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3.1 Dados

Um Grito Parado no Ar, uma das principais obras de Guarnieri, se não a mais

importante, foi escrita em 1973. Essa peça de um ato, que se estende por quarenta e quatro páginas, relata a história de um diretor (Augusto) e cinco atores (Euzébio, Fernando, Amanda, Flora e Nara) que ensaiam uma peça a dez dias da estreia.

Na metalinguagem da peça – uma peça teatral que descreve os percalços de uma companhia de teatro – podemos analisar o enredo em camadas, segundo Monteiro (2007).

Em primeiro plano, deparamo-nos com o elenco, essa companhia teatral que se preocupa apenas com os problemas individuais e superficiais em primeira instância, como o pagamento ou mesmo uma posição superior ou inferior perante o grupo.

Em segundo plano, os atores da ficção encenam personagens através dos laboratórios e exercícios de improvisação – são as personagens das personagens. Assim conhecemos fragmentos da peça a ser montada, mas nunca, todo o enredo.

Em terceiro plano, os exercícios de improvisação são impulsionados por entrevistas realizadas nas ruas. Essas entrevistas, com as pessoas do povo, não são transcritas no texto, não fazem parte integrante do texto escrito, mas apenas sugeridas pelo autor, o que faz com que a peça seja única a cada vez encenada. Assim, Guarnieri recorria ao dialogismo, para denunciar, por meio da voz do povo. Veja, a seguir, as rubricas feitas por Guarnieri o que evidenciam a natureza de entrevistas:

Fernando – Tá bom… Manda ele… Olha, vai sem tijolinho mesmo… (liga o gravador, ouve-se

entrevista real com pedreiro falando sobre a cidade e suas condições de vida… Enquanto ele fala, Nara e Augusto fazem uma verdadeira dança comentando o que ouvem. Flora ajeita refletores sobre eles…)

Augusto – (ao final da entrevista) Este cara é um sarro!... Vidão que ele leva!... Sorte que tem

o poder de adaptação, não é… Senão não dava!... (Cospe no chão repetidas vezes)

Fernando – Augusto, ele te dá algum elemento para o teu personagem?

Augusto – Ora, porra. Ele é o personagem!... Põe aí no programa… Um Grito Parado no Ar

Justino, pontinhos, o nome do distinto aí… Como é o nome dele…

Fernando – É… (diz o nome real do entrevistado.)

Augusto – Pois então… Só me resta pegar meu boné e ir embora…

Fernando – Nada… Você vai fazer o personagem baseando-se nesse cara e nos outros que

vêm aí… Só isso não basta… Vai ter muito de teu nessa personagem que você vai fazer… Esse Justino é o Justino real… pequeno e sumido no meio de muitos Justinos… O teu vai ser um Justino…

Uma vez que o terceiro plano, justamente por essa característica, criativa e transitória, depende do contexto de cada apresentação da peça, decidi-me a deixar essa parte para outro trabalho, concentrando-me, na presente pesquisa, nos dois primeiro planos fixos.

3.2 Procedimentos de Análise

Tendo em vista as perguntas de pesquisa: (a) Como é construída essa alegoria em Um grito parado no ar? (b) Quais são as escolhas léxico-gramaticais feitas pelo autor para essa construção? apresento os passos que foram seguidos na análise. Mas, antes, tenhamos em vista algumas considerações, que julgo serem necessárias para o entendimento da análise que aqui será feita.

A língua é um sistema de signos que não pode mais ser vista como um sistema autônomo de signos, regras e estruturas. Esse tipo de visão não leva em conta o fato que seus usuários não possam manipulá-la para controlar as circunstâncias e relações, desconsidera as dimensões sociais e ideológicas da língua (HODGE; KRESS, 1988, p.2). Assim, a língua está inserida em estruturas e processos sociais, políticas e ideológicas, ficando tanto na dependência delas quanto constituir, ela mesma, determinados contextos (EGGINS, 1994).

A visão de discurso e de análise do discurso que, então, adoto aqui está em consonância com a de Hodge e Kress (1988), Fairclough (1989), Thompson (1984; ou Lacrau (1988). O que Lacrau diz, a seguir, sobre a palavra 'mulher',

ajuda a entender o processo de construção de vários significados para uma mesma palavra, dependendo do contexto em que for pronunciada. Diz Lacrau:

Considere o significado de 'mulher': qual é o seu significado? Tomada isoladamente, esta palavra não possui significado; ela precisa entrar em uma relação discursiva para adquirir um significado. De um lado 'mulher' pode entrar em uma relação de equivalência com família: subordinada ao homem, etc; por outro, 'mulher' pode entrar na relação discursiva de 'opressão', de 'negro', de 'gay', etc. O significado de 'mulher' por si não possui significado. (254)

Para Kitis e Milapides (1997):

Meanings are not frozen entities, but are generated and regenerated as they are immersed in the processes and structures constituting them, on the one hand, but also being constituted by them, on the other. 5

Dito isso, explico alguns conceitos básicos que guiarão os passos que compõem a minha análise de Um grito parado no ar.

(a) A representação da realidade

Não há representação neutra da realidade (FOWLER, 1987, p. 67). Na análise da peça teatral devemos focar nossa atenção no modo como a língua representa o mundo na peça, fato que gerará certos efeitos ideológicos. Por outro lado, não se pode escapar de compreender a realidade no mundo senão através da língua, pois a realidade é estruturada e reconstruída por meio dela.

