A análise da transitividade pode esclarecer os tipos de processos que constroem o texto da peça, além dos participantes e circunstâncias que a eles estão relacionados. Assim, é possível verificar o modo como Guarnieri caracteriza atores e situações na sua tentativa de levar ao público, através da peça, a sua preocupação com o estado vigente no Brasil dos idos de 70.
Os papéis projetados serão indicados, por exemplo, assim: nomeação/Ator (envolvendo o papel e de nomeação e de atribuição).
Selecionei as três primeiras páginas da peça (da página 193 a 195) tal como está no livro em que se encontra inserido). Sublinho os trechos (em tipo 10) que serão analisados via sistema da transitividade. Para o entendimento do trecho analisado, incluo o seu co-texto (em tipo 8).
AUGUSTO
Como é, poxa! Ninguém aí! . .. Vamo trabalhá, ora porra! Vamos começar essa merda!. .. (Bate palmas
chamando.) Como é que é, ninguém aí? .. Somos profissionais! Pro-fis-sio-nais! Mais de meia hora de
atraso, porra. Ensaio de merda! (Chama.) Euzébio! ... Euzébio! ... Até tu, Euzébio? .. Escravo. Servil! Ralé! Inculto! Bicha! Até tu não estás no posto ... Ora, porra! Profissionais de borra!. .. Eu disse borra, ora porra! ... Vadios! ... Irresponsáveis! (...) Ah, teatro! Teatro! ... Teatro! ... Fazer teatro é sofrer num paraíso ... Mas se não fazê-lo como sabê-lo, ora porra!
EUZÉBIO
Ô matusca!...Falando sozinho? AUGUSTO
Veja lá como fala comigo, lacaio... Matusca é a digníssima progenitora que teve o mau gosto de pôr no mundo esse excremento circense que você é...Euzébio!...Euzébio!...do meu coração...que belo rabão!... Zangadão?... Qual é a questão?
EUZÉBIO
Não enche, não, vá, Augusto.... AUGUSTO
Qual é o grilo, ora porra? EUZÉBIO
Não é da tua conta...Estuda o texto, vai!... AUGUSTO
Sem essa... Nunca te vi assim... Diz lá... EUZÉBIO
Os homem aí... AUGUSTO
Estás com dificuldade com algum homem? EUZÉBIO
AUGUSTO
Se relaxo, vem alguém e me come. Diz lá. Conta pro titio o que aconteceu... EUZÉBIO
Aconteceu que já estou cheio. Tudo sempre em cima de mim... Vocês ficam tudo nas altas esferas, discutindo, laboratório e o esquimbau... E eu aguentando os home...
AUGUSTO
Querido, o que é de gosto regalo da vida!
EUZÉBIO
Vai gozando ... vai gozando! ... Se o moço aí não toma uma providência urgente... não tem estréia... Os homens vieram para levar tudo... Queriam levar hoje mesmo. Tirei a gravador da mão deles. .. Usei de muita lábia. .. Se não, tchau!
AUGUSTO
Estão devendo muito? EUZÉBIO
Estou te dizendo. Estão devendo tudo. Deram a entrada e nada mais. Os homens estão loucos, rapaz ... Diz que não protestam as promissórias pra não prejudicar ninguém. Mas querem os aparelhos de volta. .. De camaradagem, hein ...
AUGUSTO
E não deixa de ser, convenhamos... Ora porra... E agora... EUZÉBIO
E agora, sei lá... AUGUSTO
O gênio, aí, não se explica?... EUZÉBIO
Não...Aquele jeitão dele...”Calma, tudo se resolve...Subvenção...Vai entrá dinheiro...” O mesmo blá! AUGUSTO
Quer dizer o gênio perpassa calmamente pela tormenta...E o meu será que vem? EUZÉBIO
E eu vou lá saber?!
AUGUSTO
Sem essa, viu ... o meu eu quero! Mas quero mesmo ... Uma bosta de quatrocentos contos!. .. Será que não tem quatrocentos contos pra me pagá? Quatrocentos. .. Mete um tiro na cabeça, poxa... Quem não tem quatrocentos contos pra pagar um infeliz ator pro-fis-sional... está morto... morto!
EUZÉBIO
Cuidado, eles já estavam vindo pra cá! AUGUSTO
Agora, pra gastá em cachaça no boteco o gênio tem... EUZÉBIO
Uísque...
