Segundo Chassot (2001), estamos acostumados com a história das Ciências centradas “quase exclusivamente no mundo ocidental e o fazermos sob ótica eurocêntrica e alimentada por olhares brancos, masculinos, cristãos...” (p. 34). Pouco sabemos sobre as diferentes áreas do conhecimento científico oriental e latino-americano. Nossa tendência é vislumbrar o que nos é apresentado como milagre científico dos dois últimos séculos, aceitando que a Ciência tenha uma concepção única como inculcado pelo Ocidente, por intermédio, principalmente, do positivismo. Nesse sentido, o “mestre Chassot” (2001) nos convida a buscar um novo marco para olhar a Ciência diferente daquele definido hegemonicamente pelo mundo Europeu e da América do Norte.
O movimento CTS traz essa problematização crítica à Ciência, aponta para a necessidade de se discuti-la como cultura humana, sendo necessária a sua disseminação democrática. Também coloca em tela problemas que afetam a
humanidade e a natureza terrena, trazendo à tona a necessidade de se discutir criticamente o modelo de desenvolvimento científico e tecnológico, que, por não ser diferente, tem base na engrenagem dos países desenvolvidos do cenário Euro-Norte Americano.
São denúncias como as dos livros Silent Spring (Primavera Silenciosa), da bióloga Rachel Carson (CARSON, 1969), e A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn (KUHN, 2007), publicados em 1962, que estabeleceram uma base importante de reflexão crítica para o movimento CTS em relação à visão de Ciência (VON LINSINGEN, 2007). No primeiro livro, Primavera Silenciosa, é revelada ao público a questão do uso abusivo do DDT,28 que indicava a mortandade de pássaros, o que poderia causar ausência de seus belos cantos na estação das flores. Em Kuhn, elaboram-se críticas ao positivismo lógico da Filosofia da Ciência, provocando vários questionamentos acerca da visão de Ciência, trazendo, de uma maneira geral, a importância da dimensão social da Filosofia e das raízes históricas da Ciência.
Como destacam Ribeiro, Santos e Genovese (2017), no contexto nacional, a origem histórica do movimento CTS é tratada de forma relativamente padronizada nos principais trabalhos na área. Esses autores reforçam esse argumento destacando a investigação de Chrispino et al. (2013), os quais fizeram uma análise ampla e exaustiva das citações em publicações CTS no cenário brasileiro de 1996 até 2010, em 22 periódicos nacionais da área de ensino de Ciências, sinalizando a existência de um conjunto de trabalhos classificados como leitura obrigatória para investigadores daquilo que Ribeiro (2015) classificou como “Subcampo Brasileiro de Pesquisa em Ensino de Ciências CTS”, que é o título de sua dissertação de mestrado.
Nesse sentido, Chrispino et al. (2013) sugerem que os 13 trabalhos mais citados no Brasil nas últimas décadas devem ser obrigatoriamente conhecidos por quem estuda a área CTS no país e Região Sul-Americana. Analisando a concepção
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O Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT) se tornou um dos mais conhecidos inseticidas de baixo custo. Começou a ser utilizado na Segunda Guerra Mundial para eliminar insetos e combater as doenças emitidas por eles como a Malária, Tifo e Febre amarela, era usado também por fazendeiros para controlar pestes agrícolas. O DDT demora muitos anos para se degradar, o principal problema é sua ação indiscriminada, que atinge tanto as pragas quanto o resto da fauna e flora da área afetada, além de se infiltrar na água contaminando os mananciais, esse inseticida interrompe o equilíbrio natural no meio ambiente. O uso do DDT foi proibido por volta dos anos 70, em virtude de seu efeito acumulativo no organismo, dentre os malefícios causados por ele está o enfraquecimento das cascas de ovos das aves, envenenamento de alimentos como carnes e peixes. Alguns estudos sugeriram que é cancerígeno, provoca partos prematuros, causa danos neurológicos, respiratórios e cardiovasculares.
dos autores desses 13 trabalhos destacados na pesquisa de Chrispino et al., Ribeiro, Santos e Genovese (2017) argumentam que o movimento CTS tem uma origem que pode ser classificada como padronizada historicamente.
A justificativa hegemônica, então, é que o título “movimento CTS” é dado pelo fato de que não houve um marco histórico para se discutir as inter-relações entre a sociedade e o desenvolvimento científico e tecnológico. A maioria apresenta como uma possibilidade os desdobramento marcantes do fim da segunda grande guerra mundial, somando-os a argumentações sobre ações e posicionamentos de cientistas de renome internacional no decorrer do século XX, como as de Sage (BERNAL, 1969), tratadas no capítulo inicial desta tese, as de Kuhn (2007), as de Carson (1969), e as de muitos outros que, surgindo em diferentes pontos do globo terrestre, somam-se a uma preocupação universal: Como as descobertas científicas e suas consequentes aplicações tecnológicas conectam-se com outros desenvolvimentos sociais, nas leis, na política, no modo de viver da sociedade, na cultura, na ética e no meio ambiente?
