A aprendizagem na ação se dá por meio dos esforços empreendidos para a realização de alguma atividade, na qual o empreendedor iniciante vivencia a ação ao mesmo tempo em que a aprende. Aqui, o saber e o fazer não estão separados em esferas diferentes do conhecimento. As teorias de como funcionam são efetivadas no cotidiano, por meio da reflexão e esforço. Com isso, essa categoria está agrupada em três ideias centrais: o esforço para a ação, ‘aprender empreendendo’ e a reflexão.
Compreende-se por esforço para ação a disposição de energias pessoais para a realização de determinada atividade. Aliado a isso, o empreendedor precisa conhecer ou buscar compreender ‘a fundo’ o seu negócio e o que ele está se propondo a comercializar, algo que é refletido na sua dedicação como uma característica fundamental nas realizações:
“Aí quando o cara diz: ‘Augustus, isso aqui vai ser muito bom e isso e tal’. Aí eu fico: ‘Caramba eu tenho que mostrar a ele que isso vai dar certo’ (expressão de alegria e de curiosidade). Aí, eu já almocei na frente do computador, já montei a tela, vim aqui e mostrei” (Cs61).
O esforço para a ação advém da vontade pessoal do empreendedor de realização, alimentada pela curiosidade e pela valorização à proatividade. A ideia de esforço para a ação é corrobora por Cope (2003) e Pittaway et. al (2010) ao abordarem que muitos empreendedores comprometem significativos recursos pessoais na criação e gerenciamento de seu negócio e que o desempenho do negócio está atrelado ao bem estar financeiro e emocional do empreendedor; e que o próprio campo da AE é marcado pelo esforço para a ação.
A ideia de esforço denota a participação de uma pessoa na realização de uma atividade e no relacionamento social. Além disso, por meio do esforço, o empreendedor tem a possibilidade de alterar o quadro situacional de sua realidade, ou seja, se superar e interferir ativamente na mudança do meio. Para o autor-empreendedor, ser reconhecido como esforçado o faz se sentir mais motivado para continuar se superando:
“Eu queria provar para as crianças que eu tava dando a palestra porque elas têm que entender o valor do esforço, mesmo que você não tenha competência, entendeu? Então, os esforçados dão acesso a superação. Ou seja, ser reconhecido pela inteligência deixa você é um pouco preguiçoso (risadas). E na época eu não gostava que as pessoas falassem que eu era inteligente. Eu preferiria muito mesmo, fazer o trabalho e mostrar o meu trabalho, com esforço, para mim continuar melhorando” (E167).
Por meio do esforço, o empreendedor tem a possibilidade de se envolver mais ativamente nas relações sociais e no aprofundamento da execução de uma tarefa. Pode ser
que, pelo estilo proativo de ser do autor-empreendedor deste estudo, sua opção em ser reconhecido como esforçado o fez se afastar da ideia de inteligente como alguém que se concentra em absorver conhecimento por meio da leitura e reflexão.
O empreendedor precisa desenvolver a capacidade de aprender para continuar sendo empreendedor, como uma condição fundamental. Segundo o autor-empreendedor, empreendedorismo é sinônimo de aprendizagem. ‘Aprender, fazendo’ e ‘aprender, empreendendo’ retratam a principal ideia da aprendizagem empreendedora situada, em que os empreendedores aprendem enquanto realizam as suas atividades e enquanto vivenciam a sua empresa, o meio e o setor econômico: “Então, o empreendedorismo para mim é isso: Aprender, fazendo; Aprender, empreendendo; Ou, empreender, aprendendo. Acho que empreender é aprender” (E202).
Durante a execução da ação empreendedora, o empreendedor tem a oportunidade de desenvolver saberes sobre a atividade por meio, por exemplo, da negociação do fornecedor ou cliente, controlando as finanças, prestando o serviço ou entregando um bem. Em conversas informais, foi compartilhado entre o autor-empreendedor e o pesquisador-autor de um termo que unisse esses processos, ou seja, aprender com empreender resultaria em apreender ou “apreendizagem”. Rae e Carswell (2000) lembram que os empreendedores são orientados para a ação e que muito dessa aprendizagem é experiencialmente vivenciada por meio do aprender fazendo (learning by doing).
