(1933)
Um artigo de Camilo Viglino na “Revista Rosminiana”estimulou-me a expor estas minhas impressões. Elas poderão, talvez, interessar porque partem de um homem que ingressou no magistério no período de sua vida madura e julga com a experiência das coisas humanas; vê e sente o problema da escola através da psicologia com que esta habituado a enfrentar e resolver os mais diversos problemas do pensamento e da vida.
Por escola entendo aqui a escola média, compreendida não como um problema teórico e orgânico, mas como um problema prático. Trava-se a luta do mestre no diuturno contato com a crua matéria cerebral dos jovens. Ele, fadigosamente, ara os campos virgens da inteligência obstinada para atirar no sulco traçado a semente do saber.
Os dois termos da equação pedagógica são: professores e estudantes. Diversos e opostos, com o desígnio de ensino mútuo, porque também os jovens podem ensinar muito ao professor que souber observar, a fim de acumular depois uma preciosa experiência psicológica e conduzir o resultado na pratica do seu apostolado.
Entre os dois extremos deveria, sem dúvida estabelecer-se uma reaproximação psicológica para que vibre a centelha da comunhão espiritual,sem a que a transferencia do saber não é possível. Eis, porém, como me surgiram nas suas diferentes psicologias.
De um lado, o professor. A classe é a sua orquestra, que ele dirige, e a qual transmite não só o impulso cultural que a faz avançar intelectualmente, mas infunde também com o contato contínuo, com exemplo, com método, a própria personalidade, aquela personalidade humana que transparece de tudo e proporciona o seu cunho de ambiente. Na irradiação de sua personalidade as personalidades menores dos alunos, menores porque não estão ainda desenvolvidas e prontas para receber, está o mais alto sentido da escola, está a contínuo, com o exemplo, com método, a própria alma, acima de todas as necessidades formais, como esplendem todas as altas coisas que estão acima das aparências do tempo e da vida Aquela irradiação tende a qualquer coisa de maior, além de elevar as inteligências a um mais alto grau de erudição. Tende a dar aos espíritos o sentido de uma vida mais completa e mais profunda, na qual lampeja um ideal, mesmo que seja expressa na sua mais simples forma de exata observância de dever. Aos olhos do professor o problema do ensino não pode ser tão-somente a mecânica transmissão do saber como o deseja nosso século de eruditos e de especialistas ainda a procura da última síntese, podendo, porém, dilatar-se naquele problema muito mais vasto da compreensão da vida; compreensão que a síntese cultural não pode dar, que nenhum curso ensina e nenhum concurso controla, que não é tanto uma idéia abstrata, uma concepção, quanto um sentido de vida vivida, uma emanação que somente um espírito maduro e profundo pode irradiar, entregando-se totalmente. Abre-se, então, aos olhos do professor, a visão de uma tarefa superescolástica: construção de intelectos e, na transformação da pedra rude em es- cultura conceituosa e bela, quase a infusão de um hálito da própria alma; construção de homens, um plasmar de personalidade, um criar no espirito com ato superior ao do artista que se exprime na matéria, onde imprime o seu alento humano.
Desçamos agora da cátedra e atravessemos e fosso profundo que a separa dos escolares. Fosso profundo sobre o qual se projetam pontes, como nas antigas fortalezas. Transponhamo-las e observemos o outro extremo da realidade escolástica: os estudantes na sua psicologia oposta.
Enquanto nós, idealistas do ensino, vagamos no céu da religião do espírito,que faz da vida um ato de fé, no campo das belas construções, filhas da nossa maturidade, a maior ou menor turma dos escolares é toda concorde e sempre unida. Mostra-nos que, olhando do outro lado, o nosso conceito pode parecer uma utopia. O ponto de partida do rapaz, como toda a sua psicologia, é completamente diverso. Todos os alunos estão ali com um único instinto, o instinto de suas idades:
brincar, divertir-se sem preocupações, alcançar com o menor esforço possível os resultados das notas e promoções para dar o assalto à vida. É a lei do menor esforço. Não tendo sofrido, ainda não compreenderam porque a dor gera a reflexão. A vida, como ingenuamente pensam, está no seu irrefreável impulso para a alegria. Que lhes importa Cícero ou Shakespeare, gramática ou álgebra? Abstrações difíceis, belezas e conceitos para os quais as suas almas ainda não estão e talvez nunca estejam amadurecidas. Que tristeza, que aborrecimento, que coisas indigestas e fastidiosas para serem forçosamente engolidas! Enquanto o professor se arrebata por Goethe ou por Ésquilo, o rapaz se entusiasma pela sua gaiatice, procurando avidamente um momento de refrigério, no que é tão compreendido pelos colegas de sua intimidade! E que peso para o professor dever impor a atenção, falar a quem não o acompanha e que sabe e faz aparentar, por instinto, todos os mais inverossímeis cansaços a fim de fugir à aula. Que sentimento de rebelião, que energia os jovens apresentam para afirmar e impor o seu próprio eu, belo ou bruto, nobre ou baixo, qualquer que o seja! Para tornarmo-nos interessantes, necessitamos descer continuamente aos seus níveis, reduzir o estudo a um jogo, agitado e rumoroso como uma partida de bola, com explosões de sentimentos muitas vezes não elevados e supressão de toda a idéia abstrata. A nobre curiosidade do saber é, todavia, uma exceção, a ponto de vir a ser considerada quase patológica naquela idade.
