Space and Geometry
III 4.4. “Practical geometry” from empirical research
Uma observação reiteradamente feita na literatura sobre o clítico SE nas línguas românicas é a de que sentenças médias genéricas são produto de uma dada interpretação atribuída a sentenças passivas (cf. CINQUE, 1988; LEKAKOU, 2005:1; DOBROVIE-SORIN, 2006). Observe os exemplos do francês abaixo que ilustram isso:
(61) Média:
Le grec se traduit facilement.
the Greek SE translates easily ‘Grego (se) traduz facilmente.’
(62) Passiva (com aspecto) habitual Les pommes se mangent en hiver. Apples SE eat during winter.
‘Maçãs são comidas durante o inverno. ’ (63) Passiva eventiva (com tempo especificado):
Il s’est traduit trois romans
it SE has translated three novels ‘Três romances foram traduzidos.’
(DOBROVIE-SORIN, 2006:122)
Os exemplos acima mostram que médias se agrupam naturalmente com passivas habituais em francês e diferem de passivas eventivas. É possível dividir os dados acima em dois grupos com base em similaridades. As sentenças (61) e (62) parecem ter a mesma estrutura: o objeto está anteposto ao verbo, há um clítico SE e um modificador na sentença. Na sentença (63), por outro lado, o objeto está in situ e há um expletivo: ‘Il’.
Todavia, esses exemplos não invalidam a observação de que anticausativas, em geral, podem ocorrer sem o clítico em PB. Outra questão que deve ser levada em conta é o fato de que o ProjetoSP2010 é um corpus de entrevista. Os falantes cuidam mais do que falam em contextos de fala monitorada.
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Há ainda mais uma semelhança entre (61) e (62): ambas as sentenças estão no ‘presente’, mas possuem distinções aspectuais. Na sentença (61), observamos o uso da forma de presente como presente genérico. Isto é, (61) é uma asserção sobre uma propriedade da língua grega que, idealmente, será tomada como verdade em qualquer situação não-genérica em que o evento de traduzir tal língua ocorra. Na sentença em (62), a forma do presente é usada para expressar presente habitual. Embora nenhuma distinção morfológica seja visível, não se pode dizer que, na sentença em (62), tal como na sentença em (61), uma propriedade da maçã é tomada como verdade em qualquer situação não-genérica em que o evento de comer maçã ocorra. Em outras palavras, não pode ser atribuída a uma maçã a propriedade de ser comida somente no inverno, por exemplo. Assim, pelo contraste com a sentença (61), percebemos que (62) é uma sentença habitual, que descreve um hábito que ocorre em dadas condições, no caso, comer maçãs no inverno.18 Como já estabelecido na literatura (cf. e.g. LEKAKOU, 2005:1, entre outros), médias, em línguas românicas, são sentenças passivas com um operador genérico.
Dito isso, devemos nos perguntar como seriam as médias do PB, visto que as sentenças SE-passivas são tidas como quase inexistentes nessa língua. Mais explicitamente, se a proposta de que SE-médias são SE-passivas com um operador genérico está certa e levando em conta que SE-passivas são (quase) inexistentes no PB, como derivar SE-médias nessa língua? A estrutura das médias marcadas e não-marcadas no PB será explorada com detalhes no Capítulo 4, mas, por ora, cabe ressaltar que, mesmo as médias marcadas dessa língua são diferentes das sentenças correspondentes em outras línguas românicas. Essa diferença se deve à estrutura de pro em PB, como antecipado na seção 2.1.
Uma primeira diferença é a concordância do verbo com o argumento interno, promovido a sujeito. Enquanto nas línguas românicas não há restrição quanto à presença de um DP plural ou singular na posição de sujeito dessas orações, no PB só um DP singular é, geralmente, licenciado nessa posição. Observe o contraste entre (64) e (65).
