2.3. Governance in the development context
2.3.3. Perspectives from development management
Se as informações sobre a vida de Regino de Prüm eram escassas e sua obra, enquanto fonte de dados autobiográficos, era evasiva, os indícios sobre Raul Glaber são um pouco mais animadores. Glaber teria nascido por volta de 980 e falecido, provavelmente, em 1046, na Borgonha, sendo um grande conhecedor desta região, centro da renovação monástica nos séculos X e XI. Desta forma, viveu depois do fim do Império Carolíngio, durante e sob o estabelecimento da dinastia capetíngia após a eleição de Hugo Capeto, em 987.
A origem de sua família é incerta. No Livro 5, Glaber deu indícios de ser fruto de um nascimento ilegítimo, supostamente sendo filho de clérigo.243 Passou por constantes mudanças de mosteiro ao longo de sua vida, o que contribuiu para a sua fama de conduta irregular. Glaber contou, no relato, que foi colocado no monastério por seu tio, também monge, aos 12 anos, e foi expulso do local.244 Provavelmente, ele se referia à Saint-Germain d'Auxerre, controlada pelo abade Helderico (989-1010), uma vez que o monge mostrou estar bem informado sobre a guerra na Borgonha promovida por Roberto II da França e Ricardo da Normandia, por volta de 1003, o que abre a possibilidade dele ter sido uma testemunha dos eventos.245 O monge viveu em, pelo menos, outras duas importantes casas, Saint-Bénigne de
241 CAVALLO, Guglielmo; ORLANDI, Giovanni (eds.). Rodolfo il Glabro, Cronache dell'anno Mille: Storie. Milão: Mondadori, 1989.
242 FRANCE, John (ed. e trad.); BULST, Neithard (ed.); REYNOLDS, Paul (trad.). Rodulfus Glaber. Opera.
Oxford: Oxford Clarendon Press, 1989. Usaremos essa edição como guia para a tradução e referência de páginas.
243 A introdução do Livro 5 - livro este inserido nas Histórias nos últimos meses da vida de Glaber - é a principal fonte de informações autobiográficas. GLABER, Raul, 5, 1, 1-14. In. FRANCE, John. op. cit., pp. 216-237. É nele também que aparecem as famosas visitas do Diabo, o que pode indicar a constante presença do Mal por conta da sua própria origem pecaminosa e da sua trajetória monástica errática. Ver ARNOUX, Mathieu. op. cit., p. 8.
244 GLABER, Raul, 5, I, 3. In. FRANCE, John. op. cit., pp. 218-221.
245 RAUL GLABER, 2, VIII, 15-16. Arnoux apontou que seu primeiro monastério seria Saint-Léger-de- Champeaux ARNOUX, Mathieu. op. cit., p. 5, mas France argumentou que esse local, com apenas oito monges, não seria suficiente para prover a educação do jovem, nem seria a abadia com monges de todas as idades, apontada por Glaber. FRANCE, John. op. cit., p. XXVI. Ver também PETIT, E. Raoul Glaber. Revue historique, XLVIII, 1892, 1-17.
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Dijon e Cluny, e teve contato com ilustres personalidades eclesiásticas reformadoras, como Guilherme de Volpiano, abade de Saint-Bénigne de Dijon e pupilo de Maiolo de Cluny, e Odilo, abade de Cluny, a quem Glaber dedica as Histórias.246
Diante dessas informações, ainda que a obra possa ter tido uma circulação limitada, observamos a pertinência do escrito dentro de um ambiente privilegiado e junto a um público composto por figuras importantes na Igreja, que permitiram a Glaber a reflexão e elaboração das Histórias. Foi durante as constantes trocas de monastérios e diante dos beneditinos reformados por Cluny que os cinco livros foram apresentados.247 É plausível pensar que as Histórias foram produzidas e lidas graças à forte conexão entre Glaber e Guilherme de Volpiano. Essa ligação teve impacto na vocação de Glaber como historiador, já que ele também foi responsável pela hagiografia do abade, único documento usado em seu processo de canonização.248 Não se sabe quando e sob quais termos se deu o início da sua relação com Guilherme de Volpiano, mas provavelmente ela se fortaleceu na década de 1020. O abade era uma figura internacional, com atividades reformadoras na Itália, Alemanha ocidental e Normandia, e tinha ligações de alto nível com a elite.249 É possível que Glaber o acompanhasse em muitas dessas viagens pela Itália e estivesse bem informado por causa dos laços sociais do abade e das histórias repassadas por este.250
246 De um modo geral, a cronologia que segue é a seguinte: do começo de 990 até uma data desconhecida depois de 1010, Glaber se estabeleceu em Saint-Germain-d'Auxerre, com períodos de residência em Moutiers-Saint- Jean e Saint-Leger-de-Champeaux; de 1024 (ou 1016) até 1030, em Saint-Bénigne de Dijon; de 1030 até 1034 ou 1035, em Cluny; de 1034 a 1035, em Bèze; de 1036-1037 até a 1046 (morte), em Saint-Germain-d' Auxerre, com período de residência em Moutiers-Sainte-Marie. FRANCE, John. op. cit., pp. XXXII-XXXIII.
247 Importante ressaltar que se usa, aqui, a expressão “beneditinos reformados por Cluny” e não simplesmente “cluniacenses”, pois Raul nunca fez parte da comunidade cluniacense, embora tenha circulado durante toda sua vida entre casas reformadas por Cluny. Tais casas adotavam os costumes de Cluny sem terem se submetido juridicamente a seu abade. ALMEIDA, Néri de Barros. Raul Glaber: um historiador na Idade Média (980/985- 1047). Revista Signum, v. 11, n. 2, 2010, p. 93. Para evitar maiores confusões, muitos especialistas preferem utilizar ecclesia cluniacensis, que teria muitas partes ou membros (membra) no século XI, a congregatio
cluniacensis no século XII e ordo cluniacensis, que se aplicaria para toda a instituição no século XIII.
CONSTABLE, Giles. Cluniac Reform in the Eleventh Century. In. ______. The Abbey of Cluny: A Collection of
Essays to Mark the Eleven-hundredth Anniversary of Its Foundation. Münster: LIT Verlag Münster, 2010, p. 87.
Ver também IOGNA-PRAT, Dominique. Ordonner et exclure: Cluny et la société chrétienne face à l'hérésie, au
judaïsme et à l'islam, 1000-1150. Paris: Flammarion, 2004.
248 Vita domni Willelmi abbatis, escrita entre 1031 e 1036. Ver ARNOUX, Mathieu. op. cit., pp. 9-10.
249 FRANCE, John. op. cit., p. XXVIII. Guilherme de Volpiano foi abade ou tutor de vários monastérios disseminados entre Piémont (Fruttuaria), Borgonha (Dijon, Bèze), Normandia (Fécamp, Bernay, Mont-Saint- Michel) e Lorraine (Saint-Arnoul de Metz e Saint-Èvre de Toul). ARNOUX, Mathieu. op. cit., p. 9.
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A ligação entre um abade da estirpe de Volpiano e um monge como Glaber, considerado instável e antissocial, pode parecer estranha. Mas algumas passagens das Histórias apresentam uma outra faceta de Glaber. Ele seria um monge respeitado, solicitado de um monastério a outro por conta de suas competências. No Livro 4, desmascara a procedência duvidosa das relíquias de Saint-Just na inauguração do monastério em Susa, fundado pelo marquês Manfred.251 Por fim, no Livro 5, o monge se orgulha da sua habilidade literária, especialmente, ao ser empregado para reescrever as inscrições da abadia de Saint- Germain-d’Auxerre.252