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Centro, consumo e espaço são conceitos que não interessam apenas aos geógrafos urbanos, mas às demais ciências que buscam o entendimento da cidade como uma esfera de

ações que expressam os mais variados modos de vida. Ortigoza (2001) neste sentido discute que:

Nos últimos anos, a geografia brasileira tem se projetado de maneira mais efetiva no plano nacional e mundial. Muito há que se investigar, principalmente nas pesquisas ligadas ao comércio e consumo do e no espaço, na vertente por nós escolhida: a da geografia crítica. Nesses estudos deve-se partir da articulação dialética entre as relações sociais de produção e a reprodução do espaço para se chegar à análise crítica do urbano. O urbano de ser visto como um processo dinâmico, procurando- se entender o seu conteúdo em seu movimento contraditório e, nesta perspectiva de análise, muito ainda tem que ser feito. (p.1).

O centro, como já fora retratado anteriormente, é o lugar das trocas que integra e dispersa gerando novos pontos com novas trocas, dando sentido à (des)organização do espaço urbano. Para Lefèbvre (1969), o centro é uma concreta contradição, pois concentra e dispersa, como também, permite o vazio e a escassez no que diz respeito às funções que atrai para o seu entorno. Sobre a dispersão Santos (1981) aponta para a seguinte análise:

Fenômenos de dispersão podem ocorrer: se uma cidade atinge, em alguns bairros centrais, uma densidade demográfica e econômica importante, criam-se centros secundários para a distribuição de mercadorias ou de serviços. (p. 181-2).

Aproveitando as considerações que o autor faz sobre o centro destacamos a interpretação do espaço que é entendido pelo referido autor como:

Um “sistema de objetos e um sistema de ações” indissociável, solidário e também contraditório constituindo um quadro único no qual a história se dá. No começo era a natureza selvagem, formada por objetos naturais, que ao longo da história vão sendo substituídos por objetos fabricados, objetos técnicos, mecanizados e, depois cibernéticos, fazendo com que a natureza artificial tenda a funcionar como uma máquina” (SANTOS 2002, p. 61).

Entretanto, se falamos do centro como um lugar de trocas, símbolos e signos que fundamentam as relações socioespaciais este deve, então, ser compreendido como “um espaço de consumo” associado ao “consumo do espaço”, havendo uma interligação dessas categorias através das práticas e do próprio papel que desempenha na morfologia do tecido urbano, pois se ele é ponto de convergência significa que há um adensamento maior relacionado ao número de pessoas que circulam na área, o que favorece o crescimento e

desenvolvimento do comércio e do consumo, que necessita de um público em expansão para que essas práticas fundamentem as práticas cotidianas.

A relação existente entre a discussão que envolve o centro como espaço de consumo passa pela abordagem sobre a sociedade de consumo, em que alguns autores chamam a atenção para duas fases. George (1971, p. 45) descreve como sendo resultante da Revolução Industrial que “transformou as relações de consumo nos países da Europa Ocidental e Central e na América do Norte durante o século XIX e o início do século XX”.

Barbosa (2004, p.16) destaca em seu livro “Sociedade de Consumo” duas visões que diferem entre si a partir da análise de alguns autores que avaliam essa sociedade sob o aspecto produtivista e os que a consideram anterior à Revolução Industrial, levando em conta“ou que as pessoas são, por definição, insaciáveis, ou que existe uma propensão natural a consumir, o que faz com que qualquer aumento de renda ou salário seja alocado sempre no consumo de mais bens e mercadorias.” A autora discute que a “insaciabilidade” ligada à sociedade moderna faz parte de um processo histórico atribuído às mudanças desde o século XVI conforme:

[...] o aparecimento de todo um conjunto de novas mercadorias no cotidiano dos diversos segmentos sociais, fruto da expansão ocidental para o oriente. Esse conjunto de novas mercadorias, consultado pelos próprios observadores da época, dificilmente poderia ser considerado de necessidade, pois tinha itens como alfinetes, botões, brinquedos, rendas, fitas, veludos, louça para casa, fivelas de cinto, cadarços, jogos, plantas ornamentais, novos itens de alimentação e bebida e produtos de beleza entre outros. (BARBOSA, 2004, p. 19).

