géneros, natação e desporto de natureza
Resumo
O objetivo deste estudo foi traduzir e validar o Physical Activity Enjoyment Scale (PACES), a partir da versão de Mullen et al. (2011), numa amostra de atletas portugueses, bem como, testar a invariância entre géneros, desportos de natureza e natação e comprovar critérios de validade externa através da versão portuguesa do BRSQ. Participaram neste estudo 1032 atletas (273 praticantes de Desportos de Natureza) e 759 (praticantes de natação), como uma média de idades de 18.95±DP 6.59. Os resultados suportam a adequação do modelo de medida (1 fator, oito itens), para cada uma das amostras em análise (amostra geral: χ²=181.96, p=.000, df=20, SRMR=.042, NNFI=.938, CFI=.960, RMSEA=.078, RMSEA 90% IC=.069-.088; amostra género masculino: χ²=1113.27, p=.000, df=20, SRMR=.035, NNFI=.947, CFI=.966, RMSEA=.077, RMSEA 90% IC=.066-.089; amostra género feminino: χ²=67.59, p=.000, df=20, SRMR=.034, NNFI=.943, CFI=.964, RMSEA=.079, RMSEA 90% IC=.062-.097; amostra desporto de natureza: χ²=42.32, p=.002, df=20, SRMR=.037, NNFI=.965, CFI=.976, RMSEA=.067, RMSEA 90% IC=.040-.085; amostra natação: χ²=130.14, p=.000, df=20, SRMR=.034, NNFI=.943, CFI=.964, RMSEA=.077, RMSEA 90% IC=.064-.085), bem como revelou ser invariante em função dos géneros e das modalidades (∆CFI≤.01). Para além disto, o divertimento, revelou correlações positivas e significativas com todas as formas de motivação autónoma (iregulação identificada, intergada e motivação e intrínseca), e correlações negativas e significativas com todos os tipos de motivação controlada (amotivação, regulação externa e introjetada). Estes resultados permitem-nos afirmar que a tradução e adaptação do PACES, pode ser utilizada com elevado grau de validade e fiabilidade na avaliação do divertimento, no contexto do desporto, em futuros estudos, suprimindo uma lacuna existente até à data.
Palavras-Chave: Divertimento, desporto, teoria da autodeterminação, análise
Introdução
Ao longo das últimas décadas, diversos investigadores têm demonstrado que o divertimento é um dos principais motivos tanto para o início, como para a manutenção, de atividades físicas- desportivas (Dunton & Vaughan, 2008). Neste sentido, tem sido considerado um fator relevante para o estudo do comportamento na prática de atividades físicas-desportivas (Raedeke, 2007), e tem funcionado tanto um preditor como uma consequência de atividades físicas-desportivas (Ruby, Dunn, Perrino, Gillis, & Viel, 2011).
Motivado por estes fatores, o divertimento tem vindo a ser estudado com recurso a diferentes tipos de amostras: crianças (Jekauc, Voelke, Wagner, Mewes, & Woll, 2012); adolescentes (Motl et al., 2001); adultos saudáveis (Heesch, Mâsse, & Dunn, 2006); idosos (Mullen et al., 2011); em diferentes faixas etárias (Moreno-Murcia, González-Cutre, Martínez, Alonso, & López, 2008a), e consequentemente aplicado aos mais variados contextos, nomeadamente: à educação (e.g., McArthur & Raedeke, 2009), ao desporto (e.g., Crocker, Bouffard, & Gessaroli, 1995; Kendzierski & Morganstein, 2009), ao exercício (e.g.,Raedeke, 2007) e à saúde (e.g., Román, Pinillo, Martínez, & Izquierdo, 2014).
Por outro lado, o conceito de divertimento no âmbito das atividades físico-desportivas, parece ser definido como a resposta positiva à experiencia da prática desportiva (Nahas, Goldfine, & Collins, 2003) e que se reflete em sensações de gosto, diversão e prazer, aparecendo, muitas vezes, associado às formas de motivação mais autónomas (i.e. regulação identificada, integrada e motivação intrínseca), subjacentes à teoria da autodeterminação (SDT: Deci & Ryan, 2000). De facto, a literatura parece apontar neste sentido, visto que diversos investigadores têm evidenciado que indivíduos mais autodeterminados demonstram maiores níveis de divertimento, comparativamente a indivíduos menos autodeterminados (e.g., Álvarez, Balaguer, Castillo, Duda, & Balaguer, 2009; Garcia-Más et al., 2010; Moreno- Murcia, San Román, Galindo, Alonso, & González-Cutre, 2008b; Spray, Wang, Biddle, & Chatzisarantis, 2006).
No entanto, a avaliação do divertimento parece não reunir consenso na comunidade científica, isto porque, não existe um único instrumento que avalie o divertimento no contexto de atividades físico-desportivas, principalmente em populações jovens adultas e adultas (Mullen et al., 2011). Neste sentido, a estratégia dos investigadores tem sido a adaptação da escala original do Physical Activity Enjoyment Scale (PACES: Kendzierski & De Carlo, 1991), ou a adaptação de outras escalas provenientes da versão original (e.g., Motl et al., 2001; Mullen et al., 2011), aplicadas especificamente às populações que se pretendem estudar.
A versão original de 18 itens do PACES foi desenvolvida por Kendzierski e DeCarlo (1991), para uma população adolescente. Posteriormente os itens agrupam-se num único fator que avalia como os participantes autopercecionam o divertimento na prática da atividade física.
