5.3 Girls’ perspectives
5.3.1 Family and background
O observador comum que vê a FSJM na paisagem urbana, à beira do rio, hoje restaurada e utilizada como museu, possivelmente nem imagina o custo empregado para construí-la, a mão-de-obra utilizada e as condições ambientais, econômicas e sociais da época. Ali, na foz, foi erguida uma construção militar de grande porte que serviu para marcar o território da conquista lusitana na Amazônia, e com isso mostrar o seu poder bélico para amedrontar possíveis invasores.
Essas constatações são imanentes às cartas enviadas pelos construtores e autoridades coloniais sediados em Macapá (fundada a 04 de fevereiro de 1728, mas que já possuía um destacamento militar desde 1738) para a sede da província do Grão-Pará, em Belém, especialmente para os governadores do período de sua construção (oficialmente de 1764 a 1782). Estão presentes, também, essas condições, em todo o arcabouço ideológico de
construção do espaço e conquista de territórios, visando a expansão mercantilista de Portugal e controle absoluto das terras da Amazônia. Todo um processo político estaria sendo preparado pelo governo português bem antes da sua edificação, pois a região era amplamente disputada com outros países europeus desde o século XVII (CASTRO:1999, Pág.129/193).
Os grandes problemas enfrentados na maior parte da construção ocorreram no reinado de D. José I (1750-1777), período em que Marquês de Pombal, Ministro do Reino, criava e determinava os projetos de Portugal. Ele enviou inclusive, em 1751, para governar a Província do Grão-Pará e Maranhão, o seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado (Idem).
Citado por Baena, Mendonça Furtado, ao visitar Macapá pela primeira
vez (1752) “tanto o enamorou a sua localidade que chegou a expressar em um dos seus ofícios para a Corte que aquela terra era um arremedo das Vilas de
Cintra e Colares no Termo de Lisboa” (BAENA, 1969. Pág. 60). Após voltar das expedições de demarcação das terras nos rios Negro e Solimões, em 1758, o governador funda Macapá como vila e no ano seguinte retorna à Corte para assumir o cargo de Secretário de Estado de Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinhos. Antes, porém, ele sugere a ereção de uma fortificação em Macapá, tendo em vista sua preocupação com os franceses (CAVALCANTI, 1997. Pág. 26/7).
As cartas tratavam de narrar os acontecimentos do dia-a-dia da construção e, nelas estava implícito, enquanto discurso do colonizador, o objetivo da missão de construí-la. Os documentos falam da vila de Macapá, das dificuldades, roubos, bebedeiras, adultérios e morte; das demoras de remessa de material para a obra e das canoas que vêm da ilha do Marajó para abastecê- la; da morte de gado, da extração de pedras, da vinda de 200 pretos de Angola, das experiências de cozimento e secagem de tijolos, e de todo um contexto espacial e social da obra.
Há uma carta do senado da Câmara de Macapá que informa que a vila cada vez mais vai crescendo por causa da magnífica e Real obra da Fortificação. Muitas doenças grassam no lugar da construção, entretanto, não há remédios eficazes. Faltam lápis, pinceis, carmim e tinta da China (nanquim) para os riscos (desenhos) necessários à obra e, ao lado de tudo isso, está
claramente exposto o discurso que caracteriza a luta pelo poder entre as principais autoridades da vila e da obra da fortificação.
A importância da Fortaleza São José de Macapá, aliás, reside na sua imponência e grandeza encravada na beira do rio e louvada nos dias de festas cívicas. Enquanto feito histórico diz-se que ela cumpriu a sua missão de resguardar a entrada do rio Amazonas, apesar de nunca ter disparado um tiro de canhão, sequer, contra algum navio inimigo (Idem).
