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5.3 Girls’ perspectives

5.3.5 Gender and untraditional career paths

É interessante notar que à medida em que o tempo passa e as cartas vão se adensando, seus autores são seres potencialmente em alteridades e podem mesmo ser comparados ao etnólogo, quando este, em seu trabalho de

observação, renuncia a ser “o único sujeito do discurso, mas são também seu objeto dentro de uma cultura” (LAPLANTINE. Op. Cit. Pág. 178). Diante de uma

situação inusitada ou pelo menos nova para o etnólogo, este se esforça para

apreender “da forma mais próxima possível a língua dos homens da alteridade

e em transmiti-la na nossa língua” (Idem).

Porém, os autores-colonizadores e suas cartas, tal como num romance, desenvolvem inequivocamente um interesse pessoal para os pequenos detalhes dos minúsculos fatos, muitas vezes por não terem a noção do dimensionamento do que constroem e de não anteverem o seu significado naquele instante.

Como na literatura, o olhar de quem descreve fatos ficcionais ou reais se direciona à ambientação onde perpassam os personagens, o objeto detalhista das cartas a descrever o dia-a-dia do local da obra denota a pluralidade – ou diversidade – social das mesmas. Aliás se trata de uma situação de conflito, que traz tensões pela personalidade de cada um e pelos atos cometidos por eles, que têm que ser comunicados à autoridade colonial. Então, o limite das narrações é estabelecido pelas regras comportamentais, apesar do esforço do olhar absoluto, do olhar total. Mesmo assim as transgressões são muitas e bastante diversificadas.

Ao lado da construção e dos propósitos para os quais foi feita, inicia- se também um intrincado processo de relações socioculturais causado pela presença do engenheiro, sargento-mor do Exército Português, Henrique Antonio Galúcio, o encarregado das obras, que já se encontrava no Brasil desde 1753, a convite do capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para trabalhar na Comissão Demarcadora de Limites nesta região do Brasil. Galúcio nasceu em 1728, em Mântua, Itália; era cartógrafo e iniciou suas atividades no Brasil com a feitura do Mapa do Bispado do Pará, depois elaborou a carta da Capitania do Piauí (CARVALHO, 2009).

Colocado a serviço de Fernando da Costa Ataíde Teive, governador

do Pará, recebe a missão de fazer o “risco” (planta) de Macapá, onde

chega acompanhado dos engenheiros Gaspar João Geraldo Granfelts, Domingos Sambucette e Antonio Landi, bem como dos astrônomos João Ângelo Cunceli e Miguel Antonio [grifos meus]31 (*), para estudarem o terreno, as marés, e clima, para elaborar a planta, com as áreas definidas do povoado, da segurança e da fartura. O

31 A grafia correta dos nomes que aparecem constantemente nos documentos dos códices do Arquivo público do Pará é a seguinte: Fernando da Costa de Athayde Teive, Gaspar João Geraldo Gronfelds, Domingos Sambucetti, Antonio Landi, João Ângelo Brunelli e Miguel Antonio Ciéro. Todos vieram para o Brasil na Comissão Demarcadora de Limites, em 1753.

trabalho foi realizado e submetido ao rei de Portugal, o qual foi aprovado, tendo o próprio rei nomeado Galúcio engenheiro responsável pela construção da Fortaleza de Macapá, em 22 de janeiro de 1764 (BARBOSA, 1997. Pág. 128).

Não tenho a intenção aqui, de realizar uma biografia do mais importante construtor da Fortaleza de Macapá, ou das outras personagens marcantes da construção da obra, mas mostrar o sentido dessa presença através de uma literatura às avessas, narrada pelo próprio Galúcio em suas cartas ao governador da Província, e por outros engenheiros-ajudantes, como o capitão João Henrique Wilkens32, e o comandante da Praça de Macapá, coronel Nuno da Cunha de

Athayde Varona.

Na medida em que a obra foi construída, ocorreu uma cadeia de eventos que determinaram a agonia do engenheiro Henrique Galúcio. A mudança da configuração da paisagem do lugar também é a paisagem da transformação cultural, ditada pela dinâmica das pessoas. Por isso cada olhar (implícito na narrativa das cartas)33 pode ser uma visão de mundo, alteridades que vão

mudando ao longo de uma trajetória que afeta o espaço e a vida social e cultural desses atores.

