Figura 10: Foto da parte externa da EMEFM Raimundo Marques de Almeida
Fonte: acervo da autora
Figura 11: Foto da parte interna da EMEFM Raimundo Marques de Almeida
A Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio (EMEFM) Raimundo Marque de Almeida teve sua gênese em 1979, na Rua Paralela – s/n, no bairro São João. Na época, a escola destinava-se a projetos do Lions Club de Quixadá e do MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização).
Após anos de reivindicação da comunidade do Bairro São João (que pertence ao Distrito Educacional São João) para ampliar a escola, que tinha uma estrutura insuficiente para atender à demanda, foi construída no mesmo terreno uma nova estrutura para servir como Escola Modelo, seguindo uma arquitetura padrão das Escolas Modelos do Município, sendo reinaugurada em 2003 (SILVA, 2008). Quem estuda nessa escola denota um certo orgulho e alguns alunos chamam a escola de “Escola Modelo” e não pelo nome dela. Esta escola também está inserida em uma realidade social permeada pelo desemprego, drogas e violência conforme atesta o documento da GIDE, e visível na figura 10 em que aparece uma carroça, igualmente muito presente naquele bairro como meio de transporte e emprego.
Atualmente, atende às modalidades de Ciclo I e II, Multisseriação, Ensino Fundamental I e II, Educação de Jovens e Adultos e Ensino Médio (em parceria com o Estado).
É um prédio de arquitetura moderna e muito bonita, com dois pavimentos com acesso através de rampas. Com 23 salas de aulas, uma quadra de esporte, uma cozinha, um refeitório, 12 banheiros, 02 bibliotecas, um anfiteatro e um auditório climatizado, além de um laboratório de informática (com 15 computadores) e um playground, tudo limpo e conservado.
Com relação aos recursos didáticos, possui uma média de mil livros, 150 dicionários, 50 jogos educativos, 20 mapas e 15 filmes e/ou documentários em DVD. Como material permanente, tem 06 televisões, 07 aparelhos de DVD, 05 retroprojetores.
No ano de nossa pesquisa, estava na gestão da escola uma diretora formada em Pedagogia e Especialista em Planejamento Educacional, com dois anos de experiência na função; uma coordenadora pedagógica formada em Letras e Especialista em Gestão Escolar, com nove anos de experiência na função; e uma coordenadora financeira. No decorrer do ano, fizeram junto aos professores 10 planejamentos pedagógicos e 05 reuniões com pais. A equipe docente era composta por 70 professores, dos quais 6 eram temporários. Os 04 professores de História da escola, somente dois eram formados na área. Na equipe técnicoadministrativa, havia uma secretária e dois auxiliares administrativos, e nos serviços gerais, 10 merendeiras e 10 vigias.
No que diz respeito às disciplinas escolares, a GIDE dessa escola (documento que substitui o PPP) ressalta que “os conteúdos estão organizados com base nos Referenciais Curriculares Básicos em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais...” (p. 04). E para a disciplina de história do 6º ano, destaca quatro temáticas: História e Memória; Medidas de Tempo; Surgimento do homem e Experiência Humana. Cada uma com marcos de aprendizagem e detalhamento dos conteúdos. Na GIDE destaca-se ainda a avaliação “contínua e formativa, envolvendo os conhecimentos, atitudes e valores.” (p. 04), e, de modo especial, ressalta-se que os alunos do Ensino Fundamental diurno tem uma taxa de aprovação de 94,30%, e 0,7 de reprovação e 5% de abandono.
A estrutura da sala de aula que acompanhamos era muito boa, ampla, com iluminação e ventilação adequadas, forradas, bem pintadas, carteiras brancas, lousa grande (apesar de ainda ser verde e ter que usar giz).