(64) Essa camiseta se lava facilmente. (65) *Essas camisetas se lavam facilmente.19
18 O leitor interessado pode consultar Cinque (1988) em que alguns testes sintáticos são oferecidos para distinguir sentenças médias de passivas em italiano. Um deles é o fato de passivas nessa língua não aceitarem sentenças infinitivas e médias aceitarem-nas marginalmente.
19 Em uma primeira consulta informal a falantes nativos de PB, todos os quatro falantes consultados julgaram (65) como uma sentença agramatical. Durante a escrita da tese, entretanto, um falante julgou essa sentença boa, o que
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A sentença em (65), se interpretada como possível, remete a uma interpretação reflexiva e não a uma interpretação média. Além disso, a impossibilidade de (65) pode ser atribuída à escassez – ou à agramaticalidade, para alguns falantes – de SE-passivas em PB. Assim, embora uma sentença como (66) seja possível para alguns falantes do PB, ela é restrita à fala e à escrita formais.
(66) Consertam-se brinquedos.
Nunes (1990), em um estudo que contempla tanto corpora escritos diacrônicos quanto um corpus falado sincrônico, observa que o decréscimo de uso de construções como (66) alinha-se à implantação da rigidez da ordem S-V-DP em PB. Dito de outra forma, a frequência de ocorrência de (66) diminuiu drasticamente à medida que os sujeitos se especializaram na posição pré-verbal em PB.
Com essa mudança, o DP brinquedos em (66) passou a ser analisado como um objeto pelos falantes e não mais como um sujeito. Prova disso é o fato de que tal constituinte não pode ser pré-verbal em PB, mas pode sê-lo em PE (cf. (67) e (68)).
(67) Os bolos comem-se. (ELISEU, 1984 apud NUNES, 1990:62) (68) Essas salsichas compraram-se ontem no talho Sanzot.
(RAPOSO E URIAGEREKA, 1996:750)
Isso mostra que, no PB, diferentemente de outras línguas românicas, a formação de SE- médias e SE-passivas não parece ser coincidente. Uma diferença entre os dois tipos de evento é a de que a sentença em (64) é gramatical com um DP singular anteposto; por outro lado,
me fez perguntar sobre a boa formação de (65) para mais quatro falantes. Desses, um aceitou a sentença e três não. Interessantemente, um dos falantes disse que se tratava de hipercorreção. Os dois falantes que julgam (65) como
uma boa sentença não aceitam, contudo, médias como ‘Os bolos se comem quentes’ e ‘Alimentos baratos se compram naquele supermercado’, que deveriam ser gramaticais como (65), se a possibilidade de formar médias
com verbos concordando com o DP anteposto fosse, de fato, produtiva no PB. Hipotetizo, então, que a gramaticalidade de (65) para alguns falantes é fruto de escolarização. Mais especificamente, a leitura de textos formais expôs falantes a estruturas como (65), que passaram a ser consideradas como possíveis por alguns deles. Todavia, a estrutura não é produtiva porque não faz parte da gramática adquirida do PB e só se manifesta em alguns casos idiossincráticos.
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sentenças com interpretação passiva não são gramaticais com um DP anteposto, como a agramaticalidade de sentenças (67) e (68) em PB pode atestar.
Pode-se argumentar que essa diferença se dá porque o DP está em uma posição de tópico em sentenças médias, mas em uma posição argumental em passivas. Isso será mais bem discutido no Capítulo 4. Como essa diferença será examinada mais adiante, o importante a ressaltar nesta seção é uma restrição para as sentenças SE-médias e SE-passivas aparentemente só encontrada em PB: constituintes pré-verbais são inteiramente banidos em SE-passivas e SE-médias só são possíveis se o constituinte pré-verbal estiver no singular.
Levando em conta que as construções com SE ainda existem no PB, teríamos de nos perguntar porque SE-médias teriam essa distribuição tão atípica nessa língua. Minha resposta é que isso se deve às propriedades de pro em PB.
