6 COMPARISON AND DISCUSSION
6.3 Influential parameters and model behavior
No ano de 2006/2007, foram planejadas pelas professoras ministrantes duas sequências didáticas: uma fundamentada na dissertação escolar e outra sequência baseada no gênero artigo de opinião. Além desses gêneros, foi feito um rápido estudo do diário reflexivo. Foi ministrada apenas uma aula expositiva sobre diários, apresentando oralmente os tipos (diário íntimo, de leitura, de viagem, de pesquisa, etc) e suas características. Logo após, foi lido e discutido o texto “A elaboração e manutenção de um diário de pesquisa”, da autora Machado (2005) e distribuído para serem lidos, em grupo, alguns diários de leitura de filmes e livros, escritos por alunos de uma turma de graduação do Curso de Letras. Por fim, foi esclarecido que todas as professoras, tanto as formadoras quanto as formandas, deveriam escrever diários reflexivos, neles relatando as aulas do curso e relacionando com a experiência de ensino de cada uma delas. Talvez pelo fato das professoras-ministrantes terem apenas feito uma exposição oral sobre os tipos de diários e ter utilizado um texto teórico sobre diário de pesquisa e não sobre diário reflexivo, bem como não ter trabalhado detidamente o tipo de diário solicitado, as professoras-alunas acabaram entendendo, num primeiro momento, que deveriam escrever diários de pesquisa e não diários reflexivos. Os diários eram produzidos em casa pelas professoras, lidos e comentados geralmente no início das aulas ministradas durante o curso de formação.
A escrita desses diários funcionou também como um instrumento para que as professoras envolvidas no processo de formação refletissem sobre as próprias aulas ministradas e acabassem revelando o que concordavam ou não em relação à escolha do objeto de ensino, dos textos e do modo de condução das aulas, uma vez que nem sempre todas as professoras- ministrantes tinham oportunidade de se reunir, para que discutissem previamente detalhes de como deveriam ser encaminhadas as aulas do curso.
Embora não analisemos no nosso corpus o gênero dissertação, faremos uma descrição de como foi encaminhada a sequência didática que focalizou esse gênero, tendo em vista que essa sequência foi considerada por algumas professoras-ministrantes como uma preparação para se estudar o gênero artigo de opinião, bem como pelo fato de se fazer referência e apresentar comparações desse gênero com o artigo de opinião nos vários diários reflexivos escritos pelas professoras.
O estudo da dissertação teve sete encontros (do período de 14/08 a 02/10/06). As professoras responsáveis por essa sequência, entre elas PM1 e PM3, seguiram as seguintes etapas: primeiramente, levaram para a sala de aula alguns livros didáticos de língua portuguesa que apresentavam o estudo da dissertação. Estes livros foram lidos e avaliados em grupo pelas professoras-alunas no que diz respeito à apresentação e orientação para a produção deste
gênero escolar. A leitura e análise desses livros foram feitas com base em um roteiro de leitura por escrito previamente entregues aos grupos.
Nas aulas seguintes, foi estudado e discutido o texto teórico “Dissertação: gênero ou tipo textual”? (2003), da autora Edna Guedes de Souza. Com base nesse texto, gerou-se uma grande discussão em torno da questão se a dissertação era um gênero ou tipo textual, causando muita confusão e, ao mesmo tempo, rejeição, por parte das professoras-alunas, a respeito da ideia de que a dissertação pudesse ser um gênero.
Na aula seguinte, a professora-ministrante (PM1) trouxe redações de dissertação de vestibulandos e analisou-as, verificando sua estrutura composicional e função sócio- comunicativa, baseando-se nas orientações de Souza (2003). Por fim, na aula seguinte, a referida professora, logo após discutir a coletânea de textos sobre o tema “Estrangeirismos no português do Brasil” e ler a proposta de produção apresentada no livro didático de Cereja & Magalhães (2000), solicitou a elaboração de uma dissertação, a partir do seguinte enunciado:
Com base nas discussões realizadas em sala de aula sobre o gênero textual dissertação, elabore a produção textual proposta pelo livro didático em anexo. (Vide anexo 03).
Após a produção, houve a leitura oral dos textos produzidos, iniciando a leitura pelo texto produzido pela professora-ministrante (PM1).
Por fim, no último dia da sequência sobre a dissertação, foi distribuída uma coletânea das dissertações produzidas pelas professoras na aula anterior e foram analisadas, a partir dos critérios de correção previamente estabelecidos pela professora formadora (PM1), uma das responsáveis por conduzir essa sequência.