É assim que, no decorrer da história, o homem vai construindo relações, desenvolvendo processos, às vezes contraditórios, que se superam no movimento do tempo e do espaço na sociedade e no lugar em que ele se encontra com o outro, que é o índio, o negro, o colono, o degredado. Nessas relações sociais dinâmicas se constrói a realidade que se vincula ao movimento da própria história. Os olhares do estrangeiro, do militar colonizador, do escravo negro africano, do comerciante e do índio, são, sim, muito diversificados, mas existem como sujeitos que produzirão um trabalho determinado pela decisão política, em um espaço geográfico no qual reproduzirão a sua existência e os seus valores perante a existência e os valores do outro.

32 O capitão-engenheiro João Henrique Wilkens substituiu Galúcio como responsável pelas obras da fortificação logo após a morte deste, enquanto esperava o engenheiro Gronfelds que iria assumir o comando. Mais tarde Wilkens também assumiu os trabalhos da construção e foi para a Província do Rio Negro (hoje Estado do Amazonas) onde escreveu o poema A Muhuraida, publicado em 1785.

33 As cartas dos construtores são como crônicas literárias, pois não deixam de ser construções da realidade que registram/narram acontecimentos e fatos comuns do cotidiano da ereção da obra e de aspectos técnicos. Seus conteúdos são importantes, pois as concepções e os fatos extraídos delas lhes dão, indubitavelmente, teor científico eivados de certa literariedade.

Daí que a palavra alteridade, que possui o prefixo alter, do latim, tem o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e dialogar com o outro. A prática da alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais, religiosos, científicos, étnicos, etc. Na relação alteritária está sempre presente os fenômenos holísticos da complementaridade e da interdependência, no modo de pensar, de sentir e de agir, onde o nicho ecológico, as experiências particulares são preservadas e consideradas sem que haja a preocupação com a sobreposição, assimilação ou destruição destas.

É, portanto, na diferença cultural que o jogo de ações (e tensões) se estabelece no contexto da construção da obra.

Ao contrário dos viajantes que descreveram a Amazônia do século XVIII como um amplo e complexo cenário que para seus olhos “revela-se muitas vezes como um objeto de assombro, surpresa e maravilha” (HATOUM, 2009. Pág.104), a construção da FSJM foi um processo marcado pela labuta árdua, caracterizado por uma tecnologia incipiente e dificultosa, com mão-de-obra escrava e por uma série de situações de relacionamentos sociais complexos.

Nesses relacionamentos, o poder se imbrica em disputas nada salutares, em queixas, intrigas e tensões explícitas nas cartas, que refletem o ambiente da época, mostrado as grandes dificuldades e deixando transparecer uma subserviência impressionante aos mandatários – como era estilo do período

– sobretudo por estarem as personagens ligadas a uma hierarquia militar impositiva e implacável.

Embora não se tratando de ficção, as personagens reais da construção da Fortaleza de Macapá também têm características ficcionais das personagens dos romances amazônicos A Selva (Ferreira de Castro) e Mad Maria (Márcio Souza), citados por Hatoum (Idem. Pág. 5), para quem a “viagem torna-se [para as personagens] uma quase imposição, e nesse sentido ela se

revela como uma forma de exílio” (Idem).

Longe da tentativa de traçar um paralelo entre as personagens ficcionais dos romances sobre a Amazônia e a dura vida dos construtores da FSJM, pode-se considerar, assim mesmo, que a determinação de erguê-la na foz do Rio das Amazonas constituiu-se uma missão marcada pela vontade política do Marquês de Pombal em ampliar o reino português e potencializar sua

economia. Paradoxalmente, foi um tipo de “ação heroica” muito semelhante à condição “dos trabalhadores recrutados em vários cantos da terra: antilhanos, alemães, espanhóis, hindus: párias que viajam milhares de milhas para

encontrar na Amazônia uma espécie de desterro involuntário” (Idem. Pág.112). As personagens (europeias) da construção da Fortaleza vêm para um ambiente violento, da mesma forma como nos romances acima referidos; para um lugar caracterizado pela degradação física e moral e pelas contingências ambientais desfavoráveis, como a falta de abastecimento e as doenças tropicais. Ao lado disso, africanos de diversas procedências viviam sob a escravidão, bem como os indígenas, capturados para os trabalhos de transporte, caça, pesca e outras atividades laborais. Mas na linha hierárquica de mando estavam os portugueses militares e os civis, representados pelos imigrantes madeirenses e açorianos que vieram para Macapá a partir de 1752 (SILVA, 2000. Pág.365-74) e que, por determinação de Mendonça Furtado, instalaram os poderes legislativo e judiciário na vila fundada por ele em 1758.