Nunes (1990), ao investigar a reanálise de sentenças SE-passivas (em que o verbo concorda com o argumento interno) para sentenças SE-impessoais (em que o verbo se mantém invariavelmente no singular), defende que, além do enrijecimento da ordem S-V-DP ter contribuído para a reanálise de passivas como impessoais, a categoria pro em PB foi também reanalisada.
Para exemplificação de tal reanálise, levemos em conta uma sentença estruturalmente ambígua como a que vemos em (69). Sabe-se que, além da diferença quanto à concordância, sentenças impessoais são tidas como sentenças transitivas, já que clíticos acusativos podem substituir o DP pleno, como se verá na próxima seção. Como o DP o material se encontra no singular, a sentença pode corresponder, estruturalmente, tanto a uma sentença impessoal (em que o verbo se mantém no singular, como em (69)b quanto a uma sentença passiva (em que há concordância entre o verbo e o argumento interno, cf. (69)a.
(69) Comprou-se o material.20
a. (Expl) comprou-sepe [o material]pi
b. prope comprou-sep0 [o material]pi
(NUNES, 1990:152)
20 pe = papel temático externo pi=papel temático interno
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A representação de uma sentença passiva, em (69)a, indica a presença de um expletivo (opcional), caso o DP fique em posição pós-verbal. Nessa estrutura, SE recebe papel temático externo e o DP o material, papel temático interno. Em sentenças impessoais, representadas por (69), para o autor, há a presença compulsória de um pro, o qual recebe papel temático externo e está em cadeia com SE. A diferença entre (69)a e (69)b se daria, então, pela presença compulsória ou não de um elemento nulo que receberia nominativo. Nas passivas, haveria a presença de um expletivo, caso o DP ficasse in situ, ambos os constituintes recebendo caso por estarem em cadeia; nas sentenças impessoais, por outro lado, haveria a presença compulsória de um pro que recebe nominativo. Isso deriva o fato de que o verbo pode concordar com o DP plural, em sentenças passivas, se pro não estiver presente, na análise do autor, mas não pode estabelecer concordância em sentenças impessoais.
A escassez de estruturas compatíveis com uma derivação como a exposta em (69)a aponta para a reanálise de sentenças passivas em PB. Nunes afirma que essa mudança está ligada ao papel de pro. Mais especificamente, a reanálise de sentenças passivas como impessoais no PB seria como uma ‘gramaticalização’ de pro em PB como uma entidade referencial.
Esse parece ser um bom caminho de análise, mas perceba que, com essa explicação, não damos conta de dados de médias como os que vimos em (64) e (65), repetidos abaixo como (70) e (71). Não podemos atribuir a agramaticalidade de (71) a uma interpretação de pro referencial, visto que, em médias, o Agente implícito é concebido como uma entidade genérica.
(70) Essa camiseta se lava facilmente. (71) *Essas camisetas se lavam facilmente.
Se a mesma mudança de pro que levou as sentenças SE-passivas a serem reanalisadas como SE-impessoais também ocorreu nas SE-médias, como explicaríamos a possibilidade de um DP anteposto ser licenciado em SE-médias somente se o DP em questão estiver no singular? Uma resposta unificada para o caso de médias, passivas e impessoais parece residir, então, nos traços de pro. Nos três casos, pro é singular. O fato de que o constituinte poder estar anteposto em médias, mas não em sentenças passivas e impessoais em PB lança a hipótese de que ele é topicalizado em tais construções. Um dado como (72) parece comprovar essa hipótese.
67 (72) Essa camisa, ela lava fácil.
(72) mostra, então, que a derivação de sentenças médias parece ser bem diferente em PB e em outras línguas românicas. Enquanto outras línguas românicas formariam médias a partir de estruturas passivas, o PB teria uma formação independente para sentenças médias, com um DP gerado como tópico. A estrutura das sentenças médias em PB será discutida com mais detalhes no Capítulo 4.