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Contudo, quando aplicado a outras populações este instrumento revelou problemas com a sua estrutura fatorial (Crocker et al., 1995). De acordo com Marsh (1996), tal facto parece estar relacionado com os itens estarem redigidos na positiva e na negativa, pelo que não medem um único construto, tal como acontece, por exemplo, na escala global da auto-estima. Conclusões semelhantes foram reportadas tanto por Motl et al (2001), como por Moore et al. (2009) e mais recentemente por Mullen et al. (2011) e Jekauc et al. (2012). No entanto, apenas no estudo de Heesch et al. (2006) foi utilizado o questionário completo do PACES (Kendziers & Decarlo, 1991). Contudo é de salientar que os autores não analisaram o modelo de medida, analisando apenas a consistência interna ao nível do alpha de cronbach.
Perante estas evidências Motl et al. (2001), criaram uma nova versão do PACES, eliminando dois itens da versão original por não serem pertinentes para a amostra em questão e modificaram o conteúdo de outros itens, obtendo uma estrutura fatorial de 16 itens/ 1 fator que apresentou um bom ajustamento aos dados e revelou ser invariante entre diferentes culturas (Motl et al., 2001). Posteriormente este instrumento foi aplicado a outros contextos e culturas e, de igual modo, demonstrou um adequado ajustamento aos dados (e.g., Jeukauc et al., 2012; Moreno-Murcia et al., 2008a; Moore et al., 2009).
No entanto, no caso do estudo de Moore et al. (2009), o modelo revelou ser variante em função dos géneros (i.e. não equivalente), sendo mesmo aconselhado pelos autores a ser analisada a invariância em futuros estudos, com o intuito de ser avaliado a perceção do divertimento em função do género.
Por sua vez no estudo de Jeukac et al. (2012) foi confirmada a estrutura do modelo de medida, para a língua alemã, bem como boas propriedades psicométricas. Todavia, o modelo revelou invariância parcial, derivado ao facto de os itens estarem na positiva e negativa (Jeukac et al., 2012). Não obstante, os autores sugerem que em futuros estudos, se deva utilizar apenas, ou os itens na positiva ou só os itens na negativa.
Mais tarde Raedeke (2007) e McArthur e Raedeke (2009), utlizaram uma escala de 8 itens a partir da versão original do PACES (Kendzierski & DeCarlo, 1991), no entanto, não realizaram nenhuma análise às propriedades psicométricas, nem comprovaram a adequação do modelo de medida aos dados. No estudo de Raedeke (2007), o autor utilizou oito itens, sendo os mesmos escolhidos por um painel de especialistas que posteriormente foram também utlizados por McArthur e Raedeke (2009). Os autores acresentaram ainda que não é necessário uma escala tão grande para avaliar um único construto, até porque de acordo com Kline (2011), três itens é o número mínimo para saturar um fator latente.
Mais recentemente (Kendzierski & Morganstein, 2009), apoiado tanto nas evidências de Raedeke (2007), como de McArthur e Raedeke (2009), utilizaram esta escala de oito itens, num modelo de equações estruturais, acrescentando o divertimento como um antecedente, tal como preconizou Crocker et al. (1995), sendo este estudo uma extensão do modelo de proposto por Kendzierski, Furr e Schiavani (1998). Não obstante, este modelo revelou ser invariante em função das duas modalidades analisadas (ciclistas e corredores). Contudo, também não foram analisadas as propriedades psicométricas desta versão, nem confirmado o
modelo de medida aos dados.
Posteriormente, Mullen et al. (2011) desenvolveram um estudo onde elaboraram uma revisão profunda às propriedades psicométricas da versão original do PACES, bem como a outras versões já existentes, e proposeram uma escala alternativa com oito itens, diferentes da versão proposta por Raedeke (2007), que apresentou excelentes valores de ajustamento, bem como ótimas propriedades psicométricas. Acresce ainda o facto desta versão proposta por Mullen et al. (2011), ter revelado invariância longitudinal em função dos grupos de praticantes ao longo do tempo, demonstrando que não existem diferenças na perceção do divertimento entre grupos.
Com base nestes resultados Mullen et al. (2011), concluíram que esta nova versão do PACES pode ser utilizada com elevado grau de validade e fiabilidade pelos investigadores na avaliação do divertimento, aconselhando mesmo que sejam realizados outros estudos, em outras populações, para que seja confirmado a robustez do modelo de medida, pelo que foi nossa opção para o presente estudo.
Desta forma, tendo por base não só as sugestões de Mullen et al. (2011), e pelo facto de nenhuma das escalas anteriores ter sido aplicada ao contexto do desporto salvo o trabalho de Crocker et al. (1995), e tal com referido anteriormente, não ter apresentado boas propriedades psicométricas, bem como a ausência de instrumentos que avaliem o divertimento na população portuguesa, o presente estudo, apresenta os seguintes objetivos: (i) traduzir e validar para a população portuguesa a versão do PACES a partir da versão de Mullen et al. (2011); (ii) análise invariância do modelo de medida em função dos géneros e duas modalidades (desporto de natureza e natação) e (iii), verificar os pressupostos de validade externa através da análise correlacional entre o PACES e o BRSQp (Behavioral Regulation Sport Questionnaire), fundamentado nos pressupostos teóricos da SDT (Deci & Ryan, 2000), bem como na sustentação teórica anteriormente identificada.
Metodologia
Participantes
Amostra geral
Participaram neste estudo 1032 atletas (707 masculinos, 325 feminino), praticantes de desportos de natureza (273) e de natação (759), com idades compreendidas entre os 12 e os 44 anos de idade (M= 18.95; DP = 6.59). Nesta amostra os anos de prática variavam entre 1 e 14, o número de treinos semanais entre 1 e 11, e a duração dos treinos variava entre 60 a 180 minutos por dia.