3.2.1.1 As trabalhadoras do sexo
A ex-trabalhadora do sexo Maria tem 30 anos. Trabalhou na noite durante três anos e há dois anos saiu do trabalho sexual. É natural da região Centro-Oeste, reside atualmente na cidade de São Carlos. Mora sozinha, tem três filhas e namora uma pessoa que conheceu quando exercia o trabalho sexual. Possui o ensino médio completo e trabalha como costureira. Ela nos conta a seguir como se deu a sua inserção no trabalho sexual.
“Trabalhei na noite durante três anos. Eu entrei pra noite por causa de uma desilusão amorosa... Eu sabia que existia prostituição, mas não sabia que na prostituição rolava dinheiro, drogas e tudo mais (...) Foi um agenciador de meninas que me convidou. Ele me viu em um shopping e chegou pra mim e falou assim: você é muito bonita, você tem tudo pra ganhar muito dinheiro. Ai eu fui atrás para saber como se ganhava esse dinheiro”.
A trabalhadora Sonia tem 28 anos. Trabalha há quatro anos na noite. É natural da região Centro-Oeste. Mora sozinha em São Carlos e vai para a casa noturna somente no período de trabalho. É divorciada e tem quatro filhos. No momento está sem companheiro ou namorado. Completou o ensino fundamental. Seu ingresso no trabalho sexual se deu após a separação do marido:
Eu era casada e trabalhava na panificadora. Daí veio uma briga entre eu e meu ex-marido ai a gente acabou se separando. Tinha uma amiga minha que já tava aqui em São Carlos, e viu a gente naquela situação, separado. Aí ela me trouxe pra cá. Mas eu já vim sabendo o que eu ia fazer. Aí entrei pra essa vida.
A trabalhadora Ana tem 34 anos é solteira e não tem filhos. Está há quatro anos na noite. É natural da região Nordeste e atualmente reside em São Carlos e mora na casa noturna. Está sem companheiro ou namorado. Completou o ensino fundamental.
Antes de trabalhar na noite eu estudava e trabalhava como auxiliar de limpeza. Eu viajei em 1994 vim para São Paulo. Era a primeira vez que vinha pra São Paulo. Foi a passeio. Resolvi ficar pra arrumar trabalho. Ocupei uma vaga num restaurante de garçonete. Por incentivo de uma colega de trabalho fui trabalhar na noite em uma casa em São Paulo.
Comparando estes dados com os resultados apresentados pela pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2002) observou-se que há uma similaridade clara entre os números do estudo e as três trabalhadoras aqui entrevistadas. Os números do Ministério revelam que a maior parte das trabalhadoras estão na faixa entre 30 a 39 anos (26,8 %), com ensino fundamental completo (67,6%) e com tempo de profissão entre um a quatro anos (46,3%).
Tanto os dados trazidos pelas entrevistas quanto os dados trazidos pelo documento do Ministério da Saúde desmistificam alguns preconceitos relacionados ao trabalho sexual como a opção por exercer esse trabalho. Observou-se que as três entrevistadas haviam exercido outros trabalhos e escolheram o trabalho sexual dentre as opções que possuíam dentro do universo cotidiano de cada uma. Sônia trabalhou em uma panificadora, Ana foi garçonete. No Brasil do século XIX a prostituição era vista como um produto social, pois a abolição da escravatura, a imigração européia, a expansão urbana associada falta de emprego levou as mulheres dos estratos sociais inferiores a desempenharem o meretrício. A trabalhadora passava a ser vista como uma vítima social.
O Brasil adotou o discurso abolicionista em 1951 quando assinou o tratado abolicionista internacional. Os signatários desse tratado propõe o fim da prostituição e enxergam a trabalhadora como vítima do sistema sócio econômico, por isso não penalizam
quem se prostitui e sim quem incita a prostituição. Observou-se que o Estado ao tomar medidas abolicionistas, regulamentaristas ou poibicionistas não envolve as pessoas que exercem o trabalho sexual na discussão, os argumentos morais ou higienistas sempre se sobrepõem.
Fonseca (1996) ao pesquisar as mulheres que exercem o trabalho sexual na região central de Porto Alegre mostra que a atividade sexual não é uma opção desprezível dentro do universo de escolhas das mulheres de baixa renda e escolaridade. A autora verifica ainda que em outras pesquisas que realizou com mulheres de baixa renda não encontrou mulheres com projetos de emprego ligados a sua realização pessoal. Estratégia de sobrevivência, escolha racional ou uma centena de outros motivos que levaram Maria, Sônia ou Ana a exercerem o trabalho sexual, porém o importante é notar que essa escolha faz parte da experiência de vida dessas pessoas e será importante nesta pesquisa, pois, a experiência do trabalho sexual conduzirá para a análise dos processos educativos relacionados à saúde presentes nele.
3.2.1.2 Os profissionais de saúde
O enfermeiro João tem 30 anos e trabalha na área da saúde há três anos. Exerce a sua profissão no serviço de pronto atendimento e leciona em uma Escola Técnica. Teve contato com trabalhadora do sexo enquanto profissional da saúde no atendimento de urgência. Mencionou que raramente atendeu trabalhadoras do sexo em consultas de rotina, pois exerce a sua função em um serviço de urgência.
“(…) A primeira pessoa que atendi foi uma trabalhadora do sexo. É muito fácil descobrir se a pessoa trabalha ou não como profissional do sexo. Pelos próprios trajes delas, pela maneira como se expressam. Elas mesmas se identificam. Ela chegou e falou o que aconteceu. Eu preciso saber disso até mesmo pra avaliar o que aconteceu realmente. Se a pessoa tiver ingerido álcool ou algum tipo de droga pra saber qual remédio ministrar porque se não pode ter alguma interação medicamentosa (…)”.
Dr. Antônio é ginecologista de uma unidade Básica de Saúde da cidade de São Carlos, tem por volta de 48 anos. Teve o primeiro contato com trabalhadora do sexo por meio do trabalho realizado junto ao Grupo de Estudos Sobre Trabalho Sexual.
“Na Unidade Básica de Saúde, aqui em especial a gente não tem tanto contato com trabalhadoras do sexo. No trabalho com a professora Waldenez nós fomos dar uma palestra sobre método anticoncepcional. Na realidade foi mais um papo que a gente teve com elas. Foi até muito legal. Nós ficamos conversando uma tarde sobre vários assuntos relacionados a sexo e sexualidade. O interessante é que depois disso algumas me procuraram (…)”
Apresentar os profissionais da saúde em relação ao tempo de exercício profissional, em qual área da saúde atuam e como foi o primeiro contato com a trabalhadora é útil ao conduzir a entrevista. Como colocado na metodologia nenhuma pergunta feita aos profissionais teve por fim medir ou avaliar conhecimentos ou preconceitos sobre trabalho sexual e, sim, revelar como eles percebem os processos educativos das trabalhadoras. Para tanto é necessário falar em qual ramo da saúde trabalham e como foi a sua primeira experiência, tendo como paciente uma trabalhadora do sexo.
3.3 O trabalho sexual nas palavras dos/ as entrevistados