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Os estudos realizados no campo filosófico ou no campo linguístico, mais especificamente, sobre a questão da autoria no âmbito da Análise de Discurso quase sempre remontam às contribuições trazidas por Michel Foucault (1999, 2002)

Vamos encontrar em algumas obras desse teórico francês menção ao papel do autor, principalmente em O que é um autor? (2002), em A ordem do discurso (1999) e em

Arqueologia do Saber (1997). Em todas estas obras, Foucault tem o propósito de mostrar que a

figura do autor desempenha uma função discursiva e que se deve voltar o olhar detidamente para o discurso em que estão inscritos os enunciados.

Em A ordem do discurso, Foucault (1996) discute alguns mecanismos disciplinares instituídos pela sociedade para controlar, organizar, selecionar e redistribuir a proliferação dos discursos e dos sujeitos. Esse controle se dá por alguns procedimentos que ele divide em três grandes grupos: externos ao discurso, internos e de rarefação. Dentre os procedimentos internos, Foucault (op cit.) aponta o procedimento de controle do autor como um dos mecanismos internos em que os discursos exercem seu próprio controle, e caracteriza-o como princípio de agrupamento do discurso que confere sua unidade e coerência.

A função autor, em Foucault, está diretamente relacionada com a função do sujeito no discurso, de modo que o autor ou função autor é somente uma das especificidades que o sujeito pode desempenhar. Concebendo, pois, o sujeito como uma figura discursiva, ele identifica o

efeito-autoria como uma das evidências do sujeito, o qual está submetido às várias determinações que organizam o campo social das produções dos sentidos. Este autor alerta para o fato de que se deve observar a história das condições de produção, de como foram disseminados e apropriados os textos, bem como foi atribuído um nome próprio a um determinado texto.

Para Foucault, a criação da função autor se deu através de um processo que se desenvolveu a partir da época medieval e se constituiu em um meio de controlar certos textos que deveriam ou não circular na sociedade ou conferir-lhe status através de uma assinatura que o legitimasse.

Conforme defende Foucault (1999), a origem da noção de autor marca o momento da

individualização na história das ideias das ciências. A figura do autor assume uma grande

importância na produção do texto no que se refere ao seu dizer, uma vez que é responsável direto pela organização, agrupamento e coerência que é impressa no seu texto. Para Foucault (op. cit., p.26), “o autor não é concebido como o indivíduo falante que escreveu um texto, mas como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de sua coerência”.

Assim, ainda segundo Foucault, o princípio de autoria não se estende a todo e qualquer discurso, mas somente àqueles que contribuem para dar origem à discursividade como os produzidos por autores como Freud, Marx, Saussure, etc. A função-autor é, desse modo, caracterizada por Foucault, com base em “um modo de existência, circulação e funcionamento de certos discursos numa sociedade”.

Neste aspecto, questionamos a postura de Foucault quando restringe a função autor exclusivamente a determinados discursos que circulam na sociedade e nos aproximamos das ideias sobre autoria defendidas por Eni P. Orlandi em sua obra Interpretação: autoria, leitura e

efeitos do trabalho simbólico (1988). Esta autora procura ampliar essa ideia defendida por

Foucault, na medida em que acredita que há um princípio geral que necessariamente abrange todo discurso e, por consequência, marca a função autor. Quando o sujeito assume a origem do seu dizer e define de forma subjetiva e ilusória a coerência, unidade e objetivo de um texto, ele instaura a função autor, de modo que, a partir das condições de produção do discurso, o sujeito ocupa uma posição ou lugar social que o caracteriza como autor. Orlandi amplia, portanto, a noção de autor apresentada por Foucault, concebendo-a no uso cotidiano, posto que a função autor não fica limitada a uma obra, ou a um conjunto de regras instituídas, num certo momento histórico, que disciplinam a produção discursiva. Assim, se para Foucault o princípio de

discursividade é considerado como um dos aspectos relevantes para que o sujeito assuma a função autor, para Orlandi (op. cit., p.70)

[...] o autor, embora não instaure discursividade, produz um lugar de interpretação no meio dos outros. Esta é sua particularidade. O sujeito só se faz autor se o que ele produz for interpretável. Ele inscreve sua formulação no interdiscurso, ele historiciza seu dizer. Porque assume sua posição de autor (se representa nesse lugar), ele produz assim um evento interpretativo. O que só repete (exercício mnemônico) não o faz.

Vale salientar que, quando Orlandi afirma que aquele que só repete não se faz autor, está se referindo a uma repetição empírica, ou a uma repetição formal que se dá através da produção de frases como exercício apenas técnico, gramatical, a qual é distinta da repetição histórica em que o dizer se apóia no interdiscurso. E é a partir das relações que se estabelecem entre os discursos, memória e história que a língua passa a significar.

Considerando que o dizer está inscrito no repetível histórico, ou seja, no interdiscurso, podemos afirmar, de acordo com Orlandi (op. cit.), que a autoria está vinculada à noção de interpretação, posto que o sentido não pode ser interpretável se não estiver em relação com a historicidade. A constituição do autor pressupõe, nesse sentido, a repetição, ou seja, aquilo que é passível de interpretação.

