4 Forskningsdesign
4.7 Paneldata – for og i mot
Considerando a importância desta indústria de bebidas para a cidade de Ribeirão Preto – do ponto de vista econômico, social, cultural e psicológico – à medida que o cotidiano das atividades produtivas influenciou na formação da identidade dos trabalhadores, estes tiveram suas trajetórias de vida e de trabalho moldadas pela atividade fabril da Companhia Antarctica Paulista, o que deve ter conduzido à formação de uma identidade coletiva que se reflete no âmbito trabalhista, mas também no social e emocional desses trabalhadores.
Diante desta constatação, é de fundamental importância verificar o cotidiano desses trabalhadores à época, tanto no ambiente profissional quanto no ambiente familiar. Para tanto, esta pesquisa buscará fazer um registro histórico desta realidade, a partir da memória dos trabalhadores. É nesse sentido que se torna imprescindível discutir o conceito de memória.
De acordo com Thompson (1992), “recordar a própria vida é fundamental para nosso sentimento de identidade; continuar lidando com essa lembrança pode fortalecer, ou recapturar, a autoconfiança. A dimensão terapêutica do trabalho da história de vida tem sido uma descoberta que sempre se repete.” (p. 208). O autor afirma, ainda, que memória é sinônimo de história.
Já Maurice Halbwachs (2004) defende que a memória não é apenas individual, mas coletiva, pois ninguém vive sozinho. A experiência coletiva é armazenada na memória da pessoa, mas é permanentemente rememorada; reelaboração esta que muda a percepção que a pessoa teve num primeiro momento.
Nas palavras de Thompson (1992),
Imediatamente após um evento, parece de fato que podemos lembrar muito mais coisas do que mais tarde. Por um tempo muito curto, temos algo próximo a uma memória fotográfica. Isso, porém, só dura alguns minutos. É de importância crucial o fato de que essa primeira fase é extremamente breve. A seguir, o processo de seleção organiza a memória e estabelece alguma espécie de marca duradoura mediante um processo químico. Infelizmente, o conhecimento bioquímico do cérebro, apesar dos rápidos progressos ocorridos ultimamente, não consegue ainda responder às perguntas específicas que um cientista social gostaria de fazer sobre o processo da memória. Contudo, dá-se uma alteração na microestrutura do cérebro, a qual, certamente, é capaz de resistir a supressões completas de atividade mental, como a anestesia. Depois, quando o material é recuperado, tem lugar alguma espécie de
processo inverso: uma outra situação é reconhecida e o cérebro retoma o material e, em certa medida, o reconstrói. (Thompson, 1992, p. 150)
De acordo com Thompson (1992), “ver os próprios informantes e velhas fotografias de suas famílias, casas e locais de trabalho traz realmente uma nova dimensão de imediatez histórica” (p. 301), tem-se a sensação real de que aqueles são os sujeitos históricos que estão fornecendo uma contribuição para a construção da história, além de, sob uma outra ótica e metodologia, os depoentes terem a oportunidade de gravar suas lembranças, discutir com outros depoentes, decidir o que escolher para que seja publicado, corrigir e elaborar os textos que resultaram da transcrição dos depoimentos (Thompson, 1992).
A evidência oral, por assumir a forma de histórias de vida, traz à tona um dilema subjacente a toda interpretação histórica. A vida individual é o veículo concreto da experiência histórica. Além disso, a evidência, em cada história de vida, só pode ser plenamente compreendida como parte da vida como um todo. Porém, para tornar possível a generalização, temos que extrair a evidência sobre cada tema de uma série de entrevistas, remontando-a para enxergá-la de um novo ângulo, como que horizontalmente em vez de verticalmente; e, ao fazê-lo, atribuir-lhe um novo significado. (Thompson, 1992, p. 302)
Ainda segundo Thompson (1992), a memória de um grupo desaparece quando as pessoas não consideram mais a vivência com relação a este grupo. Portanto, quando se trabalha com memória, se trabalha com o presente e não com o passado, ainda que o objeto seja do passado.