Considerar, então, a obra (FSJM) como gênese da ocupação, de que falamos em capítulo anterior, significa dizer que a fortificação representou a constituição física da vila, tanto econômica como politicamente, pois sem a guarnição militar que ela abrigou durante parte da sua construção, é possível que Macapá não tivesse sobrevivido. A obra representa, pois, a fixação da população e a formação política do lugar. Entretanto, seria conveniente inserir no cenário da construção as estratégias de que se valeram os portugueses para se fixarem no lugar, obviamente pela força militar que ostentavam, fundamentada pelas ações expressas em seus códigos de guerra.

Negros, índios, soldados desertores e cidadãos civis eram punidos de

acordo com seus comportamentos. Em seu trabalho sobre “O fim das

descobertas imperiais” (SANTOS, 2009. Pág.182-90), Boaventura de Sousa

Santos diz que “o segundo milênio foi o milênio das descobertas imperiais. O

‘Outro’ do Ocidente, o descoberto, assumiu três formas principais: o Oriente, o selvagem e a natureza. O autor esclarece que

Se o Oriente é para o Ocidente o lugar da alteridade, o selvagem é o lugar da inferioridade. O selvagem é a diferença incapaz de se constituir em alteridade. Não é o outro porque não é sequer plenamente humano. A sua diferença é a medida da sua inferioridade. Por isso, longe de constituir uma ameaça civilizacional, é tão só a

ameaça do irracional. O seu valor é o valor da sua utilidade. Só merece apenas confrontá-lo na medida em que ele é um recurso ou via de acesso a um recurso. A incondicionalidade dos fins – a acumulação dos metais preciosos, a expansão da fé – justifica o total pragmatismo dos meios: escravatura, genocídio, apropriação, conversão, assimilação. (Idem. Pág. 182)

Essa afirmação remete ao conceito que se tinha no período da ereção da obra sobre a natureza, posta conceitualmente por Santos como um lugar de

exterioridade, mas também de inferioridade, pois “O selvagem e a natureza são,

de fato, as duas faces do mesmo desígnio: domesticar a ‘natureza selvagem’, convertendo-a num recurso natural” (Idem, Pág.188).

A FSJM foi construída ainda sob a égide da imposição do branco

colonizador através das chamadas “guerras justas”, concepção, que segundo Santos está na teoria da “escravatura natural” de Aristóteles, a qual reza que “a

natureza criou duas partes, uma superior, destinada a mandar, e outra, inferior,

destinada a obedecer. ” (Idem. Pág.186). Entre os portugueses,

o processo de eliminação do Outro – prática comum no discurso

militar colonial, que impunha a “civilização” do europeu à “barbárie” do nativo americano – ficou muito tempo abrigado sob

o manto oficial das chamadas “guerras justas”( CALDAS, 2007. Pág.13).

Nesse panorama é que Henrique Galúcio, a personagem principal da construção da Fortaleza indubitavelmente tinha seus conceitos pessoais sobre o mundo que o cercava. Sua formação europeia permitiu que se dedicasse ao estudo da Astronomia, munido de um telescópio que mandara buscar na Itália. Suas anotações eram mandadas para o Observatório de Lisboa, inclusive as que informam que observou um eclipse do sol na tarde de 25 de agosto de 1767, e um da lua em 29 de julho de 1768 (BARBOSA. Op. Cit. Pág. 128). Culto e seguro na sua escrita, Galúcio escrevia inclusive versos das Éclogas (Bucólicas), de Virgílio, nas epígrafes de suas epístolas.

Nas suas relações com os portugueses – o comandante da Praça de Macapá e seus engenheiros subordinados –, havia sempre uma rusga na qual o construtor mostrava características de sua personalidade no trato com eles. Trata-se de uma diferença cultural marcante, porque a identidade é fabricada através da marcação da diferença, que acontece por meio de sistemas

simbólicos como também por meio de formas de exclusão social. Para Kathryn Woodward (Op. Cit. Pág.7-72), a

identidade, pois, não é o oposto da diferença: a identidade depende da diferença. Nas relações sociais, essas formas de diferença – a simbólica e a social – são estabelecidas, ao menos em parte, por meio de sistemas classificatórios. Um sistema classificatório aplica um princípio de diferença a uma população de uma forma tal que seja capaz de dividi-la (e a todas as suas características) em ao menos dois grupos opostos – nós/eles; eu/outro [grifo da autora] (Idem. Pág. 39- 40).

O sargento-mor e engenheiro Galúcio, apesar das dificuldades enfrentadas no dia-a-dia, principalmente no trato de seus subordinados e nas relações com a outra autoridade da vila, o coronel comandante Nuno da Cunha Atahyde Varona, sabia do seu papel, da sua condição de europeu culto, mas essencialmente sabia o que a sua própria presença significava para Portugal naquele lugar ermo onde a doença e a saudade da família o fariam definhar até a morte.