Durante o início do curso de administração e de suas atividades como operador de microcomputador, o autor-empreendedor, de certa forma, tinha consciência da oportunidade de aprendizagem que estava vivenciando. Com isso, buscou relacionar os conhecimentos da graduação com as suas atividades na empresa, adaptando-os à sua realidade:
“Aí eu fiquei pensando: tudo que eu aprender nesse curso, nessa sala, nesse exato momento, eu vou aplicar nisso aqui, né. E no mais tardar amanhã. Eu transformei o curso em uma prática contínua diária (...) Mas eu não tinha muito experiência com administração, ainda. Então, eu ia testando. Via o que tava certo e o que não dava” (E151).
Semelhante à isso, percebe-se no trecho a seguir que o envolvimento de conhecimentos e lições advindos do curso de administração, do Empretec e da vivência em sua empresa, além da limitação do tempo e compartilhamento desses conhecimentos para os clientes, pode potencializar a aprendizagem do empreendedor, dependendo da forma com que este encara essas oportunidades:
“Aí eu comecei a potencializar o curso, misturando com o Empretec, misturando com a empresa. E é aquela coisa: aprendendo e fazendo. Foi
aprendendo e fazendo, literalmente. Eu aprendi um plano de contas, como fazer um plano de contas à noite, na faculdade e, ensinava para o meu cliente de manhã” (E165).
A reflexão serve como uma ‘cola’ que une as ações e lições aprendidas durante o cotidiano empreendedor. O autor-empreendedor mostra em sua narrativa que a reflexão serve de ferramenta útil para a conscientização dos desafios que o empreendedor enfrentará na sua jornada: Mas é você tentar refletir, o ‘porque’, o ‘que é’, o ‘como’, como lidar com a adversidade e ‘quando’ abrir um negócio (E207).
A reflexão é um processo cognitivo altamente pessoal, pois quando uma pessoa se envolve em uma reflexão, ela toma a experiência externa, mentaliza sobre a mesma e realiza novas ligações com outras ações ou eventos de sua vida, resultando assim em aprendizado (DAUDELIN, 1997). Assim, a aprendizagem empreendedora está preocupada com os processos de consciência, reflexão, associação e aplicação (COPE, 2005), se faz mais importante quando as atividades estão envolvidas em altos níveis de ambiguidade (RAVASI; TURATI, 2005) e possui o apoio institucional de organizações de fomento (ZAMPIER; 2010; GARAVAN ; O’CINNEIDE , 1994).
Além disso, preocupado em mudar o seu modelo mental buscando capacitação para a atuação empreendedora, o entrevistado principal reflete a respeito de suas características e a se encontrar enquanto empreendedor:
“Eu só saio de lá com as minhas características empreendedoras desenvolvidas ou com aquelas que não tivessem, afloradas (...) Aí eu comecei, né, a ver os pontos, a montar, a fazer um desenho como eu tinha as características, só que eu achava que eu não tinha” (E164).
O pensamento crítico a respeito de suas próprias capacidades pode ser considerada uma habilidade importante para a melhoria do desempenho do empreendedor, pois a autoavaliação e reflexão ampliam a aprendizagem autodirecionada, permitindo a mudança de paradigmas e ações (GROVES et al., 2008; TSENG, 2013).
A reflexão permite ao empreendedor desenvolver significados de sua ação e trajetória de vida ao rever suas atitudes, ações e estratégias. A experiência só se tornará significativa a partir do momento em que o empreendedor refletir, mentalizar sobre a mesma, buscando lições concretas. Assim, a categoria permite compreender a aprendizagem empreendedora situada realizada por meio da dedicação de energia pessoal, da ação diária e constante e da reflexão sobre esses acontecimentos, pois está no cerne de sua teoria a preocupação sobre como a aprendizagem se realiza no cotidiano do empreendedor. A próxima seção apresenta a ideia de que esse sujeito também aprende por meio dos erros cometidos.
4.3.7 “Saber perder é fracassar bonito”
Retirado da narrativa do autor-empreendedor, o tema ‘fracassar bonito’ está ligado ao reconhecimento do erro e do insucesso das ações, da transparência para com as pessoas com as quais se trabalha e ao recomeço. O reconhecimento do erro também mostra a maturidade do empreendedor. Um dos primeiros passos para se aprender continuamente é perceber os espaços vazios de conhecimentos por meio da percepção e reconhecimento do erro.
