Essa categoria diz respeito à contribuição advinda de diversos mecanismos de transmissão e construção de saberes ou de vivências sociais com as quais o autor- empreendedor se envolveu e que contribuiu para o seu desenvolvimento e aprendizagem. Com isso, a mesma possui cinco subcategorias, a saber: transferência de valores entre gerações, envolvimento social, vida fora de casa e dignificação a partir do trabalho.
4.3.2.1 Transferência de valores entre gerações
O empreendedorismo é muitas vezes compreendido por meio do trabalho dos empreendedores. O trabalho e o seu significado se tornam expressivos nas narrativas do autor- empreendedor e de sua família, principalmente nas falas do pai. Assim, percebe-se que a
valorização do trabalho se deu graças à transmissão de valores de pai para filho: “Eu não poderia cobrar do meu pai, que eu sei que ele é uma pessoa humilde, ele não tinha mais o que me dar, só valores” (E13); e “Pai: A gente vê o trabalho como algo natural. Eu acho que nada sem trabalho é justo. Eu acho que o trabalho é a razão da vida (...) Eu nunca encontrei dificuldade para trabalhar, não” (Fp3).
A transferência do valor do trabalho se dava por meio de educação prática:
“Aí, a gente ajudava pouco, né. Seis anos não tem como ajudar muito. A gente ajudava muito pouco mesmo, mas ele tratava o ritual como se a gente ajudasse mesmo. Ele considerava qualquer coisa. Ele fazia o caminhozinho lá e brocava e a gente ia jogando lá o feijão... Sempre dava a entender que a obrigação nossa era fazer” (E30).
Pode ser que a valorização do trabalho não tenha se dado na infância. Porém, as atividades laborais durante essa fase podem ter tido um valor expressivo da cultura sertaneja na época dos pais do autor-empreendedor. Além do mais, percebe-se, por meio da fala reflexiva do autor-empreendedor que, essa valorização pode ter acontecido durante as experiências profissionais pré-negócio e atualmente.
A família desempenha papel primordial no desenvolvimento de jovens empreendedores no sentido de que elas são canais e agentes de transmissão de normas sociais, linguagem e costumes (BANDURA; WALTERS, 1978). O jovem empreendedor, ao observar os comportamentos de seus pais, vai aprendendo, por meio de imitação, variados padrões que levam à formação de uma hierarquia de hábitos (SCHERER; ADAMS; WIEBE, 1989). Para Bispo (2013), é no cotidiano da família e de outras instituições e ações que a aprendizagem situada se realiza, tomando forma no fazer e no relacionar-se.
A transmissão do valor do trabalho é corroborada no trecho a seguir, no qual também se percebe a temporalidade dos meios de transmissão: da educação vivencial, porém muitas vezes forçada:
“Meu pai, mesmo se não for pra me dar uma lição, ele seguiu a referência do pai dele, entendeu? O pai dele ensinou a ele dessa forma. Desse mesmo jeito. E ele seguiu exatamente os passos do pai dele. E minha mãe da mesma forma. Então, era uma maneira de passar de uma geração para outra que trabalho é importante de qualquer forma, entendeu? (risos)” (E33).
Na narrativa, o pesquisador possui a oportunidade de captar e compreender os significados da vida cotidiana de maneira quase natural, como se este e o entrevistado estivessem em conversa cotidiana. Uma evidência dessa constatação pode ser percebida no trecho a seguir, quando o autor-empreendedor, para se referir aos valores éticos transmitidos
pelos pais, algo muito difundido na cultura sertaneja, transforma a descrição de decisões organizacionais na valorização dos valores familiares:
“Essa cultura de não esquecer de onde a gente veio (...) Já chegou a hora de eu tomar decisões dificílimas por causa de valores e etcétera. Aí eu disse: ‘Pô, meu propósito não é esse’. Você lembrar de onde a gente vem, eu acho que é muito importante. Acho que é uma coisa que meu pai sempre ensinou também (...) Igual aquele outro negócio do trabalhar dignifica o homem” (E186).
