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6. DATA

6.2 D ATA S OURCES

A análise das considerações dos especialistas com relação aos livros e outros materiais didáticos objetivaram situar uma das implicações referentes à prática pedagógica que se refere à utilização dessas ferramentas educativas. Ressalta-se ainda que as discussões e reflexões propostas pelos especialistas foram muito importantes para subsidiar, posteriormente, o processo de construção coletiva do material que foi elaborado conjuntamente com os professores participantes da pesquisa-ação.

De modo geral, os especialistas foram extremamente favoráveis aos usos de livros e outros materiais de caráter didático, apontando que estes materiais são meios importantes de auxiliar e melhorar a prática pedagógica, além de ajudar o professor em diferentes momentos. De acordo com a especialista 5 o livro didático, enquanto material utilizado ao longo da prática pedagógica apresenta duas vantagens importantes, ao servir de parâmetro ao professor que está pouco interessado em melhorar sua prática e subsidiar com propostas de intervenção o professor interessado e motivado. Para ela:

“O livro didático tem duas coisas que eu acho interessantes. Para o professor ruim ou para o professor que não está tão a fim de trabalhar, pelo menos ele vai ter que se mexer para dar conta daquilo que o livro está pedindo para ele fazer, então para

o professor ruim ele é alguma coisa a mais que ele não estava a fim de fazer, então essa é uma vantagem, não é mesmo? Para o professor bom, ele vai pegar aquele material e vai saber ressignificar aquilo para o cenário que ele está, e isso é o que a gente espera. Então quando a gente faz livro didático a gente faz com a nossa concepção sobre aquele conteúdo” (ESPECIALISTA 5).

Nessa mesma perspectiva, o Especialista 2 reportou que o livro auxilia o professor na sua intervenção, cabendo à ele discernir sobre como utilizar o material. Para este especialista:

“o professor tem que ler o livro para intervir melhor. Mesmo que o livro seja ruim, é importante que o professor leia e tenha uma visão crítica sobre ele. É emergencial, a produção de livros didáticos é hoje emergencial! Precisa ser feita, de preferência com muitas opções” (ESPECIALISTA 2). Esse especialista enfatizou a importância de se elaborar livros

didáticos, contribuindo para a diversidade de materiais e metodologias possíveis ao longo da prática pedagógica. Para ele:

“A elaboração de materiais didáticos na Educação Física é emergencial! Livro didático precisa ter porque ele é uma opção. Eu não estou entendendo o livro didático como uma apostila do Estado, que seja fechada. Eu acho que é uma opção. Eu acho que ele é muito importante (...) É engraçado que isso é tão importante para o país crescer, e é tão pouco explorado porque a gente tem que ter uma diversidade muito grande de opiniões, a gente precisa ter, porque é da diversidade de opiniões que a gente chega a consensos. A gente não pode ter apenas um livro didático, a gente tem que ter milhares de opções” (ESPECIALISTA 2).

O especialista 1 corroborou com a opinião do especialista 2 ao sinalizar também para a necessidade de diversidade em termos de livros didáticos, admitindo que “é preciso ter

materiais didáticos em todos os níveis da educação. Materiais para facilitar a vida do professor são importantes, para dar um norte, uma direção em seu trabalho. Ele vai escolher de acordo com a estrutura da escola dele. Quanto mais materiais ele tiver melhor para a escolha dele”.

A especialista 5 apontou também que considera o livro didático um norte, um referencial de consulta que o professor utiliza ao longo da prática pedagógica. Nessa perspectiva, este especialista trouxe para a discussão algumas visões referentes a quem escreve esse material, ressaltando os usos que os professores farão a partir de suas interpretações sobre o livro.

“O livro didático eu entendo que ele deveria ser um referencial, sem dúvida, porque você não parte do nada, você vai elencar os conteúdos que são importante dentro de um bloco de conhecimento que você quer trabalhar, mas eles são pressupostos seus e não necessariamente de quem vai trabalhar com ele. Quando você faz um livro didático você não pode querer ser o „pai‟ da aula do professor, você só vai construir um referencial para ele, que ele pode utilizar ou não. Ele pode achar a primeira unidade do livro fantástica, que tem tudo a ver com o que ele quer trabalhar, já a segunda ele pode nem querer ver, nem querer trabalhar com isso por não gostar ou não achar necessário ou não concordar, e ele deveria ter essa liberdade” (ESPECIALISTA 5).

