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In document THE STATE OWNERSHIP REPORT 2018 (sider 51-61)

Ao defender a importância de um método materialista-dialético apropriado à investigação, que conte com uma infraestrutura lógico-metodológica própria e inseparável da base material, da dialética e do histórico, Vigotski dá suporte e influencia o processo decisório quanto à referência metodológica desta tese. Com a adoção dessa perspectiva metodológica, ou seja, do sistema teórico da Psicologia Histórico-Cultural, pretende-se alinhar procedimentos de apreensão dos sentidos, partindo do empírico, resguardando a necessária intenção de ir além das aparências, imergindo em explicações que tentem desvelar o processo histórico de constituição do objeto (fontes bibliográficas que trazem as objetivações dos sujeitos em suas escritas) para caracterizar sua essência.

O desenvolvimento do psiquismo humano, como lembra Vigotski (2008), dá- se pela compreensão da gênese do individual e como a singularidade do ser se constrói na universalidade do contexto social. Esse processo se dá pela mediação, pelas instâncias que relacionam “objetos, processos ou situações entre si; a partir daí, o conceito designará um elemento que viabiliza a realização de outro, que embora distinto dele, garante a sua efetivação, dando-lhe concretude” (AGUIAR; ORZELA, 2006, p. 225).

Para Rego (2014), é central na teoria de Vigotski considerar que as funções psicológicas superiores são de origem sociocultural derivadas de processos psicológicos elementares. A complexidade da estrutura humana deriva do processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas relações entre história social e experiências individuais, mediados sempre pela expressão do pensamento e da linguagem, sendo esta última o objeto de intermediação entre os pensamentos humanos.

A partir dessa perspectiva realizam-se processos de apropriação da cultura, mediante a comunicação entre indivíduos e o elemento primordial desse processo, segundo Vigotski (2008), é a categoria mediação, que relaciona as objetividades e subjetividades, o interno e o externo, não em uma relação dicotômica e imediata, mas como afirmam Aguiar e Orzella (2006), como “elementos que, apesar de diferentes, se constituem mutuamente, possibilitando um a existência do outro numa

relação de mediação”, sendo a tarefa do pesquisador no desenvolvimento de sua proposta metodológica “apreender as mediações sociais constitutivas do sujeito, saindo assim da aparência, do imediato, e indo a busca do processo, do não dito, do sentido” (p. 225).

Esse movimento/desenvolvimento, para Vigotski, dá-se por meio da palavra (fala) como aparelho de reflexos de relação social, assinalando, também, que esse aparelho, sendo constituidor da consciência, serve para influenciar outros sistemas que constituem o homem social em sua integralidade, um contato social egocêntrico ou com outros humanos. Esse processo está intrinsecamente associado aos comportamentos regidos pela consciência e sua percepção de mundo.

Podemos agora formular as principais conclusões a que chegamos a partir da nossa análise. Se compararmos o desenvolvimento inicial da fala e do intelecto — que, como vimos, se desenvolvem ao longo de linhas diferentes tanto nos animais como nas crianças muito novas — com o desenvolvimento da fala interior e do pensamento verbal, devemos concluir que o último estádio não é uma simples continuação do primeiro. A natureza do próprio desenvolvimento se

transforma, do biológico no sócio-histórico. O pensamento verbal não

é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas naturais do pensamento e fala. Uma vez admitido o caráter histórico do pensamento verbal, devemos considerá-lo sujeito a todas as premissas do materialismo histórico, que são válidas para qualquer fenômeno histórico na sociedade humana. Espera-se apenas que, neste nível, o desenvolvimento do comportamento seja regido essencialmente pelas leis gerais da evolução histórica da sociedade humana. (VIGOTSKI, 2008, p. 63)

Torna-se preliminar para o trabalho aqui proposto, colocadas as questões metodológicas em evidência, a discussão dos sentidos e significados e a relação pensamento-linguagem como eixos norteadores do levantamento de dados e posteriores análises do material de estudo selecionado na revisão de literatura, o que justificarei e apresentarei em momento oportuno. O que adianto aqui é a concepção de que os textos (linguagem) são condensações (objetivações) de ideias e vertentes de pensamento humano, construídos historicamente por múltiplas determinações individuais e socioculturais, que passaram por muitas transformações cognitivas antes de serem expressos em palavras.

Segundo Rego (2014), o programa de pesquisa de Vigotski objetivava dar respostas a três questões fundamentais: (i) compreender a relação do humano e seu ambiente físico e social; (ii) identificar as determinações que elevaram o “trabalho” como meio fundamental de relacionamento entre homem e natureza; e (iii) analisar a natureza das relações entre o “uso de instrumentos e o desenvolvimento da linguagem” (p. 39).