Fugindo um pouco desse marco histórico padronizado nos trabalhos recentes sobre as inter-relações C&T na sociedade, podemos retornar à era moderna, no contexto histórico dos séculos XVI-XVII, em que grandes nomes se destacaram, como Descartes e Bacon, formulando aquilo que será um lema da relação entre Ciência e Técnica na visão positivista, que defende, a grosso modo, que pela Ciência e pela Técnica o homem se converterá em senhor e possuidor da natureza, com jargões conhecidos como “saber é poder”. Essa visão instrumentalista acaba se naturalizando no ideário dos cientistas iluministas do século XVIII, que a associou à visão de progresso pelo conhecimento científico, naquele projeto pulsante de repensar a humanidade (de teocentrismo para antropocentrismo).
Nessa esteira, já na segunda metade do século XIX, Marx (1975; 2006; 2016), se apropria do pensamento de Ciências e Tecnologia como ferramenta ou instrumento, inferindo uma novidade que na verdade foi um desvelar da perversidade intrínseca dos processos, do emprego da C&T no mundo moderno. Para Marx (1975, 2016), ao se integrarem às forças produtivas e à economia capitalista, em vez de permitirem a dominação da natureza e aumentarem a liberdade do homem, a Ciência e a Técnica convertem-se em instrumento de
dominação do homem pelo homem, e eu vejo aí, nesta crítica marxista do processo produtivo, uma semente do que se discute muito hoje do movimento CTS.
Mesmo não havendo um marco universal, as raízes do movimento CTS remontam ao século passado, tendo fatos históricos compreendidos no período entre as 1ª e 2ª grandes guerras, e se intensificou durante a chamada Guerra Fria29 na forma de preocupações e questionamentos paralelos que se desencadeavam na comunidade científica que estava à frente do progresso da Ciência e da Tecnologia e seus efeitos na sociedade, ao mesmo tempo que movimentos sociais discutiam os efeitos desse desenvolvimento no contexto social. Trata-se, então, de um movimento interdisciplinar, que conta com a colaboração de historiadores, sociólogos, químicos, físicos, biólogos, matemáticos, filósofos, profissionais da área de Saúde, de Educação, entre muitos outros que passaram a se interessar pelas relações entre conhecimento científico, sistemas tecnológicos e sociedade.
Nesse sentido, houve uma euforia com os resultados do avanço científico e tecnológico durante o século XX, porém, nas décadas de 1960 e 1970, com a evidenciação de problemas como a degradação ambiental e a vinculação do desenvolvimento científico e tecnológico às guerras (principalmente nas bombas atômicas no Japão e na bomba napalm30 na guerra do Vietnã), a Ciência e a Tecnologia (C&T) passaram a ser alvo de um olhar mais crítico de um número cada vez maior de pessoas (AULER; BAZZO, 2001, p. 1).
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Desde 1947, quando o jornalista estadunidense Walter Lippmann publicou um artigo em que denominava as tensões emergentes entre os EUA e a URSS como Guerra Fria, a expressão se espraiou pelo mundo e tornou-se senso comum. Finalizada a Segunda Guerra Mundial, os países aliados se reuniram na Conferência de Yalta para discutirem a organização do cenário político e econômico do pós-guerra. Nesse encontro, Estados Unidos e União Soviética se sobressaíram como as duas maiores potências do período. Contudo, as profundas distinções ideológicas, políticas e econômicas dessas nações criaram um clima de visível antagonismo. Essas duas potências passaram a vigiar o avanço da influência de suas ideologias pelo mundo. O confronto entre socialistas e capitalistas ganhou o nome de Guerra Fria porque não houve nenhum confronto direto envolvendo Estados Unidos e União Soviética. Naquela época, a possibilidade de confronto entre essas duas nações causava temor mundial devido ao domínio tecnológico de ambas de armas de destruição em massa. Os Estados Unidos anunciaram formulação do Plano Marshall, que concedia fundos às nações capitalistas, e logo depois, a criação da OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte. Por meio dessa última organização militar, os capitalistas definiram claramente quais países apoiariam os EUA em uma possível guerra contra o avanço das forças socialistas. Sem demora, a União Soviética também conclamou os países influenciados pela esfera socialista a assinarem o Pacto de Varsóvia, criado em 1955, tendo pretensões muito semelhantes à OTAN. A Guerra Fria também esteve profundamente marcada pelo envolvimento de exércitos socialistas e capitalistas em guerras civis, em que a hegemonia política e ideológica desses dois modelos esteve em pauta. Somente nos fins da década de 1980 que essa tensão bipolar veio a se reorganizar sem a adjetivação de Guerra
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Desenvolvida nos EUA, a bomba de nome Napalm, deriva do acrônimo dos nomes dos seus componentes originais (sais de alumínio coprecipitados dos ácidos [na]fténico e [palm]ítico). Na Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas bombardearam cidades do Japão com bombas incendiárias feitas com Napalm. Este tipo de armamento tem registro de uso em várias ocasiões conflituosas como: nas chamadas guerrilhas comunistas, na guerra civil grega, na Coreia, na guerrilha de Guerrero no México e na guerra do Vietnã entre outros. Em 1980, o uso de armas incendiárias (tais como o Napalm) contra civis foi proibido pelo Protocolo III da "Convenção sobre Proibições e Restrições ao Uso de Certas Armas Convencionais que Podem Ser Consideradas como Excessivamente Lesivas ou Geradoras de Efeitos Indiscriminados". Entretanto, a Convenção não proíbe o uso de tais armas contra objetivos militares, desde que observadas precauções com vistas a evitar danos colaterais em populações ou bens civis. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Napalm>. Acesso em: 19 nov. 2017.
