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Fire påstander

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(1939)

Regressando a minha pátria de eleição, a pequena Gubbio, — cidade do silêncio — depois de visitar cidades rumorosas, propus-me analisar a sensação viva e contrastante de duas tão diversas formas de existência. O homem do século XX escolheu um modo de viver artificial e distante das leis sadias da natureza, como o é o caso das megalópoles.

O urbanismo é problema de saúde ou doença, de sanidade de espírito e de raça. É, portanto, um problema fundamental; um dos aspectos do problema da raça e da sua defesa. Falar sobre ele significa versar o problema da educação das massas.

O urbanismo possui a virtude de nos mostrar, como num campo de cultura intensiva, entre tantas pragas modernas, os males que o homem criou com a civilização.

Vive-se ali contra a natureza, em mastodônticos reagrupamentos de massas humanas. Afortunadamente a nossa Itália, devido a complexos equilíbrios históricos, não produziu e não sofre de tais tumores sociais,destas hipertrofias demográficas, monopólios que vivem a custa das áreas restantes, reduzidos e tributários. Desconhece, por conseguinte, a desolação desses estados contra a natureza, as misérias que se verificam nas metrópoles européias, asiáticas e americanas. Na América do Norte, de todas as cidades da Itália se faria uma imensa e monstruosa metrópole, de sete ou oito milhões de habitantes, perfeita em todos os seus serviços centrípetos e centrífugos,com monstruosidades de todos os gêneros — do arranha-céu ao subterrâneo — isto é, perfeitamente infernal para a vida, deixando o resto do país desabitado.

A questão, devido a intervenção de eventuais acidentes históricos, é menos grave entre nós. O problema demográfico pôde topograficamente resolver-se segundo a natureza, não deixando todavia, de existir. Nos estados novíssimos de além Atlântico, a máquina agiu mais profunda e rapidamente, violentando tanto a natureza e armando amplas ciladas à vida do homem da civilização precedente, ainda não preparado para resistir.

Nestes ambientes de produção intensíssima, onde a vida e a máquina assumiram um ritmo de febre, sem silêncio e sem descanso, a saúde da raça sujeita-se aos mais graves atentados, não obstante os melhoramentos higiênicos. Verificado que a tendência da concentração demográfica parece uma característica de nossos tempos, pergunto-me a que dimensões atingirão tais hipertrofias e qual a entidade ameaçadora para a saúde da raça. Se é fácil, por simples ato de multiplicação, fantasiar a respeito das maravilhas mecânicas das grandes cidades do futuro, é também fácil, pelo mesmo processo, imaginar quanto poderão elas tornar infernais as condições de vida de seus habitantes. Cabe, em nosso país, à sensibilidade da política dirigente, pressentir e afastar todos os perigos.

Observemos com olhos ainda desacostumados de tais espetáculos. Pode acontecer que o bom senso, a voz da natureza, voz da saúde moral e física, contrariem a opinião da vantagem imediata e do aparente bem-estar.

De fato, a grande cidade, parecendo reunir todos os aperfeiçoamentos (geralmente não é senão imundície, pelo menos em algumas zonas), atrai hoje irresistivelmente a massa alucinada, que se precipita atrás da miragem, em busca do melhor. E muito discutível que a perda da intimidade com a natureza seja compensada pelos artifícios criados pelo homem. A grande cidade parece feita para se ver, não para se habitar. Inúmeras coisas, íntegras e gratuitas no estado natural, são, entretanto, mais ou menos adulteradas e custosas nos grandes centros, onde tudo se monopoliza e se industrializa. Mesmo o que foi dado com fartura e generosidade pela natureza não chega na cidade senão como artefato adulterado, distribuído com o fim de lucro e de negócio. Não se sabe se o provinciano que vai à cidade para tornar-se menos rude, fazendo holocausto do patrimônio de sua alma virgem e da sua saúde intacta,seja compensado pela economia conquistada e pela indiferença de espírito adquirida no turbilhão citadino.

