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Two-phase flow in complex geometry

Conforme já foi discutido neste trabalho, a leitura e a escrita não são atividades que ocorrem isoladamente. Para que elas possam fazer sentido, é necessário considerar o contexto no qual essas atividades estão inseridas. Contexto, aqui, não pode ser tomado como momento imediato em que essas práticas ocorrem, convém considerar outros momentos da vida social em que seus agentes participaram e reconhecer os fatos que possibilitaram o comportamento adotado.

Para compreender os letramentos sociais que fazem parte do cotidiano dos sujeitos desta pesquisa, julgo interessante inserir pontos da história da constituição da cidade de Santa Maria, bem como dados que servem para descrever traços da vida cultural e social desses indivíduos que nela habitam.

2.1.1 Aspectos sócio-históricos da constituição da comunidade de Santa

Maria

O Núcleo Rural Santa Maria permaneceu como área rural da Região Administrativa II – Gama até 1992, quando a Lei nº 348/92 e o Decreto nº 14.604/93 criaram a Região Administrativa – RA XIII - Santa Maria. Sua fundação tem como data oficial 10 de fevereiro de 1992.

Sua criação está vinculada ao Programa de Assentamento de Famílias de Baixa Renda, em lotes semi-urbanizados. O Governo loteou uma área do Núcleo Rural Santa Maria e transferiu os moradores das invasões do Gama e das demais localidades do Distrito Federal, bem como moradores que, embora não residissem em invasões, não tinham moradia própria, pagavam aluguel, na maioria das vezes, em barracas nos fundos de outras residências em diferentes cidades do Distrito Federal. Santa Maria é composta de área urbana, rural e militar.

Na área rural, estão os Núcleos Rurais Alagado e Santa Maria, onde predominam as atividades de agropecuária e a exploração de jazidas de cascalho.

Na área militar, estão localizados o Centro Integrado de Defesa Aéreo e Controle do Tráfego Aéreo – CINDACTA, do Ministério da Aeronáutica e da Área Alfa, pertencente ao Ministério da Marinha.

O nome Santa Maria originou-se do nome do rio que existia no local. Sua área está em torno de 215,90 Km2. (3,7% da área do Distrito Federal) e sua população representa 4,8% da população do Distrito Federal, o que gira em torno de 98.679 habitantes.

Geograficamente Santa Maria fica distante da Região Administrativa de Brasília cerca de 26 Km, considerando o ponto mais próximo da cidade até a rodoviária do Plano Piloto.

Com relação aos aspectos socioeconômicos dessa cidade, vale ressaltar o seguinte: observa-se nos grupos que 49,1% de seus moradores são homens, enquanto 51,9% são mulheres. Em relação à faixa etária, considerando-se como mediana a idade de 24 anos, 51,8% estão abaixo dessa idade.

No que diz respeito ao grau de instrução, levando-se em conta a população adulta, 43% dos moradores de Santa Maria não possuem Ensino Fundamental completo e apenas 0,9% tem ensino superior.

Santa Maria, assim como todo o Distrito Federal, é constituída de pessoas oriundas de diversas regiões do país. No entanto, 53,1% de seus moradores já nasceram no Distrito Federal, os demais vieram de outros estados. Entre esses últimos, 25% têm menos de nove anos de residência nessa Unidade da Federação. Se considerarmos os que têm menos de 20 anos que moram no Distrito Federal, esse número sobe para 60,4% da população de Santa Maria. Considerando que um dos critérios para receber o lote do Governo, na época de criação da cidade, era estar há mais de cinco no DF, presume-se que muitos dos moradores de Santa Maria não estavam aqui nessa época.

Com relação às atividades remuneradas exercidas pelos moradores dessa cidade, 78,2% exercem atividades para as quais não são exigidos níveis de escolarização acima do Ensino Médio (antigo segundo grau). Segundo dados oficiais, há um número de 11.157

desempregados e 32.138 pessoas sem ocupação remunerada. Isso faz com que a renda per capita de Santa Maria esteja em torno de 0,9% do salário mínimo. Mais de 70% de seus moradores ganham menos de cinco salários mínimos.

Como a cidade foi construída para suprir a carência de moradores de baixa renda, mais de 60% têm residências próprias, sendo 93,6% em casas de alvenaria com menos de sete cômodos. Com relação à infra-estrutura da cidade, está praticamente abastecida de água tratada, esgotamento sanitário e coleta de lixo (mais de 99%). Mais de 95% das ruas já contam com asfaltamento.

A população dessa cidade ainda é carente de vários bens de consumo. Só 63,1% possuem telefone fixo, e até mesmo aparelho de televisão está em falta na casa de muitos de seus moradores, quase 20% não dispõem desse aparelho que parece ser tão comum na casa do brasileiro. Apenas 6,5% da população possuem um microcomputador.