Geralmente são caracterizadas duas grandes tradições que conduziram o desenvolvimento epistemológico do movimento CTS, uma norte-americana e a outra europeia. Nas próximas linhas, apresento a tradição latino-americana e sinalizo a possibilidade de se adotar outras tradições. Agora, porém, falemos um pouco mais sobre as duas tradições hegemônicas. São tradições com origens distintas e que combinam enfoques diferentes aos estudos sobre CTS.
A tradição europeia é centrada nos antecedentes sociais da mudança científica e tecnológica, ou seja, trata do desenvolvimento C&T como um processo conformado por fatores culturais, políticos, econômicos, além de epistêmicos, tendo as Ciências Sociais como formadores da sua base de conhecimento. Nessa vertente, é dada especial atenção à Ciência, centrando-se na explicação da origem das teorias científicas e, portanto, da Ciência como processo. Neste caso, a tecnologia é vista como secundária (AULER, 2002; SANTOS, 2000; 2009; 2011; STRIEDER 2012; 2016; VON LINSINGEN, 2004; 2006; 2007).
Segundo Garcia, Cerezo e López (1996), as origens dessa tradição datam dos anos 1970 por pesquisadores da Universidade de Edimburgo no chamado Programa Forte, que condenava a reflexão epistemológica tradicional e reivindicava da análise empírica somente da Sociologia como Ciência para explicar as peculiaridades do mundo científico. Nesse sentido, a Sociologia clássica do conhecimento e a interpretação radical da obra de Thomas Kuhn são as fontes principais da tradição europeia (AULER, 2002; SANTOS, 2000; 2009; 2011; STRIEDER 2012; 2016; VON LINSINGEN, 2004; 2006; 2007).
Na tradição americana, o processo se deu centrado em consequências sociais e ambientais da Ciência e da Tecnologia. Nesse sentido, a relação C&T torna-se associada aos valores éticos e morais engendrando uma posição mais ativista, divulgando e chamando a sociedade à participação nos processos decisórios, tendo como orientação o pragmatismo. Para Garcia, Cerezo e López (1996), nessa tradição identificam-se os efeitos sociais das tecnologias.
É necessário compreender que, mesmo com origens diferentes, as tradições do movimento CTS têm como um objetivo importante criticar a visão positivista tradicional de se desenvolver C&T, focalizando a existência de importantes relações no contexto social. Nesse sentido, essas tradições guardam como característica a
complementaridade, ao ressaltarem que ambas visam superar a percepção da Ciência como conhecimento autônomo e a Tecnologia como aplicação direta da Ciência.
Bazzo, Von Linsingen e Pereira (2003); Santos (2007b; 2008, 2009, 2011), Santos e Mortimer (2001); Santos e Greca (2006) e Von Linsingen (2007) e apontam que estudos CTS na atualmente constituem uma multiplicidade de programas de pesquisa e de colaboração multidisciplinar que enfatizam a dimensão social da Ciência e da Tecnologia, principalmente em três campos: o da própria pesquisa e do desenvolvimento epistêmico CTS, o das políticas públicas e o de nosso maior interesse no presente trabalho – o do campo educacional, que estamos denominando de EOCTS.
Essas três direções reúnem tradições CTS bastante diferentes e estão conectadas por três premissas basilares do que se tem chamado de “silogismo CTS” (VON LINSINGEN, 2004, aspas do autor).
A primeira premissa, vindoura da tradição europeia, relaciona o desenvolvimento C&T como um processo em que se configuram fatores culturais, políticos, econômicos e epistêmicos. A tradição norte-americana colabora com a segunda premissa, na qual se consideram mudanças científicas e tecnológicas como fator determinante nas formas de viver da sociedade contemporânea, como já citado, por seu caráter pragmático, que centra suas preocupações nas consequências socioambientais do modo de vida do homem tecnocientífico dependente. A terceira premissa considera a existência de um compromisso democrático, justificando a inserção de mecanismos educativos, avaliação e controle social do desenvolvimento C&T, incentivando, assim, a participação ativa, consciente e democrática no processo decisório em CTS.
No quadro 8, retirado de Palacios et al. (2005), é apresentado um resumo das principais características das duas tradições do movimento CTS que relatei anteriormente.
Quadro 8. Tradições do movimento CTS segundo o pensamento ibero-americano
Fonte: Palacios et al. (2005, p. 128).