No que se refere à sequência didática sobre o estudo do gênero artigo de opinião, houve um total de oito encontros (do período de 25/09 a 27/11/06). Essa seqüência foi ministrada pela professora ministrante PM2 e por uma outra professora ministrante PM4. O objetivo dessa seqüência era não só estudar os aspectos estruturais do gênero, mas principalmente os aspectos discursivos.
Ao iniciar essa seqüência, foi realizada uma reflexão pela professora-ministrante (PM2) sobre o porquê de se estudar os tipos de textos narração, descrição, dissertação nas escolas, bem como os gêneros midiáticos, especificamente, o artigo de opinião, no programa escolar. Em seguida, a referida professora distribuiu três artigos de temáticas e estilos diferentes que circulavam em suportes também diferentes, intitulados “Os jornais e a verdade”, de José Luiz Fiorin, publicado na Revista Língua Portuguesa, em 09/10/06; “A auto-estima de nossos
filhos”, de Stephen Kanitz, publicado na Revista Veja e outro artigo “O milagre da educação de Lula”, de Gilberto Dimenstein, publicado na Folha de São Paulo em 26/06/06 (vide anexo 04), com o objetivo de as professoras-alunas descreverem a estrutura composicional, a temática e o estilo e chegarem à conclusão de que, em função do interlocutor e do suporte de publicação, o modo como a temática é tratada e como o estilo do gênero artigo de opinião é configurado vão sofrer variações. A partir do estudo do artigo de opinião, as professoras inferiram que a diferença entre esse gênero e a dissertação escolar reside basicamente no modo de funcionamento dos discursos, ou seja, a partir das condições de produção do discurso jornalístico e do discurso da instituição escolar.
Nas aulas seguintes, foram realizadas discussões sobre o gênero artigo, a partir do texto “Como elaborar um bom artigo”, de Stephen kanitz e do texto teórico “Lingüística, imprensa e academia: artigo jornalístico e acadêmico” de Pereira & Bastos (1995). Com base no primeiro texto, foram discutidas as etapas necessárias para escrever um texto (motivação, escrita, revisão, reescrita) e a função do autor diante da própria escrita. Fundamentada no segundo texto, a professora formadora discutiu a diferença entre um artigo jornalístico e um artigo acadêmico, enfatizando as características do primeiro, uma vez que era o foco da aula.
Após a aquiescência das professoras-alunas em continuarem lendo artigos de opinião que abordassem a temática “educação”, a professora formadora PM2 trouxe para a aula seguinte o artigo “A deseducação educativa”, de Eugênio Bucci, publicado na Revista Nova Escola de dezembro/2002 (Vide anexo 04). Com o objetivo de mostrar os elementos discursivos necessários a serem observados na leitura de um texto, especialmente no caso do gênero artigo de opinião, a professora-ministrante (PM2) aplicou uma atividade escrita em que procurava focalizar o porquê da temática enfocada, a possível reação do interlocutor (leitor), a relação do ponto de vista do autor com o suporte de publicação, a posição sócio-ideológica que ocupa o articulista, a materialidade linguística do texto em relação à posição valorativa do sujeito autor, etc. Em linhas gerais, o referido artigo de opinião tratava de um tipo de educação, denominada pelo autor Eugênio Bucci, deseducativa, que a televisão, especialmente a TV comercial, exerce no comportamento ético, moral do público infantil.
Assim, na aula seguinte, foi trazido pela professora-ministrante (PM2) mais um artigo de Eugênio Bucci, intitulado “No limite da sala de aula”, também publicado na Revista Nova Escola, em março de 2001 (Vide anexo 04). Neste artigo, o autor defendia que, em vez de satanizar a televisão, seria bem mais produtivo tentar compreendê-la e que ela não está acima da nossa vontade e, muito menos, se constitui a fonte de todos os modelos de comportamentos.
Foi feito ainda um estudo comparativo deste artigo com o anterior, esclarecendo que nem sempre é possível saber o ponto de vista ou a ordem discursiva do autor apenas pela leitura de um único texto. Isto porque, dependendo das condições de produção (quem, onde, quando) e o suporte, vão ser enfatizados determinados discursos ou não, dependendo da aprovação ou não do meio midiático onde o texto será publicado. Assim, foi discutido, com base em Rodrigues (2005), que a autoria não é construída apenas pelo indivíduo que escreveu o texto, uma vez que existe um controle das instituições, no caso, a mídia, sobre o que e como deve ser escrito o texto que será publicado19.
