3. Main results and discussion
3.2 Paper II
Voltemos à história. Nesse começo do Espiritismo no Brasil houve dissensões que levaram a divisões no movimento que só vieram a ser recosturadas na década de 1940, com o Pacto Áureo24. Tudo começou com diferenças dentro do Grupo Confúcio. Bittencourt Sampaio se desligou do grupo para fundar, em 23 de março de 1876, a Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade.
Essa Sociedade, também sofreu nova cisão no ano seguinte, dando origem a uma nova organização a Congregação Espírita Anjo Ismael. O motivo das discussões era o entendimento do objeto central da atividade do grupo, se voltada para a orientação aos desencarnados e à caridade aos necessitados, ou se voltada para o estudo científico da Doutrina Espírita. Nova cisão deu origem ao Grupo Espírita Caridade, "que não viam utilidade no estudo científico do Espiritismo.". (LACERDA FILHO, 2005, p. 47). Motivados uma vez mais por essas diferenças de opinião um grupo da Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade, se separou e organizou novo grupo tirando do nome a expressão espírita, ficando assim Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade. Uma das cisões dessa época ocorreu em 21 de março de 1880, com os descontentes fundando o Grupo Espírita Fraternidade. Este novo grupo contava com a participação de Bittencourt Sampaio, Antonio
24 Acordo assinado em 1949, entre a Federação Espírita Brasileira e os órgãos federativos estaduais
e outras organizações espíritas regionais, no sentido de unificar o movimento espírita no âmbito nacional.
Luís Sayão e Frederico Pereira da Silva Júnior, nomes que tiveram destaque no movimento espírita nacional. O Grupo Espírita Fraternidade passou a se dedicar mais à questão religiosa e aos trabalhos de desobsessão. Por iniciativa de Sayão, foi tentada uma reconciliação com a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, sem sucesso.
A 15 de junho de 1880, Sayão funda o Grupo dos Humildes. Esse grupo daria origem ao Grupo Ismael incorporado futuramente à Federação Espírita Brasileira. Essas cisões mostram como era difícil uma homogeneidade no pensamento dos primeiros espíritas e isso devido às muitas possibilidades de emprego e entendimento dos postulados espíritas. De um lado a pesquisa do fenômeno mediúnico que se pretendia científico, do outro lado, a necessidade de dar vida ao preceito fundamental da caridade para encarnados e desencarnados.
Outro motivo de dissensões era a controvérsia sobre as obras de J. B. Roustaing, principalmente "Os Quatro Evangelhos", obra que Kardec aceitou com reservas, mas que teve muitos seguidores na França e no Brasil. A controvérsia já vinha da Europa e se implantou em alguns núcleos espíritas. Roustaing já foi comentado em capítulo anterior de forma que basta aqui dizer que muitos espíritas consideraram Roustaing como um continuador da obra de Kardec e outros que o consideram apenas um estudioso que se fiou demais na revelação de certos espíritos. De qualquer forma, diversas obras, inclusive aceitas pelos espíritas como mediúnicas, divulgavam as teorias rustanistas. É o caso de alguns livros psicografados por América Delgado, médium que, em Belém do Pará publicou obras atribuídas a Guerra Junqueiro, poeta português, falecido em 1923.
A obra intitulada Os Funerais da Santa Sé foi publicada pela Federação Espírita Brasileira, em 1932, causando impacto, mesmo porque Guerra Junqueiro (espírito) revelava-se francamente favorável às teses rustanistas do Espiritismo brasileiro, enfatizando uma visão mística de Cristo, sua essência imaculada, seu caráter sobrenatural. (SANTOS, 1997, p. 40).
Segundo LACERDA FILHO (2005) a divergência sobre Roustaing dividiu os espíritas em místicos e científicos, divisão que se generalizou posteriormente para nomear os espíritas que privilegiavam o caráter religioso perante o caráter científico. Diversas personalidades do meio espírita tentaram interferir para diminuir as dissenções, mas sem efeito. Um dos que tentaram essa conciliação foi Augusto Elias da Silva, que através do ―Reformador‖, órgão de divulgação do Espiritismo fundado por ele, em 1883, lutou por colocar acima desses dissidentes o futuro do Espiritismo no Brasil. Sua luta e a de outros
espíritas interessados numa união dos espíritas resultou, no ano seguinte, na fundação da Federação Espírita Brasileira. Um movimento que se autodenominava de filosófico, científico e religioso haveria de ter, no seu início, muitos problemas. O Espiritismo nascia da interpretação dos livros de Kardec e de outros seus contemporâneos, como Leon Denis, Camille Flammarion e o próprio Roustaing.