Foi na família que o autor-empreendedor concebeu o trabalho como fonte de realização e de perseverança, talvez por refletir sobre as experiências de vida dos pais. Isso pode ser corroborado por Silva e Rebelo (2006) em que apresentam a família como fonte de determinação, principalmente daquelas que possuem sólida estrutura podendo auxiliar nos momentos de dificuldade.
Os achados da pesquisa sugerem que a aprendizagem não está só vinculada à aquisição de conhecimentos e habilidades, mas também, à transmissão e compartilhamento de valores pela família primária (pai, mãe e irmãos). Dentro desses valores, o trabalho ganha destaque por simbolizar realização de feitos e gerar reconhecimento social. Assim, a família se destaca como potencializadora, ou não, da ação empreendedora.
4.3.2.2 Envolvimento social
O envolvimento social foi concebido ao perceber que as diversas narrativas a respeito da convivência em diversos grupos e atividades sociais trouxeram para os empreendedores oportunidades de compreenderem o seu meio onde atuam, e também possibilitaram o desenvolvimento de atributos e significados profissionais e empreendedores.
O envolvimento em vários grupos pode possibilitar a percepção de variadas visões de mundo, o desenvolvimento de habilidades, à absorção ou transformação de valores, a possibilidade de conhecer novas pessoas, além de se ter à oportunidade de aprender novas maneiras de ser e de fazer: “Tem muitos grupos (...) Muitas histórias... Então assim, pra mim escolher... e são histórias muito fortes” (E17).
A interação com diversos indivíduos permite ao empreendedor enriquecer a sua narrativa com diversas experiências e compreender a sua localidade e o mundo de maneira conectada. No trecho anterior, ao afirmar “são histórias muito fortes”, o autor-empreendedor revela grandes significados e saberes aprendidos relacionalmente. A aprendizagem situada tem a ver com o envolvimento, pertencimento, estar incluso e com o desenvolvimento de identidade, ao invés do simples acúmulo de informação (NICOLINI; SCARBROUGH;
GRACHEVA, 2016; DIDIER; LUCENA, 2008a). De maneira similar, temos a ideia de que os empreendedores interagem com outros agentes e constroem sentido sobre o mundo e que estes são envolvidos em contextos sociais (JÓHANNESSON, 2012; MCHENRY, 2008).
A importância da aprendizagem relacional pode ser comprovada no trecho a seguir, quando o autor-empreendedor é questionado das implicações de sua participação social no desenvolvimento de sua ação empreendedora. A participação contextual e na história da cidade pode se transformar em uma maneira de compreender a cultura de um povo, pois somente se entende os costumes de um povo, se vivenciá-los. Isso pode ter contribuído para a mudança no modelo de gestão da empresa e nas outras ações que esse empreendedor realiza:
“Sim, porque eu sei as dores das pessoas (...) Então, assim, eu sei que os problemas que eles têm e eu sei qual a solução para dar para eles. Eu sei os bloqueios que eles têm. Eu sei a cultura que eles têm (...) E quando eu vim a empreender, eu sei como eles pensam” (E222).
“Só que Cezar participou de vários eventos a nível estadual” (Mce5).
O conhecimento sobre “as dores das pessoas” simboliza forte apego às rotinas locais e às pessoas da comunidade, além do conhecimento sobre como ofertar os produtos nesse ambiente. A convivência com os costumes e com certas pessoas que podem contribuir para a aprendizagem empreendedora é corroborada com a noção de aprendizagem como processo de coparticipação de Taylor e Thorpe (2004), pois para esses autores, esse processo é enraizado em relações sociais e em fatores contextuais e culturais. Já Ceci, Masciarelli e Prencipe (2016) e Deakins e Freel (1998) compreendem as redes (networks) nas quais os empreendedores pertencem desempenham papel crucial no processo de aprendizagem, pela sua imersão no compartilhamento de valores culturais similares.