Para Baudrillard (2003):

O consumo surge como conduta activa e colectiva, como coacção e moral, como instituição. Compõe todo um sistema de valores, com tudo o que este termo implica enquanto função de integração do grupo e de controle social. A sociedade de consumo é ainda a sociedade de aprendizagem do consumo e de iniciação social ao consumo - isto é, modo novo e específico de socialização em relação à emergência de novas forças produtivas e à reestruturação monopolista de um sistema económico de alta produtividade. (p. 81).

Mesmo havendo exageros na análise de Barbosa sobre o consumo, não podemos deixar de apontar que a Revolução Industrial favoreceu o aprimoramento das técnicas e, mais adiante com o meio técnico-científico informacional tomando como referência a

História Mundial, cada técnica pôde ser localizada no tempo. (SANTOS, 1996) e no espaço além de que:

Nesta nova fase, o Mundo está marcado por novos signos, como: a multinacionalização das firmas e a internacionalização da produção e do produto; a generalização do fenômeno do crédito, que reforça as características da economização da vida social: os novos papéis do Estado em uma sociedade e uma economia mundializada; o frenesi de uma circulação tornada fator essencial da transformação que liga instantaneamente os lugares, graças aos progressos da informática. (SANTOS, 1996, p. 123).

Tomando tais apontamentos temos na visão de Carlos (2002) o seguinte:

Nesse contexto de produção de aparências, a mundialização restabelece/reforça o “mundo da mercadoria” e desenvolve os limites da troca. As relações entre processo de produção e desenvolvimento das forças produtivas produzem no mundo moderno novas possibilidades de realizar a acumulação, que, em sua fase atual, liga-se cada vez mais á produção do espaço-produção que se coloca numa perspectiva, onde novos lugares ganham valor de uso. O processo de reprodução do espaço a partir do processo reprodução da sociedade se realiza, produzindo novas contradições, suscitadas pela extensão do capitalismo, o que nos coloca diante das necessidades de aprofundar o debate em torno das contradições entre o público e o privado; espaço do consumo e consumo do espaço. (p. 178).

No entanto, Lefèbvre (1991) avalia que esse processo envolve:

[...] a integração da juventude no mercado, no consumo, procurando-se para ela uma cotidianidade paralela. Tende-se a constituir uma essência, a juvenilidade, dotada de atributos e de propriedades comercializáveis, possuída por uma parte da população privilegiada, ou assim considerada, justificando-se desse modo a produção e o consumo de objetos marcados (roupas entre outras coisas, que resumem e simbolizam os blue jeans). (p. 182)

E prossegue dizendo que:

As mulheres consumidoras, orientam (em aparência) o consumo da sociedade burocrática de consumo dirigido (em outras palavras, a manipulação das necessidades se faz em função da Feminilidade, assim como da Juvenilidade) (1991, p. 184).

Tomemos essa idéia a partir do fato de que a sociedade urbana é uma representação de momentos, de fatos, idéias, gestos e características que foram sendo acumulados no decorrer dos tempos e que nos fazem compartilhar de situações dominantes e dominadas do ponto de vista da imagem dos objetos. A imagem da sociedade enquanto organismo vivo, cujos anseios individuais tornam-se sociais através da generalização e da superficialidade das “mercadorias” como parte integrante do processo que envolve os grupos humanos. Debord (1997) analisa esta questão da seguinte maneira:

A economia toda tornou-se então o que a mercadoria tinha mostrado ser durante essa conquista: um processo de desenvolvimento quantitativo. Essa exibição incessante do poder econômico sob a forma de mercadoria, que transfigurou o trabalho humano em trabalho-mercadoria, em

assalariado, resultou cumulativamente em uma abundância na qual a

questão primeira da sobrevivência está sem dúvida resolvida, mas resolvida de um modo que faz com que ela sempre torne a aparecer; ela se apresenta de novo num grau superior. O crescimento econômico libera as sociedades da pressão natural, que exigia sua luta imediata pela sobrevivência; mas, agora, é do libertador que elas não conseguem se liberar. A independência da mercadoria estendeu-se ao conjunto da economia, sobre a qual ela impera. (p. 29).

