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Plattformens rolle i formidlingen

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(1939)

Um recente volume, Vida de Napoleão,escrita por ele mesmo, tradução italiana da edição inglesa de Murray, de 1817, convida-me a colocar mais exatamente em foco o meu pensamento sobre este grande homem e sobre o seu destino, que é também o destino de um povo e de uma revolução. Isto encerra,em síntese, os acontecimentos de um continente, de um período histórico, de uma idéia social nova e tão vasta que ainda caminha.

Deixo aos historiadores os pormenores dos fatos que não valeriam a pena repetir. Agrada- me, entretanto, investigar por trás deles a fim de descobrir o fio sutil com o qual o destino entretece a vida dos homens e dos povos. Napoleão foi um homem de exceção, por isso nele o destino foi constrangido a falar com mais evidência. Cada vida possui uma lei, mas em tais vidas especialíssimas fala a História.

Não me interessa a pesquisa de estudiosos de coisas napoleônicas, se o livro é de seu punho ou obra de intérpretes. O sabor napoleônico, naquele estilo robusto, nervoso, concreto,existe e isto me basta para sentir-lhe, através da palavra,a figura e o pensamento. Naquele estilo vibra a vontade e a decisão, palpita a potência do homem habituado a ação e a vitória. Por este motivo, li o volume de um fôlego e, apenas concluído, eis que nasce em mim este escrito. Poucos livros sabem excitar em mim reações tais e poucos tenho encontrado assim densos de vida e de conceitos.

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Li nas profundezas da vida grande e trágica deste homem os ensinamentos da História! A moleza do reinado enfraquecido de Luís XV, filho degenerado do Rei Sol, perde até a sua última justificação de graça na bondade débil e míope do pobre Luís XVI, vítima da força. A tempestade de sangue se desencadeia, e, do terreno ainda vermelho, nasce uma epopéia heróica e trágica para a qual é chamado como protagonista um desconhecido e humilde corso.

Ele é feito para a guerra; e o destino, que parece sabê-lo, constrange-o a fazê-la e vencê-la. Com a revolução às costas é colocado em situação de não mais poder retroceder. Desta maneira, envolve-se de forças que se somam às forças dos acontecimentos os quais desejam valorizar a sua indiscutível autoridade no meio de uma sociedade que renova a sua construção, as suas condições e

os seus quadros. O corpo social que nasce da revolução muda a sua estrutura; abaladas as velhas organizações, há um esforço de reestruturação em procura de novas e estáveis posições, num terreno livre, exigindo homens novos. Sobre o vazio feito pela revolução quanto a cabeças coroadas a História podia escrever: procura-se um chefe. Aguardava-se, todavia, que um chefe se revelasse. Em oportunidades mais naturais do dinamismo social, se as posições fossem bem protegidas e não desmanteladas por revoluções, a História não teria a iniciativa de chamar à valorização efetiva as qualidades desse homem, fossem elas as mais extraordinárias. Se o terreno não estivesse livre e a História não se encontrasse em expectativa, as leis da vida não concederiam excelsas valorizações ao indivíduo, nem aos puros objetivos de afirmação pessoal.

Sem exagerar em sentido algum, creio que, no duelo entre o homem e a História reina, mais do que na guerra, uma suprema e divina harmonia que os coloca tempestivamente lado a lado para maior rendimento de ambos. A lei universal do menor esforço está presente também no campo social.

No fundo da ferocidade, que havia manchado de sangue o primeiro surto de uma idéia nova, havia alguma coisa de verdadeiro, de justo e de potente. Havia o sentimento de renovação, a explosão primaveril dos renascentes impulsos biológicos, que investiam com decisão e diretamente contra a decrépita forma do velho regime, agora vazio de sua potência substancial e sobrecarregado de incômodas superestruturas seculares.

Evidentemente, a revolução francesa continha princípios; se no início se manifestaram sob a forma mais baixa, isto era porque o objetivo da destruição estava confiado àquele período primordial. Superada a fase necessária da limpeza do terreno pôde Napoleão começar a construir.

