1. Introduction
1.5 PcsB, an essential putative cell wall hydrolase in S. pneumoniae
Uma das questões que deve ser objetivamente discutida nesta tese é o fato do Espiritismo ser ou não uma religião. Quem começa essa polêmica é o próprio Allan Kardec, quando procura, de início, descaracterizar o Espiritismo como uma nova religião.
O Espiritismo, melhor observado desde que se vulgarizou, vem lançar luz sobre uma multidão de problemas até aqui insolúveis ou mal resolvidos. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não o de uma religião, e a prova disso é que conta, entre seus aderentes, homens de todas as crenças, e que nem por isso renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos, que praticam todos os deveres de seu culto, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas e bramanistas. (KARDEC, 2005, p. 205).
Nessa época, Kardec estava preocupado em dar sequência à sua obra de investigação a cerca do mundo espiritual. Kardec concebia como religião uma estrutura teológica, hierarquizada, com templos de dedicação exclusiva e com dogmas em seu discurso. Ele mesmo afirma na sua Revista Espírita, de 1859 que ―O Espiritismo não é, pois uma religião. Se o fosse teria seu culto, seus templos, seus ministros. [...] e não impõe nenhum culto aos seus partidários, como a astronomia não impõe o culto dos astros, nem a pirotecnia o culto do fogo‖. (KARDEC, 2005, p. 206). Ele não negava a enorme validade e necessidade da religião, mas entendia que as religiões estavam fora de seus caminhos ao negar à humanidade a
liberdade de pensar sobre o mundo sem dogmas e preconceitos. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada por ele, não era um templo, senão um centro de pesquisa. Tanto que o estatuto da Sociedade proibia as discussões religiosas concentrando-se nos assuntos de pesquisa. ―Está classificada na categoria das sociedades científicas, porque, com efeito, seu objetivo é estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre os mundos visível e invisível.‖. (KARDEC, 2005, p. 207).
Foi com o tempo que os depoimentos dos espíritos foram chamando a atenção para o caráter religioso da nova Doutrina. O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) foi o quarto livro publicado por Kardec sobre o Espiritismo. Kardec sempre afirmou a utilidade da religião, principalmente porque considerava extremamente pernicioso o materialismo. Considerava que a religião ao não admitir o pensamento racional ou a se negar a estudar os fenômenos presentes e palpáveis, dava campo ao alastramento do materialismo que buscava negar tudo o que a ciência não pudesse ou não tivesse interesse de investigar.
Insistir numa tese que a razão repele é desferir um golpe fatal na religião, e dar armas ao materialismo; o Espiritismo, ao contrário, vem reavivar o sentimento religioso que se verga aos golpes aplicados pela incredulidade, dando, sobre as questões do futuro, uma solução que o mais severo raciocínio pode admitir. Rejeitá- lo é recusar a tábua de salvação. (KARDEC, 2006, p. 238).
Mas talvez onde Kardec melhor expresse o que entende por religião e a sua relação com o Espiritismo seja por ocasião do seu discurso, na Sessão Anual Comemorativa aos Mortos, em novembro de 1868, transcrita na Revista Espírita do mesmo ano. Naquela oportunidade, Kardec fez o discurso de abertura, com o tema ―O Espiritismo é uma religião?‖. Nesse discurso, Kardec diz da importância do pensamento individual e coletivo, onde a soma das vontades dos indivíduos pode operar os maiores prodígios. É, no dizer dele, a comunhão de pensamentos que gera a paz coletiva e ―é por ela que os homens se assistem entre si e, ao mesmo tempo, assistem os espíritos e são por eles assistidos‖. (KARDEC, 2006, p. 487). Kardec acreditava que a religião era uma ação de congraçamento de pessoas sobre um mesmo ideal e que qualquer isolamento social ou religioso conduzia ao egoísmo. ―Uma religião, em sua acepção larga e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças‖. (KARDEC, 2006, p. 490).
Fica claro que a noção de religião esposada por Kardec é a de uma ferramenta de fé, de comunhão de crenças, de conforto espiritual, que outras disciplinas, como as ciências não têm oferecido. Se Kardec evitou nomear o Espiritismo entre as novas religiões foi pelo entendimento que à sua época o termo apresentava, ou seja, uma estrutura clerical, dogmática,
centralista, proselitista e profissional. Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião na acepção usual das palavras, não podia nem devia enfeitar-se com o título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral. (KARDEC, 2006, p. 491).
