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Space and Geometry

IV 3. Lorentzian theories and the Michelson Morley experiment

Mencionei acima a propriedade de sentenças anticausativas de aceitarem adjuntos causais. Essa propriedade está, na verdade, correlacionada a uma dada estrutura. A título de comparação, observemos que o membro inacusativo da alternância agentiva, a ser tratado no Capítulo 5, não licencia adjuntos causais (48) nem eventos causadores (49).

(48) *O carro lavou com o vento.

(49) *O carro lavou com a força da Maria.

As sentenças anticausativas, por outro lado, aceitam tanto adjuntos causais (50), quanto eventos causadores (51).

(50) O portão abriu com o vento.

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Assumindo que adjuntos são licenciados em projeções que contenham traços semânticos compatíveis com os do adjunto (cf. ALEXIADOU, 1997:17; CINQUE, 1999:cap.1), será possível sugerir que há uma projeção v-CAUSE em sentenças anticausativas, como (50), mas não no membro inacusativo da alternância agentiva, em (48).

Como observam AAS (2006, 2015), isso nos leva a pensar que causatividade não é uma propriedade exclusiva de sentenças transitivas causativas, isto é, de sentenças que tenham um argumento externo, mas uma propriedade de uma dada estrutura. Se isso for verdade, sentenças anticausativas devem responder da mesma forma que sentenças causativas a testes sintáticos que acusem a presença de causatividade. Um teste que pode mostrar isso é o comportamento de sentenças anticausativas e causativas com o modificador de novo. Esse modificador evoca duas leituras – uma repetitiva e uma restitutiva, se a estrutura tiver semântica causativa. O exemplo (52), abaixo, mostra isso.

(52) João destruiu a lista de convidados de novo.

Leitura repetitiva: João não gostou da lista de convidados que a sua noiva fez para o casamento. Num ímpeto de raiva, João destruiu a lista. Sua noiva, pacientemente, escreveu uma segunda lista com modificações. João destruiu essa segunda versão também.

Leitura restitutiva: João não gostou da lista de convidados que a sua noiva fez para o casamento. Num ímpeto de raiva, João destruiu a lista. Sua noiva, pacientemente, remontou a lista com durex. João destruiu a lista de novo.

Com sentenças transitivas com verbos de atividade, somente a leitura repetitiva aparece. Consideremos (53) que exemplifica isso. Para uma sentença como essa, a única leitura possível é a de que João repetiu uma ação sobre a porta. Como verbos de atividade descrevem eventos que não precisam de um ponto final, a leitura restitutiva, que restitui um estado final, não estará presente.16 Assim, a leitura restitutiva proposta em (53) não pode ser obtida por pelo menos dois fatores: (i): não se sabe o estado anterior à ação de pintura da porta em virtude das propriedades do verbo usado; (ii) o fato de o João ter pintado a porta não quer dizer que toda a porta foi pintada. Isso, novamente, se deve ao tipo de verbo usado.

16 Salvo em casos em que esses verbos apareçam em sentenças resultativas, por exemplo. Mesmo assim, sentenças resultativas sempre possuem uma camada de resultado e é em virtude disso que a leitura resultativa está presente (cf. Embick, 2004).

96 (53) João pintou a porta de novo.

Leitura repetitiva: João pinta a porta de sua casa de 5 em 5 anos. Na última vez em que pintou a porta da sua casa ainda era 2010. Como estamos em 2015, então, ele pintou a porta de novo.

#Leitura restitutiva: A porta da casa de João estava descascando. João, então, pintou a porta para que ela voltasse a ser como era antes de a pintura começar a descascar.

Como o contraste com o verbo de atividade pretendeu mostrar, nos dois grupos de sentenças, causativas e anticausativas, que são transitivas e intransitivas, esse modificador é ambíguo, podendo se referir à repetição do evento todo ou de sua parte resultativa.17/18

(54) O portão abriu de novo.

Leitura repetitiva: O evento em que o portão abriu ocorreu novamente. No dia da chuva, o portão abriu de repente, com muita força. Para evitar que ele ficasse abrindo e quebrasse, o João colocou uma escora na base do portão, mas não foi suficiente, o portão abriu de novo. (Outra vez, houve um evento em que o portão abriu)

Leitura restitutiva: O estado resultante (em que o portão estava aberto) ocorreu novamente. No dia da chuva, o vento não deixava o portão parar fechado: ele ficava abrindo e fechando o tempo todo. Aí, o João deixou o portão aberto e escorado para que ele não ficasse batendo com a ventania. Quando a Maria entrou, ela esbarrou na escora que segurava o portão, mas não percebeu. Daí ele fechou, mas, como não tinha uma trava forte, o portão abriu de novo e começou a bateção outra vez. O portão estava aberto antes e, outra vez, ele voltou para o estado de aberto.

(55) O vento abriu o portão de novo.

17 Outro teste que mostra que anticausativas são bieventivas é a ambiguidade com o modificador quase. Por exemplo, em A porta quase fechou, a porta quase começou a fechar ou quase terminou. Esse teste não foi aplicado no corpo do texo, mas o leitor pode perceber que os mesmos resultados seriam obtidos.

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Leitura repetitiva: No dia da chuva, o vento abriu o portão com muita força. Para evitar que ele quebrasse, o João colocou uma escora na base do portão, mas, o vento abriu o portão de novo. (Outra vez, houve um evento em que o vento abriu o portão)

Leitura restitutiva: No dia da chuva, o vento não deixava o portão parar fechado: ele ficava abrindo e fechando o tempo todo. Aí, o João deixou o portão aberto e escorado para que ele não ficasse batendo com a ventania. Quando a Maria entrou, ela pensou que era para fechar o portão e fechou. Daí, como a trava era frágil, o vento abriu o portão de novo e começou a bateção outra vez. O portão estava aberto antes e, outra vez, ele voltou para o estado de aberto.