Outro problema vivido pelo Espiritismo foi a fase de organização de uma unificação e uma liderança. Havia problemas de organização, centralização e descentralização do controle do Espiritismo no Brasil. Embora mais de sentido doutrinário do que político houve uma disputa pela representatividade do Espiritismo brasileiro. A divisão se acentuava e cada grupo procurava se organizar de acordo com suas convicções. Mesmo a FEB, que nascera da tentativa de unir esforços em favor da divulgação do Espiritismo no Brasil, ainda não conseguira convencer a todos da sua neutralidade política. Esse fato recorda Bourdieu, em suas teorias de campo religioso e ―habitus‖. A religião que se estrutura, busca legitimidade pela aceitação mais ampla de suas ideias, em volume mesmo de fiéis e de templos, ao mesmo tempo em que verticaliza suas instâncias de representação, tentando gerar uma referência única para leigos e especialistas. Essas crenças, práticas e maneira de pensar e viver, o habitus, buscam ampliar e definir os limites do campo religioso. Esses limites podem ser definidos pelos que são ―iguais a‖ tanto quanto pelos que são ―diferentes de‖. Seus especialistas e seus fiéis passam a ser reconhecidos e esse reconhecimento fortalece a união da estrutura religiosa que se realimenta sem se destruir. (BOURDIEU, 2005, p. 50 a 57)
A posição da FEB não era tranquila. Muitos não aceitavam a maneira pela qual ela conduzia a unificação dos espíritas. Os descontentes convocaram um congresso e convidaram a FEB, que não compareceu, sentindo ameaçada a sua liderança. Ao final desse congresso – Congresso Constituinte Espírita Nacional – realizado em 31 de março de 1926, com a duração de dez dias, concluiu-se que o órgão máximo do Espiritismo nacional seria a ―Assembleia Espírita do Brasil e que para atingirem tal objetivo, seria criada a Liga Espírita do Brasil‖. (LACERDA FILHO, 2005, p. 67). A FEB ignorou e continuou realizando seu trabalho, o que aprofundou as dissenções. A fidelidade dos espíritas ora bandeava para um lado ora para outro.
Notar-se-á, portanto, que a mobilidade de um grupo para outro e a dupla ou tripla filiação era uma constante nesse universo assim como é, no Brasil, de nossos dias, em relação a uma, duas, ou três religiões. Todas essas dissensões e multiplicidade de perspectivas não impediram a realização de um primeiro congresso espírita, no Rio, em seis de setembro de 1881. (AUBRÉE e LAPLANTINE, 2009, p. p. 146).
Em meio a esse clima uma ação unificadora mais eficaz se fazia necessária e surge então a figura de Augusto Elias da Silva, fotógrafo português. Elias da Silva se converteu ao Espiritismo ao frequentar diversos núcleos espíritas no Rio, iniciando pela Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade. Continuando a frequentar outras casas espíritas teve a constatação da vida espiritual e suas manifestações em várias oportunidades em que parentes e amigos já falecidos se apresentaram e, segundo ele, de forma a não deixar dúvidas. "Procedi a mais rigorosa investigação desses fatos, chegando à conclusão de serem eles verdadeiros." (WANTUIL, 2002, p. p. 172). Elias da Silva passou a frequentar assiduamente a Sociedade Acadêmica tornando-se membro ativo da Comissão Confraternizadora daquela entidade. Mais tarde, fundou o Grupo Espírita Bezerra de Menezes, em homenagem ao antigo diretor da Sociedade e que segundo Elias agora também orientava os trabalhos espirituais do novo grupo. Logo percebeu a necessidade de um órgão de divulgação doutrinária. Custeando de próprio bolso e com apoio de sua sogra D Maria Balbina da Conceição Batista, e da sua esposa D. Matilde Elias da Silva, também espíritas, lançou, em 21 de janeiro de 1883, a revista O Reformador, cuja redação e oficina funcionavam no seu atelier fotográfico, então à Rua da Carioca, número 120, 2º andar, onde, aliás, também residia com a sua família. (WANTUIL, 2002, p. 178).
A ideia de que um grupo pudesse concentrar as diretrizes nacionais do movimento espírita estava fora de cogitação. Só um grupo diferente, mas que mantivesse a coesão e o respeito às ideias divergentes poderia cumprir tais objetivos. Pensando assim, Elias da Silva reuniu em 27 de dezembro de 1883, à noite, em sua casa, doze dos colaboradores mais chegados da Revista O Reformador do que resultou a decisão de se fundar uma nova Sociedade "que federasse todos os grupos através de "um programa equilibrado ou misto" e que difundisse por todos os meios o Espiritismo, principalmente pela imprensa e pelo livro." (WANTUIL, 2002, p. 178).
O Espiritismo sofria ataques de organizações religiosas e civis, muito embora o apoio de outras entidades também respeitáveis. Mas, uma ocorrência preocupou mais de perto os espíritas do inicio do período republicano. É que o código penal de 1890, primeiro da república, considerava a prática do Espiritismo como crime.
Para determinarmos com maior precisão o significado e as implicações da categoria ―baixo Espiritismo‖, é necessária uma pequena remissão ao texto do Código Penal de 1890 (vigente até 1942), bem como ao contexto de sua formulação. Entre os ―crimes contra a saúde pública‖, consta o seguinte: Art. 157: Praticar o Espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de molestais curáveis ou incuráveis,
enfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica. (Coleção de Leis do Brasil). (GIUMBELII, 2003, p. p. 254)
Esse estado de coisas continuou até o final da década de 1940, quando então, em 5 de outubro de 1949, apesar das divergências ainda presentes, chegou-se a um acordo pelo qual os rumos do movimento espírita nacional estaria sob a regência do Conselho federativo Nacional (CFN), que no entanto, continuava ligado à FEB.