Kardec visava afastar do Espiritismo quaisquer práticas automáticas ou, quaisquer titulações que destacassem seus membros ou os tornassem credores de qualquer remuneração. Se de início seu trabalho vinculou o conhecimento espírita à explicação dos fenômenos mediúnicos, com a oitiva das entidades manifestantes, deslocou o eixo dos conhecimentos doutrinários para a ética e a moral que essas entidades transmitiam. O aspecto científico continuou seu caminho dentro dos limites da Doutrina, mas, o aspecto religioso, com base no cristianismo, alargou a sua influência a ponto de se tornar o dístico de sua empreitada: ―Fora da Caridade não há salvação‖. Nesse discurso, realizado na Sessão Anual Comemorativa aos Mortos, em novembro de 1868, Kardec fala de fé, de amor, de compaixão, componentes de uma crença religiosa e não de um compêndio científico. Valoriza os preceitos morais da fraternidade e confirma a força da oração. Convida seus correligionários ao respeito a todas as crenças e a ‖ver, enfim, nas descobertas da ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo‖. (KARDEC, 2006, p. 494).
Percebe-se a falta de uma terminologia para a estrutura do Espiritismo, perante a necessidade de incluí-lo em uma categoria cujo nome não represente preconceito (seita, movimento, etc.). Percebe-se a pressão do conceito arraigado de religião patrocinado pelas religiões que se consideram como tal, a exigir uma estrutura padrão de toda nova proposta religiosa. Ou é desse jeito, ou não é religião. Kardec não propôs apenas uma nova forma de ciência, mas também uma outra forma de religião. Uma religião que não precisa de sacerdotes, de rituais, de símbolos, de dogmas. Uma religião que não seja fragmentada por lacunas vinculadas ao mundo espiritual, essa realidade que cada vez mais se torna ainda mais próxima.
Na pesquisa que apoia este trabalho, os depoentes, por algumas vezes se manifestaram contra o uso do termo religião, para o Espiritismo, usado no questionário, para se referir ao Espiritismo. Esse fato reflete a diversidade de opiniões que ainda existe sobre o assunto.
―Espero ter sido útil para seu estudo. Vamos lembrar que o Espiritismo não é considerado pelos seus praticantes como uma religião, mas sim uma doutrina que busca a unificação da Filosofia, Ciência e Religião.‖ (SNS, 37 anos, 10 anos de Espiritismo, de Rondônia);
―Espiritismo não (n-ã-o) é religião, quando irão aprender isso?‖ (RG, 18 anos, 2 anos de Espiritismo, de Sergipe);
―Falta pergunta a respeito do que ainda achamos que deve mudar no Espiritismo, mais religiosidade, mais ciência, mais filosofia, enfim, pois alguns se apegam a parte religiosa e cristã do Espiritismo outros a questão cientifica e filosófica como eu, no caso.‖ (OP, 25 anos, 1 ano de Espiritismo, de Minas Gerais);
―1-Ao contrario do que a pesquisa faz entender, o Espiritismo não é só uma religião. 2-O Espiritismo constitui-se em uma Doutrina: religião, filosofia e ciência.‖ (NC, 62 anos, 25 anos de Espiritismo, de Brasília);
―Na minha opinião, esta doutrina não pode ser considerada uma religião nos moldes das religiões tradicionais. Não a vejo como mais uma religião, mas a entendo como uma doutrina de consequências religiosas.‖ (Anônimo, 33 anos, 16 anos de Espiritismo, do Piauí).
É fácil perceber que o assunto ainda não é pacífico. Paulo da Silva Neto Sobrinho reuniu em um artigo publicado no site www.espírito.org.br o depoimento de diversas personalidades do universo espírita brasileiro. Nesse artigo, O Espiritismo é religião? cada um defendeu seu ponto de vista afirmando-se ora contra, ora a favor do Espiritismo ser uma religião. Expomos aqui algumas dessas opiniões. (SOBRINHO, 2001).
