EFFECT OF DIFFRACTION ON PULSE FORMING
P ULSE FORMS
Foucault fez questão de nos deixar um legado conjunto de provocações e investigações que face aos limites desta dissertação não merecerá a atenção devida, centrando-nos antes na temática assinalada deste subcapítulo.
Num volume dedicado ao seu pensamento (Foucault, 1980) o autor francês aborda as múltiplas relações de poder que se constituem na sociedade, argumentando que as
82 mesmas não se “estabelecem, consolidam ou implementem, sem a produção, acumulação, circulação e funcionamento de um discurso” (Foucault, 1980:93-4).
O exercício de poder convoca-nos – sem cessar e assumindo um formato institucionalizador e profissionalizante – para a produção da verdade, encontrando-se esta de forma universal em nosso redor, como replicação dos efeitos específicos do poder (Foucault, 1980:94).
A conceptualização do poder em Foucault138 (1980: 98) alcança um formato fluído
e circular, fazendo dos indivíduos não meros sujeitos passivos, mas elementos da sua articulação e objecto de uma reciprocidade.
A este propósito, Gore (1998:233) salienta que o francês prioritiza o seu interesse investigativo na efectivação e inquirição do poder na sua micro-existência139, nas suas
ramificações “capilares”, que influenciam acções, atitudes, discursos, processos de aprendizagem e vida diária.
Intercepcionando especificamente a realidade pedagógica, Foucault argumenta em “Discipline and Punish” (1979) segundo Popkewitz e Brennan (1998:22) que o
estabelecimento do “exame” (nas suas extensões clínica, pedagógica, militar, religiosa, urbana, estatística) fornece o enquadramento adequado para as relações de poder/conhecimento características do período moderno140.
Hoskin (1993:227 apud Popkewitz e Brennan, 1998:22) vai além de Foucault, afirmando que o cerne dessa transformação está na pedagogia, e nas formas de “aprender a aprender”, que alicerçam novas modalidades de “construir o eu”, como Foucault fez questão de referir em “The Order of Things” (1973) em relação à disciplinas como a filologia, biologia e economia política, num espaço “crítico-interpretativo”, “técnico- científico” e “racional-económico” (Hoskin, 1993:280 apud Popkewitz e Brennan, 1998:22), que fornecem um modo enraízado (pelo poder) de produção do saber central no mundo moderno.
Popkewitz e Brennan (1998:13) assinalam que o currículo se conceptualiza como parte de um campo discursivo através do qual os sujeitos da escolaridade são construídos
138 Esse exercício é efectuado no núcleo das “genealogias” de instituições correctivas e disciplinares que Foucault visitou, e adicionalmente no panorama escolar.
139 Como aliás se denota no alerta para se superar a análise do “campo limitado da soberania” Hobbesiana (Foucault, 1980:102) quando se estuda o poder, apelando antes ao estudo das técnicas e tácticas de dominação.
140 O Estado moderno virá a consolidar-se no aparato institucional em torno do poder religioso, técnicas diplomático-militares e forças de segurança, como Foucault expressa nas conferências no Collège de France em 1977-78 sob o tema “Sécurité, Territoire, Population” (2004).
83 como indivíduos, permitindo assim auto-regular, disciplinar e provar a extensão e consolidação da soberania estatal.
Simola et al. (1998:78) destacam que os mesmos currículos formam a verdade oficial sobre o ensino, configurando o que se entende como ensino e ciência adequados.
A nível educacional e pedagógico Foucault, segundo Gore (1998:233-4), observou que a “disposição espacial, regulamentações, organização de actividades” e todo o edifício construído em torno da forma e processos de aprendizagem é sinónimo de uma interligação “recursos-comunicação-poder”.
A este propósito, cumpre assinalar o trabalho de Lynn Fendler (1998) ao traçar as genealogias – desde Platão, passando por São Tomás de Aquino, Descartes, Kant – do que se entende como “sujeito educado” e as diversas formas de procurar e questionar conhecimento, da autonomia supervisionada até à “racionalidade massiva”.
