo realizada, 6,1%. (IBGE, 2010)2. Este grupo de nativos digitais nasceu no período em que a
tecnologia estava começando a reestruturar os modos de socialização e de consumo, apresentando forte afinidade com os dispositivos tecnológicos. Para eles, o uso de ferramentas digitais ocorre desde a infância (Linne, 2014) e a influência do acesso à internet é evidente, dentre outros âmbitos, nos hábitos de leitura.
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 3, realizada pelo Instituto Pró-Livro3 (Failla,
2012), muitos jovens não leem porque acreditam que o livro é “um objeto ultrapassado”, e ficam mais satisfeitos em acessar informações disponíveis na internet. Contudo, não fazem uma leitura crítica, a fim de “refletir sobre seus significados ou intenções de seus autores” (Failla, 2012, 22). Conforme Prensky (2001), o formando médio nas universidades atualmente passou menos de 5.000 horas de sua vida lendo, mas mais de 10.000 horas jogando videogame e 20.000 horas assistindo TV. Esses alunos pensam e processam informações de maneira diferente de seus predecessores, o que escapa à compreensão dos educadores, pois tem relação com uma nova estrutura do cérebro, conse- quência das novas experiências. “O cérebro muda e se reorganiza de forma diferente, dependendo dos estímulos que recebe” (Prensky, 2001, 1).
Ou seja, o hiato entre gerações não é apenas cultural, mas neural (Small; Vorgan, 2011, 77). Esta evolução, segundo os autores, tem aspectos negativos, pois o cérebro “se afasta de habilidades sociais primárias, como interpretar expressões faciais durante conversas ou compreender o contexto emo- cional de um gesto sutil” (Small; Vorgan, 2011, 77-78). Em contrapartida, Tapscott (2010, 349)
diz que os nativos digitais estão lendo mais “textos não ficcionais online”. Citando pesquisa da Uni- versidade de Connecticut, o autor afirma que as habilidades de leitura tradicional (offline) e online são diferentes. No ambiente virtual há uma complexidade, visto que o leitor não é levado pela mão ao longo do caminho, precisando construir a sua própria narrativa e seus próprios cenários. Precisa, ainda, ser capaz de detectar uma fraude e não se deixar distrair por todas as informações interessantes que estão disponíveis.
Conforme já pontuamos, a materialidade dos artefatos portadores de texto exige letramentos diver- sos, que estão associados ao domínio de diferentes camadas que compõem os dispositivos. (Linde- mann et. al., 2019) A primeira é constituída do hardware; a segunda abrange sistemas operacionais que são intermediários entre componentes físicos e programas; a terceira é composta de softwares que permitem acessar conteúdos multimodais; na quarta camada está o conteúdo digital que se quer efetivamente ler/ver/ouvir/interagir. Existem também aplicativos integrados a iniciativas conver- gentes que agregam a terceira e quarta camadas. Cada uma apresenta affordances que conformam experiências de consumo e que podem integrar-se ao uso de redes sociais e plataformas de vídeos, música, jogos etc. (Gruszynsky, 2016)
Assim, a leitura de um jornal multiplataforma demanda competências básicas de interação com o suporte (ligar, desligar, utilizar botões, carregar bateria etc.), dos sistemas operacionais a eles associa- dos, bem como de outros softwares (browsers ou aplicativos próprios) – ou seja, conhecimentos que fazem parte dos fundamentos da literacia digital. Ainda é preciso reconhecer formas e elementos que são tradicionais no jornal impresso, como a sua marca, organização temática em editorias, modos de hierarquização de informações etc. –, bem como o próprio jornalismo enquanto prática social. Neste sentido, infere-se a necessidade de uma base de conhecimentos que envolve a literacia da informação e midiática. (Bawden, 2008)
Dentre as competências centrais Bawden (2008) pontua o desenvolvimento de aptidões e conhecimen- tos ligados às affordances próprias dos suportes e plataformas. Há, por exemplo, a possibilidade de integrar outras referências temporais e espaciais – atualização contínua e não mais diária, como no impresso; acesso a conteúdos online e offline; direcionamento de conteúdo conforme geolocalização ou comportamento dos usuários; narrativas multimídia que direcionem o usuário para outras plataformas (Facebook, Instagram, Youtube etc.).