O envolvimento em determinados grupos pode desenvolver no empreendedor determinadas atitudes que podem ser voltadas para o seu autodesenvolvimento contínuo, como a participação no movimento escoteiro, que, na narrativa da mãe, rendeu ao autor- empreendedor o desenvolvimento da autonomia. Além disso, a frase ‘espiritualmente gravado’ pode ser interpretada como algo que foi incorporado à sua identidade:
“Pra ele foi bom porque ele ganhou mais autonomia. A personalidade dele mudou um pouco. Eu acho que isso fez bem para a vida dele porque ele nunca esqueceu de ser escoteiro. Nunca esqueceu o sinal de ‘sempre alerta’ (...) Toda pessoa que fala com ele, ele já faz assim (sinal das mãos e dedos na cabeça), sinal de ‘sempre alerta’ (...) Porque ficou espiritualmente gravado nele” (Fp11).
A noção de participação em grupos que compartilham determinados valores culturais está estruturada como algo central na teoria da aprendizagem situada, pois aloca a construção dos saberes não na cabeça do indivíduo, mas na interação entre as pessoas e em variados mundos sociais (LAVE; WENGER, 1991; RIGG; O’DWYER, 2012). Embora não se possa generalizar a contribuição do movimento escoteiro na formação de empreendedores, neste trabalho é possível assumir, por meio da compreensão holística das narrativas, que o escotismo contribui para o desenvolvimento de atributos e competências empreendedoras.
O movimento escoteiro também é retratado na narrativa do chefe escoteiro, com destaques dado às duas saudações: ‘O melhor possível’ e ‘Sempre Alerta’. Os dois gestos, que o empreendedor ainda usa, segundo os pais, podem significar desenvolvimento contínuo e percepção atenta:
“E eles têm uma saudação quando eu me cumprimentava com Cézar: o melhor possível. É os dois dedos da mão que significava a orelha de lobo, colocava na testa e dizia: melhor possível! É uma continência quando o chefe se encontra com lobinho, o lobinho com chefe e vice-versa; melhor possível! É o lema deles. E o dos escoteiros: sempre alerta!” (Mce6).
Durante o movimento escoteiro vai acontecendo momentos de reflexão sobre a escolha da profissão: “Se eu acho que o movimento escoteiro ajuda a desenvolver o lado profissional? Ajuda, na infância já vai começando (...) A gente debate ‘o que você vai querer ser no futuro?’” (Mce9)
Os momentos de questionamentos, promovidos durante o escotismo, permitiu ao autor-empreendedor refletir sobre os valores e caminhos a serem traçados. As atividades realizadas no movimento escoteiro, como a disciplina, cooperativismo, a solidariedade, a tolerância, o cuidado coletivo, a bravura, a responsabilidade, o empreendedorismo, a criatividade e as habilidades sociais são incentivados e construídos, englobam uma forma de contextual e interativa importante na narrativa de um empreendedor, pois vão transformando esses elementos em valores de vida (living values) (KOMALASARI; SARIPUDIN; MASYITOH, 2014).
O envolvimento social em diversos grupos que, também aconteceu com o sócio- empreendedor, pode resultar no desenvolvimento de várias habilidades e na construção de redes de relacionamento mais vastas, dependendo do envolvimento do indivíduo nos grupos, o que pode contribuir para a ação empreendedora, como comentado anteriormente a respeito das redes colaborativas:
“Quando eu fiz era o PSS? Processo seletivo seriado (...) Eu consegui passar em 73º, para o segundo período (...) E eu fiquei um ano sem fazer nada, entre aspas. Aí eu
comecei a dar curso de matemática. Aí eu me envolvi com treinamento na escolinha de futebol para passar o tempo enquanto chegava a hora de eu ir lá. E, também, eu era da maçonaria. Eu era demolay no tempo. E a gente se envolveu muito nessa parte social” (Cs2).
O envolvimento social permite o compartilhamento de valores e conhecimento como algo natural; aprimora a confiança, cooperação mútua e a solidariedade entre os membros; e, impacta na aprendizagem empreendedora, por causa dos relacionamentos pessoais existentes (CECI; IUBATTI, 2012; CECI; MASCIARELLI, 2016).
As palestras também podem ser uma forma de envolvimento social que gera aprendizado. Isso pode ser percebido na narrativa do primeiro cliente: “Ele partiu para essa parte de dar palestras. Quando você dá palestras, você aprende, né? Porque você é forçado a pensar no que você está fazendo para dar exemplo as outras pessoas” (Ppc9).