Por outro lado, a interpretação, para a Análise de Discurso, também está relacionada não só com aquilo que pode ser repetido, mas também com a incompletude da linguagem, com o equívoco. Desta forma, a autoria também se processaria no movimento tenso entre o repetível assentado na historicidade e a repetição do já dito de maneira singular, própria, acrescentando algo e, ao mesmo tempo, na ruptura com o já estabelecido.

Embora diferindo quanto à noção de sujeito, Possenti (2002) se aproxima da posição de Orlandi quando também critica o fato de Foucault não ter ampliado a questão da autoria a outros domínios que não fosse unicamente de uma obra ou discursividade.

Quando trata da autoria em textos escolares, Possenti (2001) apresenta a proposta de rever esta questão de forma diferenciada da defendida por Foucault. Para isso, este autor vai acrescentar à noção de autoria o princípio da singularidade relacionada ao estilo. Desse modo, o autor se caracterizaria por apresentar duas atitudes: “a de dar voz a outros enunciadores e a de manter distância em relação ao próprio texto”.

Nesse sentido, o sujeito faria intervenções no seu próprio discurso, o que não

histórico. Portanto, a autoria de um texto se configuraria, segundo Possenti, na medida em que o sujeito revestisse o seu discurso a partir de um gesto singular e particular de inscrição.

Partindo de uma visão da Análise de Discurso mais próxima da abordagem de Orlandi, Solange Gallo (2001) em sua tese de doutorado e no texto Autoria: questão enunciativa ou

discursiva? (2001) procura diferenciar a noção de autoria no nível enunciativo e no nível

próprio do discurso, considerando o aspecto da heterogeneidade da língua e do acontecimento discursivo.

Essa autora, com base na noção de heterogeneidade enunciativa mostrada e não mostrada, estudada por Authier (1982), considera que essa noção só é produtiva para se analisar o confronto entre duas formações discursivas, sem gerar a partir desse confronto uma nova formação discursiva. Ela exemplifica essa ideia com base no enunciado “Estamos cansados, se é o que você entende o que estou dizendo”, afirmando que, sem dúvida, há neste exemplo, uma heterogeneidade mostrada, uma vez que o sujeito enunciador consegue provocar uma espécie de “estranhamento”ou uma “não coincidência” em relação ao seu próprio dizer, evidenciada na segunda parte do enunciado. Nesse caso, para Gallo, não se pode dizer que se verifique um efeito-autor, uma vez que o sujeito “não produziu uma nova formação discursiva dominante, a partir do confronto entre duas formações discursivas diferentes”, mas apenas conseguiu produzir o novo no nível enunciativo, a partir de duas posições enunciativas. Nesse nível enunciativo, todo sujeito possui a função-autor, pelo fato de haver confronto entre duas posições enunciativas, um “eu” e um “tu”. Acrescenta ainda que, mesmo considerando a heterogeneidade enunciativa não mostrada, não se verifica o efeito-autor, mas somente a função-autor.

Assim, Gallo propõe que a autoria pode ser analisada em dois níveis, a partir da Análise de Discurso: em um nível enunciativo-discursivo e em um nível discursivo por excelência. Nesses dois níveis, a autoria está relacionada com a produção do “novo” sentido, como também pela inscrição de responsabilidade pelo sujeito daquilo que diz, produzindo unidade no seu discurso. Mas, somente no nível discursivo, denominado por Gallo, como efeito-autor, o qual não é possível de se verificar em todos os discursos, percebe-se o confronto de duas formações discursivas que produz uma outra formação discursiva dominante.

Diante dessas concepções sobre autoria, defendidas pelos autores anteriormente citados, podemos resumi-las respectivamente da seguinte forma: como princípio organizador do discurso, como um gesto de interpretação, como individualização do estilo e como confronto entre duas formações discursivas que inaugura uma outra formação discursiva.

Como estamos pretendendo também analisar o efeito-autor na escrita de professoras em formação, a nosso ver, seria inviável uma concepção de autoria que se enquadrasse exclusivamente nas reflexões clássicas desenvolvidas no campo da Filosofia. Nesse sentido, fundamentaremos a nossa análise em parte nas reflexões de Foucault, mas principalmente nas contribuições apresentadas por Orlandi, uma vez que acreditamos que a autoria, assim como a língua, o discurso/texto se movimentam entre a unidade e a dispersão, entre estrutura e acontecimento.

No nosso caso, então, consideramos o efeito-autor como um gesto de interpretação realizado pelo sujeito, a partir do movimento entre unidade e dispersão, entre a formulação e a constituição do dizer.

No capítulo seguinte, situaremos o percurso metodológico para a realização da presente pesquisa, a partir do nosso olhar de analista de discurso, focalizaremos ainda a proposta de formação docente e as condições de produção que envolveu o processo de escritura dos sujeitos professoras-ministrantes e professoras-alunas no contexto de formação acadêmico.

CAPÍTULO 2

2. CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO DOCENTE: CONSIDERAÇÕES SOBRE O

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