AUGUSTO
Uísque? Ah, então está escondendo o leite... Saiu a subvenção... Só pode ser... E tomando uísque no bar não vai pagar os meus quatrocentos contos? Ah, vai sim senhor... Vai ou quebro essa merda todinha...Quebro mesmo...Quatrocentos contos, pô... Não é nem salário de fome... É salário de defunto... Eu só queria saber qual foi o grandessíssimo filho de uma puta que
inventou esse negócio de pagar só 50% nos ensaios... Viado eu sei que é... Agora quem? Qual o nome do financista... do salvador!... 50%! Filhos da puta!... Vai me pagá e é hoje!...
FERNANDO
Oi, Augusto, você já está aí... AUGUSTO
Oi, como é que vai? FERNANDO
Trabalhando que nem um danado, bicho! ... Dormi só duas horas ...Não atrasei muito, não, não é? AUGUSTO
Que o que ... Cheguei agorinha também ... (Fazendo carinhos em Amanda.) Amandinha do meu coração, melhorou ... (Dá um beijo em Flora.)
AMANDA
Que nada, tomei a farmácia inteira, mil injeções e nada. .. Ó, como é que estou rouca, ó, ó ... FERNANDO
É bom poupar a voz, viu, Amanda! AMANDA
Poupar o que, não tenho mais ... Ó,ó ... Hum! ... Mini! ... Mini!
Os trechos, em especial os sublinhados, mostram a parca situação financeira do grupo, o que prejudica a realização da peça.
EUZÉBIO Os participantes dos processos
(1) Vai gozando ... vai gozando! ...
verbal verbal
(2) Se o moço aí não toma uma providência urgente...
nomeação/Ator material (=providenciar)
Fernando: Ator ( porém em situação desfavorável)
(3) não tem estreia... existencial
(4) Os homens vieram para levar tudo...
nomeação/Ator material material
Os homens: Ator Os homens: Ator
(5) Queriam levar hoje mesmo.
material Os homens: Ator
(6) Tirei a gravador da mão deles.
material
Euzébio: Ator (em situação humilante)
(7) Usei de muita lábia. .. Se não, tchau!
(= expliquei) verbal
AUGUSTO
(8) Estão devendo muito?
Material
O processo é material (os cobradores cobram), mas o elenco, como resultado disso, é Meta.
EUZÉBIO
(9) Estou te dizendo. Estão devendo tudo.
verbal material O elenco: Meta
(10) Deram a entrada e (não deram) nada mais. material material
O elenco: Ator
O elenco: Ator (mas em situação negativa)
(11) Os homens estão loucos, rapaz ...
nomeação/Portador relacional Os homens: Portador
(12) Diz que não protestam as promissórias pra não prejudicar
verbal material material
ninguém.
Os homens: Ator Os homens: Ator (Meta: o elenco)
(13) Mas querem os aparelhos de volta. De camaradagem, hein ... (tomar de volta)
material
Os homens: Ator
AUGUSTO
(14) Sem essa, viu ... o meu eu quero!
mental mental
(15) Mas quero mesmo ... Uma bosta de quatrocentos contos! mental
(16) Será que não tem quatrocentos contos pra me pagá?
relacional material
Fernando: Portador (em situação negativa) Augusto – Meta
(17) Quatrocentos. Mete um tiro na cabeça, poxa...
material
Fernando – Ator
(18) Quem não tem quatrocentos contos
relacional Fernando – Portador
(19) pra pagar um infeliz ator pro-fis-sional...
material nomeação/Meta Augusto – Meta
(20) está morto... morto!
existencial
AUGUSTO
(21) Vai ou quebro essa merda todinha...Quebro mesmo...
material material
Augusto: Ator Augusto: Ator
(22) Quatrocentos contos, pô... Não é nem salário de fome...
Relacional
Quatrocentos contos: Portador
Salário de fome: Atributo (23) É salário de defunto...
relacional
Quatrocentos contos: Portador
Salário de defunto: Atributo
(23) Eu só queria saber qual foi o grandessíssimo filho de uma puta
mental relacional nomeação/Atributo
Fernando: Portador Atributo:
Grandessíssimo filho de uma puta.
(24) que inventou esse negócio de pagar só 50% nos ensaios...
material material Fernando: Ator
(25) Viado eu sei que é... Agora quem?
Mental Relacional
Fernando : Portador Atributo: Viado
(26) Qual o nome do financista... do salvador!... 50%!
