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5.3 Girls’ perspectives

5.3.9 Perspectives on marriage and married life

No centro da administração que Pombal comandou desde 1750 para a Amazônia, está a presença do seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundador de Macapá e figura imprescindível para a interpretação das ações portuguesas na região norte do Brasil.

Entretanto, a escolha dos técnicos estrangeiros, sobretudo dos italianos, foi feita ainda no reinado de D. João V, que foi buscar na Itália os melhores técnicos e cientistas, entre religiosos, leigos e militares, para participarem das expedições científicas no Brasil, visando o acordo do Tratado de Madri (BICALHO, 1999. Pág. 28-9). Entre eles estavam os técnicos citados no início deste capítulo, como Sambucetti, Ciero e Galúcio.

temos o terceiro engenheiro, também ele, Antonio José Landi, que em 1761 residia no Pará[...]”.

Embora o centro irradiador do Iluminismo europeu fosse a França, a corte portuguesa tinha seus receios em contratar técnicos franceses, pois a França era uma potência bélica consolidada, enquanto a Itália era dividida em repúblicas, reinos e ducados em luta entre si. Além disso, os italianos eram católicos, que não corriam o risco das ideias heréticas dos protestantes e falavam um idioma latino com capacidade de aprenderem rapidamente o português (FONTANA. Op. Cit. Pág. 48.)39

Foi então nesse período que começaram as construções das vilas fortificadas na Amazônia e o planejamento urbano de Belém, a capital da província do Grão-Pará e Maranhão, por ordem e Pombal. Já se especulava aí

o título de “capital do Império”, no caso de mudança da Corte para o Brasil.

Depois da inutilidade da espera da Comissão Espanhola, os técnicos estrangeiros foram designados para outras missões. As de Galúcio foram a de fazer o mapa do Bispado do Pará e da Capitania do Piauí, entre outras. Sambucetti, segundo Fontana (Idem. Pág. 79), teve uma atuação muito grande na Amazônia, entre 1756 e 1771 em Alcântara, chamada Vila Imperial, na Fortaleza de São José de Macapá, na Fortaleza de Gurupá, na Vila Vistosa de Madre de Deus do Anauerapucu e Vila Nova de Mazagão, projetada e erguida para abrigar no meio da floresta, às margens do rio Mutuacá, as 160 famílias, das 340 vindas de Lisboa, após a derrota das tropas portuguesas para os árabes na cidade-fortaleza de Mazagão, de Marrocos, hoje El Jadida. Sambucetti também projetou e construiu o Forte Príncipe da Beira, no rio Guaporé, entre 1776 e 1780, ano que faleceu, como Galúcio, de malária.

É interessante dizer que a Fortaleza de São José de Macapá ocupa uma área de 127 mil m², com 22.574,15 m² de muralha e 2.210 m² de espaço interno. A fortificação de Príncipe da Beira apresenta 970 m de perímetro tendo muralhas de 10 m de altura com quatro baluartes armados com 14 canhoneiras (Idem. Pág.53).

A semelhança entre as duas fortificações é tão grande na sua forma e desenho que dá condições de especular sobre o motivo de Galúcio ter que esconder as plantas da de São José de Macapá com tanto cuidado por ocasião

39 Por ser o francês uma língua neolatina, assim como o italiano, creio que a posição do autor seja mera especulação, não tendo, portanto, valor argumentativo, como motivo do recrutamento dos técnicos italianos em detrimento dos franceses.

de sua morte. Pode ser que a sua aparente “loucura” tivesse suas origens na

suspeita e na possibilidade de plágio ao seu trabalho como projetista, por ocasião de sua morte, quando também o engenheiro Sambucetti, a quem, indiretamente, provocou a ameaça de prisão e de lhe mandar a ferros para Portugal [por meio do Comandante Nuno Varona], quando era seu ajudante de engenheiro em Macapá.

