No modelo para competência cultural de PURNELL (MCC), a perspectiva cultural na assistência à saúde é abordada de forma organizada, sistematizada e abrangente. O modelo considera 12 domínios culturais, que transpassam as barreiras de outros modelos trans e interculturais. Neste modelo, uma ampla margem é considerada na descoberta da realidade que envolve uma comunidade e seus integrantes, no contexto cultural, sobretudo, nas visões
emic e etic da pessoa e na abordagem da família e da comunidade. A visão emic refere-se ao
olhar do nativo de uma dada cultura, enquanto a visão etic reflete o olhar de outras pessoas para essa cultura, porém não pertencentes a ela (PURNELL, 2002, 2005).
O foco principal do MCC está direcionado para o estudo da cultura, com uma aproximação etnográfica, no sentido de promover a compreensão cultural sobre a situação da pessoa, tanto na situação de doença quanto na de bem-estar e saúde. Segundo esse modelo teórico, cabe aos profissionais de saúde, como provedores de cuidado, assumir o compromisso de compartilhar informações para o benefício dos envolvidos no cuidado, seja na prevenção primária da assistência à saúde, seja na secundária, seja na terciária.
No diagrama, o círculo maior retrata a sociedade em geral e, dentro dele, círculos menores compreendem a comunidade, a família e a pessoa, consecutivamente, de fora para dentro do diagrama (Figura 3). Os 12 domínios culturais estão interligados por meio de setas bidirecionais. A parte central do diagrama é vazia e representa os aspectos desconhecidos do grupo cultural.
O MCC de Purnell (2002, 2005) sustenta-se em teorias e pesquisas derivadas da administração, antropologia, sociologia, anatomia, fisiologia, biologia, psicologia, religião, história, linguística, nutrição e de cenários práticos na enfermagem e na medicina.
Figura 3: Modelo para Competência Cultural de Purnell*.
*Cedido por Purnell, via e-mail.
Na parte inferior do diagrama do MCC há uma linha dentada que indica a consciência cultural dos prestadores do cuidado em saúde ou de outras instituições ou organizações, de acordo com seu estágio de competência cultural. Para Purnell, a consciência cultural se desenvolve num processo não linear, que passa pelas etapas de adaptação cultural, desde ser inconscientemente incompetente para o desenvolvimento do cuidado, seguido pelos níveis de consciência incompetente, a consciência competente, até o nível considerado ideal da inconsciência competente para oferecer os serviços de uma maneira adequada com os valores
culturais predominantes no novo contexto do cuidado. Pressupõe-se que nesse modelo os conceitos de sociedade, comunidade, família e pessoa podem ser adaptados de acordo com a cultura do destinatário do cuidado. A pessoa pode ser definida como única, como família ou como um grupo dependendo da cultura em questão. Os 12 domínios que compõem o MCC são descritos a seguir incluindo seus itens mais relevantes.
Quadro 1: Domínios e conceitos do Modelo para Competência Cultural de Purnell*.
Domínios Conceitos
1 Herança – Visão Geral
Conceito de país, origem, residência e seus efeitos,
emigração e razões, situação econômica, ocupação e nível educacional.
2 Comunicação Uso contextual da linguagem e suas variações, a comunicação não verbal e a utilização dos nomes.
3 Papéis e Organização Familiar
A chefia da família e papéis de gênero, papéis familiares, prioridades, status social da família na comunidade, estilo de vida familiar, tarefas das crianças e adolescentes, criação dos filhos, papéis dos idosos e da família extensa. 4 Força de Trabalho Autonomia, aculturação, assimilação, papéis de gênero e
práticas de cuidado da saúde originários do país de origem.
5 Ecologia Biocultural
Variações étnicas e raciais, como cor de pele, diferenças na estatura corporal, doenças genéticas e hereditárias,
diferenças corporais quanto ao metabolismo dos medicamentos.
6 Comportamento de Alto Risco
Tabagismo, etilismo, uso de drogas ilícitas, ausência de atividade física, excesso de consumo calórico e ausência de medidas preventivas e acidentes, práticas sexuais de risco.
7 Nutrição
Alimentação e satisfação adequada da fome, o significado do alimento, escolhas alimentares, rituais e tabus
alimentares, deficiências enzimáticas e a utilização do alimento para a promoção da saúde e o bem-estar e na doença.
8 Práticas na Gravidez e no Parto
Práticas conceptivas e anticonceptivas e valores relacionados à gravidez, ao parto e ao puerpério e a vivência dessas etapas.
9 Rituais Relativos à Morte A forma como os indivíduos e os membros da cultura visualizam os rituais de morte e enterramento, seu comportamento, preparação e práticas de enterro e luto. 10 Espiritualidade Práticas religiosas e de oração e o significado atribuído à vida.
11 Práticas de Cuidado da Saúde
O enfoque dado ao cuidado da saúde, práticas tradicionais, mágico-religiosos e “crenças” da biomedicina,
responsabilidade individual relativa à saúde, práticas de automedicação e de saúde mental, doenças crônicas, barreiras para o cuidado da saúde e as respostas culturais à dor e ao estado de doença.
Cuidado à Saúde inclusive os tradicionais, mágico-religiosos, biomedicina ocidental. Neste item, o sexo do provedor de saúde pode ter significado para alguns grupos culturais específicos.
*Cedido por Purnell, via e-mail. Adaptado pela pesquisadora.
O modelo de Purnell permite avaliar variáveis importantes como os valores, as apresentações, os estilos de vida e as práticas de indivíduos, famílias e grupos culturalmente diversos. Prover cuidados culturalmente sensíveis e competentes ao indivíduo, à família e à comunidade constitui o pressuposto central do cuidado em saúde. Desenvolver o trabalho com essas premissas é essencial para a promoção e a manutenção da saúde, para a prevenção da doença e para o estabelecimento de intervenções efetivas. Nesse sentido, os profissionais de saúde precisam assegurar alto nível de competência cultural para o bom desempenho de suas ações com a população.