A Semântica Global não privilegia uma forma peculiar de discurso, mas as outras formas na medida em que o discurso se manifesta, a partir de uma formação discursiva. O autor ressalta o cuidado que o analista deve ter ao analisar os textos, não privilegiando mais a hermenêutica histórica em detrimento da materialidade linguística. Inspirado em Humboldt, recusa ver a linguagem como um produto acabado e morto. Ressalta que o discurso não é estático e não se trata de um modelo determinado, a partir do qual o enunciador escolhe um tema e depois um gênero e segue uma linearidade. Os planos dos discursos: a intertextualidade, o vocabulário, o tema, o estatuto do enunciador e do coenunciador, a dêixis enunciativa, o modo de enunciação e o modo de coesão são apenas formas de situar as dimensões da semântica global, mas não significa que devam ser tratados de forma linear.
Para iniciar, cumpre dizer que a interdiscursividade é constitutiva e nem sempre deixa marcas na materialidade linguística. Como afirma Maingueneau (1984/2005), dentro de um campo discursivo há sempre uma maneira de citar discursos anteriores do mesmo campo, o que corresponde à intertextualidade interna. Trata-se de um trabalho de memória discursiva, que constrói para si um passado próprio, filiando-se a certas formações discursivas e recusando outras. O mesmo ocorre com a intertextualidade externa em relação a outros campos, sendo citáveis ou não. No caso desta pesquisa, a interdiscursividade pode ser entendida na relação entre os discursos da educação e do trabalho.
De acordo com as coerções semânticas que regem o discurso, o vocabulário, a palavra em si mesma, não constitui unidade de análise específica. Os sentidos são diferentes, dependendo de quem emprega a palavra e de seu posicionamento discursivo.
Um discurso não se define por seu tema, mas por sua formação discursiva. Maingueneau (1984/2005) reflete que, como no caso do vocabulário, o importante não é o tema, mas seu tratamento semântico. Num sentido amplo, refere-se, como ele mesmo diz, a uma definição mais vaga, isto é, àquilo que é tratado pelo discurso. A especificidade do discurso define-se pela formação discursiva e pelo tratamento semântico que é dado ao tema. Ele propõe a subdivisão desses temas em dois conjuntos: específicos e impostos. Os específicos são aqueles próprios a um discurso e os impostos subdividem- se em: compatíveis, que são relacionados às coerções semânticas do próprio discurso; e incompatíveis, que, mesmo não compatíveis com as coerções semânticas, precisam ser integrados. O estatuto da Mediação da Virgem Maria é um bom exemplo de tema imposto, como apontam Souza-e-Silva e Rocha (2009).
O estatuto da Mediação da Virgem Maria é um tema imposto aos dois discursos porque faz parte do dogma católico, mas compatível com o discurso humanista devoto e incompatível com o jansenismo. A compatibilidade em relação ao primeiro deve-se à importância atribuída à Virgem Maria: ela pertence à mesma ordem terrestre e celestial, não há rupturas entre elas. Já o discurso jansenista baseia-se na rejeição de qualquer mistura entre o natural e sobrenatural, mas como se trata de um tema imposto, é obrigado a integrá-lo, de alguma forma, e o faz recorrendo ao estereótipo da “humildade” da Virgem (SOUZA-e-SILVA; ROCHA, 2009:12).
Em Gênese dos Discursos (1984/2005), Maingueneau destaca que há subjetividades enunciativas e que isso dependerá da competência discursiva, ou seja, cada discurso, de acordo com a competência (inter)discursiva, define o estatuto do enunciador e do destinatário. A dimensão institucional na qual encontram-se o enunciador e o destinatário é o que nos leva à dimensão intertextual.
No discurso humanista devoto, por exemplo, o enunciador se dá como integrado a uma “Ordem”: é membro de uma comunidade religiosa reconhecida, bispo, mestre-escola... e dirige-se a destinatários também inscritos em “Ordens” socialmente bem caracterizadas (enquanto pais de família, magistrados, donas de casa etc. (MAINGUENEAU, 1984/2005:91).