Foucault operacionaliza em torno das tecnologias da verdade – conhecimento, subjectividade e poder – o exame necessário à produção da verdade (Simola et al. 1998: 65), sublinhando os constrangimentos que se criam na vertente discursiva, com o elencar de “regras discursivas”, “rituais verbais”, “grupos doutrinários” ou “palavras proibidas” (Simola et al. 1998:65-7) que regulam e preservam o acesso ou estabelecem os assuntos a explorar, mediados por relações de poder, pois como salienta Foucault (1980:100) é no “discurso que o poder e o conhecimento se unem”.
É em torno dos “regimes de verdade” que Foucault (1980: 109-33) indica que cada sociedade introduz e estabelece tipos de discurso “que aceita e marca como verdade, bem como os mecanismos e institutos que distinguem o que se constitui como verdade (...), as técnicas e os procedimentos para a adquirir e o estatuto daqueles que são encarregues de a determinar”.
Consideramos que em torno da disciplina das Relações Internacionais se estabeleceu um “regime de verdade” – que visaremos tentar validar empiricamente no capítulo seguinte – em torno das teorias sistémicas (num lastro vincadamente positivista e “ocidental”) e nomeadamente em redor da Anarquia como ponto fulcral no acesso.
Tal como fizemos face a Gramsci, assumimos – e não na sua plenitude, confessamos – as críticas ao pensamento de Foucault.
Como Gore (1998:247) faz questão de sublinhar, encontra-se em Donnely (1992) o assinalar a Foucault da não pormenorização adequada do desenvolvimento da sociedade disciplinar moderna – nomeadamente no generalizar da noção panóptica que permite um exercício pessimista determinista.
84 Blacker (1998:348-56) resume as “omissões” indicadas a Foucault em torno da aparente incapacidade daquele em contribuir com sugestões positivas, o facto de o francês beneficiar de estatuto académico numa instituição de ensino (Sorbonne) ou das múltiplas críticas às contradições das suas genealogias.
Mas Foucault, com a configuração do “intelectual específico” fornece um poderoso contributo – positivo e ético, a nosso ver, face às lacunas que lhe são vislumbradas – para o exercício intelectual e científico.
Essa figura surge como distinção do “intelectual universal” habitual nos três últimos séculos, arquetipamente fora dos circuitos do poder e pugnando por uma lei ideal, como Locke, Rousseau, Jefferson, Marx (Blacker, 1998:358).
O “intelectual específico” Foucaultiano é observado no “especialista” – tendo como exemplo os cientistas nucleares das décadas de 1940 e 1950 – que longe de ter impacto circunstanciado, e face às novas configurações do poder e conhecimento, acarreta e carrega um ampliado ónus de responsabilidade (Blacker, 1998:358).
E como caracterizar esta “nova” figura?
Blacker (1998:359) destaca os princípios de “eficácia” e “honestidade” como estruturantes para Foucault elencar o “intelectual específico” como proeminente face ao “universal”.
Como Foucault (1983:187 in Blacker, 1998:359) afirmou em uma entrevista: "as pessoas sabem o que fazem; frequentemente sabem porque fazem o que fazem; mas o que ignoram é o efeito produzido por aquilo que fazem”.
A “eficácia” lê-se na competência científica face a campos cada vez mais particulares de conhecimento (Blacker, 1998: 359-60) e a “honestidade” integra dois factores: i) consideração às consequências da prática teórica e ii) persistência na sustentação de uma consciência ética e de constante “autovigilância” na prática e no interior do “regime” poder/conhecimento.
Em suma, é possível colher em Foucault um diagnóstico da ligação que se estabelece entre conhecimento e poder num relacionamento difuso e complexo com regras de acesso; a verificação da institucionalização da “escola” numa míriade de configurações e relações de poder e a figura do “intelectual específico” como um actor ético que nos permite apresentar um modo de estar com potencialidades contra- hegemónicas.
85 “(Ser crítico) não é uma questão de dizer que as coisas não são correctas. É uma forma de libertar o pensamento e tentar modificá-lo: mostrar que as coisas não são tão evidentes como se acreditava e discutir a sua aceitação. Praticar crítica é uma questão de tornar as acções fáceis difíceis” (Foucault, 1988: 154-5)