Essa parte será feita com apoio da transitividade, da metafunção ideacional, da GSF, seguindo os passos de Kitis e Milapides (1997) e de Li (2010). Também serão considerados os papéis sociais (THOMPSON; THETELA, 1995), em especial os papéis projetados de nomeação e de atribuição. Com a análise da transitividade da peça, dou o primeiro passo em

5 Significados não são entidades congeladas, mas são geradas ou regeneradas assim como estão imersos nos

direção de uma das partes constitutivas dessa alegoria que domina a peça e contribui para atribuir coerência ao texto.

Faço aqui, então, um exame "detido", nos termos de Kitis e Milapides, e para tanto recorro à noção de transitividade, da metafunção ideacional, da Gramática Sistêmico-Funcional. Estou interessada nas estruturas linguísticas como instrumentos de representação de certo tipo de realidade e, assim, como possíveis instrumentos de controle indiretos de percepção da 'realidade' e articulação da ideologia, o que faz necessário focar a atenção para o conteúdo semântico dessas estruturas.

Passo a analisar as várias expressões que mostram a difícil situação em que os atores - ou o povo brasileiro - se encontram, como: "Amanda arrasta-se como 'bicho'"ou "Não enche, Amanda" (p.199); "Já não bastam as dificuldades" (p.199); "Uma bosta de quatrocentos contos!" (p.195); "Diz que não protestam as promissórias pra não prejudicar ninguém. Mas querem os aparelhos de volta" (p.194); "disse que o senhor não pagou. Chamou o senhor de Ruth. .. Está fazendo um escarcéu lá em cima ... " (p. 197).

Por outro lado, as personagens que impedem a voz de dar o grito são caracterizados os credores, impacientes, cobradores impiedosos, como em: "Os homens vieram para levar tudo... Queriam levar hoje mesmo." (p. 194); "É da agên- cia. .. Diz que sem tutu não dá pra sair nenhum tijolinho no jornal. .." (p. 201); "Nem descarregaram. .. Pagamento à vista. Levaram de volta! ..." (p. 199); "Diz que a conta já esta muito alta (p. 201)".

Para os propósitos da minha análise, incluo todos os processos na análise, mas discuto apenas dois: material e relacional, pois julgo que esses

processos bastam para o exame da alegoria construída no texto: o primeiro que envolve os papéis atribuídos (THOMPSON; THETELA, 1995) e que caracterizam os personagens como Ator ou Meta (HALLIDAY, 1994) e os processos relacionais que descrevem os personagens e as situações que os cercam. Com referência aos papéis projetados, falante pode nomear o ouvinte (você, moleque, alteza etc.), além de atribuir a ele uma função na oração (Ator, Portador, Meta etc.).

(b) A avaliação da realidade

Sabe-se que há diferenças entre uma linguagem neutra e outra saturada emocionalmente, que apela mais para nossas emoções do que para a nossa cognição. Esta questão está ligada primordialmente às nossas escolhas linguísticas, representando eventos, processos e estados, e que, sabe-se hoje, são significativas do ponto de vista da ideologia. Assim, alguns aspectos da linguagem ajudam a mediar e construir um tipo específico de universo (DOWNING, 2003).

Esta parte terá o apoio da teoria da Avaliatividade (MARTIN, 2000), que ampliou o alcance da metafunção interpessoal, de Halliday (2004). A Avaliatividade tanto explícita, quanto implícita que incide nos participantes e situações de Um grito parado no ar constitui outro passo da construção da alegoria. Esta parte envolverá considerações sobre: persuasão, dialogismo, ambiguidade estratégica.

O que chama a atenção na peça é, também, o uso abundante de léxico e estruturas gramaticais que, gradual, mas consistentemente, imiscuem-se na construção da alegoria da peça. Nessa alegoria, as circunstâncias que cercam o elenco da peça são na maioria das vezes, em especial no início, negativas para o elenco. A escolha lexical, segundo van Dijk (1988, p. 177), é um eminente aspecto do discurso em que se escondem opiniões ou ideologias. A peça é chamada de 'merda'; Euzébio é 'escravo', 'servil', 'ralé', 'inculto', 'bicha'; os atores em geral de 'borra', 'vadios', 'irresponsáveis' (p.193).

(c) A alegoria

Os aspectos estruturais, além de construir uma certa versão da realidade (com os concomitantes efeitos ideológicos), são considerados aqui como agentes da transformação discreta de um estilo em outro ao alimentar a construção da alegoria no texto.

Essa alegoria assegura a compreensão do texto dentro de uma certa perspectiva ideológica. Essa perspectiva é construída por analogia, i.e., pelas

relações intertextuais entre a alegoria construída, de um lado, e pelas interpretações analógicas (em termos de convenções, mitos e paradigmas), de outro.

A construção dessa alegoria é, além disso, formada por 'minialegorias' (em geral manifestadas nos níveis semânticos e sintáticos), peças de um mesmo quebra-cabeça. Assim, analiso as estruturas e formações (léxico- gramaticais) implicadas no procedimento.

Mais especificamente, trato primeiramente dos aspectos da estrutura nos níveis sintático-semânticos. Trato também da análise de itens no nível da pragmática, da retórica e da intertextualidade textuais, na medida em que esses elementos proporcionam um estilo colorido à argumentação.

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