Se tomarmos como parâmetro para nossas proposições a idéia da independência da mercadoria, verificaremos que tem fundamento, pois implica numa relação de produção e consumo, “cuja alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive” (DEBORD, 1997, p. 30). Isto se justifica de acordo com o que consideramos necessário, quanto ao consumo, pois o tempo de duração de uma necessidade e outra, coloca em evidência uma prática inconsciente, pois somos induzidos pelas diversas formas de atrativos e propagandas que favorecem o ato de consumir. A contemplação se esgota a partir do momento em que a mercadoria desejada é adquirida, e o período de vivência desta termina quando novos anseios surgem para formalizar e efetivar o consumo. O que realmente se dá é uma interligação da mercadoria e do consumidor numa relação de complementaridade, pois as necessidades surgem a partir da imagem que, portanto, é amenizada pela aquisição do produto. De acordo com Debord (1997):

O homem separado de seu produto produz, cada vez mais e com mais força, todos os detalhes de seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais separado de seu mundo. Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida. (p. 25).

Sobre esses apontamentos Lefèbvre (1991, p. 47) avalia que a cidade é “produção e reprodução de seres humanos por seres humanos, mais do que uma produção de objetos.” Na verdade, a cidade é o lugar das convergências e divergências, onde a mercadoria se impõe única e inquestionavelmente, pois os espaços são concebidos com base na difusão dos produtos que também são criados para atender ao mercado, base em que se configuram as estratégias do sistema capitalista, representado pela venda da força de trabalho.

Mas não podemos esquecer que os que vendem a força de trabalho também são consumidores, já que na fase da acumulação do capitalismo o proletariado era visto apenas como “força de trabalho”, condição que se modifica à medida que a generalização da mercadoria e as novas formas comerciais e espaciais passam a integrar o cotidiano dos mesmos. Isso pode ser atribuído ao simples fato da necessidade de morar, alimentar, vestir e outras formas de consumo que se atrelam à imagem dos objetos e que colocam o uso da mercadoria como obsoleto num intervalo de tempo que muitas vezes se torna curto com “a artificialidade das necessidades relacionadas a tais mercadorias” (DEBORD, 1997, p. 32).

Sob essa ótica, Pintaudi (2002) faz a seguinte análise:

As formas do comércio varejista nas cidades e também os padrões de sua localização urbana vêm sofrendo modificações através do tempo. A análise das formas comerciais, cuja natureza é social, bem como a de suas transformações, que têm durações desiguais, revelam-nos contradições internas das categorias espaço e tempo materializados em objetos sociais. (p.143).

É importante frisarmos que o setor terciário é o que mais cresce nas cidades a partir de uma complexidade que envolve a sociedade como um todo e a dinâmica da (re)utilização dos espaços com base no processo de valorização como parte integrante do sistema capitalista, pois o próprio espaço passa a ser um elemento que articula as trocas no contexto da conjuntura econômica, que por sua vez gera novas formas de comercialização.

Ainda, para Pintaudi (2002):

[...] as atividades comerciais e de serviços, embora com transformações, permanecem ali, pois são constitutivas do modo de vida urbano e,

portanto, da forma urbana, mesmo quando aparecem em locais como as rodovias. Assim, entendemos que a análise do comércio permite uma melhor compreensão do espaço urbano, na medida em que comércio e cidade são elementos indissociáveis, como podemos comprovar historicamente. (p. 144).

Contudo, o espaço precisa ser compreendido como mercadoria que enfatiza os usos através da apropriação43 e que é um processo presente e marcante na cidade, uma vez que:

A apropriação do espaço ganha importância nesse processo, pois é uma condição prévia e necessária à valorização. É por isso que podemos dizer que a valorização do espaço se dá de diversas formas no decorrer da história, dependendo, sobretudo dos avanços das forças produtivas e das novas relações sociais que delas emergem. (ORTIGOZA, 2001, p. 2).