As obras da FSJM representaram a fixação da população e a formação política do lugar. Durante a sua construção, as cartas e relatórios emitidos pelos seus construtores tornaram-se peças informativas de valor literário, não apenas pelo que indicam sobre a obra em si, mas pelos aspectos inerentes ao comportamento social de homens e mulheres que se tornaram rudes pelas circunstâncias, individualistas pelas necessidades e até, às vezes, impotentes diante das injustiças e violências por eles experimentadas. Esses documentos também falam de saudade da família, de pedidos de promoções, de listas de remédios mais usados para tentar sanar as doenças e também das preocupações com detalhes de figuras e medidas de pedra, “que sobre a porta principal da Fortaleza deve conter uma daquelas inscrições que em semelhantes monumentos passam à memória de seus fundadores aos séculos futuros” (Cód. 200, doc.07, de 10.07.1769). Nessas cartas, notadamente Henrique Galúcio (O principal arquiteto e construtor da obra), Henrique João Wilkens, João Geraldo de Gronfelds demonstram, por meio de suas cartas, grandes conhecimentos sobre engenharia.
Assim, com essas cartas, pode-se pensar que as fronteiras da cultura se dilatam, e que se as olharmos como peças literárias, os espaços antes delimitados, sobretudo na literatura, perderam seus limites. Então a História da Amazônia se mescla no seu sentido interpretativo, a uma literatura real, escrita a sangue e sofrimento à luz tênue de lamparinas e velas, com seus olhares diferenciados sobre a imensidão de terra que os portugueses não tinham a exata noção de possuírem.
Independentemente do intento de fazer literatura, o que os construtores escreveram em suas cartas também é parte do discurso iluminista da época pombalina e reflete a experiência hegemônica dos conquistadores, que a fogo e ferro de balas e a golpes de espada construíram a Fortaleza de São
José. Tais textos também podem ser vistos como elementos literários, que vão além dos meros relatórios que detalham os passos do avanço das obras ou como escritos que contam uma aventura, onde cada carta é um pedaço da construção dessa memória.
Criar, então, um discurso literário/histórico/artístico/mítico e midiático sobre sua imagem, foi tarefa de todos aqueles que passaram por esse espaço, construindo contornos das identidades locais, mesmo às pressões das diferenças, das alteridades e das diversidades culturais e ambientais. Buscar a relação entre os insumos literários que os construtores da Fortaleza escreveram durante a sua ereção e os que vêm sendo produzidos na atualidade, além de outras expressões e linguagens artísticas e comunicativas, é uma forma de contribuir para o entendimento das identidades amapaenses. Há, nessa ideia, um complexo processo de análise a ser observado porque a história da Fortaleza de Macapá traz, também, uma história daqueles que foram supostamente vencidos, registrada pelos vencedores, que tinham suas estratégias de sobrevivência e hegemonia, onde está expressa a relação do homem com a natureza de forma significativa, pelo que experimentaram na construção da obra (BHABHA, 2007).
E essas estratégias são muito bem produzidas no período. O papel ocupado pelos colonizadores, a ordem e o controle eram contrapostos nas adjacências da obra por negros, degredados, índios e soldados desertores que
protagonizaram uma “original aventura para conquistar a liberdade. Com suas
próprias ações reinventaram significados e construíram visões sobre a
escravidão e liberdade” (GOMES, 1999. Pág. 225). E isso emerge no cotidiano dos homens e mulheres daquela época nos documentos epistolares dos construtores. Seus textos constituem peças importantes para que se possa visualizar o painel da produção literária, das artes e da mídia contemporânea sobre a FSJM, pois carregam vivências, e como tal são memórias coletivas de um tempo. Por outro lado, foi tarefa desta pesquisa observar as narrativas atuais de escritores, que utilizam a edificação de várias maneiras, apropriando-se ou não de seus significados, e que lhes dão interpretações simbólicas diversificadas, pelo teor dos discursos que produzem sobre ela.
Mas por ser objetiva a questão literária, enfoco um trecho de um trabalho da escritora Esmeraldina dos Santos30, afrodescendente e moradora do
Quilombo do Curiaú, localizado a 8 km de Macapá, que expressa bem, a meu ver essa relação.
FORTALEZA DE SÃO JOSÉ DE MACAPÁ
Viviam negros escravos com direito à pena, ao entrar naquele forte senti dor, como se estivesse pegando chicotadas, vieram lágrimas aos meus olhos foi quando pensei em meus antepassados, quando escravos trabalhavam na construção do forte.
Caminhos obscuros, pedras e até mesmo esgoto encontravam pelo caminho, morreram pessoas que de lá tentavam escapar. Olhei a cada pedra como se delas saíssem uma voz me chamando como se alguém de minha família estivesse me chamando.