"Nas grandes cidades das infinitas gaiolas de concreto armado de muitos andares", diz o Dr. Enrico Gilardoni numa exposição sobre o problema demográfico publicada na revista A Força, de dezembro de 1935, "o ar é corrompido pelos miasmas dos carburantes, pelo pó dos veículos e das fábricas, pelos vapores dos termo-sifões e das máquinas, donde uma ameaça contínua para as vias respiratórias, sobretudo para os seus delicadíssimos cílios vibráteis que, conquanto deveriam constituir a nossa maior defesa pulmonar contra a tuberculose, acham-se já enfraquecidos nas suas preciosas funções da acidose ou da hiperalcalose de origem saprofitária e alimentar. Nas grandes metrópoles o barulho aturde incessantemente, os perigos surgem em toda a parte; por isso não são mais possíveis a meditação e o recolhimento do espírito. Trabalha-se e vive-se quase mais com a luz elétrica do que com a luz solar. Trabalha-se e vive-se em completo isolamento do magnetismo terrestre.

"Não falo, por brevidade, dos problemas alimentares, todos por resolver, tanto a alimentação moderna se deformou na oficina industrial e depois na cozinha particular, tudo à base de caixas, de empacotamentos, de fermentos, de açúcares, de condimentos, de excitantes, de pasteurizações, de esterilizantes, de frigoríficos, agravada, enfim, pelo alcoolismo do vinho, da cerveja e dos licores, além do alcaloidismo do café, do chá, do cacau, dos aperitivos, do fumo e das infalíveis gotas reconstituintes. Alcoolismo e alcaloidismo a que nem mesmo as mulheres fogem...” "Não me refiro aos cosméticos idiotas; aos perfumes asfixiantes, às aparências hipócritas, aos disfarces piedosos de tudo quanto é simulação nas pessoas e às roupas absurdas. Devo, todavia, mostrar os enormes danos da difusão entre o povo dos remédios sensibilizantes como as fenacetinas, os calmantes, as aspirinas e similares, já ao alcance de todos a fim de fugir vilmente à dor, ou seja, ao santo grito de advertência e de revolta da Natureza menosprezada, e ao necessário meio de expiação e de purificação que a Natureza exige para nos curar. Devo, outrossim, acentuar os deletérios efeitos daquelas antinaturais terapias à base de produtos opoterápicos12, de soros e de

vacinas, que presunçosamente a Escola de Medicina Oficial vai sempre incrementando por via oral, hipodérmica, endovenosa, e, até endo-raquidianal"

Somente quem esta ainda imune do contagio psíquico e continua a viver, por convicção, afastado dos grandes centros, ao chegar a uma metrópole, qualquer que seja, sente o absurdo do seu sistema de vida. O novato precisa de forte trabalho de adaptação para poder suportar e depois avaliar esta substituição do natural pelo artificial, do substancial pelo fictício, do necessário pelo supérfluo. É indispensável certa dose de adaptação para renunciar as grandes riquezas da vida como o sol, o espaço, a paz, gratuitamente distribuídos a todos como elementos de vida, a fim de ir disputá-los depois, numa luta em que o homem quase se destrói.

Os elementos fundamentais de saúde física são também bons desinfetantes morais; o sol e o espaço afastam o contágio psíquico e reforçam o ambiente familiar, harmonizando todas as expressões da natureza.Ao entrar num destes pátios, para os quais se abrem inúmeras janelas de residências populares modernas, não pude deixar de sentir uma sensação de opressão. Graças a esta moderníssima caixa, apertam-se como sardinhas em lata inúmeras famílias, de modo que a forma física e moral de cada uma é modelada por contato e por pressão sobre a forma física e moral da outra, o que me lembra os amontoados cristalinos nos quais o eu de cada indivíduo, cristal, se perde no amalgama coletivo da rocha. Humanidade em filões, estratificada por peso especifico de valor econômico. Estratificação de carne e de coisas, de dores e de alegrias, misturados e estranhos, amontoados amorfos, organismos sem alma.

O dinamismo físico das multidões vibra pelas ruas. Ordem exterior, canalização de rodas e de passos. Interiormente, o caos. A grande maquina e a sua carga — o homem — vivem em regime de recíproca necessidade, vinculados entre si como dois calcetas13. Em certas multidões domina a cor e o odor psíquico das fossas. A miséria moral é imensa, triste e piedosa. Submerso e sufocado nesta atmosfera, eu me perguntava com sentimento de angústia, o que se poderá fazer com esses restos de civilização para reabilitar o homem, proporcionando-lhe espaço, luz, saúde do corpo e do espírito.