Se leituras repetitivas e resitutivas existem tanto em sentenças causativas quanto em anticausativas, os dois grupos devem ter similaridades estruturais. Como sentenças causativas são concebidas como bieventivas (cf. DOWTY, 1979, capítulo 4), sendo compostas de um evento causal e um resultativo, pode-se dizer o mesmo para sentenças anticausativas. Assim, um predicado BECOME ou um tipo especial de vezinho (cf. HARLEY,1995:96) não é necessário nas sentenças anticausativas. Elas envolvem causas assim como sentenças causativas e possuem, portanto, um vP com a mesma estrutura sintática (cf. AAS 2006, 2015:29; BASSANI, 2013:114 chega à mesma conclusão ao examinar verbos parassintéticos do PB). Isso nos mostra que a noção de causatividade tem de ser dissociada da ausência/presença de um argumento externo.

Outros exemplos que mostram que causatividade independe de argumento externo vêm em (56) e (57). Eles evidenciam o fato de verbos internamente causados, verbos inacusativos que não fazem parte da alternância causativa, licenciarem adjuntos causais. Tal como exemplificado em (57), esses verbos geralmente não têm argumentos externos. Então, o adjunto causal deve ser licenciado pelo fator estrutural que apontei acima: a presença de um v-CAUSE.

(56) O João caiu com o vento. (57) *O vento caiu o João.

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Portanto, a diferença clara de transitividade entre sentenças causativas e anticausativas se dá em virtude de as primeiras introduzirem um argumento externo em Voice, mas não as segundas. A alternância causativa é, então, uma alternância de Voice (cf. AAS,2015:29).19

Nesta seção, vimos então que as sentenças anticausativas têm propriedades definidoras que se aplicam translinguisticamente: exibem a presença de um v-CAUSE que licencia adjuntos causais e são bieventivas, com a presença de um evento causador e um evento resultante, o que se nota pela ambiguidade de escopo de um operador como de novo. Se as sentenças anticausativas marcadas e não-marcadas tiverem estrutura diferente, esperaremos que elas reajam diferentemente a esses dois testes. Isso será investigado na próxima seção.

3.4 SE-anticausativas e Ø-anticausativas

Nesta seção, faremos os dois testes que acusam a estrutura de anticausativas motivada na seção anterior, presença de um v-CAUSE e de bieventividade, nas anticausativas marcadas e não-marcadas. Veremos que os dois tipos de sentença não diferem quanto à estrutura sugerida na seção anterior. A presença de SE em anticausativas marcadas, então, não impacta a estrutura do evento, porque SE não é ‘computado’ como um argumento nesse tipo de evento. O papel de SE em sentenças anticausativas vai ser mais detalhado nas seções seguintes a esta. Por ora, concentro-me nos testes que acusam que a estrutura de eventos é a mesma em sentenças anticausativas marcadas e não-marcadas.

3.4.1 Presença de v-CAUSE

Como vimos, anticausativas licenciam adjuntos causais e com eventos causadores. Na seção anterior, exemplifiquei essa propriedade ao mostrar sentenças anticausativas não- marcadas, repetidas abaixo como (58) e (59), que exibiam esse tipo de adjuntos. Observe que nada mudaria se essas anticausativas fossem marcadas. Adjuntos causais e eventos causadores continuariam a ser licenciados. Incluo também as sentenças (60), com o verbo fechar, e (61), com o verbo modernizar, que mostram que essa não é uma propriedade específica do verbo abrir.

(58) O portão (se) abriu com o vento.

19 Mesmo após demonstrar que tanto sentenças anticausativas, quanto causativas são causativas, continuo me referindo a essas sentenças da mesma forma, já que esses nomes já estão consagrados na literatura.

99 (59) O portão (se) abriu com a força de Maria. (60) O portão (se) fechou com o vento.

(61) A fábrica (se) modernizou com a reforma.

Assim, se tanto anticausativas marcadas quanto não-marcadas licenciam os mesmos tipos de PPs, temos indicações para a presença de v-CAUSE nas duas estruturas.

3.4.2 Leituras restitutivas e repetitivas com ‘de novo’

É esperado que leituras repetitivas e restitutivas estejam presentes tanto em anticausativas marcadas quanto em não-marcadas se elas envolvem a mesma estrutura. Observe o exemplo (54), repetido abaixo como (62), que confirma essa predição.

(62) O portão (se) abriu de novo.

Leitura repetitiva: O evento em que o portão abriu ocorreu novamente.

No dia da chuva, o portão abriu de repente, com muita força. Para evitar que ele ficasse abrindo e se quebrasse, o João colocou uma escora na base do portão, mas não foi suficiente, o portão abriu de novo.(Outra vez, houve um evento em que o portão abriu.)

Leitura restitutiva: O estado resultante (em que o portão estava aberto) ocorreu novamente. No dia da chuva, o vento não deixava o portão parar fechado: ele ficava abrindo e fechando o tempo todo. Aí, o João deixou o portão aberto e escorado para que ele não ficasse batendo com a ventania. Quando a Maria entrou, ela esbarrou na escora que segurava o portão, mas não percebeu. Daí ele fechou, mas, como não tinha uma trava forte, o portão abriu de novo e começou a bateção outra vez. O portão estava aberto antes e, outra vez, ele voltou para o estado de aberto.

Portanto, podemos assumir que a estrutura do vP de anticausativas continua a mesma. A perda do SE em nada influenciou a estrutura desse vP, o que já indica que tal elemento é externo ao vP.

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