Amílcar Del Chiaro Filho, apresentador na Rede Boa Nova de Rádio assim responde: ―O assunto é delicado, mas não posso me omitir. Não o tenho como religião, mas ele me conduz a uma intensa religiosidade. Aceito-o como religião natural, como ensinou Herculano Pires9, sem nenhuma conotação com qualquer religião, rito, ou o que seja‖;
Carmen Imbassahy - escritora e articulista espírita: ―Segundo Allan Kardec, no seu principal livro - O Que é o Espiritismo -, a Codificação espírita é uma doutrina de caráter experimental-científico e de consequências filosóficas, encerrando uma parte religiosa, como garante a um padre, respondendo-o, no mesmo livro‖;
Eduardo Carvalho Monteiro – psicólogo, Assessor Pró-Memória da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, responsável pelo Centro de Documentação Histórica, palestrante e escritor com 21 livros publicados: ―Sem dúvida alguma! Relembro aqui uma magistral síntese de Herculano Pires sobre a questão: ‗Espiritismo é a ciência do Espírito e de suas relações como Homem, advindo daí uma doutrina filosófica de consequências morais ou religiosas‘‖;
9 José Herculano Pires (1914 - 1979), um dos mais respeitados espíritas do Brasil. Nascido em
Avaré/SP, foi um dos tradutores das obras de Allan Kardec. Jornalista e graduado em filosofia pela USP, tinha um estilo firme e marcante na defesa do Espiritismo tal qual foi sistematizado por Kardec.
Iso Jorge Teixeira – médico psiquiatra e livre-docente em Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ): ―Com certeza NÃO. É uma Doutrina com consequências religiosas‖;
Luiz Signates - jornalista, professor e pesquisador na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Goiás, presidente da ONG espírita Instituto de Comunicação Social Espírita, membro da ABRADE (Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo), e também palestrante e escritor espírita: ―esta pergunta, se feita para um cientista social, causar- lhe-ia risos. ‗Claro que é‘, diria ele. ‗Basta observar a realidade social do Espiritismo, para concluir que é, sim, uma grande religião brasileira, organizada e institucionalizada. ‘‖;
Ricardo Di Bernardi - médico homeopata geral e pediatra, presidente da Assoc. Médico-Espírita de Santa Catarina, articulista espírita, palestrante e autor de diversos livros: ―Não. É uma Doutrina. Como não tem sacerdotes, dogmas, rituais, dízimos, não é religião, porém tem consequências ético-morais. No entanto isto não tem importância nenhuma a meu ver. Na hora que passa o censo na minha casa e pergunta: Religião? coloco "espírita", pois teria que dar uma hora de aula para explicar ao pesquisador do censo‖.
O que pelo menos no Brasil se pode perceber é que o lado religioso do Espiritismo aparece com muito maior ênfase. A prática do Espiritismo no Brasil está bastante voltada para a prática da mediunidade e ao estudo do Evangelho. Ao se perguntar a um espírita qual a vivência que tem do Espiritismo, ou que tipo de práticas reconhece nas suas atividades como espírita individualmente ou como grupo, dentro de um Centro Espírita, ou mesmo fora dele, a resposta será direta: religião. São muitíssimo raras, no Brasil, as organizações espíritas voltadas para o estudo e a pesquisa dos fenômenos espíritas. Isso, claro, na proporção das instituições espíritas existentes. Se o Brasil já é modesto na pesquisa científica voltada para os diversos ramos do conhecimento, que dirá da pesquisa científica sobre o Espiritismo e ainda mais, feita por espíritas no âmbito de sua prática habitual.
O que se pratica dentro do Centro Espírita é a palestra doutrinária; a oração e as vibrações em auxílio aos que sofrem; a mediunidade de psicografia ou psicofonia; a assistência mediúnica aos necessitados encarnados e desencarnados; os estudos sobre as teorias espíritas baseados nas obras de Kardec ou Chico Xavier e... muito pouco de pesquisa, muito pouco de ciência. O Espiritismo, no Brasil, é uma religião! Suas vertentes científicas e mesmo filosóficas (estudar e questionar as origens do ser, da criação e do universo) estão adormecidas. A grande maioria dos espíritas no Brasil não sabe o que seja fazer ciência espírita. Tomemos por exemplo as publicações espíritas brasileiras. A grande maioria aborda o fenômeno espírita dentro dos postulados doutrinários e não como fruto de investigações
acadêmicas, servindo mais à curiosidade pública do que à pesquisa científica. Ao abordar um fenômeno, procuram explicá-lo à luz do Espiritismo, sem uma experimentação que possa afastar as causas sobrenaturais, como, aliás, era o que fazia e recomendava Allan Kardec.
