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O texto não é um conjunto de signos inertes, mas o rastro deixado por um discurso em que a fala é encenada (MAINGUENEAU, 2002:85). Para o autor, podemos identificar, em todos os tipos de textos, três cenas que se integram e se complementam: a cena englobante, a cena genérica e a cenografia.

A cena englobante corresponde ao estatuto pragmático do discurso; refere-se aos discursos amplos dos campos político, educacional, filosófico, jurídico, científico, etc. Por meio da materialidade linguística, interpela o leitor com breves palavras e refere-se a um determinado campo correspondente ao tipo de discurso. A cena englobante não é suficiente para especificar as atividades discursivas nas quais se encontram engajados os sujeitos (MAINGUENEAU, 2006a:112).

A cena genérica corresponde ao gênero de discurso, ou seja, ao estatuto genérico do enunciado, que pode ser um jornal, uma capa de revista, uma aula. As cenas genéricas são definidas pelos gêneros de discursos particulares e pelas relações sociolinguageiras. Há gêneros de discurso em que as cenas de enunciação são reduzidas à cena englobante e à cena genérica. Por exemplo: catálogo telefônico, bulas de remédios, manual de gramática, confrontam as rotinas de uma cena genérica fixa. Nesses casos, não suscitam cenografias variadas porque não há margem para interpretações. Por outro lado, há gêneros como publicitários, literários e filosóficos que suscitam escolhas de uma cenografia. Essas escolhas podem ser variadas, para captar o imaginário do coenunciador.

A escolha da cenografia não é indiferente: o discurso, desenvolvendo-se a partir de sua cenografia, pretende convencer instituindo a cena de enunciação que o legitima. O discurso impõe sua cenografia de algum modo desde o início; mas, de um outro lado, é por intermédio de sua própria enunciação que ele poderá legitimar essa cenografia que ele impõe (MAINGUENEAU, 2006:113).

Isso quer dizer que a cena de enunciação impõe um discurso para convencer o coenunciador e este, quanto mais avança na leitura do texto, mais é persuadido por certa cenografia correspondente ao contexto no qual o discurso está inserido.

O leitor se vê assim apanhado numa espécie de armadilha, porque o texto lhe chega em primeiro lugar por meio de sua cenografia, não de sua cena englobante e de sua cena genérica, relegadas ao segundo plano, mas que na verdade constituem o quadro da enunciação (MAINGUENEAU, 2006:252).

Em Novas Tendências em Análise do Discurso (1997), o autor retoma o conceito de enunciação, articulado ao conceito de enunciação de Benveniste (Eu – Tu / Aqui – Agora). Introduz, dessa forma, o conceito de dêixis discursiva, que valida a história nos indícios de outra dêixis denominada, por Maingueneau, de dêixis fundadora, pois inclui a locução, a cronografia e a topografia fundadoras, e diz respeito à interdiscursividade.

Como percebemos, o que se coloca em cena através da formulação de uma dêixis fundadora é essencialmente a questão de interdiscursividade: não haveria uma origem absoluta, um lugar a partir do qual um discurso poderia autofundar-se. Pelo contrário, toda enunciação sempre se dá no interior de um já-dito, explicitando a rede de formulações que definem o Outro do discurso (ROCHA, 1997:96).

A dêixis discursiva é o primeiro passo à cenografia de uma formação discursiva; o segundo é a dêixis fundadora, que nos leva a pensar na interdiscursividade, em situações de enunciações anteriores que retiram boa parte da legitimidade da formação discursiva (MAINGUENEAU, 1997).

Assim, a enunciação construída pelo discurso confere certa realidade às cenas engendradas pelos textos verbais e visuais. A cena de enunciação não é puramente imaginária, mas sim produzida pelo discurso em uma troca verbal que visa a produzir e a fazer reconhecer sua legitimidade (AMOSSY, 2005:138).

Em Cenas da Enunciação (2006), Maingueneau refere-se ao conceito de cena validada e faz uma reflexão sobre a “Carta a todos os franceses”21, divulgada em 1988, momento em que François Mitterand apresentou seu programa de governo aos eleitores, desejando seduzi-los pela mídia e influenciando-os, de forma descontraída, como se fosse uma reflexão familiar feita em torno da mesa, aos domingos. Trata-se da cenografia de uma carta que invoca uma cena de fala: uma espécie de reflexão em família, durante a refeição, na qual o presidente assume implicitamente o papel de pai. Esse é um exemplo clássico que mostra as três cenas: cena englobante (discurso político), cena genérica (programa eleitoral) e cenografia (uma carta pessoal). Para o autor, o encaixamento de uma cena de fala em uma outra não o surpreende, pois ele afirma que as cenografias frequentemente estão apoiadas em cenas de fala - denominas validadas, isto é, instaladas na memória coletiva, positivamente ou não. Na cultura francesa, a conversa em família durante a refeição é uma cena validada positivamente.

A noção de “cenografia” adiciona ao caráter teatral de “cena” a dimensão “grafia”. Essa “grafia” não remete a uma oposição empírica entre suporte oral e suporte gráfico, mas a um processo fundador, à inscrição legitimadora de um texto, em sua dupla relação com a memória de uma enunciação que se situa na filiação de outras enunciações e que reivindica um certo tipo de reemprego (MAINGUENEAU, 2006:253).

Pode-se dizer, então, que a cenografia não é um quadro fixo, mas é no interior da cena na qual a obra foi enunciada que se justifica tacitamente a cenografia que é proposta por aquela obra e não outra. “[...] Uma cenografia só se manifesta plenamente quando ela pode dominar seu desenvolvimento, manter uma distância em relação ao coenunciador” (MAINGUENEAU, 2006a:114).