Janaína Camilo conta que em 1773 Gronfelds solicita ao governador do Pará que perdoe três degredados que injustamente foram acusados de roubarem uma planta da Fortaleza de São José de Macapá, desenhada por Galúcio. Segundo essa autora foi instaurado um Auto de Devassa que teve por objetivo investigar se a planta roubada, “que era segredo de Estado, tinha sido

entregue aos franceses. ” (CAMILO. Op. Cit. Pág. 166).

Esse episódio pode ter sido o mesmo que o capitão Henrique João Wilkens narra em longa carta encaminhada ao governador da Província, que transcrevo integralmente abaixo:

Logo que foram entregues as Cartas que V. Exa. dirigiu ao Tenente Coronel Comandante e a mim, se despediu o segredo em Canoa ligeira em Oficial de Pedreiro a render José Nogueira, que se achava em Mazagão, para ser preso com João Pedro Marçal da Silva e o carpinteiro João Pereira no Calabouço à ordem de V. Exa., estes dois, que já se acharam no dito calabouço, sendo perguntados separadamente e juntos responderam o mesmo que já tive a honrra participar a V. Exa. na carta última de 11 de Junho [ilegível] que estando João Pedro Marçal da Silva em casa do Sargento Mor Gronsfeld estando este separando os riscos que havia remeter a V. Exa. daqueles aos quais dava consumo rasgando-os, pedira o dito João Pedro ao Sargento Mor alguns pedaços para piques de rendas e bentinhos para sua mulher, e dando-lhe uma mão cheia o mesmo Sargento Mor os mandou pelo seu filho, que é de menor idade, a sua mulher, ficando ele com o dito Sargento Mor escrevendo e diz não soubera o que depois passou. O pedreiro cayeiro diz que estando com José Nogueira vira sair a dita criança com os papei e que pedindo-os separara o dito Nogueira e ele os pedaços de que se compõe a Planta, que a V. Exa. remeti e as mandara grudar o dito Nogueira pelo Carpinteiro João Pereira em cujo poder esteve, como ele mesmo diz, mais de um ano, sem fazer caso dele nem o mostrar a pessoa alguma, diz João Pereira que estando o dito risco na sua casa, onde ficara para grudar dado pelo Nogueira, indo este para Mazagão, lhe pedira e que ele respondeu o tinha perdido, e não sabia dele, e depois de partir o dito Nogueira para Mazagão, pedira a ele o risco da Planta o cayeiro repetidas vezes até que a buscou e lhe deu, dando-lhe o dito cayeiro o papel que remete a V. Exa. o Tenente Coronel, com o Número 3 que igualmente diz o mesmo Carpinteiro lhe servia para Bentinhos, por não saber ler nem escrever, o mesmo diz e asevera o cayeiro e chegando o pedreiro José Nogueira de Mazagão, antes de entrar no calabouço, onde se achavam os 3 outros, em casa do Tenente Coronel em minha presença foi perguntado sobre [inelegível] e disse que estando com o

