4.2 Pensjonskapital
4.2.1 Pensjonssystemet
Os “Food Policy Councils”, criados em várias cidades norte-americanas e canadianas, são outro exemplo da abordagem do conceito da bacia alimentar às políticas alimentares urbanas, com vista a perceber o seu funcionamento, vantagens e pontos a melhorar, relacionando a questão alimentar com outras políticas urbanas, económicas e sociais (planeamento, nutrição, saúde, educação, mercados locais, etc.).
Figura 13 - exemplos de organizações de política alimentar urbana, sob a designação de “Foodlink”, “Food System Alliance”, “Food Systems Advisory Council” ou “Food Policy Council”
iii) Auto-proteção, secessão e sucessão
Várias comunidades, tais como os Amish norte-americanos, estabeleceram os seus próprios sistemas alimentares, numa lógica de auto-proteção face a métodos e produtos que não estão alinhados com os seus princípios e éticas. Este exemplo (e outros) levou os autores a considerar que um princípio fundamental da bacia alimentar é o de “secessão”, baseado na preferência estratégica da retirada do (ou criando alternativas ao) sistema dominante, ao invés de o desafiar diretamente.
Figura 14 – métodos agrícolas da comunidade Amish, que desde o século XVIII se mantêm praticamente inalteráveis, recusando inovações tecnológicas contrárias á sua ética e fundamentos religiosos
Um segundo princípio é o de “sucessão”, ou, nas palavras dos autores, a transferência consciente e incremental de recursos e compromissos de relações e formas alimentares antigas para novas. Definem assim um processo consciente de adesão a novas formas de produção e consumo, baseado nos princípios subjacente à dimensão de bacia alimentar conforme por eles equacionada.
iv) Proximidade (local e regional)
As bacias alimentares não têm fronteiras fixas ou pré-determinadas, mas devem obedecer a um critério de proximidade; é desta forma que os autores incrementam a relevância deste fator. Acrescentam que a dimensão de qualquer bacia alimentar será função de múltiplas e sobrepostas características tais como comunidades vegetais, tipos de solos, etnias, tradições culturais e padrões culinários. Daí a importância dada à proximidade per se do que aos conceitos de produção local ou regional. Deixam ainda claro os autores que embora os limites das bacias alimentares poucas vezes sejam claros, há uma especificidade social, económica, ética e física em cada uma delas.
Também na relação entre elas os autores assumem a sobreposição e dinâmica posicional e temporal das bacias alimentares, mas defendem sempre o seu caracter de auto-capacidade, em vez de auto-suficiência, dado o objetivo de redução de dependência mas não das trocas externas. Por substituição a um modelo de importação de produtos de lógica produtor-intermediários-consumidores, a bacia alimentar de acordo com os autores deve basear-se em ligações mais diretas e próximas entre produtores e consumidores, através do número necessários de pequenos a médios negócios para assegurar as oportunidades e necessidades da comunidade.
A proximidade é assim vista como base para a sustentabilidade social e ambiental dessas comunidades; o apoio social, a conservação de solo e água e a eficiência energética tornam-se temas de preocupação prática e imediata, ao invés das inexistentes relações entre consumidores dos grandes centros urbanos com os, muitas vezes, distante e desconhecidos locais e sistemas de produção que os abastecem. Concluem assim os autores que na bacia alimentar a responsabilidade coletiva pela gestão e manutenção das pessoas e dos territórios nelas presentes se torna uma necessidade mais do que uma virtude opcional.
v) Natureza como medida
Por último, defendem que numa bacia alimentar, as suas condições naturais serão a medida do seu aproveitamento e não obstáculos a ultrapassar. A pergunta fundamental desta linha de raciocínio é então: “o que é que a natureza me ajuda a fazer aqui”, com implicações na eventual definição de “dietas móveis” em função da disponibilidade e sazonalidade dos produtos alimentares.
Esta procura de harmonia com as condições naturais dos locais de produção deve não só ser de natureza “técnica”, mas também de natureza “ética” e pessoal, defendendo os autores que deve ser atingida em íntima e extensa “conversa” com a terra, agindo com respeito e afeto com o mundo natural, produzindo-se e alimentando “com e dentro” dos ritmos e padrões dos locais onde se vive.
Os autores, após enunciarem e desenvolverem aqueles 5 princípios, concentram-se na forma de analisar uma bacia alimentar.
Começando por referir que muita da análise de uma desejável bacia alimentar local implicará o exame e a explicitação da estrutura e dinâmica do sistema global existente, apontam a metáfora dada por LEOPOLD, 194931, de “think like a mountain” como caminho a seguir, ou seja o pensamento de base ecológica em que se procuram as relações óbvias e ocultas entre os elementos de um sistema ou entre diferentes níveis de um mesmo sistema.
A lógica defendida é que, sem o conhecimento de “onde se está” no sistema social e político associado aos processos alimentares globais, não será possível a concretização efetiva de uma bacia alimentar local. A atitude “secessionista” defendida pelos autores para tal depende do conhecimento das oportunidades de atuação.