Somente a posse de tais riquezas pode extinguir a obcecante alucinação pelo ouro. Uma fé nos renovará e nos salvará. Mas a quem podemos pedi-la? Uma fé sem a grandeza do amor não é senão respeito fingido pelo temor do dano e pela inferioridade da força. Não basta a máquina do dinheiro, que é procurado por todos e é útil somente para se comprar a mesma mentira que se quis vender. O dinheiro circula; que percentagem de poluição circula com ele? Será tal quantia a medida da civilização e da felicidade de um povo?

A produção e o consumo direto nos meios menores eliminam os intermediários, os desfrutadores, as adulterações comerciais dos alimentos, protegendo e simplificando a vida com um saneamento automático de todas estas pragas.

Além da reconstituição da saúde moral, o contato com as forças e as leis da natureza opera a reconstituição da saúde física. A nossa vida, não mais cercada pelas feras e pela espada, é hoje cercada pelas substâncias tóxicas da indústria alimentar e por todos os outros artifícios da civilização.

Parece que a civilização do urbanismo deseja realizar uma seleção às avessas, destruindo com os seus sistemas protetores os poderes defensivos com os quais a natureza arma o organismo para lutar e vencer sozinho. Desta maneira, o homem se enfraquecera e acabara por ter que viver numa campânula de vidro. "Os débeis", diz Carrel no seu livro O Homem, Esse Desconhecido:

13

Calceta: Argola de ferro fixada no tornozelo do prisioneiro, ligada à cintura dele, ou ao pé de outro prisioneiro, por uma corrente de ferro.

"são conservados, como os fortes, e a seleção natural não serve mais. Ninguém poderá prever qual será o futuro de uma raça assim protegida pelas defesas médicas". Prefiro, como treinamento físico, o frio natural, suportado com resistência e com paciência, o frio que Deus nos manda em harmonia com as leis da vida. Prefiro a fadiga física, que nos ensina a lição da necessidade.

Com o tempo, as reservas válidas da raça encontrar-se-ão somente nos campos, onde a pobreza adestra-se na resistência, tempera-se nas dificuldades, onde o organismo não está viciado e inutilizado para a defesa por proteção artificial e complicações anti-vitais. Nas grandes cidades, tudo coopera para a perda da grande riqueza — a vida simples — aquela riqueza superior e inalienável que consiste no saber viver desde pequeno por nossa própria conta. A grande cidade exalta os valores fictícios, especialmente os prejudiciais, raramente os úteis. Surge assim grande miséria nas altas classes sociais, as mais atingidas pelos males do bem-estar. Miséria orgânica e miséria moral.

A ciência moderna praticou o crime de destruir, com a doença e a dor, a esplendida compensação moral em que a natureza se reequilibra, pagando-se dos danos na contabilidade divina, que tudo salva quando tudo parece perdido. O materialismo fez da saúde uma conquista mecânica, observando-lhe somente o lado físico. As conseqüências de tal rumo agnóstico, que mutila o fenômeno nas suas interdependências, são pagas com as nossas tribulações. A saúde é um equilíbrio entre forças antagônicas assistidas pelo fator moral do qual o materialismo prescinde. É piedoso o contraste desta realidade com a medicina que deseja se impor à natureza, forçando o organismo, com o esquecimento de que não se pode vencer senão respeitando as leis da vida que fazem da saúde um fenômeno hereditário, preparado diariamente, de geração em geração, com a nossa ética alimentar e o regime costumeiro, onde o fator espiritual e moral possui peso decisivo.

Pode compreender tudo isto a nossa humanidade embriagada de velocidade e toda presa à mania aerodinâmica? O urbanismo é cópia febril desta psicologia.

Desarticulemos a grande cidade que é a praga do nosso século. Salvemo-nos de todas as suas aberrações. A sociedade atual não possui sequer o senso dos seus perigos. Existe uma única crise verdadeira — a crise da consciência. Existe apenas um peso imenso que grava o mundo — a nossa ignorância. Temos apenas uma coisa a fazer: libertarmo-nos urgentemente, porque os povos também morrem por falta de consciência.

Se olho para o alto, buscando uma força auxiliar que já tenha iniciado esta obra e possa dar garantias de continuá-la no campo da idéia e da ação, não vejo senão a sabedoria providencial e salvadora de uma lei — a lei divina da vida.

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