Cayeiro, morando ambos em um quarto, vira passar o menino, filho de João Pedro Marçal com os papéis, e que parando ao pé da porta, vira ele Nogueira os pedaços de que se compõe a Planta e outros mais papeis e riscos, e que sobrevindo o carpinteiro João Pereira levava os ditos pedaços para grudar, e que não sabia mais deles, negando ter ele dado os ditos para se grudarem, nem os ter separado e só sim que tirara um papel riscado em lápis da Porta principal pôr ser [inelegível] civil e ele ser curioso e mandando-se fazer apreensão logo nos seus papeis, se lhe achou só o dito papel que vai marcado número 1 e outro número 2 que é uma Planta e Profil da Guarita que ele diz lhe dera o Sargento Mor Galúcio para executar quando esta se queria construir e logo mandando-se vir a nossa presença o cayeiro e o carpinteiro João Pereira e confrontadas convieram no mais, exceto dizer que mandara grudar o papel e que o pedira, negando isto o Nogueira, e afirmando o cayeiro e João Pereira: fora ele; pela confissão deles consta ter estado a Planta em casa do Carpinteiro mais de ano, e em poder do cayeiro, pouco mais de uma semana, e neste tempo a ter ele levado à vila uma vez estando muito bêbado e ter mostrado a alguns operários e gente ignorante, sem nunca o largar, e perguntando pelo caixeiro de Antônio José Vaz, por nome José Oliveira, que o papel era esse que levava, lhe respondeu era um risco, e se o queria por meia pataca, respondendo o caixeiro que não, lhe tornou a dizer o queria por 4 vinténs, ao que respondeu o sobredito que lhe não servia esse papel e que se fosse embora pois estava muito bêbado e isto sem se abrir a dita Planta, nem a ver, isto mesmo também assevera o dito caixeiro, que também se mandou buscar e foi perguntando separadamente, também não consta por modo algum se tirasse cópia, nem passasse a mão de pessoa suspeita porque ele o dito cayeiro nunca o largou até que se fez a apreensão ( Cód. 242. Doc. 45. Macapá, 15 de julho de 1772.)

Esta carta, com resumo de inquérito, demonstra o extremo cuidado que os construtores da Fortaleza tinham para que nada fugisse ao seu controle. Janaína Camilo informa que

Silva Telles [Em seu tratado sobre a História da Engenharia no Brasil (Séculos XVI a XIX):1984] afirma que o número de técnicos estrangeiros que vieram ao Brasil, desde o governo de D. João V, é bastante elevado, notando-se a atuação de 238 engenheiros até 1822, dentre os quais havia 86 portugueses, 22 brasileiros, 16 alemães, 13 italianos, 12 franceses, 2 suecos, 1 suiço e 1 holandês, não havendo registro da nacionalidade dos outros. Essa quantidade preocupou o marquês de Pombal, que em 1770, por receio de espionagem, decretou que todos os cargos científicos no Brasil, que outrora foram entregues a alemães e italianos, fossem remanejados aos brasileiros ou portugueses (CAMILO. Op.Cit. Pág. 102).

Pombal receava que os técnicos estrangeiros levassem para a Europa seus conhecimentos adquiridos no Brasil ou que vendessem manuscritos e publicassem cartas sobre o interior do sertão brasileiro a países interessados nas riquezas do Novo mundo.

Na Amazônia, apesar do receio da quebra do sigilo militar e político, que envolveu o governador Mendonça Furtado e os engenheiros italianos, foram

“superadas as dúvidas, a desconfiança e certa xenofobia” (FONTANA. Op. Cit. Pág. 79) e dada, tanto a Galúcio como a Sambucetti e Gronfelds, a responsabilidade de construir e dirigir os trabalhos de ereção das duas maiores fortalezas de que se tem notícias no Brasil.

Fontana explica que a morte dos engenheiros, por malária, em pleno serviço para a Corte, fez desaparecer certo embaraço para as autoridades portuguesas. O referido autor diz que

Portugal recebeu o máximo deles sem precisar eventualmente expulsá-los ou eliminá-los por motivos de defesa de sigilo. Sorte de todo mundo: no celeste império chinês, os engenheiros militares, uma vez terminada a obra, recebiam como prêmio o corte da cabeça (Idem. Pág, 79).

O receio de Galúcio deveria ter seus fundamentos: a xenofobia dos portugueses, as constantes disputas pelo poder e mando durante a construção da fortaleza e o perigo circulante das forças militares estrangeiras que queriam seu quinhão de terra na América equinocial, promovia um clima de alerta permanente.

Foi nesse clima que Athayde Varona, o comandante de Macapá escreveu ao governador a seguinte carta datada de 14 de abril de 1765, contando que foi avistado possivelmente um navio francês nas águas do rio Amazonas.

