Space and Geometry
III 4.4.2.2. Geometrizing physics
Pela proximidade com construções passivas, as sentenças impessoais já foram, indiretamente, tratadas na seção anterior. Nesta seção, ressalto mais algumas de suas propriedades.
A mais notória é a de que sentenças em que o DP pós-verbal está flexionado para o plural são gramaticais se o verbo estiver no singular no PB, como a tradução de (73) indica. Tal configuração é reportada como agramatical no espanhol.
(73) Se comieron*/comió todas las paellas anoche. Se comeram/comeu todas as paellas à noite. ‘Se comeu todas as paellas ontem à noite.’
(MACDONALD, 2015:8).
Nesse quesito, o espanhol parece ser um caso extremo. No italiano, de acordo com Cinque (1989), em certos casos, há opcionalidade de concordância. Compare (74) e (75), em que o DP tema está no plural, mas a concordância do verbo com tal elemento varia.
(74) Qui si mangia spesso gli spaghetti.
Here si often eats spaghettis. (CINQUE, 1988:554) ‘Aqui geralmente se come espaguetes.’ Sentença impessoal (75) Qui, gli spaghetti si magiano spesso.
Here spaghettis si often eat (are eaten). (CINQUE, 1988:554) ‘Aqui, geralmente, comem-se espaguetes.’ Sentença passiva
68
Uma diferença entre o italiano e o PB, no entanto, é o fato de a opcionalidade ser possível em todos os casos do PB, mas não do italiano.
(76) ??In Italia non si vede (sing.) molti indiani.
(77) In Italia non si vedono (pl.) molti indiani. ‘Na Itália, não se vê/veem muitos indianos.’
(CINQUE, 1988:555)
No PB falado, como se sabe, a forma sem concordância é a preferida, independentemente do tipo de verbo. Isso corrobora a visão de que a construção passiva foi reanalisada em PB, enquanto, nas outras línguas românicas, ela tem uma distribuição específica. Em suma, no espanhol, T concorda com o constituinte pós-verbal sempre que ele estiver no plural em SE-passivas, haja vista que a construção é reportada como agramatical se o DP estiver no plural e o verbo no singular; em italiano, isso ocorre em grande parte dos casos, mas há, também, alguns casos em que a construção impessoal não é possível ou é muito marginal (cf. (76)). Há, ainda, línguas como o romeno, em que a construção impessoal não existe, somente a passiva. Em construções em que o verbo e o DP se encontram no singular, nessa língua, o DP é marcado com caso nominativo (cf. DOBROVIE-SORIN, 2006).
O PB está distante do espanhol e do italiano nesse sentido e diametralmente oposto do romeno, já que pode ser dito que só as impessoais, de fato, existem nessa língua. As passivas são estruturas congeladas mantidas na língua escrita e na fala culta monitorada.
Dito isso, é possível salientar mais uma diferença entre as línguas em que há sentenças impessoais com SE e o PB. Nessas línguas, o objeto da sentença impessoal pode aparecer cliticizado, com uma forma acusativa. Isso não ocorre no PB. Veja alguns exemplos abaixo:
(78) Espanhol
Se llamó a los bomberos para apagar el incendio Se chamou aos bombeiros para apagar o incêndio. ‘Chamou-se aos bombeiros para apagar o fogo.’
69
(79) Italiano
Qui, li si mangia spesso.
Aqui eles.ACC se come sempre. ‘Aqui se come eles(=os macarrões) sempre.’
(CINQUE, 1989:554)
(80) PE
%Comprou-se-os ontem. ‘Se comprou eles ontem.’
(MARTINS E NUNES, 2015:8)
Seria possível dizer que a agramaticalidade desses exemplos, quando traduzidos para o PB, se deve ao fato de que o uso dos clíticos acusativos é bastante restrito nessa língua. Como as próprias traduções dos exemplos acima evidenciam, pronomes pessoais são, muitas vezes, sincréticos no PB, mantendo a mesma forma tanto no acusativo quanto no nominativo.
Todavia, um exemplo como (81) é gramatical tanto em PE, quanto em PB, nesta última língua, em sua variedade formal.
(81) Pode-se comprá-los amanhã. (MARTINS E NUNES, 2015:8) Assim, muito embora não se possa dizer que DPs recebem Caso nominativo em sentenças impessoais no PB, parece haver algum fator independente que impeça a realização de clíticos acusativos nas contrapartes das sentenças de (78) a (80). No exemplo em (81), o clítico acusativo recebe Caso do vezinho mais baixo, ligado ao verbo ‘comprar’ e não do vezinho ligado ao verbo modal. Seja qual for a razão dessa restrição (fonológica ou sintática), parece que vemos uma restrição independente em PB: por alguma razão, dois clíticos não podem aparecer seguidamente, mas dois clíticos são licenciados se houver um elemento interveniente entre eles.21
21 Repare que os dois clíticos em questão seriam o SE, em seu uso impessoal, e outro clítico com outra especificação em termos de traços-phi. O fato de SE impessoal não poder ocorrer com SE reflexivo é uma restrição
70
Outra questão que distancia o PB de outras línguas românicas é a possibilidade de se obter a interpretação de sentenças impessoais sem a morfologia característica: SE. Esse tipo de construção é geralmente chamada de null impersonal, uma opção aparentemente presente em todas as línguas parcialmente pro-drop. Essa construção vai ser mais explorada no Capítulo 6 . Observe um exemplo em (82).
(82) Não usa mais esse estilo de redação. (MARTINS E NUNES, 2015:14) Por ora, basta notarmos que SE-impessoais e null impersonals diferem, não só na presença do SE como na presença de um pro. Se pro é o elemento responsável pela interpretação humana em sentenças com SE, como vimos defendendo, outro elemento deve ser responsável por essa interpretação em null impersonals, visto que essas sentenças são geralmente agramaticais se expressões adverbiais orientadas para o agente são usadas (cf. (83)) entre outros testes a serem discutidos pertinentemente.
(83) *Não usa mais esse estilo de redação com atenção.
Nesta seção mostrei os aspectos em que as SE-impessoais do PB diferem de outras línguas românicas. A variação quanto à possibilidade de clíticos acusativos é bem pequena, visto que esses clíticos parecem ter uma distribuição restrita nas línguas examinadas. A grande diferença se encontra na possibilidade de a leitura impessoal surgir sem o SE em PB, possibilidade que não se verifica em mais nenhuma das outras línguas examinadas.
comum a todas as línguas com esse clítico, como mostra a agramaticalidade do exemplo abaixo, tanto em PB quanto em PE:
*Levanta-se-se cedo neste país. (MARTINS E NUNES, 2015:4) Em Martins e Nunes (manuscrito), essa restrição é analisada em termos de uma restrição de identidade (identity avoidance). Em termos gerais, quando há dois expoentes do clítico SE ou ME ou TE na mesma fase, a forma reflexiva do clítico, por ser a mais baixa, é deletada. Nos casos em que os clíticos estão em fases diferentes, o apagamento não ocorre.
ii. Eu pergunto-me se vou arrepender-*(me) depois. (MARTINS E NUNES,2015:4) MARTINS, A.M.; NUNES, J. Co-occurrence restrictions on clitics in European Portuguese and Minimalist
71