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5.2 Section 2: Travel motivation and perception of experience, attitude towards conservation

5.2.2 Perception of experience and attitudes towards conservation and the authenticity concept

As espécies vegetais possuem características que podem ser utilizadas para controlar tecnicamente alguns processos fluviais, como erosão do fundo e das margens, deslizamentos, desmoronamentos e transporte de sedimentos (Durlo e Sutili, 2005). A vegetação exerce no solo uma função estabilizadora intensa e multifuncional, ao nível da protecção contra a acção de agentes externos (precipitação, temperatura, vento, entre outros) e de agentes internos (instabilidade, encharcamento, falta de coesão, entre outros), principalmente devido às características do sistema radicular. No entanto, a existência de vegetação também ocasiona o aumento do peso sobre o talude e de atrito proporcionado pelo vento sobre a copa aumentando a tensão sobre o mesmo. Devido à influência da vegetação sobre o ciclo hidrológico, o teor de humidade do solo e o nível do lençol freático também são alterados. Na Tabela 2.8 estão representados os principais efeitos da vegetação na estabilização dos taludes, em termos hidrológicos e mecânicos.

Tabela 2.8. Efeitos hidrológicos e mecânicos da vegetação na estabilidade dos taludes (adaptado de Durlo e Sutili, 2005).

Efeitos hidrológicos Efeitos mecânicos

Copa das árvores

Retenção de água (evaporação), reduzindo a precipitação efectiva (B);

Redução da força do impacto das gotas da chuva e erosão (B);

Aumento do tamanho das gotas, resultando num maior impacto localizado (A);

Redução da infiltração efectiva no talude, devido à evapotranspiração (A/B);

Aumento da força normal, pelo peso da copa e do tronco (A/B);

Protecção do solo do efeito dos raios solares e do vento (A/B);

Captura das forças dinâmicas do vento e transmissão ao talude pelo tronco e sistema radical (A);

35 Cobertura das folhas no solo

Aumento da velocidade e da capacidade de armazenamento da água (A/B);

Promove a irregularidade e a redução do escoamento superficial da água (B);

Absorção do impacto mecânico da queda das gotas, da maquinaria e do pisoteio (B);

Protecção do solo de outras forças erosivas (vento, temperatura, etc.) (B);

Raízes

Melhora infiltração superficial da água no solo (A/B);

Aumento da porosidade e permeabilidade do solo (A/B);

Remoção de parte da água infiltrada que será transforma ou evapotranspirada (B);

Aumento da coesão das partículas do solo (A/B);

Auxílio da criação de agregados do solo, por acção física e biológica (B);

Aumento substancial da resistência do solo (B); Redistribuição das tensões formadas nos pontos críticos (B);

Ancoragem das linhas de ruptura (B);

Restrição dos movimentos para suporte do peso no talude (B).

A) efeito adverso da vegetação; B) efeito benéfico da vegetação

Para Pflug (1986), a renaturalização de linhas e planos de água a vegetação deve principalmente: (i) diminuir a energia da corrente; (ii) consolidar e fixar o terreno através de um desenvolvimento radicular adequado; (iii) sombrear o corpo de água, garantido uma temperatura mais baixa e o controlo da vegetação infestante; (iv) garantir a diminuição do risco de erosão ou ruptura das margens e propiciar em simultâneo um nível adequado de sedimentação; (v) e exigir o mínimo de intervenção e manutenção possíveis. Na Figura 2.11 estão representados exemplos de processos de renaturalização de cursos de água canalizados/rectilíneos, com recurso à meandrização e vegetação do local.

36 Figura 2.11. a) Evolução de um rio rectificado num rio renaturalizado, através da remoção das construções das margens e promovendo a modificação natural do leito do rio; b) Propostas para a transformação de um perfil regularizado num perfil “naturalizado” (Binder, 1998).

A segurança e a durabilidade de um projecto com técnicas de bioengenharia estão directamente relacionadas com a escolha das espécies de plantas a utilizar na intervenção. A utilização de espécies menos aptas pode levar a situações de instabilidade nas estruturas construídas. As plantas possuem características biotécnicas específicas (Tabela 2.9) que lhes permitem ser utilizadas como material de construção vivo. São estas as características que fazem das plantas agentes importantes no controlo de fenómenos erosivos.

Tabela 2.9. Propriedades e capacidades técnicas e biológicas da vegetação (adaptado de Florineth e Molon, 2004).

Tipo de propriedade Descrição

Propriedades, capacidades técnicas e acção estabilizante

Protecção contra a erosão superficial

Através de cobertura de solo, reduzem o impacto das gotas de chuva, promovem a infiltração e armazenamento no solo. Consequentemente reduzem o fluxo à superfície e o transporte sólido.

Regulação do balanço hídrico do solo

Através do metabolismo, a vegetação evapotranspira grandes quantidades de água do solo, aumentando a coesão das partículas no terreno e a sua estabilidade. As plantas criam um solo estruturado, rico em húmus e com horizonte de decomposição e as substâncias libertadas originam agregados químicos que também aumentam a coesão das partículas do terreno. Os microrganismos também têm uma função estabilizadora no processo de decomposição e mineralização. Os

37 invertebrados tornam o solo mais permeável, originando uma percolação mais rápida da água, reduzindo a retenção de água à superfície e movimentos de deslizamento.

Desenvolvimento radicular

Será preferível a plantação alternada de espécies com aparelhos radiculares aprumados (crescimento vertical e capacidade de penetração no solo) e de espécies com raízes superficiais (crescimento superficial), de modo a que a permeabilidade seja a mais homogénea possível nas diferentes camadas do solo.