A carta que v. Exª do primeiro do presente me, de que me fez entrega o Capitão Simão Coelho Peixote, que chegou a este porto a 11, com o número de Tropa que V. Exª me permite a honrra de participar; em informa e quase me certifica de ser Francês o Navio visto nos baixos da Tijioca, pelas circunstâncias que a V. Exª refirio o Capitão da Charrua; pois se fosse o Navio holandês que viesse de boa fé buscar a hospitalidade aos nossos portos, estimaria o encontro de se comunicar com a charrua para o socorrer: E bem pode ser que ande na deligência de reconhecer a configuração da nossa Costa, e retificando as sondas; para segurar por este meio não só a sua entrada, mas dos Navios, que em outra altura o poderão esperar, para reunidos invadirem, e insultrem esta praça: como já conseguiu aleivozamente aquela Nação, de baixo da paz, no ano de 1697, sendo Governador da Colonia de Cayena o Marquês de Ferrol, com o falso fundamento de pertencer à dita colônia, a margem da parte do norte deste Rio ( Cód. 150. Doc. 63, de 14 de abril de 1765).

Varona conhecia a história da região e, claramente as intenções de

“aquela Nação” (a França). Sabia também que a presença dos engenheiros

estrangeiros era de fundamental importância para Portugal, considerando serem eles detentores de uma refinada tecnologia de construção militar, consolidada na construção das fortificações que foram imprescindíveis para a defesa da região.

Apesar de todos os esforços demandados por Galúcio e dos que lhe sucederam, no sentido de fazer continuar a FSJM até a sua conclusão, alguns fatores colaboraram para que tal situação não acontecesse.

Em 1778, um ano depois da morte do rei D. Manuel I e a queda do Marquês de Pombal, e quando o Capitão Henrique João Wilkens falava (como

Diretor da Fortaleza de Macapá) da “feliz aclamação da Augusta Soberana”, D.

Maria I, (Cód. 327. Doc. 20, de 09 de agosto de 1778) a obra da fortaleza foi julgada dispendiosa e não teve mais a devida atenção; em 1782, no dia de São José, a 19 de março, foi feita a sua inauguração, mesmo inacabada.

O cenário da construção da Fortaleza de São José de Macapá, traz uma história feita de inúmeras personagens, em um ambiente de uma construção militar, testemunhada e vivenciada por elas cotidianamente. Nela não faltaram tramas, explosões de sentimentos, espúrios ou não, verdadeiros ou falsos, mas inerentes a todas essas personalidades reais que se aventuraram heroicamente na região amazônica, em uma espécie de exílio, em que padeceram as agruras de um tempo e de um lugar, e de suas próprias idiossincrasias, narradas em seus discursos epistolares.

A estrutura psicológica de cada personagem real alimenta a ideia de que suas vidas vivenciaram um romance, pois na visão teórica da literatura não lhes faltaram as características fundamentais para uma escritura ficcional, e os aspectos metodológicos dessa construção literária estavam implícitos nos seus escritos. E eles voavam soltos em busca de uma lógica romanesca que ninguém escreveu. Uma lógica romanesca que se apresenta clara, guiada pelo fio da história e pela imaginação especulativa, que se faz nesse caso, para desvendar os segredos da história da construção da Fortaleza de São José de Macapá.

Nesse contexto as narrativas gallucianas e de seus contemporâneos ocorrem em um tempo lento, tão lento como as canoas que serviram para transportar os milhares de carradas de pedra para a construção das muralhas.

Nesse interregno – da construção à contemporaneidade – um silenciamento pairou sobre a vila de Macapá e um esquecimento parecia estar impresso nas paredes de suas casas, que só depois de 160 anos (com a criação do Território Federal do Amapá, em 1943, e o seu tombamento em 1950) se dissipou ao troar dos canhões. Assim, portanto, inicia a partir daqui a segunda temporalidade literária deste trabalho.

3. O DISCURSO FUNDADOR E A CONSOLIDAÇÃO DO TERRITÓRIO