O discurso é construído no ato de enunciação, de acordo com os sistemas de coerções semânticas e de uma dêixis enunciativa espaciotemporal, que delimita a cena e a cronologia. Não se trata de uma dêixis empírica, data, local e hora, em que os enunciados foram produzidos, mas uma dêixis fundada na interdiscursividade que é constitutiva do discurso. Nesse sentido, a subjetividade enunciativa depende da competência discursiva. “Cada discurso define o estatuto que o enunciador deve conferir-se para legitimar e o que deve conferir a seu destinatário para legitimar o seu dizer”. (MAINGUENEAU, 1984/2005:91).
Tanto o enunciador como o coenunciador são vistos, hoje, por Maingueneau, num quadro de uma cenografia enunciativa. Nesse sentido, a cenografia é, ao mesmo tempo, fonte de produção do discurso e aquilo que ele constrói, legitimando-o e sendo legitimada por ele.
O discurso não é somente associado ao estatuto do enunciador e do destinatário; é também um modo de enunciação, uma maneira de dizer, um tom. Maingueneau retoma os dizeres de Bakhtin sobre “o papel excepcional do tom..., o aspecto menos estudado da vida verbal”, ligado à relação do locutor com a pessoa de seu parceiro (MAINGUENEAU, 1984/2005). O tom apóia-se em duas dimensões discursivas que se manifestam na figura do enunciador, ou seja, no caráter (conjunto de traços psicológicos) e na corporalidade (maneira de se vestir, de se movimentar).
No mesmo texto, Maingueneau (1984/2005) remete ao pensamento foucaultiano e admite que, pelos enunciados, o discurso produz uma voz própria, mesmo quando ele a nega.
Pode-se muito bem, à maneira de Foucault, recusar-se a ver no texto “a linguagem reduzida ao silêncio e admitir, portanto, que através de seus enunciados, o discurso produz um espaço onde se desdobra uma “voz” que lhe é própria. Não se trata de falar um texto mudo, mas de identificar as particularidades da voz que a sua semântica impõe. A fé em um discurso supõe a percepção de uma voz fictícia, garantia da presença de um corpo. Uma voz que, entretanto, só pode ter uma existência paradoxal, já que ela é deslocada em relação ao texto a que dá suporte, sem remeter à plenitude de um corpo atestado (MAINGUENEAU, 1984/2005:95).
Cada discurso tem seu corpo de acordo com as restrições semânticas e com o sentido propiciado pela cena de enunciação, que transmite ideias que apresentam uma maneira de dizer do enunciador e que acedem a uma maneira de ser do co-enunciador. Maingueneau (1984/2005) introduz a noção de incorporação para evocar a imbricação radical do discurso e de seu modo de enunciação.
Outra dimensão da semântica global é o modo de coesão, relacionado às remissões internas, à intradiscursividade. O autor revela que é um domínio mal conhecido, mas de grande importância. São os encadeamentos dos planos do discurso que tecem os sistemas de restrições, a relação de um discurso com outro e as relações entre as formações discursivas que exploram as possibilidades de um núcleo semântico. Cada formação discursiva tem sua maneira de construir parágrafos, capítulos, de argumentar, de passar de um tema ao outro (MAINGUENEAU, 1984/2005:101).
Essa ilustração das repercussões de uma “semântica global” nos faz rejeitar de novo a concepção do discurso como um “sistema de ideias”. Nessa última ótica, a consciência dos sujeitos aparece como uma cena na qual vêm inscrever-se ideias produzidas alhures, mais do que como uma instância dotada de um dinamismo próprio. O espectro que se procura assim conjurar é, evidentemente, o de uma autonomia das idéias; mas não é certo que isso deva se fazer ao preço de uma redução da consciência a um lugar de passagem inerte, aberto a forças externas. O que seria necessário pôr em causa é o primado do ver, de uma ideologia – “visão” do mundo, a assimilação do discurso a uma doutrina. Mutatis mutandis, poder-se-ia dizer que uma tal assimilação é para o discurso o que é para a linguagem a redução de uma língua a um instrumento destinado a transmitir informações (MAINGUENEAU, 1984/2005:101).
Cumpre ressaltar que a semântica global é dotada de um dinamismo próprio, e refuta qualquer forma linear, hierárquica e dogmática de análise, porque analisa as ideias, o direito e o avesso do discurso e toda a sua relação imaginária com o mundo.