Essa turma tinha 31 alunos matriculados, que eram assíduos, na faixa etária de 10 a 13 anos. Eles compareciam bem banhados, arrumados e alguns com a blusa da farda31. Eram alunos que moravam aos arredores da escola (zona periférica), mas, para estudar lá, passaram por uma seleção com entrevista com os pais, tendo em vista se tratar de uma escola construída para ser modelo, e que desejava manter uma parceria bem próxima com a família, conforme declarou a coordenadora pedagógica da escola, e o número de vagas era limitado. Ressaltamos que, uma das justificativas para implantação da estrutura de uma Escola Modelo naquela localidade era amenizar a situação de vulnerabilidade social das crianças e adolescentes de bairro com alto índice de violência, como era o caso do bairro São João, mas a forma como os alunos foram selecionados, nos leva a inferir que provavelmente os que mais necessitavam ficaram de fora.
Os alunos da sala de aula que observamos durante todo o ano letivo nas aulas de história eram, em geral, bem carinhosos32. Normalmente, a professora os tratava com respeito e usava palavras carinhosas, como “meu amor” e “por favor”. Assim, turma, a princípio, pareceu-nos obediente, respeitosa com a professora e os demais colegas e participativa, fato que não perdurou por muito tempo, pois, quando os alunos se acostumaram com nossa presença, ficaram bastante inquietos. Por exemplo, certo dia a professora chamou a supervisora pedagógica da escola para falar com os alunos que estavam passeando pela sala e não queriam sentar. Então, a supervisora ressaltou que os alunos se comportassem, para que a
31 Nessa Escola Raimundo Marques havia a cobrança quanto ao fardamento pela própria professora da sala de
aula.
32 Logo no nosso primeiro dia de pesquisa, recebemos duas cartinhas de poemas que gentilmente as alunas
filmagem que fazíamos pudesse mostrar o lado bom deles. Porém, poucos alunos prestaram atenção ao que era dito. Outro dia, duas mães foram falar com a professora sobre o comportamento de seus filhos e disseram “qualquer coisa professora pode mandar dizer”. E conversaram ali mesmo na sala de aula na frente de toda a turma.
Todo início de tarde, às terças-feiras, nessa turma, a professora juntamente com os alunos arrumava as carteiras em dois semicírculos, em seguida, rezavam um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Mas em nenhum momento foi reservado o direito de quem é de outra religião e ou não quisesse rezar, por exemplo, a oração da “Ave-Maria”, a liberdade de não participar33
(todos os alunos em pé e pegando nas mãos uns dos outros). Esta situação reflete o quanto à religião católica era presente no cotidiano escolar de Quixadá, pelos menos nas duas escolas pesquisadas.
Nessa turma, também havia duas alunas que não sabiam ler e, por questão da idade, foram matriculadas no 6º ano. Essas alunas participavam de um projeto de alfabetização que a escola oferecia no turno em que elas estudavam. A professora, em sala, também passava-lhes uma atividade diferenciada, usando livros de alfabetização, mas estas não eram engajadas de fato na turma, ficavam no canto da sala e a maior parte do tempo sem fazer nada ou vendo livros de literatura que pegavam no armário da professora. Entretanto, na hora das avaliações bimestrais, tinham que fazer as mesmas provas de toda a turma.
Havia, ainda, um aluno que não falava de jeito nenhum em sala de aula, contudo não era surdo nem mudo, simplesmente ele não falava na escola em momento nenhum. A professora informou que, de acordo com a mãe dele, é um menino normal em casa e na rua, e os colegas de sala relataram já tê-lo ouvido na rua. Ele fazia todas as atividades passadas e se comunicava com os colegas através de gestos, o que para nós era uma situação inusitada.
Muitas vezes, a aula começava com atraso de 15 a 20 minutos34. E ainda, algumas vezes, a aula era interrompida para alguns avisos, como o que a professora da sala de multimeios explicou sobre um Projeto de Leitura35. Outro dia, a aula foi interrompida para um comerciante vender um joguinho para ajudar uma Instituição carente. E ainda, apesar da
33 Algumas vezes a professora chamava a atenção dos alunos que estavam conversando na hora da oração, e, um
dia, um aluno ficou sentado e justificou “tia eu tava com preguiça”.
