• No results found

EFFECT OF DIFFRACTION ON PULSE FORMING

IMPULSE RESPONSES

A conceptualização da anarquia como núcleo duro das Relações Internacionais surge, como já mencionado, com Kenneth Waltz (1979) que formula a relevância indispensável das Grandes Potências para a edificação de uma teoria universal das Relações Internacionais. O contexto histórico desta asserção e os desenvolvimentos consequentes enfatizam, como destaca Liu (2016:2), a questão do eurocentrismo e, de forma mais vincada, o tratamento da “modernidade internacional como uma emergência endógena e autónoma” ocidental.

Se parte significativa das nossas interrogações se centram na eventual hegemonia discursiva e conceptual em torno do instituto anárquico e da sua prevalência oriunda de certa geografia, seria repreensível não abordarmos a premência da corporização teórica em outras regiões.

Constituindo-se um tema que em si encerraria faculdades para vastos expositivos adicionais, circunscrevemo-nos a uma resenha da literatura tentando discernir alguns pontos caracterizadores de um enquadramento tido como teorizador.

79 A “resistência” enquanto vector analítico do pós-colonialismo (Abrahamsen, 2007:119) surge ligada ao hibridismo cultural como forma de assinalar a criatividade e adaptabilidade do “subalterno” gramsciano face ao desafio colonial e às dinâmicas de dominação e continuidade Norte-Sul.

80 Tal como a problemática da “identidade” (Abrahamsen, 2007: 115-7) que faz sobressair os impactos culturais e psicológicos do colonialismo sobre os económicos ou políticos.

53 Tickner e Wæver (2009:16) alertam que uma forma inicial de responder à questão sobre a eventual inexistência de Teorias das Relações Internacionais nas “periferias” é ser essa matéria parte da autoavaliação de cada “comunidade académica” nacional ou regional, até de forma a evitar-se um mesmo preconceito baseado no pressuposto que as construções teóricas estão sequestradas ou confinadas81 disciplinarmente a certas

fronteiras ou significados.

Somos, contudo, tributários, até pela narrativa que visamos, da problematização efectuada por Acharya e Buzan (tal como Chong (2010: 117) e Tadjbakhsh (2010: 176) no mesmo volume) ao assumirem as convencionais Teorias das Relações Internacionais “ocidentais” como portadoras de contornos hegemónicos gramscianos, ao abrigo de um domínio eurocêntrico interpretado consensualmente de forma “inconsciente nas mentes, mesmo que a teoria esteja ou não correcta” (2010:17).

Recolhendo o subsídio dessa problematização e mesmo que disponíveis para complexificar e inserir adicionais comprovações, o trilho intelectual que Acharya e Buzan prosseguem faz menção aos constrangimentos que possibilitaram tal “dominação”, com um caderno de encargos que atravessa as descolonizações desenhadas por “paradigmas” europeus, onde sobressai o lastro estrutural da “sociedade anárquica” e da “soberania Westefaliana” que se fez pender sobre as elites locais, não se vislumbrando o mesmo impacto para com construções ocidentais como a democracia ou os direitos humanos (Acharya e Buzan, 2010:18b).

Visamos, na revisão da literatura sobre Teorias das Relações Ocidentais em “geografias variáveis”, encontrar um denominador comum empenhado em identificar potenciais alternativos ao “mainstream” ocidental. Nesse caso, remetemo-nos circunscritamente para os casos Chinês, Indiano e de um modo alargado, ao “Islão” (alertando no caso islâmico para as diversificadas geografias do ponto de vista interpretativo), reconhecendo em Tickner e Wæver (2009:16) e também Acharya e Buzan (2010:225a) a consideração de que é possível detectar trabalho de relevo em autores ligados aos estudos pós-coloniais – efectuado com particular incidência na Índia, África, América Latina e Médio Oriente – como um contributo significativo – e reconhecido – em sede de Relações Internacionais, embora com lastro limitado a nível global.

81 A este propósito relembramos Hoffmann (1977) e Smith (2000) como contributos na abordagem da discussão das Relações Internacionais como Ciência e disciplina “norte-americana”.

54 Acharya e Buzan (2010:18b) questionam a propósito se as Teorias das Relações Internacionais convencionais ocupam todo o espaço do conhecimento por serem as “correctas” ou se de facto existe espaço plausível para desenvolvimentos e contributos.

Podem ser vislumbradas fontes teóricas não-ocidentais num conglomerado de tradições clássicas e no pensamento de figuras religiosas, militares e políticas (que pode vir desde Sun Tzu e Kautilya), bem como nos estudos pós-coloniais (Acharya e Buzan, 2010a: 225).

Se Westefália nos configurou (apesar de Osiander (2001) ser um dos proponentes dessa “desmitificação”) uma existência que liga “soberania-igualdade-anarquia”, na lógica Chinesa a ordem mundial é uma hierarquia de ordem social subordinada, como a que se encontrava no sistema tributário tradicional no qual o “Império do Meio” detinha a posição relevante, enquanto que Coreia, Vietname e outros eram subordinados (Wang, 2009:114). Tal é sublinhado por Acharya e Buzan (2010a:226) ao recordarem a cosmovisão confucionista de “Tianxia”, desafiadora do principio “anárquico” e da

“igualdade soberana”.