A visão de Carlo (2002) nos aponta que:

No contexto em que novas áreas adquirem valor de uso, o processo de apropriação passa a ser determinado pelas leis do mercado, isto é, definido pela sua trocabilidade. Nesse caso, as parcelas do espaço, sob a forma de mercadoria, se encadeiam ao longo dos circuitos da troca – a partir de uma estratégia e de uma lógica. Assim as particularidades dos lugares do espaço se afirmam, potencializadas pela produção, pois o uso só pode se realizar num determinado lugar, isto é, refere-se à escala local (apesar de articulados cada vez mais ao global – pela constituição da sociedade urbana). O espaço dominado, controlado, impõe não apenas modos de apropriação, mas comportamentos, gestos, modelos de construção que excluem/incluem. (p. 179).

De acordo com as considerações da referida autora podemos, ainda, avaliar que é no espaço que a vida se concretiza, que as relações se fortalecem, sendo o resultado das várias formas de apropriação deste com relação a cada período histórico, o que nos remete apontar o consumo como fator primordial no processo de transformação da cidade como palco das manifestações contínuas e, por que não dizer às vezes, ilimitadas, pois Lefèbvre (1991) considera que tais mudanças ocorrem não apenas por processos globais, mas também:

[...] em função de modificações profundas no modo de produção, nas relações “cidade-campo”, nas relações de classe e de propriedade. O

trabalho correto consiste aqui em ir dos conhecimentos mais gerais aos conhecimentos que dizem respeito aos processos e descontinuidades históricas, à sua projeção ou refração na cidade, e inversamente, dos conhecimentos particulares e específicos referentes à realidade urbana para o seu contexto global. (p. 53).

A cidade não pode ser tomada apenas pelas relações comerciais que se estabelecem no cotidiano, mas também pelas relações imediatas que marcam o simples contato entre as pessoas e que pode ser contemplado em conjunto através dos vários papéis que os indivíduos desempenham, ou seja, a família, o trabalho, as relações de vizinhança e outras formas de sociabilidade que são o resultado da apropriação e utilização dos espaços tomados como uma mercadoria associada aos objetos comercializados, pois para Ortigoza (2001, p. 2) “a mundialização e a globalização constituem o momento mais avançado do processo de valorização do espaço”.

Esse espaço pode ser apreendido através das ações objetivas, que podemos interpretar como sendo aquelas padronizadas que fundamentam o uso propriamente dito, a exemplo disso temos as áreas destinadas ao comércio de mercadorias e a prestação de serviços, “como continuidade e parte integrante do processo de produção” (ORTIGOZA, 2001, p. 3) e as subjetivas que podem ser identificadas pelas necessidades e práticas do consumo. Assim, temos uma área que foi sendo moldada e reconfigurada para atender aos anseios de uma sociedade que foi se interagindo às transformações da vida cotidiana com base nas redefinições e estratégias comerciais associadas, ainda, às relações socioeconômicas. Para a respectiva autora:

O comércio, como continuidade e parte integrante do processo de produção, reproduz novas formas, cada qual dando margem para que outras ainda mais padronizadas se estabeleçam. Nesse sentido, o espaço passa a ser, cada vez mais, controlado e normatizado, criando uma paisagem mundializada que contém um uso pré-determinado; tudo isso acaba estabelecendo a programação do próprio cotidiano. (ORTIGOZA, 2001, p. 3).

Tais apontamentos nos fazem refletir sobre o espaço como meio pelo qual a produção se realiza através da fluidez e da reprodução socioespacial que contém o novo e o velho como elementos que interagem no espaço urbano mediatizados pelos usos, que

transformam os hábitos dos consumidores da cidade. Podemos assim pensar devido ao fato de que:

[...] o desenvolvimento do processo de reprodução da sociedade produz um novo espaço e novas formas de relação na sociedade e entre as pessoas, a partir das trocas em todos os sentidos e da modificação dos modos de apropriação e de uso do espaço, que, normatizado, redelimita ações e atos, redefinindo as relações das pessoas entre si e com o lugar. (CARLOS, 2001, p. 21).