No Discurso Literário, Maingueneau (2006b) revela que cenografia não é estática; mostra-se por meio de marcas localizáveis no texto ou fora do texto. O leitor ou o ouvinte não se vê diretamente diante do quadro cênico, de uma cena englobante, mas antes de uma cenografia, pois o texto chega ao leitor,

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MAINGUENEAU, D. Carta a todos os franceses. In: ____. Cenas da Enunciação. Tradução e Organização de Maria Cecília Pérez de Souza-e-Silva; Sírio Possenti. Curitiba: Criar Edições, 2006. p. 123.

primeiramente, por sua cenografia. Portanto, para o autor, a cenografia é tanto condição como produto da obra. Ela é, igualmente, a articulação entre a obra considerada um objeto autônomo e as condições de seu surgimento (MAINGUENEAU, 2006b:265).

O leitor se vê assim apanhado numa espécie de armadilha, porque o texto lhe chega em primeiro lugar por meio de sua cenografia, não de sua cena englobante e de sua cena genérica, relegadas ao segundo plano, mas que na verdade constituem o quadro da enunciação (MAINGUENEAU, 2006b:252).

Os conteúdos desenvolvidos pela enunciação fazem emergir a cenografia e o ethos, bem como os valida. Quando um professor se expressa em sala de aula, ele mostra-se pelo conteúdo das suas palavras e se opõe àquilo que ele não é. “A cenografia não é um simples alicerce, uma maneira de transmitir „conteúdos‟, mas o centro em torno do qual gira a enunciação” (MAINGUENEAU, 2006b:264).

Para desempenhar plenamente seu papel, a cenografia não deve, portanto ser um simples quadro, um elemento de decoração, como se o discurso viesse ocupar o interior de um espaço já construído e independente desse discurso: a enunciação, ao se desenvolver, esforça-se para instituir progressivamente seu próprio dispositivo de fala. Ela implica desse modo, um processo de enlaçamento paradoxal. Desde sua emergência, a palavra supõe certa situação de enunciação, a qual, com efeito, é validada progressivamente por meio dessa mesma enunciação (MAINGUENEAU, 2006a:114).

Sendo assim, há um duplo valor da cenografia: primeiro, pela maneira de inscrever-se, de legitimar-se, mostrando a existência do interdiscurso; e segundo, por não ser apreendida como quadro estático, mas como um processo dinâmico que se constrói na enunciação.

Cenografia é também uma noção atrelada ao código linguageiro22, pois este é que mobiliza o discurso. “Por exemplo, o Discurso do Método, em Descartes, é indissociável de uma cenografia, que longe de ser apenas um procedimento a serviço de um pensamento, modifica o próprio estatuto da filosofia” (MAINGUENEAU, 2006a:48).

Cada discurso pressupõe um estatuto do enunciador e do destinatário. Para construir uma cenografia, é preciso uma dêixis discursiva validada pelo triângulo eu/tu, o aqui e o agora (MAINGUENEAU, 1984/2005), ou seja, as pessoas que compõem a cena enunciativa, o tempo (cronografia) e o espaço (topografia). Essas são condições para que a enunciação se desenvolva.

Se existe dêixis discursiva é porque uma formação discursiva não enuncia a partir de um sujeito, de uma conjuntura histórica e de um espaço objetivamente determináveis do exterior, mas atribuir-se a cena que sua enunciação ao mesmo tempo produz e pressupõe para se legitimar (MAINGUENEAU, 1997:42).

Essas redes de formulações no interior de uma formação discursiva possibilitam a construção de efeitos de sentidos, tecidos durante a cena de enunciação. Esta não é, de maneira nenhuma, ilusória, mas fundada em marcas que mobilizam o discurso. “[...] Uma formação discursiva, na realidade, só pode enunciar de forma válida se puder inscrever sua alocução nos vestígios de uma outra dêixis, cuja história ela institui ou „capta‟ a seu favor” (MAINGUENEAU, 1997:42).

Quanto mais o coenunciador avança na leitura do texto, mais ele é persuadido de que é aquela cenografia e não outra que corresponde ao mundo configurado pelo discurso. A cenografia só se manifesta se puder manter distância em relação ao coenunciador. Num debate, é muito difícil que os

22 Conceito desenvolvido em Maingueneau (1993): uma formação discursiva não enuncia por meio de uma língua (o francês, o latim...), mas através de um código linguageiro específico; a língua não é um instrumento que se domine do exterior, posto a serviço de uma estratégia de persuasão, mas o uso que dela se faz é constitutivo de uma formação discursiva, inseparável de seu posicionamento. Com efeito, o código linguageiro não é somente um sistema de transmissão de informação, ele participa da autolegitimação do enunciador: por definição, o uso da língua que implica um discurso dá-se como a maneira pela qual é necessário enunciar, pois é a única conforme ao universo de sentido que ele instaura. O código linguageiro não se elabora em uma língua supostamente homogênea, mas em uma relação essencial com outras línguas, vivas ou mortas, ou com a diversidade de uma “mesma” (língua, discurso de especialidade...): manifestação de um dialogismo irredutível. (MAINGUENEAU, D. Tradução de Márcio. V. Barbosa e Maria Emília A. T. Lima. Termos-chave da análise do discurso. Belo Horizonte: UFMG, 1996/1998. p. 21-22.)

participantes possam enunciar por intermédio de suas cenografias, pois em interlocuções vivas há, em primeiro lugar e na maioria das vezes, a ameaça das faces e o ethos. “Todo discurso pretende convencer fazendo reconhecer a cena de enunciação que ele impõe e por intermédio da qual se legitima” (MAINGUENEAU, 2006a:000).