A opção por um suporte ou outro para acessar os conteúdos de um determinado jornal atende a interesses diversos, hábitos, rotinas, entre outros aspectos, que implicam a capacidade individual e também se relacionam com práticas socialmente compartilhadas. (Lindemann et. al., 2019). Atitudes
e perspectivas podem emergir daí, pois a circulação multiplataforma viabiliza uma variedade de modos
de interação com os conteúdos da publicação. (Bawden, 2008)
Partindo-se do entendimento da literacia midiática e digital a partir de Hobbs (2010), infere-se que no âmbito da convergência jornalística há potenciais para sua ampliação pelo contato com novos dis- positivos, por mudanças que, conforme já pontuou-se a partir de Bolter e Grusin (2000), envolvem a apropriação de linguagens, estilos e características de um meio por outro em dinâmicas de remediação. Tal processo, supõe-se, ocorre de maneira espontânea entre os integrantes da chamada geração Z – conforme avalia-se a seguir em um pequeno grupo de estudantes.
4. METODOLOGIA
Esta pesquisa volta-se para um fenômeno social da contemporaneidade – o que é característico do campo da Comunicação, cuja essência é multifacetada e multidisciplinar (Lopes, 2005) – e tem como objetivo principal compreender como se configura o processo de consumo de conteúdo jornalístico en- tre os estudantes de Ensino Médio das escolas Mauá e Ernesto Alves, de Santa Cruz do Sul-RS. Fez-se uso da pesquisa bibliográfica e de questionário com questões abertas e fechadas para desenvolvimento do arcabouço teórico e levantamento dos dados empíricos.
De acordo com Lopes (2005, 104), “a teoria guia, seleciona e recorta o fenômeno ou objeto real para constituí-lo em problema ou objeto de pesquisa”. Respaldando-se neste princípio, os estudos sobre literacia (Melão, 2010; García, 2009; Bawden, 2008) e convergência midiática (Bolter, Grusin, 1998; Jenkins, 2009) foram basilares nesta investigação, considerando-se sobretudo o perfil de comporta- mento da chamada geração Z (Campeiz et. al., 2017; Prensky, 2001). Além de sustentar as etapas iniciais da pesquisa, tal procedimento metodológico também foi fundamental na análise dos dados coletados (Stumpf, 2005; Lopes, 2005).
Considerando-se que “a opção pelos métodos é imposta antes pela teoria que pelos fatos da realidade” (Lopes, 2005, 104), ou seja, que “a pertinência ao objeto é sempre teórico-metodológica (grifo da autora)” (Lopes, 2005, 104), a coleta de dados empíricos se deu através de entrevistas no formato de questionário, construído a partir do referencial teórico-conceitual, composto por 37 questões – 31 fe- chadas e 6 abertas. O instrumento foi aplicado em formato papel, em maio de 2019, a 101 estudantes do Ensino Médio das escolas Ernesto Alves (46 alunos) e Mauá (55 alunos), das redes pública e privada de Santa Cruz do Sul-RS, respectivamente.
De abordagem quanti-qualitativa – uma vez que foram apuradas informações com valor estatístico e também respostas abertas que permitiram aos participantes responderem livremente –, a pesquisa foi realizada junto a duas instituições de ensino com nível médio bastante tradicionais na cidade sede do campus central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) nos âmbitos particular e público; já a amostra de alunos selecionados para responder ao questionário foi definida de modo aleatório, con- soante a disponibilidade dos professores e turmas.
Gaskell e Bauer (2002) apontam que as entrevistas podem ser tomadas como um método4 ou como
uma técnica, fornecendo dados básicos para o desenvolvimento e compreensão das relações entre os atores sociais e a sua situação. No presente estudo, tomou-se a entrevista como técnica, sendo que a mesma foi suficiente para cumprir os objetivos propostos. Optou-se pelo modelo survey – também chamado, no Brasil, de pesquisa de opinião (Novelli, 2006) –, categoria interseccional, ou seja, com o objetivo de retratar a realidade em um dado momento, não de acompanhar a evolução ou fazer comparações com a amostra aplicando questionários futuros, o que configuraria o tipo longitudinal (Babbie, 1990).
Elaborou-se um texto de abertura, apresentando o propósito do estudo (Novelli, 2006), seguindo de campos para preenchimento de dados de perfil dos participantes e, por fim, 37 questões foram elabo- radas com base nos objetivos da pesquisa. Os 101 estudantes foram inquiridos sobre seus hábitos de
consumo de conteúdo midiático, fornecendo um montante considerável de dados quanti e qualitati- vos. Optou-se pelo anonimato dos alunos para evitar constrangimentos e também por entender que esta não era uma informação relevante para a investigação. Acredita-se, ainda, que tal medida possa ter elevado o nível de honestidade nas respostas.