Veio em meu pensamento uma lembrança muito forte, foi preciso que eu me retirasse daquele lugar, passei as mãos naquelas muralhas, senti um gemido como se alguém tivesse me pedindo
socorro, alguém tentando me dizer “eu estou aqui”.
Cada pedra tem uma gota de lágrima daqueles negros que tanto lutaram por sua libertação.
Olhava para aquelas celas escuras, não deu para esquecer as pessoas que viviam presas ali, refleti sobre a tristeza que tanto sentiam nas muitas vontades de fugas que por suas cabeças passavam.
Hoje um filme passa em minha cabeça, como viviam aquelas pessoas? A angústia que sentiam de não ter sua liberdade. Quando nasci há 47 anos cheguei a conhecer algumas pessoas que ali ficaram presas, para eles era dolorido relembrar a angústia que ali viveram.
As pessoas ainda não acreditam no que está acontecendo comigo, é o poder da vida, acreditei no eclipse do sol, eu falei que era uma mudança na minha vida a partir daquele dia em diante e aqui está a prova, poder é vencer, eu quero, eu posso fazer.
Esta é a história de meu povo e que não terminou – somos muitos, que se perdem no tempo. Aqueles que ficaram não se separam, vivem esta história que nem mesmo o tempo poderá apagar (SANTOS, 20012. Pág. 38-9)
30 Esmeraldina dos Santos nasceu no dia 11 de janeiro de 1955 no bairro do Laguinho, em Macapá. É filha de Maximiano Machado dos Santos (Mestre Bolão) e de Francisca Ramos dos Santos (Tia Chiquinha), ambos nascidos no Curiaú. Tem duas filhas e quatro netos. Estudou na Escola São Benedito e na Paulo Freire. Em 2009 estudou na Etapa Extra da Escola Jardim Felicidade e concluiu seu ensino médio na Escola Estadual Maria do Carmo Em 2002 publicou seu primeiro livro, intitulado Histórias do meu Povo e em 2011 lançou o segundo livro e CD As Aventuras de Dona Florzinha. Nesse ano viajou pelo país no Projeto Sonora Brasil cantando Marabaixo em 56 cidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em 2014 percorreu no mesmo projeto por 49 cidades do Sul e do Sudeste, e no final do ano lançou o livro O Melhor caminho é a Escola. Possui, hoje o diploma do curso de Extensão Universidade da Mulher, da UNIFAP.
A percepção da autora ao entrar na FSJM e ter vivido uma emoção sem precedentes na sua vida e sentir a dor das chicotadas no corpo, decerto tem cunho psicológico e emocional, uma vez que a escravatura atingiu seus ancestrais. Mas é pela sensibilidade que pulsa em seu texto, que tange uma
espécie de transferência temporal quando recebe o chamado de “eu estou aqui”, e a “angústia que sentiam de não ter sua liberdade”. Aqui a escritora Esmeraldina
Santos descreve a FSJM como o lugar da prisão e da tortura, das tentativas frustradas de fugas, de dor e sofrimento. Ela lamenta em seu canto a total falta de liberdade e assevera que a história de seu povo não terminou, porque sabe de sua luta melhor que ninguém. Assim, a autora traz em seu texto a dimensão sociológica do período colonial nesse local, em uma linguagem simples, mas que reflete a sedimentação e a permanência do negro até hoje no território amapaense.
De acordo com a historiadora Verônica Luna (2011), em 1765 chegaram os primeiros africanos em Macapá, que em 1773 eram 325 e em 1788 (ainda durante a construção da FSJM) já somavam 750. Luna informa que que esses escravos viviam expostos às doenças tropicais como a malária, a cólera, a febre amarela e à varíola. Recebiam como alimentação básica apenas a farinha e o peixe e, quando livres delas, eram utilizados pelos colonos, militares e administradores com posses. Viviam no hospital da vila, doentes.
Grande parte dos trabalhos de indígenas e africanos era realizada na retirada de pedras brutas das pedreiras dos rios Anauerapucu e Pedreira; trabalhavam como remadores de canoas para o transporte das pedras até a fortificação, onde eram lapidadas. Também eram carregadores de areia e piçarra e barro para as olarias e aterro das muralhas e dos baluartes (Idem. Pág. 86).