Com isso, entende-se que o empreendedorismo, necessariamente, não precisa começar na construção de um negócio. Pequenos atos durante a vida vão moldando a personalidade de uma pessoa ao ponto de ela se sentir pronta para montar o seu empreendimento, pois já vivenciou experiências parecidas em outros momentos da vida, como é o caso das competições no escotismo:
“Então assim, o que dependia de mim e da minha equipe era tranquilo, mas o que dependia de material que a gente não levou tinha que ficar dependendo dos outros. Eu sei que a gente deu um jeito de pegar o material e nós ficamos em segundo lugar. Até hoje tem a foto lá, nos currículos. Minha mãe ainda também tem essa foto. Cara isso foi um feito viu” (E56).
Desse modo, o envolvimento social diz respeito às participações em instituições e grupos que corroboraram para o desenvolvimento de atributos, da construção de redes de contatos, coconstrução e reformulação de valores e saberes a respeito da ação empreendedora, por meio de movimentos de cooperação e contestação.
4.3.2.3 Vida fora de casa
Essa categoria diz respeito às vivências em viagens ou em cidades distantes da cidade de origem dos empreendedores que geraram aprendizado. Ao sair do local de origem para se aventurar em outra localidade, o indivíduo busca se adaptar e conhecer o novo ambiente, além de perceber uma realidade diferente da qual o mesmo estava habituado.
O sócio-empreendedor, ao ser questionado sobre a contribuição das viagens e os novos ambientes na formação do seu perfil, revelou que conhecer novos lugares e comunidades diferentes pode quebrar paradigmas e rever práticas e valores.
“Sim, porque eu conheci muita coisa nova. Porque eu tive a oportunidade de viajar muito novo. Conheci muita coisa nova a partir dos 12 anos. E mesmo sem querer, você… a gente sempre andou nas grandes cidades, mesmo sem querer você vai vendo uma coisa diferente” (Cs57).
Corroborando com a noção de empreendedor humanizado e coletivo, Tabosa, Fernandes e Paiva Jr (2010) abordam a relacionalidade manifestada na competência da comunicabilidade. Segundo os autores, essa relacionalidade pôde ser compreendida após perceber que um dos sujeitos de sua pesquisa mudou suas práticas após sua viagem a um determinado país.
Bem comum na época da graduação do sócio-empreendedor (cerca de 2005- 2009), os jovens tinham que sair do interior do estado se quisessem cursar uma faculdade, geralmente ou na capital ou outra cidade metropolitana. Na narrativa do mesmo, percebe-se a universidade como local de aprimoramento da atividade empreendedora. Esse empreendedor, de certa forma, vivenciou determinadas experiências que o possibilitaram o desenvolvimento de atributos e valores empreendedores. A formação em Administração, o estágio no Banco do Brasil e a estadia em uma cidade a mais de 400 km de distância de sua cidade natal podem ter contribuído: “E na universidade, quando você vai começar… no começo você não tem muita noção, não. Mas, do meio para o fim, você começa a entender porque as coisas são daquele jeito” (Cs58).
Já o autor-empreendedor, em várias passagens e em conversas informais, cometa que as viagens para conhecer outras realidades o mostraram outras faces da vida e outras lições, outras culturas que podem ser utilizadas para alterar o curso da sua realidade, ou seja, sair do status quo: “Ele não ia chegar pra mim e dizer: ‘Ah, cara, o mundo é assim’... Pois é, eu gosto muito de viajar” (E14).
Esse achado também pode ser percebido no trabalho de Cramer (2015), em que um dos sujeitos abriu uma loja após uma viagem para uma outra cidade. De acordo com a autora, o empreendedor de seu estudo “está sempre em busca de experiências novas e diferentes e estas proporcionam um sentimento de realização misturado com prazer” (pág. 48).
Infelizmente, as literaturas nacional e internacional não têm explorado de maneira satisfatória a relação existente entre a aprendizagem empreendedora e as viagens realizadas por empreendedores. Por outro lado, esta pesquisa surge como oportunidade para a realização de outras que se coloquem a explorar esses temas.