5. Results and Discussion
5.2 PBDE
Seguindo a noção bakhtiniana, as reflexões de Maingueneau (2008:61) apontam para novas considerações acerca do gênero e sua categorização. O lingüista define gêneros de discurso como dispositivos de comunicação que só podem aparecer quando certas condições sócio-históricas estão presentes. Somente justificará a necessidade da emergência de um gênero, se houver atores sociais e condições que promovam o seu uso. Daí, a necessidade de incorporar à noção de gênero, o ethos e as cenas da enunciação, isto é, os termos anteriores referem-se, respectivamente a atores sociais e tempo-espaço, como veremos mais à diante.
Implicitamente, o autor parece retomar o conceito de FD atrelada ao seu conceito de gênero, já que é um dispositivo de comunicação (o dito articulado sob uma forma) que só pode aparecer numa dada situação sócio-histórica (aquilo que pode e deve ser dito). Ao nos depararmos com um determinado gênero, podemos reformular aquela pergunta de Foucault: “por que esse gênero foi parar aí e não outro?”
Portanto, as condições sócio-históricas justificam o uso de uma estrutura textual, de um dispositivo enunciativo e esses fatores devem ser levados em conta na produção de efeitos de sentidos, no processo de intercompreensão. Isso ilustra a importância que o status gênero ocupa na AD. A disciplina lingüística tem de ser capaz de analisar as regularidades lingüísticas do texto e, concomitantemente, formular hipóteses sobre ele. Todavia, com certo equilíbrio para que não haja predominância das condições sócio-históricas em detrimento da textualidade ou vice-versa.
Tanto é que os gêneros estão impregnados das condições histórico-sociais, que Mainguenau (op. cit.:61) sugere certa efemeridade aos gêneros. Eles não são eternos como podem ser as tipologias comunicacionais (funções da linguagem e funções sociais). Essas sempre existiram e existirão em menor ou maior graus em alguns gêneros; no entanto, um gênero como o talk show ou o editorial nada têm de eterno. Poderíamos, assim, caracterizar uma sociedade pelos gêneros de discurso que ela torna possível e que a tornam possível.
Há de se distinguir gênero e tipo. Tal distinção faz-se necessária, uma vez que complementa a própria noção de gênero. O estudo da generecidade dos textos, por vertentes
cognitivistas, como as de Marcuschi (2005), apontam para uma infinidade de gêneros que circulam na sociedade e cerca de quase meia dúzia de tipos que perpassam por essa infinidade. Segundo aquele autor, os gêneros são atravessados por tipos predominantes, sendo eles: a narração, a descrição, a argumentação, a exposição e a injunção. Os tipos textuais têm subsidiado muitos trabalhos, sobretudo na Lingüística Textual, e suas relações com o ensino.
A AD de Mainguenau (op. cit.: 61) propõe uma separação por tipo um pouco mais variável e flexível. Para ele, os gêneros de discurso são pertencentes a vários tipos, não apenas quase meia dúzia, pois os tipos de discurso são associados a vastos setores de atividade social. Como exemplo, cita novamente o talkshow que é um gênero pertencente ao tipo de discurso “televisivo”, o qual faz parte de um conjunto ainda mais vasto, o tipo de discurso “midiático”, em que podemos identificar os discursos radiofônico e os da imprensa escrita. Além da tipologia do discurso orientada pelo setor de atividade social, Maingueneau propõe a classificação de tipos por: lugar institucional, como a escola, o hospital, a família, a empresa etc; estatuto de parceiros, como o discurso do idoso, da criança, da mulher; ou posicionamento de natureza ideológica, como o discurso católico, o discurso socialista.
Podemos acrescentar aos critérios de tipologias os discursos que deixam entrever terrenos de posicionamentos diversos, criando, para o pesquisador, unidades que apresentam difícil reconhecimento de uma demarcação ideológica, dando origem ao que mencionamos de unidades não-tópicas; assim, poderá se falar de discurso racista, discurso homofóbico, discurso motivacional etc.
Não obstante o trabalho científico de enquadrar textos em gêneros e tipos de discurso, tal atividade requer um aprofundamento nas questões de ordem histórico-social que perpassam sobre o uso dessas categorias. As pessoas somente se comunicam porque reconhecem gêneros na fala do outro. O conhecimento acerca dos gêneros permite ao co- enunciador poder selecionar num texto, aquilo que lhe apetece. Trabalhar com gêneros implica, pois, uma economia cognitiva, motriz da interação social, justamente por trabalhar com estruturas pertencentes a um saber coletivo. Bazerman (2006:31) diz que se pode chegar a uma compreensão mais profunda de gêneros como fenômeno de reconhecimento
psicossocial que são parte de processo de atividades socialmente organizadas. O lingüista norte-americano reforça ainda que os gêneros tipificam muitas coisas além da forma textual.
Segundo Maingueneau (op. cit.:66), para conceber um gênero e sua tipologia de discurso há de se levar conta: uma finalidade reconhecida, o que justifica a necessidade de se optar por determinado gênero e não outro; um estatuto de parceiros legítimos, isto é, o papel que os enunciadores e co-enunciadores desempenham na interação verbal; o momento e o lugar legítimos, a enunciação se dá num aqui e agora, o qual deve ser levado em conta ao conceber determinado gênero; um suporte material, o que vale questionar através de que mídia um texto será transmitido a um interlocutor; além de que, entre as necessidades já citadas, entender que o texto apresenta uma organização textual que é (ou deve ser) reconhecível ao co-enunciador.
Além do mais, o lingüista aponta três metáforas com o intuito de esclarecer como caracterizar um gênero. Tais metáforas são o contrato, o papel e o jogo, respectivamente dos seguintes campos o jurídico, o teatral e o lúdico.
O contrato caracterizador do gênero diz respeito a regras de sua sistematização que, utilizadas pelo locutor e, por serem (re)conhecidas pelo interlocutor-destinário, é por este aceito como um gênero “x”. É possível, também, que haja alguma transgressão desse contrato; quando houver, o interlocutor-destinatário deverá perceber o motivo pelo qual seu interlocutor optou por fazê-la.
A metáfora teatral do papel refere-se ao fato de que os interlocutores assumem papéis sociais múltiplos em detrimento das situações. Por exemplo, um homem pode ser um professor e comportar-se como tal numa instituição de ensino, porém, ao chegar em casa exercerá papéis diversos como de pai ou marido. Assim também os alunos desse professor poderão exercer múltiplos papéis fora dessa instituição.
O jogo é a simbiose das duas metáforas anteriores. Há um contrato (regras) e há papéis (jogadores), o não atendimento a essas regras compartilhadas por coletivo, implicaria o banimento do transgressor. A respeito do discurso, Maingueneau (op. cit.:70) contrapõe:
Mas, contrariamente às regras do jogo, as regras do discurso nada têm de rígido: elas possuem zonas de variação, os gênero podem se transformar. Além disso, o gênero de discurso raramente é gratuito, ao passo que um jogo exclui as finalidades práticas, visando apenas o lazer.
Ademais desses elementos caracterizadores, há de se levar em conta o suporte onde um discurso é materializado. Tal dimensão é essencial no tratamento do gênero, uma vez que o efeito de sentido capaz de um texto produzir pode ser alterado se apresentado em suportes diferentes. Desse modo, o causo contado por meio da modalidade oral é diferente daquele que se materializa pela modalidade escrita. Então, é necessário perceber como essas modalidades dicotômicas podem interferir na caracterização de um gênero.