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P RODUCT

In document Tomra: helping the world recycle (sider 35-38)

Outra categoria concebida foi a característica de Enraizamento ou Capilaridade (em termos locais), que expressa o sentimento e situação de pertencimento a uma localidade. Ao estar enraizado, o empreendedor sente-se responsável pelo desenvolvimento do meio, pois a atividade empresarial não deve gerar apenas resultados financeiros para si e associados, mas transformação ou utilidade para a sociedade, como apresentado a seguir pelo autor- empreendedor:

“Isso aqui inteiro é minha casa (...) Eu acho que dá um certo conforto (...) Mas, não é uma zona de conforto maligna, não (...) Augustus (nome fictício para o sócio- empreendedor) é mais do que eu, você sabia? (...) Eu acho que você tem que ter Pátria, entendeu? Porque é como eu falei, né, cara, tem tudo a ver com propósito. Você tem que transformar alguma coisa não é para você ficar conhecido. Você tem que fazer uma coisa para você ser útil para a sociedade. E para mim, enquanto não posso mudar o mundo, eu vou mudando Cajazeiras” (E224).

Como ser social, o empreendedor está envolvido em uma comunidade. Seu envolvimento e relacionamento impactam nas práticas e resultados da ação empreendedora a depender de sua qualidade. Determinados laços sociais e o grau de afinidade à comunidade

permitem ao empreendedorismo criar e renovar a identidade positiva do empreendedor a uma localidade (MCKEEVER; JACK; ANDERSON, 2015).

Estar enraizado também permitiu ao autor-empreendedor detectar uma oportunidade de negócio. Estar envolvido em relações sociais, participar de diversos grupos, e conhecer o setor econômico, viabilizaram ao autor-empreendedor o desenvolvimento de uma capacidade sensitiva para visualizar e explorar uma oportunidade emergente. Pouco tempo antes da abertura da empresa, o empreendedor foi convidado para trabalhar com o seu antigo mentor e, como apresentado anteriormente no trecho E153, em “Ações e atributos para empreender”, essa oportunidade se deu graças ao falecimento do antigo representante de um programa. Nisso, o curto espaço de tempo para a exploração da oportunidade pode ser vista no trecho do autor-empreendedor apresentado a seguir: “Vi uma oportunidade que o mercado surgiu que foi quando o rapaz faleceu. Realmente surgiu, brotou” (E212).

As informações sobre as oportunidades de negócios estão envolvidas em circunstâncias idiossincráticas da vida de cada pessoa (SHANE; VENKATARAMAN, 2000), além de poderem ser obtidas por meio de trabalhos e experiências anteriores dos empreendedores (SHANE, 2000). Assim, o contexto e os relacionamentos sociais do empreendedor são vistos como fator crítico na explicação da situacionalidade (situatedness) do processo empreendedor, pois os empreendedores são imersos em redes locais e comunidades que compartilham recursos e oportunidades (MCKEEVER; JACK; ANDERSON, 2015; VENKATARAMAN, 1997). Essa situacionalidade é referente ao envolvimento de um sujeito com um contexto e perpassa as dimensões relacionais, linguísticas, biográficas, históricas, políticas, culturais e materiais (VANNINI, 2017).

Esse sentimento de pertencimento transpassa o indivíduo empreendedor e, algumas vezes, contagia as pessoas com quem trabalha, como é o caso do primeiro funcionário da empresa. Este funcionário apresenta em sua narrativa o apreço pela cidade e a disposição de transformá-la por meio da ação empreendedora:

“Cezar é um cara legal. A gente tem um foco comum. Pelo menos o que eu vi nele: nem eu, nem ele queremos sair daqui. Cara, a cidade é boa, é tranquila. A gente gosta daqui. A gente conhece aqui. A gente quer fazer alguma coisa. Porque a gente não faz aqui dentro para desenvolver aqui? Porque não buscar pra fora e trazer para aqui?” (Cf.I.31).