Resistência ao desenraizamento

Exprime a estabilidade conjunta do terreno e da raiz e a capacidade da planta aumentar a capacidade de estabilizar o terreno. Depende das características pedológicas do local, condições ecológicas (água, luz, nutrientes), da espécie e da idade da planta.

Elasticidade e

deformação das plantas lenhosas

O coberto vegetal da margem deve ser constituído por espécies com parte aérea flexível, de modo em que em caudal de cheia os fustes se dobrem sobre a margem, diminuindo a velocidade de fluxo nessa zona e o arrastamento de materiais finos.

Resistência ao corte

A vegetação exerce resistência ao corte devido à estabilização mecânica do terreno (exercida pelas raízes), ao aumento da coesão capilar (evapotranspiração) e à criação de agregados de partículas (pela actividade das raízes e microrganismos).

Propriedades e capacidades biológicas

Capacidade regenerativa

Todas as plantas, sobretudo as latifólias, possuem a capacidade de se regenerarem. Quando cortadas na base conseguem rejuvenescer e aumentar significativamente a sua taxa de crescimento.

Capacidade de adaptação

Capacidade das plantas de adaptarem ao ambiente em que vivem, como por exemplo, reagindo à força exercida pelo vento e acção abrasiva da neve.

Resistência à submersão

Capacidade de algumas espécies sobreviverem durante duas a três semanas submersas até dois terços de altura (Alnus glutinosa, Fraxinus angustifolia e populus alba).

Capacidade de

propagação vegetativa

Capacidade de desenvolver gemas de renovo e raízes adventícias a partir as partes do fuste ou das raízes, respectivamente.

De uma forma geral, as plantas a utilizar devem ser espécies pioneiras, devem reproduzir-se vegetativamente e resistir ao enterramento e deve ser possível encontrá-las perto da zona de intervenção. Salienta-se a importância das propriedades e capacidades biológicas da vegetação, nomeadamente da utilização de métodos de propagação vegetativa por estaca/cortes, dada a facilidade e adaptabilidade das plantas ripícolas e a minimização dos custos financeiros.

Para Prada e Arizpe (sem data) estas propriedades não são muitas vezes consideradas nas iniciativas de restauração de ecossistemas, incluindo projectos de recriação de habitats ripícolas. A utilização de sementes e plantas baratas sem ter em conta a sua origem é reconhecida como uma grande falha quando consideramos as alterações climáticas que têm

38 surgido na região mediterrânica nas últimas décadas. A prática mostra que a utilização de plantas que estão adaptadas às condições locais é um dos factores que tem uma influência positiva no sucesso da florestação e na evolução de novas populações, que crescem e se desenvolvem dinamicamente num processo de interacção com o seu ambiente (Prada e Arizpe, sem data). Para estes autores, a variação genética e adaptabilidade da maioria das árvores ribeirinhas não é conhecida e as regiões de origem ao nível da espécie não estão até agora determinadas.

De um modo geral e segundo diversos autores (Gray e Leiser, 1982; Begemann e Schiechtl, 1994; Morgan e Rickson, 1995; Florineth e Gerstgraser, 2000), a vegetação possui características biotécnicas essenciais à estabilidade das margens dos rios. Para o sucesso na escolha das espécies, além das características biotécnicas, devem ser considerados critérios ecológicos, fitossociológicos e reprodutivos (Durlo e Sutili, 2005). Para Gray e Leiser (1982), Morgan e Rickson (1995) e Florineth e Gerstgraser (2000) a escolha das espécies deve recair de preferência sobre as espécies nativas do local (estão melhor adaptadas às condições edáficas e climáticas específicas) e devem possuir uma forma de reprodução fácil e de baixo custo. As plantas com capacidade de reprodução vegetativa são normalmente as ideais, o que não exclui necessariamente as plantas que só se propagam por semente (Durlo e Sutili, 2005).

Um dos principais factores limitantes nos projectos de restauração ecológica e em acções de reflorestação é a necessidade de existir atempadamente uma fonte de plantas em viveiro/estufa para a sua colocação no campo. O planeamento de um projecto de restauração ribeirinha deve incluir a garantia de que o stock de plantas a utilizar na florestação, seja através de um fornecedor ou através de estufas próprias, o que depende da dimensão da área de intervenção, da escala temporal do projecto e das capacidades financeiras dos agentes envolvidos.

A estrutura das comunidades vegetais varia ao longo do contínuo fluvial, tanto em termos transversais como longitudinais. O padrão espacial que as espécies vegetais adquirem ao longo do corredor ripícola é dependente de inúmeros factores. Para Saraiva et al. (2004) os factores que mais influenciam a distribuição das espécies vegetais incluem o relevo e a exposição solar, a precipitação média anual, bem como os seus valores mínimos e máximos e a sua distribuição, a frequência das cheias, a humidade do solo (a profundidade até ao nível freático e a sua variação sazonal), a textura do solo, bem como a espessura dos horizontes, a constituição química do solo e da água e o padrão espacial das espécies herbívoras. Por exemplo, as espécies vegetais autóctones estão mais bem adaptadas às características dos

39 solos aluviais. Para o sucesso da estabilização das margens deve ser tido em consideração a existência de várias zonas com características específicas (Figura 2.12).

Figura 2.12. Perfil de uma galeria ripícola (Dreher e Heringa, 1998).

A zona mais baixa da margem deve corresponder à existência de gramíneas e ervas associadas a vegetação de porte arbustivo. De seguida surgirá a zona de árvores de porte pequeno e médio. A zona mais afastada do leito do rio (onde o declive e o peso da vegetação não será problema) corresponderá à existência de árvores de grande porte e vegetação que não seja dependente de uma elevada humidade edáfica. Neste contexto, existem determinadas espécies (pioneiras) que possuem a capacidade de criar condições para que outras se instalem, no sentido de virem a formar as comunidades características do local.