Com relação à educação formal, atualmente Santa Maria conta mais de 32.240 matrículas na rede pública de ensino e 2.155 na rede particular, distribuídas entre os diferentes níveis de ensino. Dessas, 4.960 pertencem à Educação Infantil. Na cidade há trinta e uma (31) Unidades Escolares, sendo vinte e quatro (24) públicas e sete (7) particulares, com um total de quatrocentos e oitenta e seis salas de aula. No ano de 2005 foi implantada a primeira Faculdade da Cidade (particular) e em 2006 a Universidade de Brasília-UnB implantou um Pólo em Santa Maria, onde desenvolve vários cursos destinados a atender à comunidade local.

Há vinte e uma bibliotecas públicas escolares com acervo de 19.140 exemplares e uma biblioteca mantida pelo Governo do Distrito Federal com acervo de 23.240.

Todos esses dados foram colhidos da CODEPLAN (Companhia de Desenvolvimento do Planalto), órgão oficial do Governo responsável pela coleta de dados e produção de estatística.

O comércio ainda é pouco desenvolvido e se resume a pequenas lojas e alguns supermercados de abrangência local. Há apenas duas agências bancárias (Banco de Brasília

e Caixa Econômica Federal). A cidade não dispõe de museus, teatros ou outros ambientes culturais. Os locais para a prática de lazer também são bastante resumidos, limitam-se a algumas quadras de esportes e algumas pracinhas com poucas condições de uso.

As atividades profissionais são, na sua grande maioria, exercida em outras localidades do Distrito Federal, o que torna Santa Maria uma cidade dormitório, onde a população adulta ativa passa o dia fora e retorna para dormir.

2.1.2 A escola

Estou tomando como campo de pesquisa, numa perspectiva macro social, a população de Santa Maria. Numa perspectiva micro, a Escola Classe 203 e os familiares dos alunos de uma de suas professoras.

A Escola Classe 203 é a mais velha da cidade. Santa Maria passou por um espaço de tempo sem contar com nenhuma Unidade de Ensino, isso obrigava a transportar as crianças para a cidade mais próxima, a fim de que seus estudos não fossem interrompidos. Os transtornos desse empreendimento (inclusive morte de criança devido à forma de transporte) forçaram a construção dessa escola, que no início foi feita de lata e contava com cinco turnos de 2,5 horas de aula.

Hoje a escola é composta por 22 salas de aula, sala de reforço, uma sala de leitura, uma sala de atendimento psicopedagógico, cantina, banheiros, direção, laboratório de informática (ainda não está em uso), dois pátios (pequenos), salas dos professores e sala de assistência pedagógica.

A escola atende a cerca de 1520 alunos distribuídos em dois turnos: matutino e vespertino. Os alunos que freqüentam essa escola têm entre quatro (4) e dezesseis anos de idade, já que a escola oferece desde a Educação Infantil (primeiro período) até a quarta série do Ensino Fundamental. Praticamente todos os alunos moram nas proximidades da escola.

O corpo docente é composto de cinqüenta professores. Mais de 90% desses professores possuem nível superior completo no curso de Pedagogia e a maioria deles mora no entorno de Brasília, ou seja, nas cidades (do estado de Goiás) vizinhas de Santa Maria.

A professora colaboradora dessa pesquisa é alfabetizadora desde 1988, é formada em Pedagogia, no curso de Professores em Início de Escolarização (PIE), e atualmente está com uma turma de seis anos (terceiro período da Educação Infantil). O PIE é um programa implementado pela Faculdade de Educação da Universidade de Brasília em convênio com a Secretaria de Educação do Distrito Federal. O programa é encarregado de conceber e desenvolver um curso de licenciatura em pedagogia, de natureza semipresencial, destinado a professores em exercício nas séries iniciais, em escolas públicas do Distrito Federal.

Desde o primeiro momento, a professora se mostrou bastante receptiva à proposta de contribuir com esse estudo. Na época em que lhe fiz a proposta, ela estava lecionando em uma turma de primeira série do Ensino Fundamental. Com a mudança de ano letivo, ela passou a trabalhar com essa turma de seis anos. Essa professora defende que a alfabetização aconteça antes do ingresso na primeira série e trabalha nesse sentido. A escolha dessa professora deu-se em virtude das observações informais que fiz do seu trabalho, pois há três anos trabalhamos na mesma escola e sempre tive interesse em saber como era a sua atuação em sala de aula, tendo em vista que, durante coordenações coletivas na escola, nunca a presenciei fazendo reclamações negativas de alunos. Pelo contrário, em algumas ocasiões fui procurada por ela em busca de soluções para alguns desafios de sala de aula (na época eu atuava junto à equipe de apoio à aprendizagem da escola). Houve também relatos de mãe de alunas a favor de sua atuação como alfabetizadora.