Portanto, as informações coletadas devem ser analisadas de forma qualitativa, para que se possa entender o cotidiano desses trabalhadores diante do processo vivenciado por eles, individual e coletivamente. Tomando como referencial as palavras de Bosi (2009),
A memória vem acompanhada de uma valorização do trabalho evocado e de uma crítica, ou melhor, de uma estranheza em face de certos costumes atuais. Não se trata simplesmente de uma “ideologia” saudosista, pois esta expressão não conviria à atitude geral, progressista, assumida tantas vezes pelos mesmos narradores. Vejo, antes de mais nada, um movimento peculiar à memória do velho que tende a adquirir, na hora da transmissão aos mais jovens, a forma de ensino, de conselho, de sabedoria, tão bem esclarecida na interpretação que Walter Benjamin fez da arte narrativa.
Aquilo que se viu e se conheceu bem, aquilo que custou anos de aprendizado e que, afinal, sustentou uma existência, passa (ou deveria passar) a outra geração como um valor. As ideias de memória e conselho são afins: memini e moneo, “eu me lembro” e “eu advirto”, são verbos parentes próximos.
A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia. Quando o Sr. Amadeu fecha a história de sua vida, qual o conselho que dá? De tolerância para
com os velhos, tolerância mesmo para com aqueles que se transviaram na juventude: “Eles também trabalharam”. (pp. 480-481)
Pretendeu-se, portanto, analisar as falas dos trabalhadores de modo a respeitar o trabalho da memória que tende a valorizar o passado e criticar o presente. No momento, então, em que foram realizadas e analisadas entrevistas com os trabalhadores mais velhos, principalmente, mas não apenas, buscou-se considerar suas falas como expressões de sua sabedoria que possui a tendência a uma atitude de ensino, de conselho, de valorização da experiência adquirida ao longo dos anos de trabalho na fábrica, resgatando neles o sentido do trabalho realizado.
Esse estudo procurou considerar que o pesquisador pode encontrar, na “divisão subjetiva do tecido da lembrança, constantes universais: são os marcos em que os signos sociais se concentram apoiando a memória individual” (Bosi, 2004, pp. 62-63).
Ainda seguindo o pensamento de Bosi (2004), existem fronteiras que precisam ser transpostas com tensões e conflitos, pois a mobilidade espacial se relaciona com a afetiva, podendo-se verificar defasagens entre a ordenação interna do relato e a sequência de acontecimentos; portanto,
há passagens borradas de difícil restauração. Mas, em geral, uma intenção configura a narrativa, orienta seu fluir dinâmico. Ela pode ser vista como um todo antes de ser segmentada pelo analista. Porque o sujeito aspira constantemente à totalidade, à plenitude de sua pessoa e sua história, mas a sociedade absorve do indivíduo somente aquele tanto que pode ser integrado no funcionamento social. (Bosi, 2004, p. 63)
Tratou-se, portanto, a memória como fonte principal que subsidiou e alimentou as narrativas que passaram a constituir o documento final, a fonte histórica produzida (Delgado, 2010).
Foi, então, a partir da memória que adquiriu-se um duplo ensinamento: do tempo passado, sobre a época enfocada no depoimento, e do tempo presente, sobre a época na qual o depoimento foi produzido (Delgado, 2010).
O passado espelhado no presente reproduz, através de narrativas, a dinâmica da vida pessoal em conexão com processos coletivos. A reconstituição dessa dinâmica, pelo processo de recordação, que inclui ênfases, lapsos, esquecimentos, omissões, contribui para a reconstituição do que passou segundo o olhar de cada depoente. (Bosi, 2004, p. 63)
Portanto, buscou-se trabalhar com a memória dos próprios trabalhadores e partir da ideia de que “os ‘retalhos’ de seus depoimentos individuais são partes de um lócus coletivo construído e mantido pelas lembranças, bem como pelos esquecimentos.” (Pimenta, 2004, p. 1).
Diante desse referencial, deve-se ressaltar que foi considerado que esses atores sociais teriam apresentado, em seus relatos, “momentos onde identidade, trabalho e coletividade são ‘pares’ aos seus espaços fabris de origem. Verdadeiros ‘retalhos’, através desses depoimentos, mas que são por demais partes uns dos outros. Constituintes de uma Memória ainda atuante em seu presente” (Pimenta, 2004, p. 1).