Granovetter (1985) foi um dos primeiros autores a afirmar que as ações econômicas são envolvidas, enraizadas em estruturas sociais e que variados comportamentos são intimamente ligados às redes de relações interpessoais, evitando assim a perspectiva de ações humanas subsocializadas, de indivíduos atomizados. Assim, compreender as relações

pessoais do empreendedor para com o meio (milieu) em que este está situado é condição fundamental para se compreender as práticas organizacionais e ações empreendedoras adotadas (JULIEN, 2010; MCKEEVER; JACK; ANDERSON, 2015).

As três subcategorias estão relacionadas e formam juntas a Ação Coletiva, pois o autor-empreendedor ao agir como agente transformador de uma localidade ou prática, convive com uma troca intermitente com o meio. Além disso, “contagia” os outros agentes que estão ao seu redor. Esse “contágio” diz respeito ao compartilhamento de atitudes e ideais empreendedores, além do sentimento de enraizamento: “E Cezar olhou pra mim e disse: ‘Cara, eu quero esse negócio aqui para crescer. E eu quero a minha cidade crescendo junto’” (Cf.I.34).

Quando uma empresa e o seu empreendedor estão enraizados em uma localidade, os saberes a respeito das particularidades do meio e dos consumidores, dentre outros elementos econômicos parecem favorecer a ação empreendedora, como relatado pelo sócio- empreendedor: “Uma coisa é você ser daqui e abrir um negócio aqui e tentar crescer, porque você já está instalado. Outra coisa é você ter uma empresa lá em João Pessoa e vim aqui para Cajazeiras” (Cs62).

Enraizamento (embeddednes) denomina a qualidade de algo estar firmemente e profundamente integrado a uma localidade (ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2017). Assim, esse enraizamento envolve e define a ampla gama de oportunidades e ações estratégicas coletivas para vantagem competitiva, que são constituídas e redefinidas pelos comportamentos de atores estratégicos de maneira recíproca; impactam na gama de ações organizacionais definidas por mecanismos culturais e cognitivos; e é relevante para a formação de redes de trabalhos e grupos estratégicos (DACIN; VENTRESCA; BEAL, 1999).

A narrativa do primeiro cliente do empreendedor mostra que o enraizamento unido à ação empreendedora pode fazer romper estereótipos advindos da região de origem. Ou seja, esse indivíduo, ao compreender as dinâmicas do mercado da região e devido à sua formação e atuação profissional, valoriza a ação empreendedora e compreende que esta pode se transformar em uma ferramenta para o desenvolvimento regional: “A gente tem que entender que essa coisa de ‘cidade de capital’ tá cada vez caindo. Esse estereótipo de que os serviços bons e especializados estão apenas na capital...” (Ppc7).

A ideia do empreendedorismo como processo econômico e social permite ampliar a compreensão da (re) construção dos resultados empreendedores a partir do contexto social; com isso, o enraizamento permite ao empreendedor coletar recursos do meio e usá-los para

criar e explorar oportunidades (JACK; ANDERSON, 2000; CARTON; HOJER; MEEKS, 1998).

A dedicação e o envolvimento cultural podem tornar o empreendedor enraizado ou capilarizado (termo local para o enraizamento) em uma localidade, o que pode favorecer a sua aceitação pelas pessoas. A expressão ‘filho natural da cidade’ simboliza o apreço que um determinado indivíduo tem por uma localidade e o reconhecimento social conquistado pelos habitantes ‘naturais’: “Hoje ele é filho natural da cidade por tempo e por dedicação que todo mundo conhece” (Pc43).

Assim, o enraizamento qualifica o empreendedor como pertencente a uma comunidade, tornando-o membro do compartilhamento de valores e normas e do sentimento de pertença o que pode favorecer a detecção de novas oportunidades, bem como a sua valorização perante os seus semelhantes e a criação e renovação de práticas que possuem valores sociais como basilares.

A noção de enraizamento (embeddedness) permite o desenvolvimento de um olhar relacional da ação empreendedora, pois estando em coletividade com diversos outros agentes, suas ações e agência constroem o meio e são renovadas por este. Além disso, fortifica o sentido do empreendedor humanizado, uma pessoa com determinados atributos, laços e papéis sociais que vão além do ser empresário. A subseção seguinte aborda a agência empreendedora como ações próprias advindas do empreendedor.

In document Tomra: helping the world recycle (sider 35-38)