No fundo não se trata senão de uma longa e lenta revolução secular, pela qual a organização social se aperfeiçoa continuamente, ascendendo à justiça, conduzindo com os princípios de igualdade sempre mais amplos um maior número de cidadãos com direito à vida coletiva. Os incidentes de então, as violências e as incompreensões passam, mas o princípio permanece. Resta aquele movimento ascensional, lento mas constante, embora acidentado, das camadas inferiores sociais que sobem, demonstrando conter a mais fecunda reserva de vida que assim aflora a superfície da História sempre renovada nestas obscuras sementeiras.

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A História, impregnada das criações graciosas do século XVIII, experimentava um período de guerra e de poderio, exigindo de um Napoleão a força e a vontade para disciplinar a ordem nova que ameaçava naufragar na rivalidade entre as nações, primeira e natural conseqüência do sistema representativo em um povo não antecipadamente preparado. A vida produz em Napoleão a sua nota de força necessária para a sinfonia dos seus desenvolvimentos e utiliza-a no momento oportuno, a fim de completar o seu concerto com as demais.

Delineiam-se aqui os dois momentos da vida de Napoleão: o em que executa a sua missão e esta de pleno acordo com as exigências da História, e aquele no qual surge o reverso. Há lógica na troca de posição da vida de um homem e no desenvolvimento de um fenômeno social. Não se pode discordar de que, enquanto Napoleão sintetizou o esforço de um povo para fixar uma idéia no mundo, as forças da vida não o abandonaram. A idéia revolucionaria voava com as águias contra os velhos sistemas decadentes da Idade Média. Napoleão resume em si o duelo imenso que se travava entre a França e o mundo civil de então. Não havia na realidade senão uma luta universal de idéias, uma tentativa de expansão, como verificamos ainda hoje, em proporções maiores. A coligação da Europa e a França representavam dois princípios em luta. "Napoleão devia completar a revolução, dando-lhe característica legal a fim de torná-la reconhecida e legitimada pelo direito público da Europa". Enquanto batalhou pela aceitação de princípios novos e elevados, o destino lhe foi favorável. É que os chefes,conforme acredito, não são apenas servidores e artífices da evolução, o

que já seria grandioso, mas, sobretudo, instrumentos momentâneos e ativos do pensamento de Deus. De acordo com o mesmo princípio, a História afasta os seus grandes homens quando não servem mais aos seus fins. Inutiliza-os quando eles não querem ou não podem mais servi-la. Portanto, ai daquele que atraiçoa a sua própria missão; ver-se-á abandonado pelas mesmas forças que o elevaram a posição de comando.

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Aqui se inicia a segunda fase da vida de Napoleão. A força na qual ele havia acreditado, por motivos muito profundos, abandonou-o. A sua vontade movimentara outros impulsos no seu destino, o qual não é fatal, inelutável, mas conseqüência de um feixe de forças sensível ao nosso desejo. Ele havia confundido a sua própria pessoa com a sua missão e a idéia da revolução. O triunfo aparente da força pareceu-lhe a substância, a finalidade do poder; quando era, apenas um recurso precário. Se a França, cansada pelo esforço da revolução, desejava refazer-se sob a proteção da sua espada, após tanta guerra, demasiada guerra, — a guerra pela guerra — acabou por se esgotar. Exaurida a sua função de expandir a idéia, o instinto dos povos negou-lhe cooperação. A semente atirada não exigia, para germinar, tão abundante sacrifício de sangue.

Cristo, que venceu e vence sem a força, em maiores proporções, deve ter sido, com certeza, um enigma para Napoleão. Existe, portanto, uma lei mais geral: um princípio de vida sabe encontrar todos os meios para afirmar-se, quando deve fazê-lo, porque se encontra na estrada da evolução.

Em dado momento, apresentou-se-lhe ao destino uma empresa temerária. Ele, todavia, escolhera a lei da força, que não admite acomodações com os planos da Lei. A força, com a mesma natureza inexorável e desapiedada, agiu contra o próprio Napoleão. Por isto, revivendo o seu caso com maior experiência, nos tempos modernos, sente-se por instinto que o espírito, tanto quanto a força, é elemento necessário de afirmação e de solidez, em todos os empreendimentos humanos.

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