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2  Teori som behandler valg av dimensjonerende laster

2.1  Bakgrunn for seismiske laster

Dentre os aspectos que se destacaram como constitutivos das histórias de leituras narradas pelos professores, chamou-me atenção inicialmente o sentimento esboçado ao contarem sobre seus ingressos na escola, dos ecos de aproximação entre o que viveram na família com as práticas escolares, principalmente quando falam dos objetos e dos mediadores de leitura:

Alguns professores contam com tristeza seu ingresso na escola:

Lembro da escola como um lugar perverso, ruim, as lembranças são as piores possíveis. Um lugar em que só se trabalhava com leitura de livros

didáticos, querendo que a gente treinasse para aprender a ler sem se

importar com aquilo que desejávamos ler, esquecendo que talvez as leituras que fazíamos em casa ou na rua pudessem ser interessantes. Meus irmãos chegavam todos esfolados em casa, todos apanhavam, mas eu não (MARTA).

Eu confesso que até a 4ª série eu aprendi por medo. Ora, eu via as pessoas apanharem e eu então me esforçava pra responder certo e consequentemente não apanhar, eu me empenhava mais. A força daquele estudo estava no livro didático, claro que bem diferente do que é hoje (CRISTIANO).

Outros, porém, amenizam a evocação negativa. Incluem igualmente a escola em suas reminiscências, mas associando-a a um espaço transformador diferente dos fragmentos anteriores:

Lembro muito bem que mesmo com todas as dificuldades vividas pela minha família eu gostava muito da escola. Recordo com satisfação que meu pai me chamava de manhã e eu acordava assustada achando que eu iria perder a hora da escola...às vezes ele brincava comigo dizendo que já tinha passado a hora...eu chegava a adoecer quando precisava não ir à escola...Pra ver como eu gostava da escola... porque eu passei a acreditar que lá seria o lugar em que eu iria aprender a ler e escrever bem e eu queria muito isso (SOLANGE).

Na escola eu lembro até do meu primeiro dia: as cadeiras eram bem arrumadas em dupla e ficávamos juntinhos, isso tudo na década de 1950. Aquilo tudo era muito bom pra mim. Fiquei estudando em Maracanã, cidade do interior do Pará até o final da quarta série e depois vim para Icoaraci que era o lugar mais próximo de Belém (NAZARENO).

Benjamim (1994, p. 56) diz que: “a história é o objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’”. Ao narrar o passado no presente, os professores reconceitualizam esse passado, olhando o ontem com os olhos de hoje, do presente, e a memória, por seu papel de selecionar, desencadeia em cada um deles lembranças positivas e outras negativas a respeito de seu tempo escolar. Em vista disso, as recordações são semelhantes, contraditórias, ou até sobreposta, o que não podemos esperar é que sejam exatamente iguais.

Pois bem, as experiências dos professores com a escola nem sempre foram lembradas da mesma forma. Diferentemente das experiências com a leitura na família, os professores, ao relatarem suas experiências na escola, assumem um tom nem sempre agradável. Há relatos de desagradáveis experiências iniciais na escola, como os de Cristiano e Marta. Marta marca a escola negativamente, quando fala da aprendizagem mecânica da leitura, e Cristiano lembra os castigos físicos.

Parece que tais momentos permaneceram arquivados na memória dos professores, sendo recordados com certo incômodo. Mas como essa experiência não foi igual para todos, junto às experiências negativas, juntam-se aquelas que apresentam a escola como sendo o local em que os professores mais tiveram contato com livros (didáticos) e, que por este motivo, muito contribuiu para os sentidos atribuídos à leitura.

O sentimento de medo e apreensão mostrados por Marta e Cristiano vai de encontro ao que Paulo Freire pensou ser uma escola: um encontro de gente para cultivar a amizade, a alegria, a camaradagem. Mas também é encontro de gente para estudar, fazer descobertas, produzir conhecimento, fazer planos, tecer projetos. É lugar de formação, uma formação, na concepção de Larrosa (1997), que não se resume à questão de aprender algo, uma relação exterior entre sujeito e aquilo que se aprende, mas a considera uma experiência em que alguém, no início, era de uma maneira e, ao final, converteu-se em outra coisa.

A formação leitora, nessa perspectiva, é entendida como uma relação interior com a matéria de estudo na qual o aprender forma ou transforma o sujeito, isto é, o sujeito se volta para si mesmo, é levado para si mesmo, vai sendo levado a sua própria forma. Assim, como espaço de formação e transformação do sujeito, a escola precisa “marcar” cada aluno com a

perspectiva do conhecimento, do estudo, da aprendizagem, da superação e não parece ter sido essa a experiência marcada por Marta e Cristiano, que apesar de atualmente serem professores apaixonados por suas profissões e desenvolverem práticas bem diferentes daquelas vividas na escola, em sua época estudantil, guardam daquele tempo, como diz Marta, “lembranças de um tempo perverso e ruim... as piores lembranças”.

Ao contrário do que nos contam Marta e Cristiano, há também nas escolas momentos bons, de alegria, como os narrados por Solange, que mostra o aspecto positivo da escola por acreditar que ela, apesar das muitas precariedades, constituía-se no legítimo espaço de aprendizagem, e de Nazareno, que aponta como positiva a organização do espaço e as muitas leituras sobre ciências que fazia em sala e que muito parece ter influenciado sua opção atual pela área das ciências naturais, transformando-o em um professor de Ciências. Muitos sentimentos são mobilizados nas lembranças de Marta, Cristiano, Solange e Nazareno: sentimentos de pertencimento e rejeição, frustrações e alegrias, de perdas e ganhos.

Não há nenhuma observação desses professores sobre aulas importantes, trabalhos marcantes, superações. O desencanto de aprender a ler e a escrever, descritos por Marta e Cristiano, e o “deslumbre” com as leituras sobre ciências, declarada por Nazareno, foram as maiores referências de lembrança nesse sentido. As outras observações relacionam-se à organização e ao encaminhamento do trabalho pedagógico – divisão da sala, conteúdos, avaliações.

É fato, como indica Arroyo (2001a), que a matriz de nossa formação é a interação com outros, uma vez que o conhecimento, os valores e as competências se aprendem no intercâmbio humano. A questão que se coloca para reflexão é que nenhum desses professores se lembra de horas de estudo, de lições, leituras, temas, produções de texto, do intercâmbio de aprendizagem, do diálogo com professores, práticas próprias de quem está na escola. Não existem referências à dedicação, investimento de tempo, disciplina, sentimento de responsabilidade para com a escola. Nenhuma reflexão sobre voltar-se para si mesmo, encontrar sua própria forma, sua maneira própria (LARROSA, 1997).

É Arroyo (2001a) quem registra que, além dos conhecimentos que ensinamos, as posturas, os processos e significados postos em ação na escola, bem como os hábitos, é que influenciam nossos pensamentos, raciocínio, nossos gestos, sensibilidades, formas de fazer, compartilhar e intervir. São esses conhecimentos e hábitos internalizados pelos professores na sua experiência escolar, traduzidos nas memórias registradas, que nos permitem interrogar se o vínculo com o processo de aprender está bem estruturado de forma a apoiar a experiência de ensinar.