A consciência, essa peça fundamental da cultura humana eleva a possibilidade do ser se transformar e mudar a realidade do mundo. Desde o
estabelecimento do caos gerado pelos cataclismos de fogo na floresta e o pesadelo diluviano de Mairi (Que veremos no capítulo III) conduzida por Ianejar do mito waiãpi, o amapaense muda, cria (i)realidades para fincar na sua terra o cajado da razão de sua existência: a multiplicidade dos sonhos a serem realizados em um novo mundo após o caos, algo supostamente bíblico, mitológico e renovador pela ablução das águas, que extirpa o passado e faz descortinar o sol de uma nova existência, eivada de novos fazeres, de novas ações culturais e sentimentos; de novas memórias que decerto gerarão novas identidades. Mas a pedra de Mairi ficará como identidade primordial plantada onde parou, no lado esquerdo do grande paraná, que é o rio Amazonas.
O amapaense nunca vai deixar de ser um rio enigmático, a ser desvendado por ele mesmo. Até as águas turvas dos acontecimentos, como os
que presenciei em 1973, chamado pela população de “Operação Engasga-
Engasga” (a ser descrita no IV capítulo desta tese), teve a sua razão histórica e
o seu limite político-ideológico ao servir a um grupo militar que objetivava a implantação de uma nova política de segurança para o Amapá. A obtusa e confusa atuação da Polícia Civil, da Guarda Territorial e do Exército sobre a ação dos supostos comunistas-terroristas-engasgadores, foi um ato que o romancista e jornalista Jorge Hernani também testemunhou e o classificou como incoerente e covarde, dentro de um círculo de fatos que estavam compatíveis com o tempo das trevas da ditadura militar que assolava o Brasil com extraordinária eficiência das forças repressivas de então.
Faço-me ainda testemunha desses fatos e não busco a ilusão fácil para as reflexões emitidas aqui, de onde cortejo as palavras e observo ainda hoje nas ruas as lembranças dos rostos e olhares. De memórias, de crenças, lágrimas e sonhos daqueles que viveram tantas temporalidades e permitiram que a história fosse contada de acordo com seus saberes, artes e versos, criados além do lirismo individual, mas com o desejo vivaz de ensinar o que viram para que o coletivo pudesse vir à tona nesses rios de águas barrentas. Esses rios são as próprias identidades amapaenses. São o que são à luz de suas crenças. Crenças de um futuro menos pessimista e mais sujeito a reflexões provocadas pela energia e a intensidade da luz do sol equatorial sobre suas cabeças. Aliás, nos equinócios, quando o arco da noite é o mesmo que o do dia, ao meio-dia o amapaense fica sem sombra, devido à incidência direta dos raios solares. Daí
se dizer que a essa hora o homem fica “a-sombrado”, ou seja, “sem sombra”, o que lhe dá a condição de um ser não-natural, sobrenatural, translúcido e estranho, que habita um mundo amazônico cheio de (i)realidades, características de uma região histórica e economicamente espoliada, mas onde o mito e as crenças se renascem e se perpetuam dentro da cultura. O significado de a-sombrado é o inverso de assombrado dos dicionários da língua portuguesa. O amapaense é um ser de luz. É por ocasião do equinócio da primavera que as cores ficam mais vivas no Amapá. A claridade reina irradiando mistérios sobre a cidade de Macapá em mais uma data em que o arco do dia é igual ao da noite: um dia equinocial. Iridescente e translúcido no meio do planeta, na Amazônia brasileira. O sol que ilumina a todos, que traz a luz e rompe trevas está presente no imaginário de muitas religiões, até porque todas as cosmogonias se relacionavam geralmente com as divindades da natureza. No antigo Egito, o Sol, o mais importante dos deuses, tinha diversos nomes. As interpretações dadas às suas funções eram extremamente variadas: chamava- se Rá, o deus supremo, quando estava no zênite. Como disco solar chamava- se Aten; como sol nascente tinha o nome de Kepri, um grande escaravelho que faz rolar a sua frente a bola de sol, assim como na terra o escaravelho faz rolar a bola de excremento em que pôs os ovos e da qual sairá nova vida. Também tinha o nome de Hórus. No Japão, Amaterasu é a deusa homônima. Já na África tropical a mitologia sobre o sol é escassa porque ele está sempre presente, não havendo necessidade de chamá-lo de volta no inverno, como os homens o faziam nos climas frios do norte da Europa ou do Japão. Na Babilônia, na época de Hamurábi (cerca de 1.700 a.C.), um dos deuses mais ativos era Shamash, o sol, também conhecido por Babar, “o Brilhante”. O sol era igualmente venerado pelos sumérios, particularmente em Larsa e Siippar, onde o adoravam sob o nome de Uru. Os Incas reclamam para si um relacionamento especial entre a nobreza e o deus Sol. O seu sistema social assentava-se no princípio hierárquico de monarquia divina e o prestígio de sua autoridade estava ligado ao culto desse astro.
Atividades como a celebração druídica do solstício de verão em Stonehenge (Inglaterra) podem ser considerados como uma sobrevivência da ideia do poder mágico, da força que se pode armazenar em “acumuladores
grandes pedras encontradas em círculo, em Calçoene (Município do Amapá), também podem ser consideradas antigos locais de observação do sol e de acumulação de energia deixados por alguma tribo indígena.
O amapaense é um ser de brilho, pelo sol equatorial, mas encontra
no dilúvio místico, da chuva “baguda” (assim chamada por ter pingos grossos) a ideia da salvação na nau de argila dos waiãpis, a Mairi, que vagou nas ondas da enchente e se fixou na borda do Grande Paraná, tornando-se um ícone proto- histórico da vida amazônica. Um objeto da salvação de uma raça que ancorou sua sorte e seu destino na mata e na várzea do estuário do Amazonas. Ali o tempo e o espaço se fundem em uma estrutura mística, do deus Ianejar dos waiãpi, pois cada gesto seu era dotado de significação particular. A ausência dele depois da aportagem da Casa de Barro deixa a saudade divinatória, pois ele vai se transformar em estrela e habitar o espaço do final do mundo, no buraco sem fim, até se enfraquecer no esquecimento das gerações que o abandonaram. Mas como o seu tempo é cíclico (mítico), Ianejar pode retornar memorialmente entre os waiãpis.