Essa idéia passa pela análise entre o global e o local, pois o cotidiano envolve as duas faces contribuindo para a reprodução do espaço urbano e das relações que permeiam a sociedade e pode ser compreendido da seguinte maneira:

(...) reproduz-se como produto e condição geral do processo produtivo. Do ponto de vista do capitalista, aparece como capital fixo. Sua estruturação se dá de forma a permitir a circulação da mercadoria, da matéria-prima e da mão-de-obra, bem como a viabilização do processo produtivo. (CARLOS, 1994, p. 97)

Assim, Ortigoza (2001, p. 4) discute que “o cotidiano, por sua vez, é onde as relações sociais de produção se estruturam na vida urbana em todos os sentidos e, portanto, é através dele que as mudanças no tempo e no espaço conseguem se materializar.”

Diante disso, é preciso entender que:

Para sobreviver, o homem deve satisfazer uma série de necessidades, algumas naturais, outras históricas; a relação que o homem manterá com os outros homens e com a natureza vai ser condicionada pelas necessidades cuja satisfação for imprescindível à manutenção da vida. Como a necessidade também determinará a ação, através da qual a necessidade poderá ser satisfeita, as relações entre os homens serão determinadas no contexto mais amplo das relações vitais, de um lado, e do outro pela capacidade de modificação da base natural, produzindo a si próprio como ser humano. (CARLOS, 1994, p. 132).

O cotidiano se instaura a partir do vivido, do singular, que não pode ser medido sem levarmos em consideração o uso social do espaço, que vem impregnado de símbolos e signos, que por sua vez, cria uma imagem que evidencia novas relações de consumo na sociedade urbana. De acordo ainda com Ortigoza (2001):

É necessário que nos esforcemos para entender como o cotidiano se estrutura, pois somente olhando para dentro deste processo é que podemos ver como é que esse tempo e esse espaço (que tem como ponto de partida a quantidade e não o sentido dele) vão mudando seu conteúdo e propiciando novas relações de consumo. Afinal essa perda do sentido do tempo, de seus fundamentos, sua unidade e finalidade, é imposta por um processo de produção que só pode se reproduzir reproduzindo a vida na sociedade como um todo, isto é, produzindo o cotidiano. (p. 13).

A nossa análise se reporta ao cotidiano para que possamos entender a dinâmica do centro como sendo um espaço do consumo que está ligado ao consumo do espaço intermediado pela mercadoria, que por sua vez, incide sobre a (re)produção capitalista do espaço numa relação de competitividade e de complementaridade, pois a necessidade de consumir surge antes mesmo da mercadoria ser produzida. Santos discute isto a partir da idéia de que “a produção do consumidor, hoje, precede à produção dos bens e serviços. Então, na cadeia causal, a chamada autonomia da produção cede lugar ao despotismo do consumo” (2001, p. 48). O respectivo autor chama a atenção para o fato de que a idéia de “consumismo” anula o cidadão, impedindo que o mesmo enxergue a realidade além das futilidades, por considerar que nem todos têm acesso aos bens produzidos, pois a prática do consumo envolve a figura do cidadão até mesmo para reclamar pelos direitos. Afirmando ainda que no caso brasileiro esta situação não é tão agravante, devido ao fato de que em “nosso país jamais houve a figura do cidadão” (SANTOS, 2001, p. 49). Certeau (1994) destaca o “enigma do consumidor-esfinge” , pois:

Na realidade, diante de uma produção racionalizada, expansionista, centralizada, espetacular e barulhenta, posta-se uma produção de tipo totalmente diverso, qualificada como “consumo”, que tem como característica suas astúcias, seu esfarelamento em conformidade com as ocasiões, suas “piratarias”, sua clandestinidade, seu murmúrio incansável, sem suma, uma quase-invisibilidade, pois ela quase não se faz notar por produtos próprios (onde teria o seu lugar?) mas por uma arte de utilizar aqueles que lhe são impostos. (p. 94).

As associações podem ser esclarecidas do ponto de vista de que a cidade e o urbano estão relacionados num contexto que caracteriza as atitudes e atividades que envolvem o