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5. Results and Discussion

5.3 HBCDD

5.4.2 Wet deposition

A obra de Cornélio Pires serviu, de alguma forma, para uma tentativa de gramatização do português caipira. A partir dela, é que a Amadeu Amaral (1920) — que, como já dissemos era primo de Cornélio — pôde subsidiar seus estudos dialetológicos, nas primeiras décadas do século XX. O diálogo entre o poeta caipira e seu primo favoreceu a publicação de O Dialeto Caipira, sendo que, inclusive, a obra é dedicada a “Cornélio Pires, o poeta caipira”. Para Cardoso (1999:236), Amaral, com essa obra, dá início ao que classifica como sendo o segundo período do estudo da Dialetologia no Brasil, em que o nível léxico-semântico expande aos níveis fonético-fonológico e morfossintático; e junto com outros dois pesquisadores — Marroquim e Nascentes — voltados para o cunho variacionista do Português do Brasil, imprimem uma nova ótica ao exame da realidade lingüística brasileira.

A obra de Amaral é de suma importância para este trabalho, bem como para o cenário geral da história das idéias lingüísticas do país. Essa assertiva justifica-se pelo fato de que, certamente, Amaral, “pescou os regionalismos de verdade”, no dizer corneliano. Buscamos, pois, nesse estudo pioneiro da dialetologia, algumas pressuposições sobre o que Amaral entendeu por dialeto caipira.

O estudo de Amaral já apresenta a variante caipira num tom apocalíptico: Tivemos, até cerca de vinte e cinco anos atrás, um dialeto bem pronunciado, no território da antiga província de São Paulo. Com a modernização dos anos 20, torna-se evidente pela citação acima, que o estudo parece ser quase que diacrônico. Essa diacronia não está ligada somente ao tempo, mas também, ao espaço, haja vista que em época contemporânea o primo Cornélio Pires, incentivado pelo próprio Amaral, publica sua série de livros, que servirão de corpus para a compilação do dialeto sobrevivente em redutos afastados dos grandes centros populacionais.

Tanto a obra de Cornélio — que apresentava um glossário ao final de seus livros — como a de seu primo parecem ser uma tentativa de gramatização (conforme termo de Auroux (1992)) do português caipira. Para Auroux, gramatização é a tendência em se estruturar a língua em dois grandes pilares da tecnologia escrita: a gramática e o dicionário.

O referido estudo sobre o dialeto caipira aponta aspectos fonéticos, fonológicos, morfossintáticos e um vasto estudo lexicográfico.

No rol de palavras catalogadas por Amaral é freqüente a aparição de termos indígenas e, ao tentarmos perceber a formação dessa variante regional no percurso histórico-cultural esboçado no tópico anterior, inferiremos que são naturais marcas de tupinismos nela, tendo em vista a matriz mameluca do caipira; portanto, falantes da língua geral. O português foi se incorporando à língua geral, dando origem ao “dialeto caipira”, registrado por Amaral. Interessante o registro epistolar de um bispo de Recife, escrito em 1697, sobre o falar do paulista primitivo, em que se tem como referência dos dêiticos o bandeirante Domingos Jorge Velho (apud Basso & Ilari (2006:78))

Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro Tapuya mais que em dizer que é cristão. Metido pelos matos, à caça de índios e índias, estas para os exercícios de suas torpezas e aqueles para os granjeios de seus interesses [...] nem sabe falar [o português] [...] nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais do em que dizer que é cristão e não obstante o haver se casado de pouco lhe assistem sete índias concubinas [...]

Para nosso trabalho, pareceu-nos conveniente um estudo acerca dos pronomes de tratamento nO dialeto caipira. A escolha deste tópico se justifica como ilustração de trecho da obra e também porque nos servirá como referencial na análise do ethos dos sujeitos envolvidos nos causos, já que podem ser indícios reveladores da subjetividade manifestada no gênero em questão.

Segundo Amaral (op. cit.:170), o pronome mais utilizado na variante são os derivados de vossa mercê, ou seja, vossuncê, vassuncê, vamicê, vancê, vacê, ocê, mecê. O uso de mecê denota mais distanciamento que vacê ou vancê, os quais denotam ainda menos solidariedade que ocê. Sobre essa última forma, o estudioso diz que se reserva para crianças e íntimos, sendo, porém, mais usado pelos pretos que por qualquer outra gente. É interessante notar que não se faz referência alguma quanto ao uso de você; pois, para o autor, restringe-se somente ao uso culto.

Já sobre o uso das outras formas pronominalizadas ‘o senhor’ ou ‘a senhora’, aponta variações em seu uso e as diferencia pelo emprego proclítico e enclítico. No caso de ‘o senhor’ e ‘a senhora’ variam, respectivamente em: nhô, seo, seu, siô, sô e nhá, seá, sea, sia, sá. A forma seu e suas variantes usam-se antepostos a prenomes e ocupações: por exemplo, Seu Joaquim, Nhô Joaquim, Nhá Maria, seu padre. O uso enclítico aparece como sinhor e sinhô são usadas como em: “Sim, sinhor” ou “Quero fala co’sinhô”. Mais uma vez, Amaral (op. cit.:209) faz apontamentos sobre a influência africana na formação do dialeto:

Essas fórmulas, tais como se acham grafadas, se devem aos antigos escravos negros (cuja fonética especial, como já assinalamos em outro lugar, diferia, em mais de um ponto, da fonética popular dominante, ou capira) e foram adotadas geralmente para designar os senhores em relação aos cativo: “Vá dize pra seu sinhô-moço que eu espero ele”. É claro que o emprego de tal expressão é hoje raro, e mais raro se torna a medida que se afasta no passado a época da escravidão.

Como se vê, ficam claros na totalidade dessa “gramática do caipirês”, os muitos empréstimos lingüísticos que compõem a constituição do “dialeto” caipira: elementos europeus, indígenas e africanos. Hoje, a partir estudos sociolingüísticos, sabemos que não

se trata, de fato, de um dialeto, mas de uma variante não estandartizada do Português. No entanto, naquele tempo o termo dialeto era usado para mostrar essa variante falada pelos caipiras. À época, a obra significa um grande salto nos estudos lingüísticos brasileiros e um dos poucos, quiçá o único trabalho específico com a variante caipira.

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