Ainda a partir deste artigo foi realizada uma atividade escrita sobre a estrutura composicional do artigo e a funcionalidade de alguns elementos lingüísticos (nomes, adjetivos, expressões adjetivas, advérbios, conjunções, paradoxo, metáfora, ironia, etc) que evidenciavam a posição valorativa do sujeito-autor diante do ponto de vista defendido. Foi enfatizado pelas professoras, responsáveis por este estudo do gênero, que o modo como esses recursos lingüísticos eram utilizados no texto caracterizavam o estilo do artigo que deveria estar também adequado ao suporte e ao meio de circulação.
Por fim, na aula seguinte, a professora-ministrante (PM2) solicitou a produção de um artigo de opinião, com base no seguinte enunciado:
Com base nas leituras e discussões dos textos em sala de aula, bem como na pesquisa feita por você sobre um dos subtemas relacionados à educação, escolha um destes subtemas e, em seguida, elabore um artigo a ser publicado na nossa revista Práticas. Após escrever o seu texto, não esqueça de revisá-lo, observando os aspectos temáticos, composicionais e estilísticos próprios do gênero artigo de opinião (Vide anexo 04).
Após a produção do artigo de opinião, a professora formadora (PM3), colaboradora desta sequência, escolheu um texto produzido por uma das bolsistas do projeto e a partir desta produção foi estabelecendo oralmente alguns critérios de avaliação para o artigo de opinião, tendo como base a sua temática, estrutura composicional e estilo característicos desse gênero.
19 Não se pode afirmar que todas as PAs compreenderam esta noção de autoria naquele momento da aula, mas depois que o curso de formação acabou, recebemos um e-mail de PA2 que, algumas vezes, enviou outros artigos para que léssemos e comentássemos antes de ser publicado no Jornal da Paraíba, em que declarava, em outras palavras, mais ou menos o seguinte: “Agora entendi bem o que você falava sobre autoria nas aulas do curso de formação, meu texto “Heróis! Será?” não foi aceito para ser publicado pelo jornal da Paraíba, porque nele me posicionava contra a maneira de como o apresentador Pedro Bial se referia aos “Brothers” do famoso BBB da Rede Globo, chamando-os de “Meus Heróis”. Fiquei indignada, então, enviei o mesmo artigo para o outro jornal, Diário da Borborema, que não defende a Rede Globo de Televisão e meu texto foi aceito e publicado”. (Vide em anexo 05 esse artigo, publicado no Diário da Borborema em 04 de abril de 2007).
No final da aula, entregou uma lista de critérios de avaliação elaborada por ela, com o intuito de analisar o texto escolhido anteriormente.
Após terem sido analisadas todas as produções dos artigos, a professora PM2, na aula seguinte, propôs uma atividade de correção em dupla do gênero que consistia em trocar os textos entre as colegas para que fizessem observações por escrito, com base nos critérios de avaliação do gênero artigo já previamente estudados. Os textos foram trocados e a partir dos referidos critérios de correção/avaliação, as professoras-alunas fizeram a leitura e a devida correção/avaliação. Nessa aula, observamos que, apesar das dificuldades iniciais das professoras-alunas, elas conseguiram realizar a atividade, trocando ideias e tirando dúvidas com as professoras formadoras que estavam em sala de aula.
Por fim, na última aula, a professora PM2 fez comentários sobre a correção/avaliação feita pelas professoras-alunas e, em seguida, aplicou uma proposta de atividade escrita (vide anexo 04) de análise e reescritura coletiva de um texto produzido por uma das professoras- alunas. Nessa atividade, foi enfocada pela referida professora, além dos elementos estruturais, estilísticos e temáticos, a questão da função autor. Em seguida, foi solicitada uma nova proposta de reescritura individual dos textos produzidos. Os artigos de opinião foram entregues com as observações de cada colega e as professoras formadoras deveriam reler os próprios textos e alterá-los, caso julgasse necessário, a partir das observações feitas pelas colegas e pelos comentários orais feitos por PM2.
Vale salientar que durante todas as aulas do curso de formação, os diários de aulas eram lidos e comentados por todas as professoras que se sentissem à vontade para fazê-lo.