Artigos recentes (Kumar, 2015; Qin, 2016) trabalham já as várias fases e narrativas possíveis de encontrar no interior de uma “Teoria das Relações Internacionais chinesa”, nomeadamente como forma de dialogar com a ascensão da China no cenário internacional, que, contudo, se nos afigura como uma escalada intelectual que visa caracterizar e acomodar diferentes etapas contextuais de “foreign policy” e não tanto como corpos sistematizadores autónomos de conhecimento.

Já o caso indiano oferece conceptualizações que adoptam um nacionalismo transcendente das fronteiras territoriais dos Estados-nação, abraça tributos do “poder” espiritual e aloja diversidades sociais, étnicas e tribais (Acharya e Buzan, 2010a:227) apesar de fazer ingressar diferentes camadas, seja em Kautilya, muitas vezes considerado como precursor do realismo de "estilo ocidental", Tagore tido como desafiador dos conceitos ocidentais de nacionalismo, ou Nehru que perfilhava já conceitos mais “disciplinadores” como a soberania e a não-intervenção (Acharya e Buzan, 2010a:229).

No Islão, o comportamento dos agentes tem como fontes potenciais o Alcorão,

Hadith (Provérbios do Profeta), Sunnah (conduta do Profeta) e ijtihad (jurisprudência)82.

Acresce o trabalho intelectual que inspirou lutas de libertação coloniais (Acharya e Buzan, 2010a:228-9) ou o pensamento ancestral como o do erudito do século XIV, Ibn

82 Interpretados com consulta: Oxfordislamicstudies.com. (2017). Disponível em:

55 Khaldoun (1332 - 1406), para quem o Estado emerge não como resultado da “anarquia do estado natureza”, mas da cooperação humana, baseada na razão, na solidariedade social com ênfase na consciência grupal e na coesão social, interpretada como

“assabiyya” (Tadjbakhsh, 2010: 190).

A este propósito convém recordar Shani (2008) que introduz conceptualizações críticas ou pós-ocidentais em torno da Umma Islâmica83 e da Khalsa Panth Sikh84, para

um cenário disciplinar mais heterodoxo.

Num volume que ultrapassa as geografias que visitámos, Tickner e Wæver (2009) propõem-se “interrogar” social e intelectual as Relações Internacionais, visando compreender como a disciplina e os seus investigadores “entendem” o mundo, apresentando 16 estudos de casos nacionais trabalhados por autores locais85.

Assumem Tickner e Wæver (2009: 1-3) que os investigadores desta disciplina estudam um objecto compartilhado de interesse, de diferentes formas em distintas geografias, sublinhando que a teorização gravita em torno de “construções dos Estados Unidos", destacando ademais a assimetria na produção e reconhecimento de pensamento fora do núcleo norte-americano e escasso diálogo entre perspectivas concorrentes.

Esta nossa súmula de variações geográficas em torno de um teorizar fora do circuito “ocidental” não permite abranger toda a latitude interpretativa disponível.

No entanto, sublinhamos que o núcleo desta dissertação se centra em torno da construção Anárquica, como saída do neo-realismo Waltziano, encontrando-se esta nos três corpos sistémicos (Realismo, Liberalismo, Construtivismo) que inquirimos e assumem lugar central da nossa investigação crítica.

83 Ultrapassa a conceptualização do Estado-nação, sendo encarada como uma “associação” de sociedades islâmicas, uma comunidade religiosa transnacional, reiterando a universalidade do Islão e a comunidade de crentes (Shani, 2008:729).

84 Datada do mesmo século do Tratado de Westefália, apresenta uma sociedade internacional solidária e igualitária, com o conceito de soberania desterritorializado, em algo que pode ser vislumbrado como uma comunidade pós-Westefaliana.

85 A edição assume-se no âmbito da Teoria Pós-Colonial e da Sociologia da Ciência (2009:6) de forma a ampliar e descentralizar o conhecimento, indagando também como a teoria “viaja” em diferentes latitudes (Tickner e Wæver, 2009: 16-7). A Sociologia da Ciência (escassamente utilizada na disciplina segundo os autores) examina os mecanismos sociais do universo social dos pesquisadores, visando compreender como diferentes tipos de conhecimento são produzidos em contextos e geografias diversificadas (Tickner e Wæver, 2009:11).

56 Capítulo II – OS PARADIGMAS CIENTÍFICOS

Neste segundo andamento dissertativo tomará corpo em primeiro lugar a questão “paradigmática” – e os enunciados de Kuhn, Lakatos e Popper como os que encontraram maior inserção em Relações Internacionais – e a forma como o seu estatuto e aplicação tem surgido em ambiente de Ciências Sociais e mais particularmente na nossa área disciplinar, até por forma a avaliar a edificação de um paradigma (o Anárquico) como entendido nas Teorias “mainstream” ou sistémicas.

Adoptamos ademais uma estratégia que visa “ex aequo” expor a inserção da Filosofia da Ciência na problemática “paradigmática” em paralelo com os chamados “grandes debates” em território de Relações Internacionais e já abordados historiograficamente em sede de capítulo I86.