Segundo Delgado (2010), a memória se caracteriza como a principal fonte dos depoimentos orais, constituindo-se como
Um cabedal infinito, onde múltiplas variáveis – temporais, topográficas, individuais, coletivas – dialogam entre si, muitas vezes revelando lembranças, algumas vezes de forma explícita, outras vezes de forma velada, chegando em alguns casos a ocultá-las pela camada protetora que o próprio ser humano cria ao supor, inconscientemente, que assim está se protegendo das dores, dos traumas e das emoções que marcaram sua vida. (p. 16)
A partir desse pensamento, a memória dos operários, ex-funcionários da Companhia Antarctica Paulista, passou a se tornar o pano de fundo no embasamento de seus depoimentos, no sentido de recuperar e construir as lembranças de coletividade, de suas ações e da realidade vivida. Os relatos desses ex-funcionários sobre suas vivências foram incorporados à investigação histórica, assim como o são as fontes documentais, para que a fala fosse utilizada como fonte de pesquisa. A partir dessas falas, procurou-se evidenciar a memória como uma interseção do fato vivido, com a construção dos personagens que o vivenciaram, no presente de sua memória. Frente a essa linha de raciocínio, deve-se destacar a importância da utilização da fotografia como instrumento de instigação dessa memória, pois, nas palavras de Delgado (2010),
Os sinais exteriores são referências e estímulos para o afloramento de lembranças e recordações individuais que constituem o substrato do ato de rememorar, que se relaciona segundo Halbwachs (1990) com os quadros sociais da memória. (p. 16)
Delgado (2010) afirma, também, que existem vários recursos que são capazes de contribuir para que as pessoas tornem o ato de lembrar ainda mais vivo. Os
entrevistadores devem, portanto, estimular seus entrevistados com objetos, jornais, discos, cartas, poemas etc.,
para que a memória flua com maior facilidade, ou mesmo seja ativada, já que é um processo vivo, atual, renovável e dinâmico. Constitui-se no diálogo do presente com o passado. Um diálogo vivo e enriquecido por estímulos que podem se fazer presentes no próprio decorrer do processo de gravação do depoimento oral. (Delgado, 2010, p. 17)
É importante destacar que a análise desse material coletado foi realizada de forma qualitativa, cuja característica fundamental foi sua singularidade, não sendo possível generalizar as informações, pois os depoimentos coletados se caracterizaram por retratarem visões particulares a respeito de processos coletivos (Delgado, 2010).
Entre os muitos desafios da História Oral, destacam-se, portanto, o da relação entre as múltiplas temporalidades, visto que, em uma entrevista ou depoimento, fala o jovem do passado, pela voz do adulto, ou do ancião do tempo presente. (...) registram-se sentimentos, testemunhos, visões, interpretações em uma narrativa entrecortada pelas emoções do ontem, renovadas ou ressignificadas pelas emoções do hoje. (Delgado, 2010, p. 18)
Porém, de acordo com Thompson (1992), quando as entrevistas são realizadas muito tempo após o fato ocorrido, existe a possibilidade de distorções decorrentes das “mudanças de valores e normas que podem, talvez, inconscientemente, alterar as percepções” (p. 149). O autor recorre à psicologia social da memória para entender como esse fato ocorre. Segundo ele, o processo da memória depende da percepção, ou seja, para que se entenda qualquer coisa, é preciso primeiro compreendê-la. É de acordo com a forma como a entendemos que as informações se ajustam e torna-se possível reconstruí-la no futuro, ou ao menos uma aproximação daquilo que foi compreendido.
Para Thompson (1992), “a memória fotográfica – aquela que recorda detalhadamente o ocorrido – dura apenas alguns minutos e, passado esse tempo, quando a memória tenta resgatar o fato, ela o reconstrói” (p. 150).
Além dessa situação, Thompson (1992) destaca, ainda, que a memória depende também do interesse da pessoa à informação, pois, para ele, a lembrança mais precisa é a que corresponde a um interesse ou a uma necessidade social.