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2 LITERATURE REVIEW

2.2 Paranoia – from psychosis to panoptic surveillance

O grupo procurava discutir cada procedimento, antes de manipular os filmes – “a gente pensava muito antes de fazer cada nova coisa”167 –, mas a despeito desta

165 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p.117.

166 Relação de material depositado na Cinemateca Brasileira em 07 de julho de 1978. Arquivo Histórico

atitude cuidadosa, a necessidade de buscar informação técnica específica era evidente. Uma vez restabelecido o contato com a Fiaf, e apesar de ainda irregular nas suas obrigações monetárias junto àquela federação, a Cinemateca recebe o convite para o envio de um técnico para o II Curso de Verão promovido pela própria Fiaf, que se realizaria na República Democrática Alemã, no Staatlichesfilmarchiv. Paulo Emilio resolve enviar Carlos Augusto Calil.

Com duração de quase um mês (de 23 de agosto a 17 de setembro de 1976), o amplo programa do curso vinha ao encontro das principais necessidades da instituição naquele momento, pois contava com aulas teóricas e práticas bastante direcionadas para as questões da conservação e da restauração. E ainda, para melhor aproveitar a estadia de Calil na Europa e sua passagem também por Paris,

Paulo Emilio escreve uma curta mensagem apresentando-o [...] a Paulo Carneiro, embaixador brasileiro na Unesco, para que o apoiasse numa visita ao Service des Archives du Film, cujas instalações em Bois d`Arcy eram consideradas modelares entre as cinematecas européias.168.

Tanto o curso na cinemateca alemã quanto a visita ao arquivo francês e os vários documentos (manuais, textos técnicos, relatos de experiências) que Calil traz para o Brasil vão marcar profundamente as atividades da Cinemateca daí por diante. Mais do que nada, a enorme quantidade de informações vai dar um norte para a nova equipe e sedimentar a escolha do grupo em priorizar a conservação do acervo. Para Carlos Roberto de Souza, a viagem de Calil foi fundamental para a catalogação – técnica e de conteúdo – e para a documentação, especialmente pelos relatos das experiências de diferentes cinematecas nestes campos:

Para os aprendizes que éramos em tudo quanto dizia respeito a um arquivo de filmes, a viagem de Calil à Alemanha Oriental revestiu-se do caráter de exploração de uma caverna de tesouros. As publicações da Fiaf trazidas por ele [...] foram rapidamente devoradas.169

Fundamentalmente, os documentos vindos da Alemanha respondiam as principais questões que a Cinemateca precisava equacionar: 1. Como manipular os filmes corretamente; 2. O que observar em cada filme examinado, como sinal de deterioração ou desgaste e de identificação dos filmes; 3. Como organizar as informações coletadas de forma a permitir uma leitura prática; e 4. como interpretar estas informações para classificar os materiais – em termos de conteúdo e de objeto. Dentre os vários documentos, destacaremos dois: o Relatório de participação no II 167 Entrevista com Carlos Roberto de Souza, 2009. Op. cit.

168 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 112 169 Idem, ibdem, p.112.

Curso de verão patrocinado pela Fiaf 170, apresentado por Calil em seu retorno; e o Film Preservation – a report of the preservation committee of the International Federation of Film Archives171, um manual publicado pela Fiaf para ser distribuído entre as cinematecas. O primeiro documento escolhido revela o que mais chamou a atenção de Calil dentro da massa de informação que recebeu durante o curso e, como verificaremos, muito do que é relatado neste relatório acaba sendo aplicado no trabalho da Cinemateca. O segundo documento é um manual de instruções, tão importante que o grupo se preocupou em traduzi-lo – o que não fez com outros textos. Os capítulos traduzidos172 tratavam justamente da análise do estado de conservação, dos processos de restauração. Ou seja, exatamente as partes que se referiam às questões que relacionamos acima.

O Relatório de participação no II Curso de verão patrocinado pela Fiaf divide os assuntos em três grandes partes. A primeira parte versa sobre as técnicas de conservação e restauração, incluídas aí noções de armazenamento adequado e critérios de classificação dos filmes, os equipamentos básicos de trabalho, os procedimentos elementares no tratamento e identificação das películas e o que se pensava sobre os novos suportes da obra audiovisual: as fitas magnéticas (videoteipe), hologramas e videodiscos. Interessante notar que as esperanças para a conservação audiovisual, naquela época, estavam depositadas no videodisco (um suporte ainda muito caro), pois já se colocavam restrições ao holograma (pelo desenvolvimento técnico insatisfatório) e à fita magnética (ineficiente para a conservação a longo prazo). A segunda parte do relatório concentra-se na catalogação do conteúdo de filmes e de informações técnicas dos materiais. Descreve todo o sistema utilizado pela cinemateca alemã para o tombamento do acervo, a maneira de codificar cada material, o rol das informações mínimas para um catálogo de filmes, e detalha toda a série de fichas que eram utilizadas para a organização destes dados, inclusive com exemplos dos rótulos de identificação utilizados nas latas. A terceira parte concentra-se nas questões administrativas e na discussão dos direitos e deveres de um arquivo cinematográfico, com idéias que

170 Carlos Augusto Machado Calil. Relatório de participação no II Curso de verão patrocinado pela Fiaf,

1977. Arquivo histórico da Cinemateca Brasileira.

171 Herbert Wolmann. Film Preservation, a report of the preservation committee of the International

Federation of Film Archives, 1965.

172 Foram traduzidos os capítulos: 1. Optical cinematograph film and its properties, que descreve a

estrutura das películas cinematográficas, como elas se deterioram e os principais agentes de deterioração, além de noções sobre as condições ideais de armazenamento; o capítulo 6. Film storage

procedures, que descreve os procedimentos para exame técnico e preparação dos filmes, anterior ao

armazenamento, e os critérios de armazenamento com vista à conservação; e o capítulo 7. Film

parecem embrionárias do futuro Código de Ética da Fiaf, que seria publicado em 1998. Para nossa pesquisa, exploraremos a primeira e a segunda parte do relatório, que descrevem os processos que vão interferir mais diretamente no método de trabalho que será implantado a partir daí. Para Carlos Roberto de Souza, a documentação trazida da Europa “representou quase como uma cartilha de quando você vai aprender a ler, porque a gente estava numa espécie de jardim da infância, já mexendo com as coisas. Claro que a gente tinha um bom senso, mas não era muito além de bom senso”.173