Space and Geometry
IV 3.1.2. Clock dilation or; how motion affects temporal processes
Schäfer (2008) e AAS (2015) mostram exemplos claros do alemão de que o pronome fraco sich é computado sintaticamente, muito embora não tenha uma contribuição semântica. Alguns desses fatos são mostrados abaixo. Primeiramente, o elemento sich exibe ordem livre, assim como pronomes plenos no alemão.
(87) a. Dass sich die Rolle der Mutter langsam que REFL o papel de.a mãe lentamente geändert hat.
mudado tem.
‘Que o papel da mãe (na sociedade) mudou lentamente.’ b. Dass die Rolle der Mutter sich langsam geändert hat.
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c. Dass die Rolle der Mutter langsam sich geändert hat.
(AAS, 2015:103)
Em segundo lugar, anticausativas marcadas selecionam o verbo auxiliar ter, enquanto anticausativas não-marcadas selecionam o verbo auxiliar ser. O verbo auxiliar ter é também selecionado por verbos transitivos, i.e. por verbos que selecionam dois DPs marcados tematicamente.
(88) Die Tür hat/ *ist sich geöffnet. A porta tem/ é REFL aberta.
‘A porta está aberta.’
(AAS, 2015:104)
Mais uma evidência para isso é o fato de o DP com papel temático Tema em anticausativas ter uma leitura ambígua entre existencial e específica, se é antecedido por sich, como em (89). Se esse mesmo DP é fronteado, ele perde a leitura existencial e passa a ter a leitura específica, cf. (90). Seguindo Diesing (1992), isso significa que o DP com papel temático Tema é gerado dentro do vP: a ordem básica, então, seria a que se vê em (89). Isso é uma evidência de que sich é gerado fora do vP.30 Juntamente com as evidências apresentadas acima, a presença de um tipo específico de Voice em anticausativas fica embasada.
(89) weil sich eine Tür öffnete. porque REFL uma.NOM porta abriu. (90) weil eine Tür1 sich t1 öffnete.
porque uma porta REFL abriu. ‘porque uma porta (se) abriu.’
(AAS, 2015:105)
Por último, resta a questão de demonstrar como a valoração de traços ocorre em sentenças anticausativas. Para Schäfer (2008) e AAS (2015), a presença da projeção de Voice é relevante para a fase e, portanto, a valoração de traços da Voz expletiva começa a partir daí. Observe abaixo um resumo de como se dá o mecanismo de valoração em anticausativas.
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Voz expletiva tem traços não-valorados e sonda o seu domínio de m-comando. Esse elemento, então, concorda com o reflexivo SE no seu especificador, mas nenhuma valoração acontece já que tanto os traços da sonda quanto os do reflexivo SE são não- valorados. Para ter seus traços valorados, Voz expletiva sonda a árvore para baixo e concorda com o DP interno. Esse DP vai valorar tanto a Voz expletiva quanto o reflexivo SE, que está no especificador dessa categoria. Na fase de CP, voz expletiva vai entrar em uma operação de agree cíclico com T. (AAS, 2015:112)31
Veja a representação abaixo que ilustra essa ordem de valoração.
(91) a. Als sich die Tür öffnete
Quando REFL a porta abriu.
(SCHÄFER, 2008:283) b. TP 3 T vP 3 DP {uP, uN, uG} v’ 3 v{uP, uN, uG} VP
3
V DP{P, N, G} (SCHÄFER, 2008:268)
(91) ilustra que v (ou Voice) é tido como o núcleo em que as valorações começam a ser feitas e que a primeira valoração busca um DP com traços interpretáveis para valorar os traços de v (ou Voice). O primeiro Caso atribuído a um elemento, nesse sistema, é o Caso não- marcado, ou seja, nominativo. Após esse caso ser atribuído, o DP que resta recebe Caso acusativo. Assim, sich, que só receberá caso após a valoração do DP tema, receberá caso acusativo.
31 No original: VoiceExpletive has unvalued phi-features and probes its m-command domain. It agrees with the SE- reflexive in its specifier, but no valuation can take place since the phi-features of the SE-reflexive are unvalued, too. In order to get its features valued, VoiceExpletive will probe the tree downwards and agree with the internal argument DP. This DP will value both, VoiceExpletive as well as the SE-reflexive in the specifier of VoiceExpletive. In the CP-phase, VoiceExpletive will undergo cyclic agree with T. (AAS, 2015:112)
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Há dois problemas com essa visão, contudo. Veja que a direção de valoração acontece tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima. Assim, se a sonda tivesse encontrado um DP em seu domínio de m-comando que tivesse traços interpretáveis, ela não teria que recorrer ao seu domínio de c-comando. Além disso, sich só é visto como uma anáfora porque se parte do princípio de que é uma variável reflexiva (algo também brevemente tratado na seção 2.6 do capítulo 2). Na verdade, se pensarmos que esse é um elemento com pouca especificação e, por isso, é usado em contextos anafóricos, os quais requerem uma identificação entre argumentos externo e interno, não fica claro porque esse elemento é inerentemente – não importando o contexto em que se encontre – não-valorado.
Dados esses apontamentos e, pensando nos dados do PB e das línguas românicas em geral, acreditamos que uma abordagem tradicional de valoração de casos dê conta das anticausativas dessa língua. Uma possibilidade, então, seria que, em sentenças anticausativas, T é a sonda e encontra SE em Voice. T entra em uma relação com SE, mas esse elemento é phi- incompleto (daí, nessa visão, reside a sua deficiência e não no fato de ser uma anáfora). T checa o traço de SE e este elemento recebe, portanto, Caso, mas T ainda possui traços não- interpretáveis, o que o faz entrar em uma relação de agree com o DP mais baixo, como se mostra em (92). Essa é uma derivação possível se se assumir que SE tem traços para checar.
(92) TP
3
T{uP, uN, uG} VoiceP
3 Voice v SE 3 VP 3 V DP{P, N, G}
Como assumo que esse elemento é o núcleo de Voice e seus traços já são interpretáveis, ele não entra em nenhuma relação de agree. Se isso está correto, não adotarei uma análise transitiva para construções anticausativas marcadas em PB, como AAS adotaram para o alemão. Isso será mais discutido na seção abaixo.
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