Seria então os constructos teóricos derivados dessa terceira questão o guia organizador do eixo de análise da presente pesquisa. Para isso, retomo algumas reflexões sobre a constituição dialética do ser humano, como um movimento de troca, em que o indivíduo modifica o meio social, transforma esse meio em psicológico, criando a possibilidade do novo, sendo a linguagem instrumento fundamental nesse processo de constituição do homem. Seriam, nessa perspectiva, os signos instrumentos convencionais de natureza social e meios de contato com o mundo exterior e interior (consciência) do ser social na tentativa de dominar e orientar as funções psíquicas de grau mais elevado23 (AGUIAR; ORZELA, 2006; REGO, 2014; VIGOTSKI, 2008).

Partindo da interface subjetividade mediada por signos, destaco a necessidade da discussão das categorias significado e sentido como componentes essenciais à compreensão das objetivações humanas. Significado pode ser entendido como a capacidade de generalização objetiva e intencional da realidade via processo comunicativo, como algo que tenta expressar o pensamento, o que denota uma intelectualização do discurso (VIGOTSKI, 2008). Para Aguiar e Orzella (2006), os significados referem-se “aos conteúdos instituídos, mais fixos, compartilhados, que são apropriados pelos sujeitos, configurados a partir de suas próprias subjetividades” (p. 226), sendo, então, produções históricas sociais que permitem a comunicação e socialização de experiências humanas, configurando-se na gênese de um processo de construção de algo mais amplo, fluido e profundo o sentido.

No entendimento de Vigotski (2008), o sentido tem o predomínio sobre o significado de uma palavra, uma vez que o significado é apenas uma de muitas

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Para alguns autores, essas funções psíquicas superiores configuram o pensamento, outros denominam de consciência; neste trabalho será utilizado o conceito numa perspectiva dialética, em que o pensamento é visto como vinculado aos processos psicológicos, e não só pelo seu caráter cognitivo, sendo então um movimento afetivo e cognitivo.

zonas de sentido ou uma expressão de significações latentes. Gonzalez Rey (2003) afirma que o sentido subverte o significado, pois ele não se submete a uma lógica racional externa, o “sentido da palavra é inesgotável porque é contextualizado em relação à obra do autor, mas também na compreensão do mundo e no conjunto de estrutura interior do indivíduo” (p. 185). O sentido seria, então, a soma de todos os acontecimentos psicológicos que a palavra abre na mente humana no momento da interlocução, é um conglomerado intricado, fluído e ativo, detentor de múltiplas zonas de sentido desiguais.

O que se pode concluir disso é que a diferença entre significado e sentido se localiza no contexto das palavras, nas relações de uso dos signos dá-se a instrumentalização e desenvolvimento da linguagem, que expressa os significados entre os interlocutores humanos, que vão formando os sentidos na individualidade cognitiva. Determinada palavra pode ter um significado bem definido e constante, mas dependendo do contexto onde foi formulada e anunciada, adquire um sentido que pode ser muito mais amplo que o seu significado.

O quadro 2 é uma síntese destas que serão as principais categorias, originárias dos trabalhos de Vigotski e colaboradores, incorporadas pela metodologia dos NS, e que eu explorarei neste trabalho.

Quadro 2. Principais categorias da THC para os NS

Mediação Instâncias que relacionam “objetos, processos ou situações entre si; que relacionam as objetividades e subjetividades, o interno e o externo, não em uma relação dicotômica e imediata, mas como elementos que, apesar de diferentes, constituem-se mutuamente, possibilitando uma existência do outro numa relação de mediada”.

Pensamento Processo que está intrinsecamente associado aos comportamentos; regido pela

consciência e sua percepção de mundo; não é uma forma de comportamento natural e inata, sendo determinado por processos históricos e culturais.

Os signos Instrumentos convencionais de natureza social e meios de contato com o mundo exterior e interior (consciência) do ser social na tentativa de dominar e orientar as funções psíquicas de grau mais elevado.

Significado Capacidade de generalização objetiva e intencional da realidade via processo

comunicativo, como algo que tenta expressar o pensamento. O que denota uma intelectualização do discurso. Refere-se ao conteúdo instituído, mais fixo, compartilhado, apropriado pelos sujeitos.

Sentido O sentido da palavra é inesgotável porque é contextualizado em relação à obra do autor, mas também na compreensão do mundo e no conjunto de estrutura interior do indivíduo. É a soma de todos os acontecimentos psicológicos que a palavra abre na mente humana no momento da interlocução, é um conglomerado intricado, fluido e ativo, detentor de múltiplas zonas de sentido desiguais.

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