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Os resultados dos trabalhos de restauração, apresentados em todo país, provocam um afluxo de filmes para a Cinemateca que faz crescer rapidamente o acervo que ainda se estava tentando conhecer:

215 Para saber mais sobre este programa, consultar Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 131. 216 Entrevista com Carlos Roberto de Souza, 2009. Op. cit.

217 Idem, ibidem. 218 Idem, ibidem.

Filmes entravam às centenas, como as 500 latas de cinejornais da Carriço de Juiz de Fora; nitratos prospectados no Rio Grande do Sul por Antônio Jesus Pfeil; 100 latas de filmes do Museu do Índio [...]; filmes da Secretaria de Cultura de Recife [...]; além do sistemático recebimento dos filmes em nitrato da Cinemateca do MAM carioca. Realizadores contemporâneos, interessados na preservação de suas obras, passaram a enviá-las com alguma freqüência para guarda.219

Historicamente já se sabia de perdas significativas de obras da cinematografia brasileira, citadas inclusive no artigo de Jurandyr Noronha, em 1948220, já comentado no primeiro capítulo. A história recente da própria Cinemateca alertava sobre os riscos de desaparecimento de obras. Estes dois pontos mais o sentimento de urgência em salvar o cinema nacional acabaram por imprimir a política de não fazer seleção de filmes – aceitava-se tudo. Esta postura também se fundamentava no princípio de que não existem critérios seguros, capazes de julgar o que será importante para as gerações futuras, e não era uma peculiaridade da Cinemateca Brasileira – ao contrário, era uma política adotada por quase todas as cinematecas do mundo. Segundo Carlos Roberto de Souza, “[...] a National Film Library inglesa, [é a] única instituição mundial que desde seu início praticou políticas de seleção”.221 Esta política de não-seleção de filmes a ser incorporado ao acervo é reforçada por Wolfgang Klaue, diretor do Staatlichesfilmarchiv (e que assumiria o cargo de presidente da Fiaf em 1979), quando visita a Cinemateca, em 1978:

Klaue acreditava que as cinematecas, sobretudo as do Terceiro Mundo, deveriam reunir o máximo de materiais como forma de impressionar e pressionar os poderes oficiais na obtenção de recursos para a preservação – a quantidade como estratégia de pressão.222

Com o crescimento acelerado do acervo – em 1978 já se estimavam em 20 mil rolos –, é cada vez mais urgente criar melhores condições de guarda. Com este propósito, são tomadas duas iniciativas: buscar uma opção para substituir as latas enferrujadas e encontrar um local, e recursos, para a construção de um depósito em condições adequadas de conservação. A primeira teve mais sucesso do que a segunda, cuja solução só vai ser encontrada, em parte, alguns anos depois. Porém, o problema das latas que enferrujavam pelo tempo e pelos ácidos da deterioração dos filmes, foi resolvido através da confecção de embalagens plásticas. Esta questão nos remete novamente à viagem de Calil à Europa.

219 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p.116.

220 Jurandyr Bastos Noronha, Indicações para a organização de uma filmoteca brasileira, 1948, p.8. Op. cit.

221 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 116. 222 Idem, ibidem, p. 116.

Em sua passagem pela França, quando visita o Service des Archives du Film, em Bois d’Arcy, Calil observa que eram utilizadas embalagens plásticas para a guarda dos rolos de filmes. Consegue uma amostra desta embalagem através da filha de Maria Rita Galvão que morava em Paris na época e, com o estojo francês como modelo, busca a parceria da Escola Senai Theobaldo de Nigris, que: “[...] dispôs-se a estudar a feitura dos moldes para a injeção dos estojos e usiná-los gratuitamente, desde que a Cinemateca arcasse com os custos do bloco e dos componentes metálicos”.223

O mercado nacional não oferecia esse tipo de estojo. Quando muito, produziam-se estojos em PVC (que já era usado comercialmente, na época, para as bitolas menores, como 8mm, Super 8mm e 16mm), mas que não é adequado para guarda de longa permanência. Estudos divulgados pela Fiaf recomendavam o uso de polietileno de alta densidade, porque esse tipo de plástico é extremamente inerte e não reage com os componentes da película cinematográfica, nem com os subprodutos da sua deterioração224. Em 1978, através de um convênio firmado com a Funarte, são obtidos os recursos necessários para a execução dos moldes e a injeção de aproximadamente 12 mil estojos e batoques. A espera foi longa, para a ansiedade da equipe. Os estojos e batoques começaram a chegar apenas no final de 1979, quando se iniciou o trabalho de substituição das latas. No ano de 1980 seriam substituídas cerca de 10 mil latas pelos estojos de polietileno e o relatório das atividades225 desse ano já anunciava que o estoque se esgotaria nos primeiros meses de 1981. Isso de fato aconteceu e os relatórios só voltariam a citar a injeção de novos estojos em 1996, obrigando o arquivo, durante vários anos, a uma busca constante das clássicas embalagens metálicas, disponíveis no mercado e muitas vezes doadas pelos laboratórios cinematográficos, para substituir as latas que se oxidavam.

O projeto inicial apresentado para a Funarte previa a confecção de moldes e a injeção de batoques (de 35mm e de 16mm) e a confecção de moldes e a injeção de dois tamanhos de estojos: um para abrigar os rolos de 300m (rolo simples) e outro para os rolos de 600m (rolo duplo de filme de 35mm). Porém a demora em realizar o trabalho, aliado à inflação do período, acabou por consumir parte significativa da verba e só foi possível a confecção do molde para batoques e para os rolos simples. A confecção do

223 Idem, ibidem, p. 117.

224 Para saber mais sobre embalagens adequadas para armazenamento de filmes para longa permanência,

consultar Alfonso del Amo, Clasificar para preservar, 2006, p. 174 – 177.

225 Relatório de atividades da Fundação Cinemateca Brasileira durante o exercício de 1980. Arquivo

molde e a injeção de estojos para rolos duplos só aconteceria nos primeiros anos do século XXI – o que certamente comprometeu, em alguma medida, a conservação dos filmes em rolos de 600 metros. Vale lembrar que, com as mudanças tecnológicas ocorridas a partir da década de 1980, os negativos originais das obras cinematográficas passam a serem montados em rolos duplos.

Se a ausência de estojos de polietileno para rolos duplos significava alguma perda de eficiência para a conservação das películas, a inexistência de uma área climatizada para guarda do acervo significava a real impossibilidade da conservação a longo prazo – o que é um contra-senso para uma instituição de memória. Observando mais atentamente todo o intenso processo de mudanças descrito até aqui, perceberemos que foram efetivadas as ações que dependiam do esforço da equipe, como o desenvolvimento dos procedimentos de conservação e catalogação. Ou o que dependia de verbas não muito vultosas, como a duplicação de filmes e a confecção dos estojos de polietileno. A construção de uma sede e de um arquivo climatizado adequado para guarda de acervos audiovisuais para longos períodos, que exige investimentos mais expressivos, não chegou nem perto de uma solução.