Fernandes (2004, p.535) afirma que, por livro didático, compreendem-se as ―publicações diversas, utilizadas em situações escolares por professores e/ou alunos para orientação, estudo, leitura e exercícios: compêndios, cartilhas, livros literários, paradidáticos, manuais de orientações para docente, caderno de desenho, tabuadas e coletâneas de mapas‖. Dessa forma, vários são os formatos e diversas são as maneiras as quais os livros podem assumir o papel didático ao longo da prática pedagógica.

O especialista 1 considerou a construção de materiais didáticos como uma ação muito importante para a prática pedagógica, embora tenha reconhecido que o livro, por melhor que seja, não é capaz de capacitar o professor e sim auxiliá-lo ao longo de suas aulas. Para ele:

“A elaboração de livros didáticos é algo positivo e fundamental. Eu acho que cada vez mais isso tem que ser explorado e com mais instrumentos para que o professor tenha acesso a eles. Se o livro didático garante um mínimo de estrutura, não obrigando a escola a ter tatame, tudo aquilo que a maioria das escolas não tem, e é o que muitas vezes repele o professor. Se o material didático proporcionar segurança ao professor para ministrar o conteúdo em qualquer escola, eu acho que fica perfeito, ele vai se sentir seguro. Mas assim, só o livro não vai capacitar o professor. O ideal seria ter uma formação” (ESPECIALISTA 1).

O especialista 3 apontou que o livro didático é capaz de fornecer parâmetros de reflexão e ação ao professor. Para isso, ele traçou um paralelo com relação ao currículo do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2008) considerando que “o material que a gente recebeu

do Estado foi algo que acrescentou, melhorou. Você não tinha nada, hoje em dia você tem. Você tem o caderno do professor que dá um apoio para ele e o do aluno que ele tem uma gravura, tem espaço para perguntas”. Porém, ele ponderou: “então eu acho que acrescenta, mas se o professor puder enriquecer vai ser sempre melhor” (ESPECIALISTA 3).

O especialista 4 foi o mais reticente em relação ao uso de livros didáticos, considerando-os ferramentas que dependem de como serão utilizados ao longo da prática pedagógica. Para ele:

“O livro didático é uma ferramenta, é uma ferramenta. Depende como é que você usa sabe? Não tem como dizer a priori se é bom ou se é ruim, se engessa ou se não engessa. É uma ferramenta, como outras. Vai depender do conteúdo, vai depender do uso, vai depender da riqueza de informações par além do livro didático que você consegue dar acesso, para não ficar preso só nele. Tudo depende da forma como os materiais serão utilizados, essa que é a verdade” (ESPECIALISTA 4).

Diniz e Darido (2012, p. 178) também consideram o livro didático enquanto uma ferramenta, defendendo-o como um ―recurso que possa complementar o espaço de ensino- aprendizagem de maneira construtiva e enriquecedora, que estimule a criatividade dos alunos e principalmente garanta a autonomia do professor‖.

Embora tenha considerado a importância das formas como os professores utilizarão e se apropriarão desses materiais, o especialista 3 acrescentou que os limites em termos de

utilização dos livros didáticos devem ser estabelecidos pelo próprio professor. De acordo com ele:

“O limite quem vai botar vai ser o próprio professor! Eu acho que não tem limite em termos de educação, em termos de recurso que você pode buscar. Se sair um livro diferente você vai dar uma olhada nele, se servir para a sua realidade, se não servir você pode adaptar ou descartar e tudo. Sou favorável ao uso de livros didáticos sim, como recurso não como cabresto ou como bíblia, mas assim como alguma coisa que venha enriquecer é sempre válido” (ESPECIALISTA 3).

A especialista 5 também considerou que a utilização dos livros didáticos enquanto uma ―muleta‖ não é positiva ao professor. Para ela “O livro didático é muito positivo, na

medida em que ele auxilia em um conjunto básico de conteúdos e referencial que o professor tem, e aí ele vai ser ou uma “muleta” ou um instrumento pedagógico a mais, dependendo da sua capacitação, da sua formação. A escrita cada um interpreta de uma forma”

(ESPECIALISTA 5).

Como afirma Darido et al. (2010), o livro didático, como um dos materiais possíveis, pode auxiliar os professores na prática pedagógica, pois pode servir como referencial e pode ser transformado pelo docente de acordo com a realidade na qual atua e as necessidades dos alunos. Todavia, os autores reconhecem que ―esses materiais podem facilmente transformar- se em receituários desconectados do contexto do aluno, com caráter prescritivo‖ (DARIDO, et al., 2010, p. 455). Tudo depende da forma como eles serão construídos e utilizados pelos professores. É por isso que Gimeno Sacristán (2000) assume que são os usos que determinam o impacto do processo de apropriação desses materiais no currículo.