“Acho que fracassar bonito é bom também (risadas) (Entrevistador: E como seria fracassar bonito?). Cara, é quando você sabe sair e entrar nos lugares. Saber perder é fracassar bonito. Porque em vários pontos que eu falei aí, das coisas que deram errado, projetos que eu botei que eu achava que ia dar certo e não deram certo. Toda vida eu saí sem estresse. Cheguei para as pessoas expliquei a minha posição. Realmente assumi fracasso e tentei fazer de outra forma, né” (E185).
Segundo Cope (2011), a recuperação pessoal e profissional advinda do erro ou do fracasso (failure) enquanto empreendedor pode desencadear uma gama de aprendizados de alto valor para este indivíduo. Em sua pesquisa, o autor detecta seis dimensões que caracterizam o fracasso como fenômeno complexo: financeiro, como a perda de salários ou investimentos realizados; emocional, como o estresse; psicológico, ao atingir a autoestima; social, envolvendo a responsabilidade pelo fracasso dos investidores, além da solidão; profissional, como a possível fragilidade na imagem enquanto profissional; e fracasso enquanto empreendedor com a perda de autoconfiança e propensão ao risco.
Em outro momento, os fracassos, quando encarados com reflexão podem viabilizar a aprendizagem de si mesmo enquanto pessoa e empreendedor: “Você já percebeu que quando você tá no fundo do poço, você reconhece e percebe quem você realmente é?” (E137).
Podem também servir como oportunidade para aprendizado, pois possibilita o desenvolvimento de consciência das ações. No trecho a seguir, o fracasso tem uma conotação de consequência, ou seja, de quais as lições aprendidas e quais ações serão tomadas no futuro. A consciência aqui é justamente o saber acumulado.
“Os fracassos ficam para trás. Eu nunca levei os fracassos como um fim. Por isso se eu fracassar hoje para mim não vai ser o fim. O fracasso não é o fim. O fracasso é o início, só que com mais experiência, né? Com mais consciência. E aí eu acho que esses a atropelos foram importantes para mim dar consciência” (E193).
Determinados eventos ou episódios na narrativa de vida de um empreendedor, como o fracasso na realização de algo, podem ter papel considerável no seu processo de
aprendizagem, pois são derivados de respostas reativas ou proativas a oportunidades e problemas e costumam ser solidificadas na vida pessoal e profissional dos mesmos (COPE, 2003; RAE; CARSWELL, 2000; YOUNG; SEXTON, 1997; MINNITI; BYGRAVE, 2001).
A narrativa do primeiro funcionário mostra a vivência compartilhada dos erros cometidos na execução das atividades e das decisões na empresa. Porém, o erro que ensina está associado a uma prática e atualização constantes:
“E a gente tem aquele negócio que ensina bastante… A gente apanhou bastante da vida (risos) (...) A prática realmente leva a perfeição. Você melhora quando você pratica. Tem uma frase de Tiger Woods ‘quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho’. Isso é verdade” (Cf.I.38).
Erros, descritos na narrativa de um dos amigos como resultado negativo, são refletidos na mudança de comportamentos, estratégias e abertura pessoal para novos aprendizados ao mostrar o que “não deve ser feito na prática”:
“Perda de cliente, perca de faturamento, às vezes, também ensina. Na verdade, resultado negativo ensina mais que resultado positivo. Porque ele mostra, na prática, o que não deve ser feito (...) ‘Realmente eu tenho que pensar de maneira diferente. Eu tenho que abrir a cabeça para novas possibilidades’. Às vezes, os erros ensina mais do que crescimento, né? A necessidade é um bicho bom, viu!? (risos) Porque ela faz o cara pensar diferente”. (A.II.62).
Compreendido também como “o que funciona e o que não funciona” (what works
and does not works), os resultados negativos podem aumentar as possibilidades futuras de
sucesso ao considerar o aprendizado alcançado dessas experiências (SARASVATHY; MENON; KUECHLE, 2013). Portanto, na fala do autor-empreendedor, saber perder diz respeito a como o empreendedor encara o fracasso de suas ações, pois muitas das ações que levam ao erro algumas vezes não partem do sujeito, mas, de outros indivíduos que impactam nessas ações. Refletir sobre o erro parece ser algo coerente com o processo de aprendizagem empreendedora, pois somente após a reflexão é que se pode destacar as lições aprendidas dessas experiências. A próxima seção finaliza as categorias analíticas, que buscam caracterizar a aprendizagem empreendedora situada por meio das narrativas compartilhadas.