34 Um dia, a aula demorou (20 minutos) para iniciar, porque a professora ficou resolvendo algo na secretaria da
escola. Assim, os alunos aproveitaram o momento para passear pela sala e conversarem livremente. Quando a professora chegou à sala, informou que estava resolvendo questão de indisciplina de alguns alunos e que os pais foram chamados para conversar.
35 Em que a cada dia seria entregue para todos os alunos um pequeno texto de reflexão para ser lido e exploração
brevemente (10 minutos) e saiu. E para começar, foi entregue para os alunos um texto que ressaltava o respeito e amor aos pais, a própria professora da sala fez a leitura em voz alta e ela mesma comentou com os alunos. Depois a professora de multimeios voltou e recolheu os textos que foram entregues e disse “amanhã tem mais.” Até o final da pesquisa de observação, não vimos tal atividade se repetir, pelo menos nas aulas de história.
escola ter refeitório, a merenda escolar era entregue na classe, no horário da aula, o que causava certo tumulto na sala. Também algumas vezes no dia da aula de história houve outras atividades como a realização das Olimpíadas Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP)36. Outro dia, o primeiro momento da aula de história foi usado para os alunos concluírem um desenho que foi solicitado referente a um projeto da Coelce “A Coelce deseja feliz natal para todos” 37.
A professora fazia a chamada pelo nome, mas as professoras substitutas38, que esporadicamente passaram pela turma, faziam por número, talvez para manter certa distância já que não iam passar muito tempo, mas, em certa ocasião, uma aluna reivindicou que fosse feita pelo nome, e foi atendida. Vale ressaltar que, com as professoras substitutas, os alunos se mostravam bem mais inquietos e a cena de caos em alguns momentos foi flagrante.
E conforme Certeau (1995, p. 142) “é atualmente um problema novo encontrar-se diante de hipótese de uma pluralidade de culturas, isto é, de sistemas de referência e de significados heterogêneos entre si”. Os alunos eram, em geral, atenciosos e carinhosos, mas em outros momentos revelaram-se bem inquietos. Além da vaidade de alguns, que era perceptível em plena aula, por exemplo, algumas vezes alunas passavam batom, um aluno se tatuava com tinta de caneta, outro se exibia com óculos escuros passeando pela sala. E uma cultura plural e reveladora se tecia no “chão da sala de aula”.
Enfim, o critério de seleção das escolas não previa tantas diferenças entre as mesmas, ou seja, selecionamos escolas de periferia, mas entre elas, as diferenças quanto à questão sócio-econômica e religiosa se sobressaiu mais do que o imaginado, embora quanto às escolhas ou usos dos livros didáticos estas questões não tenham sido preponderantes. Em Quixadá, onde o índice de analfabetismo era quase de 30% e a maior parte da população economicamente ativa vivia desempregada ou em subemprego, a situação do ensino foi perceptivelmente mais difícil do que em Fortaleza, pois, na capital, todos os alunos das turmas pesquisadas sabiam ler e escrever, diferente de Quixadá. E em ambas as escolas de Quixadá, a questão do fardamento não era uma tônica tão exigida quanto em Fortaleza, como também a presença religiosa se revelou marcante nas turmas das escolas quixadaenses.
36 Cremos que os alunos não foram avisados com antecedência, pois muitos demonstraram surpresa ao receber a
prova, e tinham trazido o livro de história.
37 De cada sala de aula da escola, seria escolhido um desenho e encaminhado para a Coelce três ao todo para
concorrer a prêmios.
38 A primeira ficou durante um mês, e estava cursando Letras em uma Faculdade particular em Quixadá. A
segunda38 ficou um dia, era formada em História e Pedagogia pela UECE (FECLESC). E a terceira ficou