Para a compreensão perfeita, seria necessário abaixar todas as pontes, encher definitivamente o valado. Do outro lado não existe, todavia, apenas a irreflexão juvenil, mas toda a psicologia diferente da vida, imposição perfeita do instinto. Do outro lado existe a luta pelo ponto, para a promoção, há todo um esgrimir "ad hoc", toda uma realidade diversa, tão férrea a ponto de submergir todas as outras. O escolar ali se encontra a nos lembrar a cada momento a sua maneira de agir. É um implacável “do ut des7”e este é o melhor caso do jovem dito inteligente Ele esta ali a ensinar-nos que o tempo é dinheiro, que a energia psíquica é preciosa, que o melhor é o que chega, de qualquer maneira, primeiro. São as leis da vida, que todo o mundo respira, às quais ninguém sabe se esquivar, nem mesmo de todo, o idealista. Tudo é luta na vida. Com tal psicologia o jovem afronta a escola, com os critérios da vida, mostrando-nos eloqüentemente que não se trata, na verdade, de uma conversa. Através de quão angustiosas dificuldades devemos exaustivamente preparar a estrada para a luz do pensamento!
Concluindo, a minha impressão e que, posto o problema nestes termos, conforme se me apresenta, a habilidade do professor — uma verdadeira arte — consiste no saber abaixar sobre o fosso o maior número possível de pontes, todas, em definitivo, abolindo-o, se possível. Não é, porém, uma arte fácil. Certos estados de calma e de ordem nas salas de aulas são produtos do temor, não da compreensão, mantendo as pontes levantadas. O certo é que, no encontro entre duas tendências opostas, o choque é inevitável e a solução é imposta pela disciplina. É a realidade da vida, que não se pode e não se consegue deixar totalmente fora do limiar sagrado do templo das formações espirituais, que nos acompanha e entra conosco, mesmo onde não desejamos. Esta ali, entretanto, a nossa arte. Saber circunscrever a coação, para afastá-la gradativamente, tendendo para a sua eliminação, de modo a não restar senão a idéia, a imagem do constrangimento ao estudo e ao dever Tornada habitual, depois coisa natural e subentendida, que esvoace, todavia, no ar, invada a atmosfera local, como um pressuposto que não possui mais a necessidade de concretizar-se em fatos. Então, se não a convicção, ao menos a sugestão de ordem e do dever descerá ao espírito do jovem; um novo hálito lhe será fixado para formar o germe de um mais nobre instinto, no adulto. E a nossa arte reside no habituar contemporaneamente os jovens à compreensão e à comunicação; está no abrir as suas almas à confiança, despertando-lhes o interesse pelo estudo. Nesta arte está a evolução da educação, que tende das formas antigas de punições materiais às formas de orientação, baseadas na comunhão espiritual. A medida que a sensibilidade se aperfeiçoa, o constrangimento se sutiliza e desaparece, transformando-se no elemento convicção, que suprime o desperdício de energia. É menos oprimente para o aluno, é mais lucrativo para o ensino. O constrangimento não se
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compatibiliza com o uso do pensamento, de sua natureza livre e espontânea que somente se nutre do contato com outro pensamento livre e espontâneo.
A revolução no mundo é hoje revolução moral. O conceito biológico de vida-luta será substituído por este imensamente mais alto e potente de vida-missão; o conceito de trabalho- vantagem individual será substituído pelo trabalho-função coletiva. O ideal não será mais a palavra abusiva e vazia de outrora, mas a suprema verdade e centelha de ação. Será a potência que fará do mundo vacilante uma civilização nova. Esta idéia introduz na vida dos povos elementos novos e pode ser considerada a base de uma nova fase de evolução biológica. Não é exagero para quem vê com a grandeza da alma as grandes coisas, as coisas imensas do destino e da eternidade, observar nisto a explosão de uma força moral de ordem cósmica. E, se na vida, o ideal devera entrar com o ímpeto de uma avalanche, isto se realizará primeiramente na escola, porque ela é, por sua natureza e tradição, o núcleo e o canal de irrigação, o templo das mais altas missões espirituais.