Para Gimeno Sacristán (2000), são várias as funções que os livros didáticos adquirem no processo de ensino e aprendizagem da educação escolar, sendo que seus usos são determinantes para o reconhecimento efetivo deles enquanto meios interventores do currículo. Sendo assim, estes materiais, podem assinalar o que deve ser apreendido, enfatizar determinados aspectos dos conteúdos, sugerir exercícios e atividades para os alunos, assinalar critérios de avaliação, entre outros.

Considera-se que os usos dos livros didáticos são determinantes para a compreensão de seus papéis durante os processos de ensino e aprendizagem, não substituindo a figura do professor, mas podendo auxiliá-lo durante sua prática pedagógica.

Nessa mesma perspectiva, A especialista 5 ponderou que a formação é fundamental para o estabelecimento da criticidade que contribui para a melhor forma de utilização dos livros didáticos, ressaltando ainda, mais uma vez, a importância das formas de utilização desses materiais e exemplificando que o livro não necessariamente busca uma

homogeneização – ou pasteurização – do ensino e sim considerar as regionalidades, mesmo com relação à conteúdos que podem ser compreendidos com sendo de caráter universal.

“O professor tem que ser bem formado para ter essa criticidade de não pegar o livro didático e usar como receita, porque aí ele é ruim. O livro didático como receita não é positivo! Porque não existe receita, porque as pessoas são diferentes e os contextos mudam. Se a gente for falar do livro didático em São Paulo e no Maranhão são contextos totalmente diferentes. Ele [o professor] pode abordar o mesmo material de maneiras muito distintas. O olhar do professor é regional, é local, mesmo com um conteúdo universal, como as lutas ou o basquetebol. A realidade de todos os locais ninguém dá conta de conhecer, todo escritor parte da sua realidade. Depende do professor e não do material, aí a gente volta para a formação” (ESPECIALISTA 5).

Gimeno Sacristán (2000) indica que o livro didático deve trazer tópicos que abranjam informações diversas, abordando temas de diferentes pontos de vista, contextualizando e desenvolvendo o conjunto de conhecimentos assinalados, exemplificando conceitos que são abordados no material e ilustrando-os graficamente. No entanto, o autor reconhece que essas questões são, por diversas vezes, deixadas de lado, uma vez que encarecem o produto final, o que torna o material desinteressante para o mercado editorial.

É importante considerar, como aponta Martins (2006, p. 126-127), que ―o texto do livro didático é organizado a partir de uma diversidade de linguagens, a saber, verbal (texto escrito), matemática (equações, gráficos, notações), imagética (desenhos, fotografias, mapas, diagramas)‖. Ou seja, cada um destes elementos representa maneiras diferentes para lidar com as demandas comunicativas latentes na produção de linguagens que devem ser contextualizadas na escola, durante as aulas.

Especificamente no que corresponde à Educação Física escolar, Diniz e Darido (2012) elencam uma série de possibilidades que permitem aos livros didáticos não fugirem das especificidades desse componente curricular. Para as autoras:

O livro precisa manter a conexão com a Educação Física, para que a especificidade da disciplina não seja perdida, bem como apontar ao professor as possibilidades para a formação do cidadão crítico. Logo, as atividades práticas precisariam atender as necessidades da faixa etária a qual o livro se destina, e, a partir disso o professor teria a liberdade para adaptá-las ao contexto e características específicas de seus alunos. O próprio livro pode fornecer algumas sugestões no que se refere à adaptação das tarefas propostas, proporcionando ao professor um leque maior de atividades (DINIZ; DARIDO, 2012, p. 180).

Considera-se que os livros didáticos são ferramentas possíveis que podem contribuir em grande parte com a ação docente do componente curricular obrigatório Educação Física, desde que utilizados de maneira crítica e criativa por todos os ―atores‖ da ação educativa.

Muitos são os condicionantes da prática pedagógica, sendo que os livros didáticos são apenas um elemento dentro do todo que compõem o currículo escolar, gerando impactos muitos vezes difíceis de serem mensuradas apenas pela ótica quantitativa. É preciso

considerar, prioritariamente, que a educação não é uma ação social ―pronta e acabada‖ e, por isso, exige reflexões constantes, bem como estudos e análises que não cessem em buscar saltos qualitativos aos processos de ensino e aprendizagem de todos os componentes curriculares, dentre eles, a Educação Física.

Os apontamentos assinalados pelos especialistas foram fundamentais para posteriormente serem discutidos com os professores ao longo dos encontros referentes ao processo de construção do material por meio da pesquisa-ação, pois possibilitou subsídios que contribuíram, sobremaneira, com a elaboração do material.