Em uma pesquisa feita na internet, coletando aleatoriamente 21 inserções principais (títulos ou chamadas) de sites diferentes com a palavra ―Espiritismo‖ no motor de busca Google, o autor obteve o seguinte resultado: nenhuma trata de ciência espírita atual; apenas uma faz referência às pesquisas levadas a efeito por cientista do início do século XX; quatro tratam de assuntos doutrinários (religião e mediunidade); quatro trazem notícias do movimento espírita; três trazem mensagens mediúnicas; dois abordam a história do Espiritismo; três apresentam chamadas para assuntos de curiosidade (regressão de memória, sonhos, morte e meditação transcendental); dois oferecem publicações e vídeos sobre assuntos diversos; um oferece apostilas de assuntos doutrinários; e, um trata de textos filosóficos e de autoajuda.
Quando um assunto de natureza científica é tratado, sua abordagem é sempre doutrinária. Por exemplo, um desses sites comenta sobre células tronco: mas o faz sob o aspecto ético e social, apresentando uma posição espírita sobre esse assunto. Kardec, Paul Gibier, Ernesto Bozanno, Zöllner, Willian Crookes fizeram ciência no Espiritismo. Hoje, quase não se tem notícias de pesquisa espírita no Brasil. Portanto, sob os aspectos de vivência espírita, prática espírita, divulgação espírita, publicações espíritas, a distância entre produção e prática científica para produção e prática religiosa é muito grande, em favor da última. Como então dizer que o Espiritismo é ciência, ou mesmo que seja, filosofia, se estes aspectos mal aparecem na pratica espírita brasileira? ―Portanto, falar em Espiritismo laico - o que significa dizer um Espiritismo destituído de qualquer ligação com o assunto religião - é um contra-censo e uma negação da obra de Kardec. (INCONTRI, 2004, p. 86).
Muitos espíritas afirmam que sua Doutrina é uma ciência com consequências religiosas. Mas, o que vem a ser isso? O que é uma ciência com consequências religiosas? O quadro atual do Espiritismo no Brasil é o de uma religião. Isso fica caracterizado pela maciça presença que este aspecto impõe nas atividades espíritas, no Brasil. O mesmo ocorre em relação à filosofia. É raro identificar a presença de estudos filosóficos dentro do Espiritismo brasileiro. Isso porque, embora muitos textos doutrinários apresentem reflexões sobre temas tipicamente filosóficos (as origens do ser, do universo, etc.) são muito poucas as publicações dirigidas a este aspecto e também são muito poucos os Centros Espíritas em que um estudo realmente filosófico dos postulados espíritas seja realizado. Alguns espíritas gostam de reforçar a presença do tríplice aspecto do Espiritismo – o científico, o filosófico e o religioso
– mas não é fácil identificá-los na prática espírita. Herculano Pires é um dos raros filósofos do Espiritismo no Brasil, mas os seus livros mais lidos e citados são os que se referem à prática doutrinária. É sua uma das mais precisas caracterização do tríplice aspecto da Doutrina Espírita.
Através do seu aspecto científico ele [Espiritismo] nos oferece a captação sensorial do mundo fenomênico, [...] e a captação extrassensorial do inteligível, da realidade espiritual. Através da Filosofia Espírita, nos dá a interpretação racional do Universo e do Homem numa visão integral. Através da religião Espírita – moral, normativa e jamais ritual, sacramental, destituída de resíduos mágicos – determina a orientação adequada, no plano existencial, à nossa conduta em face da realidade ampla que conseguimos descortinar. (PIRES, 1993, p. 39).
Não se trata de duvidar de que os aspectos científico, filosófico e religioso estejam presentes na teoria espírita, mas sim de constatar que existe um desiquilíbrio dentro da pratica doutrinária na aplicação desses três aspectos.
Assim, se os aspectos "religiosos, científicos e filosóficos" do Espiritismo podem ser vistos como complementares, eles estão também como que sujeitos à ação de uma força centrífuga. Emerge daí todo o problema das diferenças de ênfases e tensões internas ao movimento, as acusações de "demasiado evangélico" no caso de uma ênfase na caridade, de "elitista" no caso de uma ênfase no estudo, e os perigos, extremamente ameaçadores da mediunidade como um valor em si mesmo. (CAVALCANTI, 1983, p. 22).