Alertam contudo para que o pensamento ecológico e complexo, possa retirar peso à ação, já que análises profundas ao sistema alimentar global podem fazer pensar que o mesmo é imutável. Uma tendência apontada é que os focos de análise são colocados nas atividades negociais mais que nas pessoas, nas escalas internacionais/globais mais que nas locais, em problemas mais que em soluções.
Assim, a análise das bacias alimentares envolverá a investigação dos sistemas alimentares existentes, por forma a informar as decisões estratégicas que proporcionem oportunidades para a auto-proteção e secessão
(dois dos princípios essenciais atrás enunciados). Essa análise envolverá também a identificação, a celebração e o estudo de alternativas existentes ou emergentes ao sistema alimentar global.
Concretamente, para os autores, a análise da bacia alimentar implicará responder à questão formulada por Getz (1991): “de onde vem, e como nos chega, a nossa comida?” Subscrevendo a imagem de Hedden (1921) da semelhança conceptual entre uma bacia hidrográfica e a bacia alimentar, esta análise terá como método central a medição do fluxo e da direção dos “tributários alimentares”, documentando as muitas transformações quantitativas e qualitativas que os produtos alimentares sofrem através do tempo e do espaço até ao seu consumo.
Qual será então a unidade da análise a considerar? Ou seja, quais os limites de uma bacia alimentar? Que informação colher? De acordo com os autores, as respostas variarão com os objetivos e recursos da análise. Tal como a bacia alimentar não é um conceito cientificamente definido, também a sua análise não o poderá ser. Elementos dessa análise, por exemplo, poderão ser a quantificação das exportações de produtos, as capacidades dos aterros sanitários, a distribuição das plantas comestíveis, os padrões da fome numa dada comunidade, a composição de uma assembleia municipal, a definição das refeições escolares ou as plantas forrageiras preferidas pelas vacas leiteiras.
Com estes exemplos, os autores querem assim definir que a análise de uma bacia alimentar deverá ser construída sem limites teóricos e metodológicos pré-determinados, concentrando-se outrossim nas atividades concretas do sistema alimentar, em particular nas alternativas aos sistemas globais.
Dessas alternativas destacam os autores como exemplos de análises e exemplos interessantes para suportar o conhecimento da bacia alimentar como a concebem, o já citado por Getz (1991) “Cornucopia Project” da editora Rodale Press32 (aumento da consciência alimentar ao nível dos Estados norte-americanos), o estabelecimento de padrões nutricionais sustentáveis associados a dietas regionais, o estabelecimento de “food policy councils” em várias cidades dos E.U.A. e Canadá, uma interessante análise de uma bacia alimentar pessoal que explora as responsabilidades pessoais na manutenção do sistema alimentar global (Peterson, 1994), e a geografia da fome urbana e oportunidades para a sua mitigação em cidades da Califórnia33.
32 Mais informação disponível em
http://books.google.pt/books?id=yecCAAAAMBAJ&pg=PA16&lpg=PA16&dq=cornucopia+project+rodale+press&source=bl&ots=SEcG- YrnyF&sig=KTc7hsgGr9brcL47lRMl9pJyeOc&hl=pt-PT&sa=X&ei=Hqb-
Figura 15 - capa da tese coletiva de Mestrado em Planeamento Urbano da Universidade da Califórnia, Los Angeles, 1993, intitulada “Seeds of Change. Strategies for Food Security for the Inner City”, Ashman, L. et alli.
Estes exemplos, embora não especificamente desenvolvidos para suportar a conceção de bacia alimentar como Kloppenburg et alli a definiram, são por eles dados como bons contributos concetuais e metodológicos para a perceção do sistema alimentar global e das oportunidades para a sua mudança.
Na conclusão do seu artigo, os autores são muito claros sobre as suas lógicas; ao intitularem esse ponto final como “Reformismo Radical”, explicitam que a lógica subjacente ao seu conceito de bacia alimentar como atrás exposta, vem de uma crítica ao “falhanço generalizado do Capitalismo-Tardio, ou Pós-Industrialismo, ou Pós-
Modernismo, ou o que quer que se lhe queira chamar a este período de intensa mercantilização e de acelerado distanciamento entre cada um e com a terra” (tradução nossa).
Os autores defendem assim que a via da sustentabilidade só será alcançável com uma mudança societária, e que a mesma tem de começar em algum lado; para eles, é na comida, dada a centralidade da mesma na vida humana e na sua conexão entre pessoas e a terra.
O termo bacia alimentar é “oferecido” (na expressão dos autores) para englobar os componentes físicos, biológicos, sociais e intelectuais do espaço multidimensional em que vivemos e comemos; os mesmos veem ainda este conceito como uma matriz de reflexão e ação, uma análise de onde se está agora e onde se quer estar no futuro.
Partilhando da visão de Orr, 1992, os autores terminam este seu artigo desejando que a cultura cívica e o aumento da literacia ecológica permitam aos cidadãos a compreensão de temas globais e correspondentes atitudes para os melhorar; a bacia alimentar pode assim ser a metáfora para concretizar essa visão.