Nomeação/Identificado nome/Identif.
(27) Filhos da puta!... Vai me pagá e é hoje!...
nomeação/Portador material material
NOTA: O “é”, em “é hoje”, é um verbo vicário, ou seja, substitui “pagar”.
Fernando – Ator, Portador de “filhos da Puta” (inclui a mulher dele)
DISCUSSÃO
Os trechos em foco tratam do diálogo entre Euzébio (contrarregra do grupo) e Augusto (protagonista do elenco) diante da situação de dívida financeira em que o grupo teatral se encontra, e a exigência dos cobradores da respectiva quitação. A análise da transitividade, referente aos processos material e relacional revela a seguinte situação, considerando os homens - os cobradores da dívida - e os atores.
Os homens
Vejamos como os cobradores, nomeados de 'homens' estão representados no sistema da transitividade:
(em 4,5) os "homens", assim nomeados, surgem como Atores, quando vêm para levar o material cujo pagamento estava atrasado e são, assim, os donos da situação.
(em 12 e 13), os homens, novamente Atores, prometem sustar o protesto dos títulos atrasados, situação que afinal em nada engrandece o elenco da peça, que se coloca como Meta do processo “'prejudicar' ninguém". Mas querem a devolução do gravador (13), e em estão loucos, sendo eles Portadores, no processo relacional (11).
Os atores
Notemos que também os membros do elenco caracterizam-se como Atores de processos materiais, mas em geral, em situação em que involuntariamente, são obrigados a assumir esse papel:
(em 6): quando Euzébio tira o gravador das mãos dos cobradores, em situação de fragrante inferioridade na interação;
(em 8 e 9): creio que quem "deve" é Meta, decorrente do processo material "cobrar": alguém cobra [Ator] e nesse processo, outrem "deve" [Meta];
(em 10): o elenco é Ator do processo material "deram" a entrada, mas logo a situação se torna negativa, mas "não deram mais nada";
(de 21): Augusto é Ator em situação de desespero, e, além disso, apenas ameaça. (em 2): Fernando, nomeado, 'o moço aí', é chamado a atenção para "tomar uma
providência urgente";
(em 16 e 18): Fernando é Portador em situação negativa, já que "não tem o dinheiro para pagar os serviços de Augusto, nomeado, 'um infeliz ator profissional'; (em 17): Fernando também é Ator, pois como não possui o dinheiro pra pagar os
serviços, o personagem Augusto sugere que ele meta um tiro na cabeça. (de 22, 23 e 24): Fernando, Portador de 'grandessíssimo filho de uma puta', pode
estar representando o poder público, que por negar a verba necessária para a encenação da peça, impede o grito de protesto de sair do peito do brasileiro.
(em 27): Fernando é Ator, mas de mau pagador. Além disso, é Portador de "filhos da puta".
O que a análise da transitividade mostra é a desigualdade - no caso, financeira - entre os cobradores e os atores da peça: (i) os cobradores exigem o que o grupo teatral não possui, ameaçando levar o material não pago e, com isso, impedindo a encenação da peça; e (ii) os atores, vítimas da falta de recursos fica nas mãos dos 'algozes'. Evidentemente, essa situação de inadimplência é uma barreira para a realização da peça.
Notemos que a análise superficial da transitividade resulta na atribuição do papel de Atores, tanto aos cobradores, quanto ao elenco da peça. Os cobradores são Atores porque "fazem" (HALLIDAY, 1994) algo. Já no caso do elenco da peça, pode-se notar, por meio de uma "leitura detida" (KITIS; MILAPIDES, 1997), que os membros do elenco, embora Atores (porque fazem alguma ação), assim o fazem em situação humilhante ou como Metas, decorrentes de um processo material. Notemos também que esses algozes - cobradores e promotores da peça - são assim caracterizados, pois atuam no papel projetado de Atores, donos da situação, ou Portadores, de papel de nomeação em termos pejorativos de Julgamento negativo de força aumentada.
Vejo aqui uma minialegoria, que remete à situação do País: os mandantes a serviço da ditadura que, impedindo a livre expressão da arte, impede a voz do povo
de se elevar no ar e denunciar as injustiças cometidas na época. Assim, o elenco de
Um grito parado no ar, por falta de subvenção, por não poder exercer sua profissão,
está em situação de penúria financeira, está de mãos atadas, assim como o povo brasileiro.